quarta-feira, setembro 10, 2014

Pristina, Kosovo

 
O Kosovo não é, certamente, um destino turístico preferencial. Os viajantes que aqui passam, se vêm para visitar o país, é porque gostam, com certeza, de fugir dos trilhos habituais. Porém, apesar de não passarem por aqui muitos turistas, circulam pelo país muitos estrangeiros, das mais diversas origem: militares de todo o mundo, integrantes da força militar da ONU (os capacetes azuis da KFOR) e funcionários de agências internacionais, que aqui se instalaram para apoiar a reconstrução do Kosovo, após a guerra de 1999.

 
Os estrangeiros são agora menos do que eram em 2006, quando por aqui passou o viajante pela primeira vez. Nessa altura, sentia-se uma num país saído de um conflito militar, a limpar os escombros das bombas e à procura de ar fresco para respirar, entre a pressão das agências que administravam a ajuda internacional, omnipresentes, e as forças coercivas internacionais, igualmente omnipresentes.

 
Sentiu-se o viajante numa colónia, onde os colonos, que falavam estrangeiro e tinham muito dinheiro, criavam à população local a necessidade de responder a solicitações, ao mesmo tempo que criavam a oportunidade de negócio que essas solicitações representavam. Mais recentemente, encontrou o viajante um país maior, já emancipado. As oportunidades foram aproveitadas e já não se percebe tanta fragilidade no tecido económico do país. Pristina é uma cidade ativa, apesar do seu ar provinciano. Circulam pela cidade muitos camponeses e habitantes de pequenas cidades dos arredores, que aqui vêm vender coisas.

 
Dos escombros da guerra, os habitantes locais têm procurado reconstruir um país, copiando e cultivando o aspeto “ocidentalizado” e internacional. Assim acontece quanto à forma como se comportam e com a sua roupa, com o aspeto dos edifícios ou das lojas, que alinham pelos parâmetros globais, de coca-cola e macdonals (por sinal, o Kosovo foi daqueles poucos raros locais onde o viajante não encontrou McDonald’s – na vizinha Macedónia havia um, mas falso, contrafeito).

 
Um dos ícones mais fotografados da nova capital deste país que unilateralmente se declarou independente é um \enorme conjunto de letras, em frente do Palácio dos Desportos construído no tempo da Jugoslávia, a formar a palavra “NEWBORN”. Foram aqui colocadas aquando da independência, para celebrar o nascimento do Kosovo independente e sublinhar a sua identidade nacional, que aliás se vê reafirmada em muitos outros sítios. No entanto, é curioso que em muitas casas e pequenas oficinas ainda predomina a bandeira albanesa, como acontecia no passado.

 
Mas Pristina é também uma cidade agitada. Como em qualquer outra paragem do sul da Europa, ao fim da tarde, as ruas mais centrais enchem-se de miudagem animada que volta das escolas e de gente adulta que volta do trabalho. Na avenida Madre Teresa, que em parte é pedonal, há muitas lojas e quiosques. Sinal dos tempos, viu o viajante numa banca de livros uma compilação, em albanês, de anedotas sobre o antigo presidente e ditador Josip Tito. Percebe-se que, em geral, quem anda pelas ruas está muito preocupado com o seu aspeto. Mas respira-se ambiente de bairro de subúrbio, sem sofisticação. Abundam os automóveis alterados, de escapes ruidosos e pinturas originais, circulando com a música muito alta.

 
A capital do Kosovo, com os seus 200 mil habitantes, não é propriamente uma cidade turística: tem duas ou três referências nos guias: algumas mesquitas antigas, uma ou duas igrejas ortodoxas (estava em construção uma nova catedral católica), um pequeno museu sobre a história local e dois ou três edifícios do tempo do regime jugoslavo socialista (em particular o estranho edifício de cobertura de redes metálicas da Biblioteca da Universidade). É daqueles sítios que não se visitaria se não houvesse uma outra razão, que não a visita à cidade, para o fazer. Além disso, fica fora de mão e é servida por muito poucas companhias de aviação.


quarta-feira, agosto 13, 2014

Liubliana, Eslovénia

Chegou o viajante a Liubliana com uma grande expetativa, criada pelas múltiplas chamadas de atenção que os media têm feitos para esta cidade dos Alpes do sul, a caminho do Adriático. Não é que tenha regressado desapontado, mas também não trouxe da pequena capital eslovena a excitação que encontrou noutros lugares.
Esta novel capital é, talvez, em todo o caso, a mais bonita de todas as que emergiram no universo da antiga Jugoslávia – Belgrado será um caso à parte. É uma cidade aconchegada, percorrível a pé, com uma zona antiga, de raiz medieval, separada pelo pequeno rio Ljubljanica da zona mais moderna de traça urbana germânica.
A capital da Eslovénia é uma cidade pequena e caseira, com a qual rapidamente nos sentimos familiares. Aterrou o viajante no aeroporto da capital, encaixado no verde e branco das montanhas calcárias, a fazer lembrar os aeródromos dos livros do Tintim. Não tinha plano de transfer para a cidade e já era noite. Mesmo sendo fim-de-semana, não foi difícil arranjar boleia num dos autocarritos que fazem o percurso de cerca de meia hora. O que não sabia nessa altura, era que estes minibuses fazem o percurso a pedido, pelas casas de quem faz reserva: até chegar ao hotel teve o viajante oportunidade de visitar vários bairros periféricos da cidade.
Quanto a visitas, os guias acabam por ser redundantes: há muito que ver, mas há sobretudo dois locais imprescindíveis: o castelo e a Praça Preseren.
O castelo de Liubliana fica num morro sobranceiro à cidade. Sobe-se bem a pé, por caminhos florestados. Ou então, pelo funicular moderno, envidraçado, que parte da base, em plena zona histórica (próximo da Praça Vodnikov). O funicular é a melhor opção para subir: galgam-se os 70 metros de pendente em escassos minutos; a melhor opção para descer é vir a pé (pode levar 15 a 20 minutos), por entre veredas verdes.
Lá em cima, além da fortaleza, ela mesma, e das lojas e restaurantes, vale a pena a vista, sobre a cidade.
Porém, mais que do castelo, gostou o viajante de deambular pelas ruas de calçada antiga, na base do morro da fortaleza, naquela que será, porventura, a zona mais antiga da cidade. Nestas ruas e praças, casas com mais que dois séculos alojam restaurantes e lojas gourmets, lojas alternativas ou de design, que se enquadram no ambiente. Deste conjunto fazem parte três ruas, embora com nome oficial de praças: a Mestni, a Ciril – Metodov e a Vodnikov. Por sua vez, a rua Stritarjeva desemboca na Praça Preseren (que tem o nome do mais renomeado poeta nacional France Prešeren). É aqui que fica a conhecida ponte tripla, o coração da cidade, para onde tudo flui e donde tudo parte. A praça é marcada por um dos ícones fotográficos de Liubliana: a fachada cor de salmão da Igreja da Anunciação, mas também por outros diversos edifícios do século XIX. O ambiente, por sua vez, é animado pelos muitos bares e restaurantes, sobretudo aqueles que se estendem ao longo do rio Ljubljanica.
Liubliana é uma cidade interessante que, embora capital, tem ambiente provinciano, mas claramente aberto para a modernidade.