quarta-feira, maio 28, 2008

Sarajevo, (ainda) cidade ferida

Teve o viajante dificuldade em recuperar da sua memória uma cidade com um percurso tão difícil como o de Sarajevo. Desde a antiguidade, a zona da capital da Bósnia foi zona de conflitos: por aqui passou a fronteira que dividiu os impérios romanos do Oriente e do Ocidente. Este detalhe veio a definir, quando o Império do Oriente foi ocupado pelos turcos, o limite máximo da expansão do islamismo na Europa. Esta expansão foi, talvez, a maior marca de fricção que a história deixou para as gerações modernas. Ainda hoje passa por aqui o conflito religioso mais aceso da Europa.
Mais tarde, após a passagem por aqui dos turcos, em 1908 o império austro-húngaro ocupou a Bósnia-Herzegovina. Pouco depois, em 28 de Junho de 1914, um bósnio de etnia sérvia, de Sarajevo, assassinou, a tiro, o Arquiduque Francisco Fernando, herdeiro dos Haugsburgos, imperadores austríacos. Este foi o motivo imediato invocado pela Áustria para declarar guerra á Sérvia e, com isto, despoletar a Grande Guerra, mais tarde conhecida por Iª Guerra Mundial. Desde esse tiro, na entrada para a rude Ponte Latina, nas margens do rio Miljacka, não mais a Bósnia teve paz e liberdade, em simultâneo, até á fase de tranquila tensa que vive hoje.

O território passou a ser uma das repúblicas da federação da Jugoslávia, após a II Guerra Mundial. Quando a Jugoslávia se desmantelou, no início da década de 1990, houve por aqui eleições livres – as primeiras – em Novembro de 1990. Logo então a parte sérvia da população se manifestou contra as partes croata e muçulmana (estas últimas queriam que o país se tornasse independente, como uma nação multiétnica). A independência foi declarada em 15 de Outubro de 1991. Apesar disso, o partido sérvio decidiu formar o seu próprio governo em Pale, a 20km de Sarajevo. Mais tarde, transferiu-se para Banja Luka, onde ainda agora funciona a governo da República Sérvia, uma das duas entidades que compõe a moderna Federação da Bósnia-Herzegovina (a outra é o Distrito Bósnio).

Duas marcas reteve o viajante da sua chegada a Sarajevo. Uma, muito intensa, ficou logo na chegada ao hotel. Abrindo a porta da varanda, foi surpreendido pelos orifícios de dois balásios, que atravessaram o gradeamento. Mais tarde, percorrendo a cidade, viu o viajante muitos outros vestígios dramáticos de guerra urbana. Chamaram-lhe particularmente a atenção os buracos de balas na torre da velha igreja ortodoxa. A outra marca foi a da omnipresença que sentiu de templos e sinais religiosos. Em cada esquina se encontra uma igreja católica, ou uma igreja ortodoxa, ou até mesmo uma sinagoga. Em todo o lado se avistam as torres esguias e elegantes das mesquitas, aqui construídas “à turca”. As religiões, marcas distintivas e agregadora de cada uma das comunidades locais, parecem ter sido ao longo da história desviadas para motivo de conflito entre essas comunidades. Mas este tema fica para outro registo.

quinta-feira, maio 22, 2008

Estes romanos são loucos!


Deve haver poucos que conheçam tão bem os “romanos” como Asterix e Obelix. E se eles diziam que os romanos são loucos, lá saberiam porquê.
Os romanos, comummente identificados com a generalidade dos italianos, são gente à parte. Sabem que na sua língua “romano” significa habitante da capital e não gostam de ser confundidos com os seus restantes compatriotas. Recordam-se do tempo em que eram donos da Europa e do Mediterrâneo e desdenham dos povos que então ocuparam. E dos restantes, que consideram bárbaros, ainda mais.
Em regra, os romanos são exuberantes, mas secos. Transbordam de orgulho. Talvez por isso tenha sido impossível ao viajante, nas suas três ou quatro visitas nos últimos 20 anos, encontrar um romano simpático, naqueles que o atenderam no hotel, ou nos cafés, ou nos restaurantes, ou em qualquer outro lado.

Depois, há a desorganização. Nada é como previsto e a previsão é apenas uma hipotética suposição. É normal ver motoristas de autocarro a falar ao telemóvel enquanto conduzem, ou ver automobilistas a violarem flagrantemente as regras de trânsito.
Apesar disso, em público todos gostam de fazer boa figura. A imagem conta muito para os romanos. Mesmo a bordo de uma Vespa, espere-se desta gente estilo e sofisticação.Se é certo que em Roma há mais turistas que romanos, não é menos certo que é este detalhe que torna a cidade menos antipática.

domingo, maio 04, 2008

Sveti Stefan, Montenegro

Bem sabe o viajante que as máfias internacionais – em particular a russa –, têm escolhido a nova e independente República de Montenegro, para lavar o seu dinheiro sujo. Bem sabe também o viajante que o negócio imobiliário e hoteleiro é dos melhores para quem tem propósitos desta natureza. Consabidamente, Montenegro é desde o tempo da monarquia (de ambos os países) um tradicional aliado da Rússia. Conta-se até a anedota de alguém que pretendia que um cidadão local lhe dissesse, afinal, quantos montenegrinos havia. A resposta terá sido uma pergunta: “com russos ou sem russos”?
Nada disto tem que ver com Sveti Stefan (traduzido em português por Santo Estêvão), uma pequena ilha na costa adriática de Montenegro, que ainda há meia dúzia de décadas era uma aldeia piscatória. Durante o “titismo”, ainda no tempo da antiga Jugoslávia, todas as casas foram expropriadas e reconstruídas, para dar origem a um hotel de luxo. Portanto, toda a ilha é hotel. Dizem os guias que entretanto se degradou e o serviço não corresponde ao estatuto que deveria ter, razão pela qual o governo montenegrino decidiu conceder a exploração do local a um novo concessionário, ligado a um grupo económico asiático.
A ilha-hotel de Sveti Stefan (www.budvanska-rivijera.co.yu) fica cinco quilómetros a sul de Budva, próxima da estrada costeira que liga esta cidade a Bar. O acesso à ilha, em tempos apenas possível na maré baixa, está agora cimentado e regularizado. Não se sendo hóspede do hotel, o acesso à ilha é pago (7€). O alojamento no hotel custará entre 100 e 300 € por noite.

domingo, abril 20, 2008

Catedral de Estrasburgo, França

Estrasburgo é uma cidade emblemática da nova Europa, da paz e da democracia. Já foi francesa, depois alemã e de novo francesa. Agora é uma cidade da Europa dos povos. Na cidade cruzam-se as religiões e os respectivos templos, num bom exemplo de coabitação religiosa. A maior comunidade é a católica, logo seguida da protestante. A judaica é a terceira comunidade religiosa. Os novos ventos da emigração trouxeram também para aqui grandes núcleos de muçulmanos.Não obstante, a catedral católica, de Notre-Dame de Estrasburgo, é uma referência destacada e necessária no horizonte desta cidade de edifícios baixos. Vê-se de toda a cidade, com a sua flecha pontiaguda dirigida a o céu.

Teve origem numa anterior igreja românica, da qual subsistem a cripta e a abside do coro. O que hoje existe foi construído entre 1277 e 1439, em estilo gótico francês puro. A nave principal é majestosa, com 32 metros de altura. Notou o viajante os maravilhosos vitrais coloridos. E notou também uma das grandes atracções para os turistas que visitam a catedral: o relógio astronómico da catedral, construído entre 1838 e 1842, no lugar um outro do século XVI. Esta fantástica máquina, além de medir o tempo, calcula ainda as festas móveis e os eclipses da lua e do sol. Uma das grandes curiosidades do relógio é o desfile de autómatos que assinala todos os quartos de hora, meias horas e horas – ao meio-dia e meia o desfile é dos doze apóstolos, que passam em frente de Cristo, que os benze.

Porém, aquilo que mais impressionou o viajante foi a subida à torre da catedral. Para se chegar à plataforma superior, na base da única agulha, teve o esfalfado viajante que montar 326 degraus - algo como um edifício de vinte e tantos andares. Mas valeu a pena: lá no cimo, domina-se toda a cidade. Vê-se a cidade medieval e as casas de “colombage”, que parecem formar um imenso presépio urbano. Ao lado, vê-se a “petite france”, com os seus canais. Do lado oposto, vêm-se as germânicas praças magestáticas do século XVIII, a leste da cidade e, ao fundo, avistam-se os novos edifícios das instituições europeias, no “quartier européen”.

A entrada na catedral é gratuita. O acesso à torre custa 4,6 €. O edifício está aberto das 9 às 19 horas (mais cedo no Inverno). Mais informações, aqui.

terça-feira, abril 15, 2008

Castelo de Aguiar, Trás-os-Montes

Com o desenvolvimento das vilas e das cidades, no fim da Idade Média, os castelos roqueiros, outrora poderosos pelo controlo territorial que asseguravam, perderam importância. Foram sendo todos abandonados. Foi isso que aconteceu ao castelo de Aguiar, implantado numa mole caótica de granito, sobranceira ao vale de Aguiar. Actualmente, restam apenas ruínas do que parece ter sido uma alcáçova fortificadíssima e inexpugnável.
Diz-se ter sido um castro, talvez romanizado. Não longe daqui os romanos estabeleceram-se e exploraram as minas de ouro de Jales. Depois, quando os leoneses reconquistaram esta zona, o castelo terá sido construído sobre as ruínas do castro. Foi propriedade da casa real, até que D. João I o doou a um tal D.João Beça, que com ele combateu em Aljubarrota. Este último vem referenciado na qualidade de morgado do lugar por Aquilino Ribeiro, em “A Casa Grande de Romarigães”.
O castelo de Aguiar está localizado nos contrafortes da Serra do Alvão, junto da aldeia de Castelo, na freguesia de Telões, Vila Pouca de Aguiar. Fica 5 quilómetros a leste da Estrada Nacional 2, sempre por estrada asfaltada. A partir da A24, fica a cerca de 10 quilómetros, devendo sair-se na saída de Vila Pouca de Aguiar.
A visita ao castelo supõe deixar o carro a algumas centenas de metros e seguir por veredas estreitas e túneis naturais, formados pela vegetação e pelas rochas. Há escadas metálicas colocadas para facilitar a visita mas, mesmo assim, o acesso não é para todos. Vale a aventura e a silenciosa vista rasgada que se encontra no topo da fortificação.

quinta-feira, abril 10, 2008

As máquinas de Leonardo, Forte do Bom Sucesso, Lisboa

Às vezes, é o viajante surpreendido sem sair de casa. Foi o que aconteceu na visita à exposição “O inventor”, onde se exibem modelos de máquinas desenhadas por Leonardo da Vinci, registadas nos seus muitos cadernos de anotações.
É um conjunto de 20 mecanismos, em madeira, com funções específicas na vida quotidiana. De alguns deles – ou ao menos do seu princípio –, saíram mecanismos e utensílios usados na vida moderna.
Sobre estas linhas, elevadores de obras, em baixo, o escafandro e a máquina voadora.

É banal e pouco imaginativo dizê-lo, mas Leonardo foi um dos maiores génios de todos os tempos. Nasceu em 1452, no advento do renascimento italiano. Durante a sua vida (morreu em 1519), foi pintor, arquitecto, matemático, engenheiro. É esta última faceta que se explora nesta exposição, onde se reproduzem os seus projectos de máquinas, ferramentas, instrumentos de medição, barcos, máquinas voadoras, instrumentos musicais e outros.

Agora em Lisboa, a exposição pode visitar-se no Forte do Bom Sucesso, mesmo ao lado da Torre de Belém, em Lisboa, todos os dias, das 10 às 19 horas.
Abriu em 7 de Fevereiro e fechará a 25 de Maio de 2008. O bilhete de entrada custa 5 € (3,5€ para jovens e grupos).

sexta-feira, março 28, 2008

Mosteiro de Gracanica, Kosovo

Vivem-se dias conturbados no jovem país. As comunidades étnicas e religiosas não se entendem. As igrejas ortodoxas de Pristina foram abandonadas e depois devastadas e pilhadas. A norte, nos enclaves sérvios, as mesquitas estão policiadas e cercadas por arame farpado. As comunidades sérvias foram transferidas da capital para subúrbios rurais, onde tinham algum apoio em comunidades locais. Tudo transpira conflito, deixando os nervos à flor da pele.

O viajante não passou tranquilo pelos arrabaldes de Pristina, quando foi visitar o Mosteiro ortodoxo de Gracanica. É um tempo cristão que está no activo, servindo para culto, localizado numa comunidade sérvia a uma dúzia de quilómetros a sul da capital do Kosovo. Fez o viajante este percurso de 15 minutos em táxi, a partir de Pristina, conduzido por um albanês muçulmano, que rapidamente cobrou 5 € e retirou do local. A estrada era fraca, muito fraca, irregular e de mau piso. Junto dela, ao longo dela, muitas casas inacabadas e muitas outras de muito mau gosto. Ao chegar ao mosteiro, deparou-se o viajante com um muro, protegido do lado de fora por rolos de arame farpado. Na única porta, ao lado de uma bandeira sueca, um loiro soldado gigante com uma farda azul da KFOR, a força de paz das Nações Unidas, guardava a entrada.

O Mosteiro de Gracanica vem referido nos guias turísticos locais pela exuberância da sua decoração interior. As paredes interiores estão completamente cobertas por frescos. É um pequeno edifício de planta bizantina, em cruz de quatro braços iguais, coberto por cinco cúpulas. Terá sido construído no tempo do rei sérvio Milutin, no século XIV, altura em que terão sido também pintados os fantásticos frescos que, só por eles, valem a visita. O recinto murado é relvado e tem árvores seculares. No meio, fica o pequeno e simples edifício do mosteiro, construído em tijolos.Encontrou aqui o viajante a paz que lhe tinha sido retirada ao entrar no Kosovo.

domingo, março 23, 2008

Portugal dos Pequenitos, Coimbra

Para quem foi criança há 30 anos, o Portugal dos Pequenitos era uma referência de visita em família. Na era dos grandes atracções franchisadas por todo o globo, pelas grandes companhias de entretenimento, a popularidade deste específico local de Coimbra caiu a pique. Por curiosidade, anotou recentemente o viajante a curiosa tradução inglesa do sítio, nos guias: “Portugal for the little ones”.

Esta espécie de parque temático foi inaugurada em 1940. A iniciativa da sua realização foi do médico Bissaya Barreto e o projecto do arquitecto Cassiano Branco. No recinto estão representadas em miniatura três realidades diferentes: num primeiro ambiente, estão representados ícones das antigas colónias ultramarinas portuguesas; noutro, estão reproduzidos, em miniatura, os mais significativos monumentos históricos portugueses; na última parte, foram construídas casas representando a arquitectura regional de cada uma das regiões portuguesas. Tudo muito puro e singelo. Com a benção do Estado Novo, claro.

Ainda agora, porém, a visita é interessante. Para miúdos, é como visitar uma cidade de bonecas. O local não é bem igual ao que conhecem da realidade, mas tem traços parecidos. Para graúdos, é um shot de monumentos nacionais, de estilos arquitectónicos regionais e de revivalismo das antigas colónias. Tudo, num ápice.
O Portugal dos Pequenitos fica no Rossio de Santa Clara, 3040-256 Coimbra (telefone 239.801.170 e site web www.fbb.pt). Está aberto das 10 às 17 horas (de Março a Maio, até às 19h e no verão, até às 20h). A entrada custa para adultos, 7 € (6 € na época baixa) e para crianças 3,5 €(3 € na época baixa). É grátis para crianças até aos 5 anos.
O local está sinalizado, à saída do centro de Coimbra, para sul. A não ser em dias de confusão, o estacionamento é razoavelmente fácil.

quinta-feira, março 20, 2008

Parque Nacional de Königsee, Alpes Alemães

A zona faz parte do Parque Nacional Berchtesgaden, nos Alpes. Descobriu-a o viajante em passagem pela ponta sueste da Alemanha, muito próximo de Salzburgo, na Áustria.
Königssee, o lago, é comprido e estreito e está ladeado de montanhas muito altas, algumas das quais chegam próximo dos três mil metros. A zona envolvente do lago, por ser muito escarpada, não permite qualquer acesso rodoviário. Apenas tem acesso pelo lago, em carreiras de barco, que por sua vez dão acesso a trilhos pedestres. Aquilo que por aqui se faz, portanto, será sobretudo passear a pé, subindo as escarpadas margens ou explorando as pequenas povoações aninhadas num ou outro local mais plano. É particularmente procurada a pitoresca St. Bartholoma.
Deixou-se seduzir o viajante pelo ambiente romântico, quase intemporal, a fazer recordar os mais recentes livros do Tintim, passados em zonas montanhosas. Há grande restrição à circulação de carros e os barcos são dos tradicionais modelos, de madeira envernizada. Os hotéis – onde ficam também os restaurantes, como é tradicional na Alemanha rural – são pequenos e familiares. Este não é ambiente de pizzarias nem análogos, mas é possível beber cerveja caseira. Ficou portanto a impressão de Alpes à antiga, tradicionais e desconhecidos. Para voltar um dia.

quarta-feira, março 19, 2008

Reales Alcazares de Sevilha, Espanha

Dizem, os locais, que este é o mais antigo palácio real da Europa, ainda em uso. Ao que parece, a família real espanhola ainda se aloja neste histórico conjunto de edifícios quando visita Sevilha. E a sua origem é anterior à ocupação cristã da cidade, porque remonta ao tempo do califado de Córdova, cujos representantes aqui moravam. O nome original do local é Al-Qsar-al-Mubarak, alcácer da bendição de Al-Mutamid, último rei de Sevilha. Deste monarca se diz ter sido um poeta que, apaixonado por uma florista, fez plantar de amendoeiras as encostas de Córdoba, para que a sua amada não sentisse falta dos montanhosos cumes nevados de Granada.


Os Reales Alcazares são um labirinto de palácios e jardins, que foram sendo edificados ao longo dos tempos, sobretudo entre os séculos IX e XIV, com estilos diferenciados, consoante a época em que foram construídos. Predomina o gosto arabizante e muçulmano. Porém, o conjunto é muito exuberante, com mistura de estilos islâmicos e hispânicos-cristãos. Alguns destes espaços estão abertos ao público e são uma visita impressionante, pela beleza exuberante da arquitectura.

domingo, março 16, 2008

Ponte 25 de Abril, Lisboa

16 de Março de 2008, 10 horas e 30 minutos.
Tem o viajante alguma dificuldade em descrever o que o leva, ano após ano, a correr a mini-maratona da Ponte. Pode ser a vontade de fazer exercício. Pode ser a festa. Pode ser o espectáculo. Será da aventura? Ou da possibilidade – única – de poder ver a cidade, lá do alto, com a tranquilidade e a perspectiva que a passagem de carro normalmente não dão?

Em 2008 percorreram a ponte 30 mil pessoas, que esgotaram o número máximo de inscrições permitido. Galraram o seu tabuleiro metálico de 2.300 metros e as vias de acesso rodoviário a partir de Alcântara, segundo depois para o Mosteiro dos Jerónimos.

Poucos terão recordado a construção da ponte, então uma das maiores do mundo, entre 1962 e 1966. E ainda menos recordarão a inauguração, com o nome Ponte Salazar, a 6 de Agosto de 1966, pelo então Presidente da República, Almirante Américo Tomás.

terça-feira, março 11, 2008

Estação de Atocha, Madrid

Em memória das vítimas
11 de Março de 2004:
191 mortos
1841 feridos.

terça-feira, março 04, 2008

Restaurante D.O.C., Douro

O viajante não é muito frequentador de restaurantes gourmet. Não é que não gostasse, mas na estrada o orçamento recomenda refeições em locais mais abordáveis.
Não obstante, tem o viajante por vezes que reconhecer a sua agradável surpresa e o gosto que tem ao experimentar parar em locais supostamente mais caros.


Foi isso que aconteceu no D.O.C.. DOC, é para os enófilos o acrónimo tradicionalmente usado para Denominação de Origem Certificada. Neste caso, embarca como Degustação de Origem Certificada. Este D.O.C. é nome de um bar e restaurante aberto desde Abril de 2007, por iniciativa do chefe Rui Paula e do seu irmão Pedro Cardoso.
Chegando já fora de horas, em cima das 22h30m, foi ainda permitido ao viajante jantar com calma. Tenha-se em conta que isto aconteceu na pacata região duriense. De entrada, foi servida uma terrina de foie-gras, com tostas de centeio e doce de noz. Depois, seguiu um bacalhau com migas de milho de bacalhau e batatinhas no forno. Culminou a refeição numas bochechas de porco bísaro com legumes estufados e alheira. De sobremesa, um misto de doce de abóbora com requeijão e folhado de chèvre, cortado com gelado de mel.
Os vinhos, evidentemente foram da região.

O edifício onde está instalado o restaurante é novo e de traça modernaça.Foi construído literalmente dentro de água. Aqui, o Douro é um rio de águas calmas, entre a Barragem da Valeira e a de Bagaúste. A paisagem é rasgada e, só ela, valeria a viagem. O D.O.C. é fácil de encontrar. Fica em Folgosa, no concelho de Armamar. Está logo ao lado da Estrada Nacional 222, que liga o Peso da Régua ao Pinhão (telefone 254.858.123), pela margem sul do Douro. No Inverno, fecha ao domingo à noite e segunda-feira todo o dia. No verão não encerra nunca. Abre ao almoço e ao jantar.

domingo, março 02, 2008

Torre de Oro, Sevilha

Por aqui, nesta zona andou Cipião, o general romano que ficou conhecido por o Africano. Mas só muitos séculos depois (no século XII) foi construída aquela que veio a ser revestida a azulejos dourados e por isso a ser conhecida por torre de ouro.
A sua função original era a de ser mais um dos torreões que compunham a muralha da Sevilha. Tem a originalidade de ter doze faces. Actualmente alberga o Museu Naval da cidade.
Fica nas margens do rio Guadalquivir e é uma visita incontornável. O seu contorno exterior, de jardim fluvial, oferece, em regra, bom ambiente para passeio ao fim da tarde.Ficou o viajante maravilhado com a cor do pôr do sol numa tarde de Outubro.

quinta-feira, fevereiro 28, 2008

Quinta do Vale Meão, Douro

Vale Meão é um nome mítico no moderno vinho português. Desde que surgiu, como unidade autonomizada da histórica casa Ferreirinha, afirmou-se como um dos nomes mais consistentes da produção enológica nacional. O néctar é de excepção e a marca é uma aposta sempre segura. É notável, para um nome que apenas surgiu em 1999!
Meão é o U formado pelo Rio Douro por alturas do Pocinho, qual enorme meandro (o número dois dos vinhos da casa chama-se precisamente Meandro). A quinta fica nas margens do rio, em zona de microclima, muito seco e quente no verão.


A nota histórica mais interessante sobre a quinta diz que esta foi a única verdadeira realização da lendária Ferreirinha, D. Antónia Adelaide Ferreira. De facto, esta emblemática Senhora do Douro, em seu tempo comprou muitas quintas; esta foi a única que construiu de raiz. Aqui não havia nada quando a Ferreirinha comprou o terreno, em 1877. Talvez seja por isso que a adega é enorme e tem uma traça marcada, de paredes de granito e telhado de vigamento de castanho. Igualmente enormes são os lagares, em granito, onde ainda se faz a pisa a pé do vinho.

Mas não se iludam os visitantes: para além dos centenários lagares de granito há outros equipamentos que tratam das uvas e do vinho. Hoje em dia, as uvas que entram na adega sofrem um choque térmico, para que sejam vinificadas à temperatura conveniente. Depois, são pisadas a pé, mas brevemente: logo de seguida são maceradas por um robô e conduzidas para cubas de inox, com temperatura controlada. Mais tarde os mostos serão colocados em cascos de carvalho francês novos, para que o vinho apure adquirindo o travo adstringente da madeira verde. Na quinta produzem-se vinhos tintos e vinhos do Porto.

Em visita à quinta passou o viajante pela adega e pela sala de provas. Mas também pelas vinhas, plantadas em declive suave mas com muita tecnologia. Terminou no edifício da quinta, construído no século XIX, com a traça de mansão senhorial, com capela.
A quinta e a empresa que a exploram têm estrutura familiar. O pater familiae é Francisco Javier de Olazabal, de origem basca. Quem faz o vinho é o seu filho Francisco, enólogo de profissão e residente na quinta. As relações públicas – e não só -, são asseguradas pela Luísa, que abandonou uma carreira na área das relações internacionais para se dedicar à quinta. Esta dimensão encantou particularmente o viajante, que no Douro já viu demasiadas propriedades pertencentes a bancos, companhias de seguros e outras multinacionais, que as compram e vendem ao ritmo da subida ou descida do euro face ao dólar.


A quinta do Vale Meão fica próxima do Pocinho, no concelho de Vila Nova de Foz Côa. É também contactável para a Rua das Macárias, 61, 4410-149 São Félix da Marinha. Por estrada, o acesso pode fazer-se pelo IP2, que vem de Macedo de Cavaleiros na direcção de Foz Côa. Nesse caso, a quinta fica a 10 minutos do Pocinho. De comboio (o acesso mais romântico) o acesso pode fazer-se a partir da estação do Pocinho, terminal da linha do Douro, que tem cinco ligações diárias a partir da Régua (quatro aos fins de semana).

sexta-feira, fevereiro 22, 2008

Mosteiro de Lorvão, Penacova

Há poucos sítios onde o viajante se tenha sentido tão deprimido e oprimido como no lugarejo de Lorvão, a pouco mais de uma dezena de quilómetros a norte de Coimbra.

Talvez a má impressão inicial resulte de a zona ser muito acidentada e de ocupação humana desordenada. Além do vale do Mondego, que corre preguiçoso no seu vale arborizado, há por aqui vários córregos que percorrem vales fundos e muito vegetados. Em tempo, supõe-se, terá havido muitos carvalhos, mas agora a paisagem é dominada por eucaliptos e acácias, que durante o mês de Fevereiro estão cobertas de flores amarelas. Nesta paisagem, não será fácil construir estradas e por isso a chegada a Lorvão é antipática, seja vindo do Mondego e de Coimbra, seja vindo de norte, da região do Luso e do Buçaco, pelo IP3: as estradas são estreitas, íngremes e cheias de curvas e contracurvas. Numa curva da estrada, surge a aldeia, encastoada entre morros verdes e arborizados. Por estar tão encaixadinha, parece que é mínima, reduzida a uma rua que acompanha o ribeiro que corre no fundo do vale.

A má impressão tornou-se desagrado e mesmo choque dentro da aldeia: desde o década de 1950 que o Mosteiro de Lorvão foi adaptado para hospital psiquiátrico, alojando duas centenas de pacientes. Boa parte destes filhos de um deus menor deambula pela povoação, tentado interagir com os transeuntes e em particular com os turistas que vão passando. Mesmo tendo bem presentes os valores da solidariedade e do respeito pela diferença, este autêntico banho de doentes, não é das experiências mais agradáveis.
O que salva a visita é o Mosteiro em si mesmo: uma parte das suas antigas alas foi anexada ao hospital psiquiátrico; é visitável a Igreja, o antigo claustro dos monges e as sacristias.
A igreja é grande e surpreende o desalentado viajante: barroco pujante, com uma só nave mas coroada por um zimbório. Mármores a revestir as paredes e várias figuras nos altares, quase todas elas introduzidas nas reformas do edifício no século XVII e XVIII.
Ao fundo, separado da zona de acesso do público por gradeamento, o cadeiral de coro, referenciado como o maior de Portugal. É espantoso e rico, todo esculpido em jacarandá preto do Brasil e nogueira.

A fundação do Mosteiro de Lorvão poderá ter resultado da evolução da paróquia sueva de Lurbane, do século VI, o que fará dele dos mais antigos da Europa. Porém, o estatuto e a dimensão que tem serão do século XIII, altura em que para aqui vieram D. Teresa e D. Sancha, filhas de D. Sancho I e netas de D. Afonso Henriques. Desde esta época o mosteiro passou a acolher freiras beneditinas, naquela que foi a primeira comunidade da ordem de Cister em Portugal.
É monumento nacional e tem visitas guiadas. Simbolicamente, o bilhete para adultos custa 1 €.
Está aberto de terça a domingo, das 9:00 às 12:30 e das 14:00 às 18:30. Não há visitas aos domingos, às 11h30, por haver missa.

sexta-feira, fevereiro 15, 2008

Estónia, o Báltico desconhecido

De entre os novos Estados da Europa de Leste, os bálticos salientam-se pela aproximação que já têm aos padrões de vida do resto da União Europeia. E não só.
A Estónia é um país pequeno, com cerca de metade do tamanho de Portugal e uma população de 1,3 milhões de habitantes, dos quais 400 mil na capital, Tallinn. Destes, 26 por cento são de origem russa e falam habitualmente russo. Esta circunstância é um desafio para um país que rejeita, embora sem hostilizar, a memória do passado soviético.
Os restantes, os estónios, dizem-se um dos povos mais antigos da Europa, embora somente tenham alcançado a independência política no século XX. São referidos sinais de que um povo desta etnia (da mesma dos húngaros e dos finlandeses, portanto não indo-europeus), já vivia aqui quando as pirâmides do Egipto foram construídas.
São gente muito ligada à sua terra e às suas tradições, mas que acolhe de braços abertos a modernidade. O país tem uma das mais altas taxas de penetração de Internet do mundo. Por outro, se o viajante não estiver atento aos ainda inúmeros sinais na arquitectura urbana, terá dificuldade em imaginar que a independência do ocupante soviético ocorreu há menos de duas décadas.

As três cores da bandeira nacional não foram escolhidas por acaso: o azul é do céu, onde fica o limite, o preto da terra mãe e o branco de neve da esperança. Esta bandeira pertenceu no passado a uma corporação de estudantes de Tartu, cidade que gosta de ser considerada o berço da nação.
Esta simbologia permanentemente evocada não será alheia ao choque de culturas que por aqui se foi dando.
Para rematar, diz-se até que na ilha de Saaremaa, na costa oeste, existe uma cratera com 110 metros de diâmetro (que será única na Europa) provocada pela queda do meteorito Kaali. Este meteorito, caído apenas há alguns milhares de anos, terá sido o último objecto celeste de grandes dimensões a cair na terra.