segunda-feira, dezembro 06, 2010

Kiev, cidade vibrante

 A capital da Ucrânia já foi uma cidade soviética modelo. No centro urbano abundavam conservadoríssimos e monumentais edifícios públicos, todos restaurados após a IIª Guerra Mundial. Ali havia também edifícios novos, no chamado estilo estalinista, muito neoclássico, em pedra rendilhada. Mas também eram tipicamente estalinistas alguns modernaços edifícios de vidro e aço, no pior gosto dos anos 70, condizentes com outros frutos da época, como os colarinhos compridos, as longas bigodaças ou as calças de boca-de-sino. Portanto, o centro de Kiev era feio, nessa época.
 Depois, na periferia havia bairros gigantescos, com incontáveis prédios onde vivia o proletariado urbano: edifícios muito pouco engraçados e de má construção, todos iguais (para serem igualitários, claro) em bairros todos iguais, a quilómetros uns dos outros e a ainda mais quilómetros do centro. Tudo, em obediência ao planeamento.
 Hoje em dia, a par destas velhas realidades, surgem edifícios de escritórios e centros comerciais, de vidro e aço, decorados com coloridos néones que por todo o lado marcam as longas noites. As outrora amplas avenidas de majestáticos edifícios estalinistas tornaram-se pequenas para escoarem o trânsito de um dos parques automóveis mais luxuosos da Europa. Na rua, onde antes havia medo e discreto cinzentismo, há agora gente elegante e bem vestida, orgulhosa da sua liberdade, que exerce exuberantemente.
 Iguais, permanecem os imensos parques arborizados de Kiev, talvez o mais importante legado do período soviético dos comunistas à cidade. Sobretudo ao longo do rio Dnipro (Dnieper em russo), estende-se um dos maiores parques urbanos que o viajante conhece, se não o maior. Fica entre o mosteiro de São Miguel, no coração da cidade e o mosteiro de Pechersk-Lavra. Ao longo dele sucedem-se monumentos, memoriais, pracetas (incluindo a do Parlamento Nacional – o Verkhovna Rada) e, sobretudo, muitos quiosques onde se vendem bebidas e comida ligeira. Calhou ter o viajante passado por aqui em dia de bom tempo e surpreendeu-o a enorme quantidade de pessoas que passeavam ou apenas descansavam.
 Noutra perspectiva, Kiev é a cidade das máfias, com ligações a oligarcas do antigo regime. Esta gente circula pelo trânsito em automóveis de luxo, conduzidos por guarda-costas privados e espalham o seu controlo por todo o tecido social. Apesar disso, diz-se que apenas 60% dos juízes são corruptos, o que é um bom score, se comparado com os 80% dos restantes funcionários públicos ou com os 90% dos professores, que exigem subornos para dar notas altas. Diz-se, claro, mas não se sabe ao certo…
Portanto, Kiev reinventa-se sobre a herança do passado e não será por acaso que tantos ucranianos abandonam o país, até para Portugal, em busca de uma vida mais tranquila.
Mas também se reinventa procurando as suas raízes na antiga Ucrânia, profundamente cristã e ortodoxa. Será talvez por isso que Kiev é hoje a cidade das igrejas e dos mosteiros. Foi aqui que o viajante encontrou dos mais impressionantes templos ortodoxos que se conhecem. Neste vertente, a visita Kiev vale a pena pelo conjunto do mosteiro de São Miguel, pelo lindíssimo conjunto da igreja de Santa Sofia, no cento histórico da cidade e, sobretudo, pelo mosteiro de Pechersk-Lavra.

segunda-feira, outubro 25, 2010

Patagónia, Argentina

Voando da Patagónia para Buenos Aires, durante a noite,  o viajante recordouSaint-Exupéry, que em Voo Nocturno descrevia os medos e apreensões daqueles que, em 1931, data da publicação daquele livro, cruzavam pelo ar o deserto da Patagónia, na escuridão.
Tal como o principezinho, viu o viajante, de longe em longe, muito de longe em longe, um ou outro pontinho de luz a quebrar a noite. Claro que em 2010, a viagem faz-se confortavelmente, sentado num moderno voo comercial, pilotado por profissionais e monitorizado por atentíssimos computadores.
Mas ainda agora, "após cem quilómetros de charnecas mais despovoadas do que o mar, se cruzava com uma herdade perdida”. Assim é boa parte do percurso, de dois mil quilómetros, do Estreito de Magalhães até Buenos Aires.


A Patagónia impressionou o viajante pela permanente cor castanha carregada do deserto estéril. Ainda no relato de Saint-Exupéry, campos “luminosos, duma luminosidade perene: naquela região, os campos não cessam de espalhar o seu ouro, assim como no inverno não findam a sua apoteose de neve”. Além da cor quente, encontrou o viajante vento fortíssimo e persistente. Este vento dificulta o crescimento de árvores e plantas. Árvores, só as há nas raras povoações e foram plantadas por mão humana. Outras plantas, são todas elas muito baixas e até rastejantes, sem grandes ramos nem folhagens, para sobreviver à ventania: são em geral arbustos de muito pequeno porte, espinhosos e de folhas duras. A Patagónia é deserta e não chove quase nunca, apesar de a região contar com inúmeros lagos de águas muito azuis, vindas dos glaciares dos Andes. No fundo, esta é uma terra desgraçada, onde a vida é penosa e a sobrevivência muito difícil.
É difícil perceber a atracção que este pedaço de terra exerce sobre viajantes de todos os quadrantes, tal como exerceu no passado sobre pioneiros e aventureiros. A sua costa é recortada e inóspita. Talvez por isso – e por ter pouquíssima população -, ainda vivem nesta costa muitos leões-marinhos que, de vez em quando, servem de almoço a orcas. Assim é, em particular, na Península Valdez, aliás o único lugar do mundo onde foram vistas orcas a atacar leões-marinhos nas praias, para se alimentarem.

O primeiro europeu a chegar a esta terra foi Fernão de Magalhães, em 1520, mas esta vastíssimo território continuou por explorar até ao século XIX, altura em que a Argentina independente levou a cabo, simultaneamente, uma campanha de povoamento do interior e uma guerra contra os indígenas Mapuches e Tehuelche (estes últimos foram mesmo inteiramente exterminados).

Calhou o viajante parar em El Calafate, uma terra com menos de um século, construída nas margens do Lago Argentino, o maior do país. Mas não foi o lago que fez aqui ocorrer povoadores: antes foi a proximidade do Parque Nacional dos Glaciares, onde se integra o mundialmente famoso Glaciar Perito Moreno. Mesmo sendo primavera, encontrou o viajante uma terra ainda com neve e baixas temperaturas, embora durante o dia e com sol aberto tivesse registado 15 graus. Nada, claro, que se comparasse com as nevadas e as noites geladas do inverno, altura em que chegam a atingir-se 20 graus abaixo de zero! E, anote-se, El Calafate é considerada, no contexto do grande sul, uma estância com temperaturas moderadas! O pior, na primavera e no verão, é mesmo o vento, vindo da cordilheira, em regra gelado, mas sempre muito forte.

domingo, outubro 24, 2010

Teotihuican, México


Das aulas de história, na escola secundária, não recorda o viajante qualquer referência às civilizações centro-americanas anteriores à chegada de Cristóvão Colombo à América. Sentiu pois alguma dificuldade em localizar a cultura olmeca, que terá surgido um milénio antes do início da era de Cristo (e se desenvolveu na actual zona de Tabasco e de Vera Cruz, nas costas do golfo do México). Ou a cultura azteca, que ocupou o mesmo espaço daquela, um milénio depois. Ou ainda a civilização maia, que surgiu na península do Iucatão e na Guatemala, na segunda parte do primeiro milénio da nossa era. Custou-lhe algo distinguir e individualizar estas civilizações e etnias, que foram tão diferentes entre elas como o terão sido na Europa a fenícia, da grega ou esta da romana.

Porém, mesmo depois de assimilar todas estas nuances, ainda sentiu perplexidade ao procurar saber o contexto em que surgiu e se desenvolveu a cidade de Teotihuican, que ficou a 45 quilómetros da actual cidade do México. Aliás, a origem da cidade é pouco ou nada conhecida. Terá surgido pelo menos um século antes de Cristo e chegou a atingir os 200 mil habitantes, tendo nessa época palácios, pirâmides e templos. Mas sem se saber porquê, colapsou lá para o século VIII depois de Cristo, altura em que chegaram a estas terras os aztecas.
O nome originário da cidade é também desconhecido, já que aquele que se conhece lhe foi dado pelos aztecas e quererá dizer “lugar onde os deuses são feitos”, por julgarem que foi aqui que os deuses criaram o universo. É talvez isso que explica que os dois mais importantes edifícios da cidade, tal como ela subsiste, sejam as pirâmides do Sol e da Lua. Nas civilizações do México central, ao contrário do que acontecia com a egípcia, as pirâmides não tinham funções tumulares, sendo apenas templos nomeadamente destinados a ritos sacrificiais.
A pirâmide do Sol impressionou o viajante, pela sua gigantesca dimensão. Diz-se ser a terceira maior pirâmide do mundo (sendo a maior a de Quéops, no Egipto e a segunda maior a de Cholula, próximo de Puebla, igualmente no México Central).
A sua base tem 220 metros e atinge 62 metros de altura (o que equivale a um prédio de 22 andares). Na sua construção foram usados três milhões de toneladas de pedras empilhadas, sem uso de ferramentas metálicas ou animais de carga, que por aqui, na época, não se conheciam, sendo certo que também ainda não tinha chegado aqui a invenção da roda.
Subiu o viajante ao topo, não sem algum esforço, mas valeu a pena. Após 248 degraus, chegou à antiga plataforma onde ficava o templo. Daqui avista-se todo o conjunto das ruínas da cidade: a pirâmide da Lua, a norte e o antigo palácio de Quetzalcoatl (que quer dizer, literalmente, serpente emplumada). A uni-los, a calçada dos mortos, ladeada de templos e de palácios, nalguns dos quais ainda é possível ver frescos.
Quanto ao Palácio de Quetzalcoatl, o seu recinto é igualmente visitável e a visita vale a pena, porque ainda se podem ver, numa das suas fachadas, enormes esculturas, em particular de cabeças de serpentes e de jaguares. Este palácio é identificado como sendo a residência do mais importante sacerdote da cidade.

A entrada no recinto das ruínas é paga e a visita supõe andar bastante a pé. Da cidade do México pode vir-se de autocarro. Ou então, com mais conforto, em visitas organizadas (poderão custar 30 €) ou ainda, em alternativa, individualmente, de táxi, que esperará que se faça a visita (poderá custar 100 €).

sábado, setembro 25, 2010

Castelo de Santo Estêvão, Chaves

A aldeia de Santo Estêvão, localizada na veiga do rio Tâmega, dista cinco quilómetros de Chaves, sede do concelho do qual faz parte. Grande e populosa, é atravessada por uma estrada municipal, que ligas às estradas nacionais de Bragança (a EN 103) e da fronteira espanhola (a EN 103-5). Na parte mais elevada da povoação, contornado pela estrada, abre-se um terreiro inclinado no topo do qual fica uma esbelta torre.
Esta torre de pedra é o que resta da fortificação medieval de Santo Estêvão. Sólida e airosa, é tipicamente medieval, encimada por ameias e decorada com seteiras.
Pensa-se que foi construída no tempo do rei D. Sancho I, mas as características do edifício levam a concluir que sofreu obras no tempo de D. Dinis. Supõe-se que aqui se refugiou a população da vizinha vila de Chaves durante a ocupação muçulmana, sendo por isso aqui que se reorganizou o município flaviense depois da reconquista.

A torre é granítica, tendo adquirido a cor acastanhada dos velhos edifícios de pedra. Não tem o habitual aspecto inóspito e agressivo dos castelos, antes se aparentando muito urbana e civilizada, com muitas aberturas para o exterior. Tem quatro pisos, todos eles acessíveis. Anota-se a curiosidade das seteiras, boa parte das quais geminadas. É possível visitar o interior da torre, pedido que a mesma seja aberta. Tem a chave uma zeladora, que vive próximo.

domingo, agosto 29, 2010

Museu Miró, Barcelona

O Museu e Fundação Miró são referidos pelos guias turísticos como uma das mais interessantes visitas que actualmente se podem fazer em Barcelona. É bem certo, desde logo porque Joan Miró é catalogado com um dos mais emblemáticos artistas espanhóis de sempre. Não ficou o viajante desiludido com a visita, mesmo tendo que esperar para ultrapassar uma boa fila, nas bilheteiras, talvez mais razoável do que a que haverá quando chegam à Catalunha as habituais hordas de turistas dos meses de verão.
O edifício, discreto na paisagem, revela-se amigável e muito adequado à função. É profusamente inundado pela luz do sol e está cheio de recantos muito agradáveis. Recorda o viajante o pátio onde fica a esplanada do bar. Embora seja interior e fechado, é muito airoso e arborizado.
A colecção do museu, que requer gosto pelo estilo, claro está, é muito interessante. Comporta evidentemente, sobretudo, peças de Joan Miró. Impressionou verdadeiramente o viajante um célebre mural em tapeçaria, feito de propósito para a Fundação. Tem que ser visto a partir de dois andares diferente. Ficou ainda o viajante com memória da discreta pintura “Maio de 68”.

Aquilo que normalmente mais cativa na obra de Miró é a cor, de uma frescura viva e magnética. Mas também a desconcertante irregularidade das formas.
Noutras zonas da cidade de Barcelona é igualmente possível ver obras de Miró. Deu o viajante sobretudo conta do célebre mural em azulejos, que reveste a parede exterior do aeroporto do Prat, e ainda do falo que ocupa o centro da praça que ladeia o Carrer de Tarragona.

A Fundação Miró fica em Barcelona, no Parc de Montjuic. Está aberta de terça-feira a sábado, das 10 às 19 horas (no verão, até às 20 horas e aos domingos apenas até às 14 horas e 30 minutos). A entrada, para adultos, custa 8,5 €, mas há várias tarifas reduzidas disponíveis.


sexta-feira, agosto 27, 2010

O Egipto e os egípcios

Do Egipto tinha o viajante a imagem, das aulas de História, de um país de agricultores que viviam nas margens do Nilo, criando riqueza para que o faraó pudesse mandar construir templos e pirâmides onde vinha a ser venerado e sepultado. Verificou que ainda actualmente se trata de um país de agricultores, mas que uma boa parte destes, no decurso do século XX, descobriu a vida urbana e migrou, sobretudo para o Cairo, que se tornou uma megalópole, poluída e caótica, com perto de vinte milhões de habitantes.
Apesar disso, o riquíssimo vale do Nilo continua a ser cultivado, tal como o era há 50 séculos. Esta estreita faixa de terra das margens do grande rio, onde chegam as cheias que tornam a terra fértil (ou chegavam, já que actualmente o caudal está regularizado, precisamente para evitar cheias) é a única zona cultivável do país – todo o restante território é absolutamente desértico.

Os egípcios são muito conservadores. Teve o viajante oportunidade de observar como, num determinado serviço público, no Cairo, todos os funcionários eram homens. Apenas havia por ali meia dúzia de senhoras, com tarefas de secretariado e de relações públicas com o estrangeiro (porque falavam línguas estrangeiras…) e todas elas, sem excepção, usavam roupa larga (de modo a disfarçar-lhes as formas do corpo) e lenço na cabeça (o célebre hijáb). Talvez fosse, pensou o viajante, por causa dos ensinamentos oficiais que se aprendem nas madraças (o texto que segue pode ser consultado em http://ptislam.webnode.com, uma espécie de página não oficial da Comunidade Islâmica em Portugal) “é necessário que as mulheres se cubram, baixem os olhares e guardem a modéstia na sua interacção com os homens com os quais elas não tenham parentesco, de acordo com as normas islâmicas. A vestimenta da mulher deve cobrir todo o corpo, excepto a face, as mãos (palmas e dedos) e os pés. O cabelo não deve ser exposto, pois o Islão considera-o metade da beleza da mulher. (…). Se colocarmos carne fresca à disposição, sem qualquer cobertura, e os cães comerem-na, a culpa será dos animais ou da carne destapada? É óbvio que o problema estará na carne destapada, pois se a mesma estivesse constantemente tapada, nada disso teria acontecido. Da mesma forma, se a mulher cobrir convenientemente o seu corpo, assim como ditam as regras do Hijáb, e demonstrar a sua modéstia, muitos desastres e imoralidades poderão ser evitados”.
Embora o Egipto seja habitualmente considerado um país islâmico moderado e moderno, o Islão é, segundo a Constituição, a religião oficial do Estado – apesar de 10 por cento da população ser cristã copta. O Cairo é uma das tradicionais cidades das Mil e Uma Noites e é na cidade que fica a escola corânica da Mesquita de Al-Azhar, a mais antiga madraça de todas, criada em 970 d.C.. Al-Azhar é também a mais antiga universidade do mundo, sendo igualmente a mais respeitada pelos muçulmanos sunitas de todo o mundo.
Recordou o viajante por estas terras que Maomé, o Profeta da revelação islâmica, teve um número não determinado de esposas. Sabe-se que na última década da sua vida terá casado com pelo menos dez. É oficial a explicação islâmica de que foi ao casar-se com a última delas que o Profeta teve a revelação pela qual um homem não deve ter mais que quatro esposas, a menos que tenha posses para sustentar todas elas e os respectivos filhos. E a este propósito recordou também o viajante aquilo que foi uma verdadeira antecipação histórica deste postulado islâmico da nossa era, que terá sido feita por Ramsés II, talvez o mais poderoso faraó da história do Egipto, que reinou durante o Império Novo e ergueu templos e obeliscos por todo o reino. Este faraó, evidentemente muito rico, teve cerca de 200 filhos…

Em geral, os egípcios são muito simpáticos com estrangeiros. E ainda mais se tiverem a expectativa de virem a ganhar dinheiro com eles. Todos falam muito alto e têm profundas convicções. Evidentemente, todos os discursos e alocuções públicas, começam com a sacramental expressão “em nome de Alá”.
Curiosamente, se por um lado não têm como hábito lavar as mãos antes ou depois das refeições, por outro nunca deixam de fazer as abluções antes das orações: lavam a cara, as mãos e os braços até aos cotovelos, passam água no cabelo e, se usarem sapatos e peúgas, passam água nestas últimas, para simbolicamente ficarem purificados. Não consegue o viajante esquecer o sentimento estranho que sentiu quando, perguntando-se porque tinham, uma boa percentagem dos homens com quem se cruzou no Cairo, marcas negras na testa, realizou que essas marcas eram o resultado de pancadas no chão, durante as orações. Os egípcios são exuberantes e, no momento actual, é bem visto deixar claro que se é muçulmano bem convicto e praticante.

quinta-feira, agosto 26, 2010

Natal, Rio Grande do Norte, Brasil

A 25 de Dezembro de 1599 fundeou na foz do rio Potengui o Capitão-Mor de Pernambuco Manuel Mascarenhas Homem e decidiu estabelecer aqui uma nova povoação. Dias depois, a 6 de Janeiro de 1600, ordenou que se começasse a construção de um fortim, que viesse a defender a foz do rio e a futura vila.
Esse forte, desde essa data conhecido como Forte dos Reis Magos, foi construído nos recifes da embocadura do rio, no local onde este encontra o mar. Para os padrões portugueses europeus, é modesto, mas está muito bem preservado e é visitável. É, talvez, o único local da cidade a merecer especial visita. Todo o demais interesse dos milhares de turistas que aqui chegam todos os anos (15% dos quais são portugueses), vai para as muitas praias, a norte e a sul da cidade, ao longo de toda a costa do Estado de Rio Grande do Norte.
Uma boa parte dos turistas escolhe a Praia da Ponta Negra, na zona sul, próxima do chamado Morro do Careca, uma imensa duna de 120 metros de altura, actualmente de acesso interdito, por razões de protecção ambiental. Aliás, a protecção das zonas dunares é muito importante em Natal. No centro da cidade, ao longo da orla costeira, foi delimitado o Parque das Dunas, uma imensa reserva de dunas e bosque, onde ainda há exemplares do quase extinto pau-brasil.
Aquilo que mais apreciou o viajante em Natal foi, porém, a tranquilidade. Nesta cidade de 800 mil habitantes há menos crimes que noutras. Não há engarrafamentos e foi justamente a tranquilidade que as autoridades potiguares (apodo que assumem como seu todos os norte-riograndenses) escolheram como seu slogan turístico. Invocam até estudos oficiais que concluem que esta cidade de sol é a capital estadual mais tranquila do Brasil. Admite o viajante que assim seja mas, apesar disso, não logrou compreender como funcionará um tranquilómetro.

segunda-feira, agosto 23, 2010

Basílica de São João de Latrão, Roma

De passagem por Roma, cumpriu o viajante uma visita que havia muito tinha em vista, à Basílica de São João de Latrão. Este templo cristão integra, conjuntamente com São Pedro, Santa Maria Maior e São Paulo Extramuros, o conjunto das quatro basílicas metropolitanas de Roma. Claro que só isso justificaria a passagem por este enormíssimo templo. Mas o objectivo era mais de detalhe, já que nesta basílica pode ver-se o mausoléu de D. Antão Martins de Chaves, que o viajante queria descobrir. E descobriu-o, logo à entrada, do lado esquerdo, na entrada para a nave lateral direito, ao lado do altar de São João Evangelista.

A entrada habitual para esta Patriarcale Arcabasilia del SS.Mo Salvatore e dei Santi Giovanni Battista ed Evangelista é feita pela fachada setentrional. Esta fachada, ao lado do Palazzo del Laterano, dá acesso lateral ao templo, entrando-se directamente na ala transversal. Do lado oposto, fica o altar do Santíssimo Sacramento. À direita de quem entra, fica a abside de topo da basílica, à esquerda, abre-se a nave principal, para lá do altar papal.

A basílica surpreende. Por fora, parece apenas uma enorme igreja, neoclássica, de inspiração renascentista, que em Roma não se destaca de tantas outras. Parece até modesta, ao lado do Palazzo del Laterano. Porém, ao entrar nela, ficou o viajante esmagado perante tanta majestade e riqueza na decoração. Perante a profusão de mármores e dourados. Enfim, perante o ambiente exuberantemente rico.

D. Antão Martins de Chaves foi um alto dignitário da Igreja Católica no século XV. Terá provavelmente nascido em Chaves, Trás-os-Montes, e veio a falecer em Roma a 11 de Julho de 1447. Foi bispo do Porto, entre 1424 e 1439 e cardeal em Roma a partir de 1440. A localização do mausoléu e as inscrições nele gravadas revelam que D. Antão foi, no seu tempo, de um notável dirigente da Igreja de Roma. Talvez um dos mais notáveis de sempre.
Da própria pedra tumular retira-se que aquele é o SEPVLCRVM DOMINI ANTONII CARDINALIS PORTVGALENSIS QVI OBIIT ROME, ou seja, o “sepulcro de Dom Antão Cardeal Português que faleceu em Roma”. No topo do altar onde se insere o túmulo, está um escudo, supostamente com as armas de D. Antão. O brasão contém cinco chaves, as mesmas que integram tradicionalmente o brasão da antiga vila medieval, agora cidade de Chaves. Como se retira também do sarcófago, CVIVS ANIMA IN PACE REQVIESCAT AMEN (que a sua alma descanse em paz, ámen).

domingo, agosto 22, 2010

Restaurante Club House da Penha Longa, Serra de Sintra

Prefere o viajante os locais modestos às tascas finas e presunçosas, que não pode pagar. Mas por vezes calha ser convidado. E para locais mais distintos. Foi o que sucedeu com a Club House da Penha Longa, sítio que supostamente deveria servir de bar e restaurante de apoio ao clube de golfe local, mas que parece que acabou por tornar-se num lugar de referência para quem cultiva o caro desporto de comer em restaurantes estrelados.

A decoração do restaurante é assumida e provocadoramente vanguardista, com grande predomínio de acrílicos e metalizados, que têm em vista criar ambiente propício para experimentalismos culinário como os que aqui se praticam.
O chef (não é o viajante habitué destes lugares, mas diz que assim tem que se referir chamar, mesmo em português, aos artistas culinários da moda) da casa, que não é residente, é Sergi Arola, o catalão consagrado em Espanha, por ser também o chef do Hotel Arts, em Barcelona e de um ou dois lugares mais, em Madrid. Ao que parece, vai abrir outro restaurante em São Paulo, a novíssima meca da culinária sofisticada.
Sergi Arola obteve já, pelas suas artes no Arts, duas estrelas do guia Michelin. Além disso, conquistou o Prémio Nacional de Gastronomia de Espanha, em 2003. Foi discípulo de Ferran Adriá do mítico El Bulli e cultiva uma imagem de excentricidade chique: anda sempre de moto, usa roupa de cabedal e um brinco na orelha. Actualmente é o autor das ementas da classe executiva da Ibéria - Linhas Aéreas de Espanha. Não conseguiu nunca o viajante voar em executiva nesta companhia de nuestros hermanos que, tantas dores de cabeça lhe tem dado, sobretudo em ligações perdidas, mas as fotografias da revista de bordo prometiam!
Da passagem no Club House da Penha Longa, reteve o viajante na memória umas sardinhinhas de escabeche, cruas claro, umas batatinhas alioli de formato diferente e um bacalhau de estalo, sobre espigas de milho.

quinta-feira, agosto 19, 2010

Ria Formosa, Algarve


Bem sabe o viajante que o Algarve não existe: existem vários algarves ou, se se preferir, férias de verão no Algarve são como o Natal, como um homem quiser. Veio esta consideração a propósito de uma passagem pela celebérrima praia do Gigi, ou da Quinta do Lago, na costa algarvia, logo a seguir ao Ancão, entre Vilamoura e a ilha de Faro. Deixou o viajante de lado o passadiço para a praia e para o restaurante e optou por um caminho de terra ao longo da ria.


Neste limite ocidental do Parque Natural da Ria Formosa, formou-se ao longo dos milénios um longo cordão dunar que separa o mar da terra. Entre este cordão dunar e terra firme permaneceu uma zona alagadiça, de sapal, que enche com a maré. Este tipo de ecossistema, que ocupa uma orla costeira de cerca de 60 km, desde a Praia da Manta Rota, a leste, até à socialissima praia do Ancão – ou do Gigi, como é conhecida pelas tias, forma o sistema lagunar da Ria Formosa, composto por todas estas lagunas separadas do mar por um comprido cordão de ilhas de areia, que se dispõem paralelamente à costa. No seu interior vive um grande número de espécies de fauna, sobretudo aves e anfíbios, porque grande parte da área do Parque Natural está permanentemente inundado ou sujeito ao efeito das marés, formando vastas zonas de sapais. É aqui que nidificam espécies de aves que migram para cá no inverno, vindas do Norte da Europa e no verão, vindas de África. É também por aqui que é ainda possível ver exemplares de camaleão, que se diz estar praticamente extinto na Europa.



Voltando à Quinta do Lago, procurou um viajante um percurso pedestre, de descoberta dos habitats da zona, delimitado, de um lado, por um campo de golfe e de outro pelo sapal. Este caminho, identificado como trilho de São Lourenço, com 3.200 metros de comprimento, faz-se em meia hora para cada lado e permite descobrir o sapal e as suas aves e caranguejos, a ria, onde se encontram por vezes apanhadores de amêijoa e berbigão, os movimentos das marés e as aves marinhas.

Mas o ponto mais interessante do percurso são as casinhas de observação de aves. Uma delas está virada para a laguna dunar delimitada pela ria e a outra está virada para o interior e as lagoas de água doce, muito alimentadas pela regra e nutrientes do campo de golfe. A casa da ria permite observar aves marinhas. Foi interessante, mas não logrou o viajante ver nada de extraordinário: garças-brancas, garças-reais, pilritos, pernilongos e alfaiates. Já do outro lado, na casa da lagoa de água doce, a avifauna é muito mais rica. Consegui o viajante ver com abundância vários tipos de patos, mergulhões-pequenos, galeirões, galinhas de água. Foi mais fugaz a passagem em voo rasante de um guarda-rios, com a sua penugem colorida azulada. Mais ao longe, entre os juncos, avistou ainda o viajante um camão (porphyrio porphyrio), ave que se diz ser muito rara e que, em todo a Europa apenas é possível de aqui.
Admite o viajante que no Outono e no Inverno, quando chegam as aves migrantes, a densidade e diversidade seja maior. Mesmo assim, nesta visita de Agosto, as espécies que foi possível identificar já valeram a visita.

O percurso começa no parque de estacionamento da praia da Quinta do Lago. Chega-se lá, a partir da Via do Infante, derivando para Almalsil e, daqui, para Vale do Lobo. Depois, para a Quinta do Lago, que é necessário atravessar toda até à praia.