quarta-feira, novembro 26, 2008

Lisboa, 29 de Janeiro de 2006

Os invernos de antigamente traziam chuva e frio a Lisboa. Agora, parece que o aquecimento global desceu ao contexto local e amenizou o inverno da capital. Não é vulgar viver-se em Lisboa um Outono tão pouco frio e molhado como tem sido o deste fim de Novembro.
Esta constatação fez recordar ao viajante uma data de há quase três anos, quando cumprindo um ciclo de 50 anos, nevou em Lisboa, como não nevava havia meio século. Era domingo e o dia estava escuro e frio. Os poucos bravos que se atreveram a procurar almoço de fim-de-semana fora de casa rapidamente perceberam que tinham que sair agasalhados. A meio do dia, parecia que a noite chegava.

Sem o esperar, os corajosos que saíram à rua foram brindados, pouco depois das 3 da tarde, por generosos flocos de neve, frios e húmidos, que afagaram risonhas faces domingueiras e rapidamente encharcaram o chão. Ao pousar, desfaziam-se em água, mas na queda suave deixavam no ar a mágica poesia de um fenómeno raro nestas paragens.
Aos mais afoitos ainda ocorreu, aproveitando ser tarde de domingo, sair da cidade e procurar lugares altos, nos arredores, onde a neve pousasse e fizesse cama. Ganharam com isso o prazer de pisar a fofa manta branca, que aos poucos lhes humedeceu os sapatos urbanos.
Meia hora depois tudo tinha passado e as histórias desta tarde de domingo ingressaram no baú das memórias, de onde irão sair, provavelmente, na próxima nevada na capital, lá para 2050
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domingo, novembro 23, 2008

Deutsches Eck, Koblenz, Alemanha

Chegou o viajante ao Deutsches Eck sem saber muito bem ao que ia. Koblenz nas margens do Reno (a que, em português, tradicionalmente chamávamos Coblença), é um dos ícones do romantismo alemão. A paisagem é vinhateira e isso agradou ao viajante, que aqui passou num Outono seco e dourado pelo sol. É nesta cidade que se encontram os dois mais românticos rios do mundo: o Reno e o Mosela. No encontro de ambos, forma-se um canto de terra, onde na idade média os cavaleiros teutónicos tiveram instalações. Ao que parece, desde essa altura o local passou a ser o “Canto da Alemanha”, ou Deutsches Eck.
Os nacionalistas germânicos do século XIX embarcaram na mística e erigiram aqui um monumento à grandeza e unidade alemã, simbolizando também a refundação, por essa altura, do império germânico. Na altura, a ideia era projectar a unificação de todas as regiões germano-falantes. A ideia permaneceu até ao século XX. Soube o viajante que ainda no início da década de 1980 a TV alemã encerrava as emissões, ao fim da noite, com imagens do Deutsches Eck, enquanto tocava o hino nacional.

O que sobra, hoje em dia, é um monumental memorial ao Imperador Guilherme I, representado em estátua equestre, de 14 metros de altura, o qual é visitado anualmente por dois milhões de turistas. Vale a pena pelo pitoresco e pela paisagem, sobre os rios Reno e Mosela.
Koblenz fica no vale do Reno, a 80 quilómetros a sul de Colónia e outro tanto a norte de Frankfurt (ou se preferires, leitor, de Francoforte…)

terça-feira, novembro 18, 2008

Areópago, Atenas

O viajante - sabe-lo bem, leitor -, tem levado os seus cadernos mais por caminhos que por estradas e mais por estradas que auto-estradas. Nas cidades, tem relatado mais o que descobriu nos capítulos finais dos guias turísticos e menos o que vem nas capas. Tem o viajante cá as suas coisas.
Talvez tenha sido essa a razão que, em Atenas, o levou a abandonar a fila imensa, de centenas de pessoas, que pretendiam comprar o bilhete de entrada na Acrópole. Optou o viajante por descer a colina, não mais que cem metros, até à rocha do Areópago. É um morro calcário, de dimensão modesta. Sobe-se a ele por uma escada gasta e polida, podendo também usar-se uma escada metálica, colocada para turistas que optem pela segurança. Lá em cima, não há nada. Apenas a vista (fantástica, aliás) sobre Atenas, com os seus cinco milhões de habitantes. E mais de vinte e cinco séculos de história.

O Areópago era na antiga Atenas, no tempo de Sólon, na génese da democracia (século VI AC) o local de reunião da assembleia dos aristocratas, que democraticamente comandava os destinos da cidade. Com o tempo, as funções desta assembleia passaram a ser, sobretudo, de tribunal. A tragédia grega diz que foram aqui julgados os dramáticos assassinatos da mitologia e do teatro, das histórias de mortes de filhos por pais, ou de mães por filhos. O Areópago foi, portanto, a sede do mais antigo tribunal criminal do mundo antigo de que hoje se tem notícia. Dele, no topo da rocha, nada resta, além destes mais de vinte e cinco séculos de história.

Com muita pena, teve o viajante alguma dificuldade em captar esta atmosfera no local, enxameado de turistas orientais e de adolescentes do norte da Europa em viagens de finalistas, os primeiros muito ocupados com a captação de instantâneos, os segundos concentrados nas músicas dos seus leitores de MP3.
Na base do rochedo, uma placa de bronze anota outro marco importante: reproduz o livro dos Actos dos Apóstolos (capítulo 17,versículos 22 a 32), na parte em que nele se descreve o discurso de São Paulo aos atenienses: “levaram-no até ao Areópago e disseram-lhe: «podemos saber que nova doutrina é essa que ensinas? O que nos dizes é muito estranho e gostaríamos de saber o que isso quer dizer».Ora, tanto os atenienses como os estrangeiros residentes em Atenas não passavam o tempo noutra coisa senão a dizer ou a escutar as últimas novidades”. Paulo passou em Atenas, no ano 51 depois de Cristo, no percurso de Tessalónica para Corinto.

segunda-feira, novembro 17, 2008

São Martinho de Anta, Trás-os-Montes

A escola onde fiz os meus primeiros exames”, dizia dela Miguel Torga. Veio aqui o viajante em romagem, um ano após as comemorações da data do centenário do nascimento de Adolfo Correia da Rocha, neste cruzamento transmontano onde acaba o Doiro e começa a Montanha.

A escola onde fiz os meus primeiros exames, e um rancho de crianças à porta, à espera de fazer os seus. Pacoviozitos, como eu fui, que desceram da serra e vieram pagar o seu ingénuo tributo à cultura. Alguns, viram hoje estradas e automóveis pela primeira vez(…). E pus-me a pensar na barbaridade que vai abandonar aqueles espíritos à pedagogia das pedras. Dos meus companheiros de classe, alguns finos como corais, poucos assinam hoje o nome. A mão amoldou-se de tal maneira ao cabo da enxada, foi tanta a negrura e a fome que os rodeou, que esqueceram de todo que havia letras e pensamento” – Miguel Torga, Diário.

Na escola de São Martinho de Anta, em Setembro de 2008 um anúncio avisava que as aulas começariam, após as férias do verão, a 12. Informava também dos manuais escolares. Como no resto do país. Com excepção de uma deslocada placa, mandada colocar por saudosistas de Coimbra, nada mais a distinguia de outras escolas, por aí fora.
A visita foi para o viajante o cumprimento de um tributo torguiano, com devoção mas sem conseguir ter emoção. Torga construiu um universo interior de enorme dimensão, estruturando-o de forma muito composta. Dotou-o de tantos detalhes tão ricos e delicados. Porém, as referências terrenas deste universo esfumaram-se logo que os dias do médico-escritor terminaram. O mundo virtual de Miguel Torga já não existe em lado nenhum. Se calhar, já não existia quando foi criado e foi apenas um fantástico exercício de memória analítica.
São Martinho de Anta fica no concelho de Sabrosa, a 20 quilómetros de Vila Real, por estradas sofríveis. A Vila Real chega-se, por vias rápidas, em três horas e meia desde Lisboa e em pouco mais de uma hora a partir do Porto. Quanto á escola, fica logo á entrada da povoação, antes do casario, quando se chega vindo de Vila Real.

domingo, novembro 16, 2008

Parque da Pena, Sintra

Não se cansa nunca o viajante deste local, declarado Paisagem Cultural Património da Humanidade, pela UNESCO em 1995.
Noutros tempos, a Serra de Sintra estava isolada da civilização e apenas foi conhecido por monges e reis: os monges, procuravam aqui recolhimento, na natureza exuberante; os reis de tempos antigos da nacionalidade, a quem não faltava tempo para caçadas demoradas em zonas distantes da capital, souberam apreciar a beleza da zona e o seu clima suave.
No lugar que hoje é o Palácio da Pena, talvez logo no século XII, altura em que a região foi pacificamente reconquistada aos Mouros, surgiu um pequeno edifício religioso. No seu lugar veio a ser construído um mosteiro, três séculos mais tarde, que no século XIX, com a extinção das ordens religiosas, passou para o Estado. Foi nessa altura, 1838, comprado por D. Fernando II, o príncipe consorte que veio a construir aqui, a partir da década seguinte, o magnífico palácio romântico.

A par do palácio, quis também D. Fernando construir um parque botânico, onde fosse possível encontrar árvores e outras espécies vegetais de todo o planeta. Este parque acolhe sempre tranquilamente o viajante, a quem de todas as vezes conta novos segredos, revelando recantos desconhecidos e árvores de que não sabia.
Gosta o viajante de passar na Fonte dos Passarinhos (pavilhão de estilo árabe, que fica na transição da encosta para a zona baixa do parque) e emociona-o subir à Cruz Alta, colocada no local mais alto da Serra de Sintra, a 529 metros de altitude. Daqui se vê a Estátua do Guerreiro, esculpida em bronze, a dominar a serra e o parque, da qual se diz-se ter sido mandada fazer pelo próprio D. Fernando II como representação dele próprio, a velar pela sua obra.
Mas, já ficou dito, o que mais impressiona no interior do parque, é a abundância e exuberância de espécies arbóreas raras em Portugal. Aqui viu o viajante sequóias, originárias da América do Norte, algumas das quais com perto de cem metros de altitude, ou Gingko Biloba, árvores antiquíssimas, trazidas da China, talvez as últimas representantes da flora anterior às glaciações, ou fetos arbóreos, vindos da Nova Zelândia, que diferem dos comuns por terem porte de árvore e chegarem a atingir 10 metros de altura (é notável o lugar conhecido como “feteira da rainha”). Impressionam qualquer um as túias, (thuja plicata), também oriundas da América do Norte, cujos ramos baixos são curvos, em forma de J ou as magnólias.

O Parque da Pena tem uma área de oitenta hectares, completamente arborizados e é visitável durante todo o ano, das 10 às 18 horas (no verão, das 9h30 às 20). O acesso faz-se a partir da vila de Sintra (duas dezenas de quilómetros a oeste de Lisboa), pela estrada nacional 247-3, numa subida íngreme, de dois ou três quilómetros. Pode subir-se de automóvel (o estacionamento é difícil no verão), de autocarro ou a pé (neste caso, exige-se preparação e boa resistência).

sábado, agosto 16, 2008

Praia do Bom Sucesso, Costa Oeste, 22h40m

O jornal dizia que o eclipse seria total. Durante a tarde, a improvável chuva de Agosto fez temer que o fenómeno se eclipsasse. À noite, as nuvens não permitiram confirmar a amplitude da coisa. Felizmente abriram ainda um pouco e deixaram perceber a estranheza da escuridão da noite em tempo de lua cheia.



sexta-feira, agosto 15, 2008

Estádio Sansiro, Milão

Acaba o viajante de ouvir nas notícias que Lisboa vai hoje ser visitada pela equipa de futebol treinada pelo Special One José Mourinho. Luís Figo, o super craque intemporal virá também ao Estádio da Luz, defrontar o Benfica. Serviu esta informação de mote ao viajante para recordar a visita ao Estádio de Sansiro, também conhecido por Giuseppe Meazza, em Milão.

Fica na zona ocidental da cidade e tem acesso pela linha 1 do Metro (estação Piazzale Lotto). O estádio teve origem em 1926, altura em que foi construído, por vontade e impulso de um rico industrial da cidade, Piero Pirelli, fabricante de pneus, à época presidente do A.C.Milan. Foi o estádio do clube até 1939, início da Segunda Guerra Mundial. Depois do conflito, que atravessou dramaticamente a cidade, a propriedade do estádio passou para a Comune di Milano. Nessa altura, o local passou também a ser usado em competição pelo F.C.Internazionalle (o Inter). O actual formato do edifício data de 1990, altura em que foi renovado para o Campeonato do Mundo Itália ’90. Comporta 85 mil espectadores, o que faz dele um dos maiores da Europa. Adoptou o nome de Giuseppe Meazza, em homenagem ao melhor futebolista italiano de todos os tempos, que assim se chamava. Actualmente, jogam no estádio o A.C.Milan (fundado em 1899) e o Inter (fundado em 1908). É portanto um excelente exemplo de partilha por dois clubes rivais.

Pode visitar-se o seu museu, que reúne documentos e objectos desportivos da histórias dos dois clubes. Os bilhetes custam 12,5 € (crianças 10€). Está aberto todos os dias, das 10 às 17 horas, embora haja condicionantes nos dias de jogo.

quinta-feira, agosto 14, 2008

A nova Potsdamerplatz, Berlim

Sente o viajante algum fascínio pela nova capital da Alemanha. Diz nova, porque em pequeno se habituou a Bona, a capital federal, por contraponto com Berlim, a dividida cidade da ignonímia, da qual só se conheciam as bolas. É por isso conhecimento recente a Potsdamerplatz, local obscuro durante a guerra fria e agora recuperado para os roteiros.

Desde sempre este local, no centro geográfico de Berlim, foi símbolo da sua modernidade. Assim aconteceu na louca década de 1930; nessa época ficavam aqui os cruzamentos das tendências da moda. Pelo caminho, depois de 1963, a zona foi durante décadas um descampado, terra de ninguém, entre as duas partes separadas da cidade, atravessada pelo muro da vergonha.
Nos dias de hoje, a Potsdamerplatz voltou a ser o emblema do progresso de Berlim do século XXI: aqui se encontram actualmente os edifícios de perfil mais reputado da cidade, desenhados pelos mais conceituados arquitectos do momento. Aqui está a sede da Daimler Benz (um edifício de tijolos nus, a evocar o mediterrâneo, inspirado por Renzo Piano, Richard Rogers e Christoph Kohlbecker) a sede dos Deutschbanh e os escritórios da Sony para a Europa (edifício de vidro e aço, desenhado por Helmut Jahn).O conjunto é muito vivo, estando sempre animado por ciclistas e passeantes, que circulam pelas muitas lojas, cinemas e cafés (no complexo de entretenimento Sony Center, há um enorme conjunto de cinemas e outras instalações de lazer, das quais se destaca o cinema tridimensional).


quarta-feira, agosto 13, 2008

Bodegas Barbadillo, San Lucar de Barrameda, Cadiz

Viagens e vinhos são dois temas na moda: viaja-se e aproveita-se para provar os vinhos da região; ou então, procuram-se provas de vinhos e aproveita-se para viajar e conhecer a região. Promete o viajante voltar ao tema, puro e duro, com notas mais substanciais. Ficam agora estas, que não se querem perder.
Na Andaluzia reproduzem-se todos os mais conhecidos ícones de Espanha: touros, guitarras e o flamenco, os pátios frescos e floridos e, claro, o vinho. Que ainda por cima, nesta zona, é verdadeiramente señorito: tem um forte carácter e é seco. Está agora o viajante a pensar no vinho feito da casta palomino fino, que dá origem a um branco de aperitivo, que deve beber-se gelado: a manzanilla de Sanlúcar.
O solo calcário da região, a que chamam albariza – é permeável à água, que armazena na altura das poucas chuvas e depois alimenta as vides. Por outro lado, ao ser quase branca, a albariza sofre menos evaporação – o sol aquece menos a terra que assim acumula mais a humidade – sobretudo o orvalho que todo o ano a proximidade do mar faz formar.
Além disso, ainda provoca um melhor amadurecimento das uvas, porque o branco do solo reflecte a luz solar, amadurando também os cachos escondidos da luz directa pela folhagem.


A manzanilla é o único vinho do mundo que tem um nome feminino. É mais seco, leve e delicado que o restante vinho de Jerez. Provou-o o viajante – e depois bebeu-o abundantemente -, em Sanlucar de Barrameda, junto da foz do Guadalquivir, na Andaluzia, nas Bodegas Barbadillo, que têm visitas para o público.

segunda-feira, julho 07, 2008

Capela da Granjinha, Chaves

Conhece o viajante o românico de inspiração visigótica das Astúrias, bem como o românico pirenaico, do qual já deu conta por aqui.
Não sabe, porém, como enquadrar neste contexto, do românico rural antigo, a capela da Granjinha, uma das mais antigas igrejas católicas da região de Chaves, em Trás-os-Montes. É um templo muito pequeno, situado no termo da freguesia de Valdanta, a cerca de dois quilómetros a sudoeste de Chaves, que ganhou a classificação de imóvel de interesse público. É pequena e acanhada, toda construída em granito. Julga-se que teve origem visigótica, mas o seu aspecto actual é românico.

Mereceu especial atenção do viajante a traça muito simples e sóbria, apenas cortada na sua singeleza pelo arco da porta principal. Este arco, de volta inteira, como sempre nas igrejas românicas, tem três arquivoltas muito decoradas, apoiadas em colunas cujas bases e capitéis estão também ricamente trabalhados.
Soube o viajante que na zona foram feitas escavações arqueológicas e que, por debaixo do próprio altar da capela foi descoberta uma ara romana. Apontaram então os arqueólogos para a forte possibilidade de, antes da capela, ter aqui havido uma villa romana, de cujo templo faria parte esta ara.
A capela da Granjinha está habitualmente fechada e pode ser complicado visitar o seu interior. Já a visita exterior é mais fácil. Basta ir lá. Chega-se, a partir de Chaves, tomando a estrada de Casas dos Montes e, depois, de Valdanta. Um pouco antes desta povoação deriva-se para sul, na direcção de granjinha, onde fica a capela.

sábado, julho 05, 2008

Catedral de São Pedro, Roma

Esta é daquelas visitas que podem significar muito ou nada. Para o turista de castelos e igrejas, é o maior templo cristão do mundo. É grande, de facto. E majestoso: mármores exuberantes, dimensões esmagadoras e estatuária de dignidade avassaladora. Porém, tudo visto, é mais uma igreja. Ou não. Noutra altura dará o viajante conta de como gostou do edifício, na sua dimensão e majestade.

Desta vez, na visita, tinha o viajante na memória as palavras de um blogger discreto (http://www.cronicasdaboavida.blogspot.com/), que dizia que “a 2 de Abril de 2005 morreu um dos Grandes do nosso tempo. Mudou o Mundo e o Mundo mudou com ele. Seguiu os passos de Cristo. Sempre. Totus Tuus.”
Foi o viajante, como já bem se viu, à procura da memória de Karol Wojtila, que enquanto chefe da Igreja usou João Paulo II.
Rapidamente concluiu que em Roma há mais japoneses do que peregrinos e mais turistas que crentes. A magnífica catedral está cheia de voyeurs de clichés, que vão para tirar fotografias. E o túmulo do Santo Padre, próximo da entrada da basílica, vale tanto como uma estrela num qualquer passeio da fama. Valeu aquela pequena capela, do lado oeste do templo. Um velho padre dizia missa para uns quantos sul-americanos, que respondiam em espanhol do novo mundo, enquanto alguns passantes correspondiam lendo as orações escritas em várias línguas e agrafadas aos espaldares das cadeiras de madeira.

domingo, junho 08, 2008

Praia do Bom Sucesso, Óbidos

Está por pouco tempo esta praia ainda bastante preservada da selvajaria do turismo moderno. Em breve, várias urbanizações, já em construção, vão despejar aqui o chamado progresso dos guarda-sóis de praia, dos bares com música do Caribe e das loiraças nórdicas encharcadas de protector solar.
Por isso, já não sobra muito tempo para que o viajante continue a imaginar por aqui a inspiração para a “ocidental praia”, de mar revoltado e céu brumoso, a que não falta, ao longe, a miragem da Berlenga, em dias mais claros.

A Praia do Bom Sucesso, em rigor, fica apenas confinada à margem esquerda da Lagoa de Óbidos, entre a água da lagoa e o mar. Porém, onde ela acaba, começa uma das últimas linhas de falésia a que ainda se pode chamar esse nome, na costa portuguesa. Daqui, sem qualquer povoação ou empreendimento turístico, subsiste ainda uma linha de praia, a bordejar a arriba costeira calcária e por vezes o cordão dunar, ao longo de vários quilómetros. A este troço não pode aceder-se por estrada nem ao longo dele se topa com qualquer perturbação humana. É dos últimos sítios que o viajante conhece, em Portugal, para passear longamente na beira do mar selvagem.
Na ponta, na Praia do Bom Sucesso, há lojas de abastecimento e bares. É também aqui que fica o acesso rodoviário, que vem de Caldas da Rainha ou de Óbidos, por uma estrada secundária que deriva da antiga Nacional de Peniche um pouco depois de A-da-Gorda.

terça-feira, junho 03, 2008

Universidade de Harvard, Boston, Estados Unidos da América

Já foi há algum tempo que o viajante foi em peregrinação a Harvard, no Estado norte-americano de Massachusetts. Peregrinação porque calcorreou a pé os três quilómetros que separam Cambridge, na periferia de Boston, do centro da grande capital da Nova Inglaterra. E peregrinação também porque - não esconde -, foi com emoção que procurou uma de entre a meia dúzia de mais prestigiadas universidades do mundo. O percurso de Boston para Cambridge, onde fica Harvard, revela subúrbios muito civilizados de uma das menos antipáticas cidades americanas. O ambiente é quase europeu.

Já a universidade, sem deixar de impressionar, mostrou-se muito diferente daquilo que o viajante, pouco familiarizado com os padrões transatlânticos, esperava de um tão importante nome. Na verdade, a universidade é toda ela formada por um conjunto de pequenos e até discretos edifícios, cor de tijolo, rodeados de jardins e árvores frondosas, sem que deste conjunto se destaque demasiado qualquer deles. Nenhum é solene, imponente ou sequer muito maior que os restantes. O ambiente é por isso marcado pela discrição e pela harmonia. Sem estar à espera de tanta quase modéstia, descobriu aqui o viajante a verdadeira essência da nação americana: para nada importa ter edifícios grandiosos ou obras de fachada imponente. A verdadeira riqueza está no Homem e na sua obra.
A esta filosofia, a mais antiga universidade dos Estados Unidos junta a procura do progresso pelo desenvolvimento do conhecimento, na literatura, nas artes e na ciência, pondo todas ao serviço da educação da juventude, de espírito aberto à inovação e com liberdade de criação e expressão.
Em Harvard confere-se uma vasta gama de graduações universitárias, do direito à medicina, passando pela engenharia ou pela gestão.


Em 1636, John Harvard, um pastor protestante, doou a sua biblioteca e metade das suas propriedades para a criação de um colégio, à imagem dos colégios universitários ingleses da época. Este tomou então o nome de Harvard College, em homenagem ao benemérito fundador. Ocorreu esta fundação apenas 16 anos após o estabelecimento no Massachusetts da segunda colónia de europeus em terras norte-americanas (o primeiro estabelecimento fixo de colonos data de 1607 e ocorreu na Virgínia). A história de Harvard é por isso inseparável da própria história dos Estados Unidos da América.
Aliás, desde então, é possível encontrar antigos estudantes de Harvard em todos os grandes momentos da história do país. Sete dos seus antigos presidentes (com destaque para John Fitzgerald Kennedy) estudaram aqui. De Harvard saíram também, até agora, mais de 40 laureados com Prémio Nobel.
A vida real, em Harvard, não é igual à dos clássicos filmes sobre os elitistas universitários da costa leste e o campus universitário não é tão edílico como se mostra no cinema. Mas não está muito longe.

segunda-feira, junho 02, 2008

Jacarandás em Lisboa

Tal como Garrett, viajando sem sair de casa, faz o viajante todos os anos uma viagem imaginária aos trópicos, levado pela cor magnética dos jacarandás floridos. Ao chegarem os calores generosos da primavera, as muitas árvores desta espécie plantadas nas avenidas de Lisboa, explodem em flores lilás azulado. Estas flores têm vida muito efémera, como o tempo primaveril e rapidamente caem, deixando no chão um tapete vegetal. Esta explosão de cor é, talvez, na paisagem urbana, o mais claro sinal da chegada da primavera.

Uma consulta rápida permitiu perceber que os jacarandás são árvores da família das Bignoniáceas, com origem na América do Sul, embora tenham sido regularmente exportadas e plantadas em todo o mundo desde há mais de 100 anos. À Europa, a existências dos jacarandás terá chegado após as explorações do alemão Alexander Von Humbolt, em meados do século XIX.

quarta-feira, maio 28, 2008

Sarajevo, (ainda) cidade ferida

Teve o viajante dificuldade em recuperar da sua memória uma cidade com um percurso tão difícil como o de Sarajevo. Desde a antiguidade, a zona da capital da Bósnia foi zona de conflitos: por aqui passou a fronteira que dividiu os impérios romanos do Oriente e do Ocidente. Este detalhe veio a definir, quando o Império do Oriente foi ocupado pelos turcos, o limite máximo da expansão do islamismo na Europa. Esta expansão foi, talvez, a maior marca de fricção que a história deixou para as gerações modernas. Ainda hoje passa por aqui o conflito religioso mais aceso da Europa.
Mais tarde, após a passagem por aqui dos turcos, em 1908 o império austro-húngaro ocupou a Bósnia-Herzegovina. Pouco depois, em 28 de Junho de 1914, um bósnio de etnia sérvia, de Sarajevo, assassinou, a tiro, o Arquiduque Francisco Fernando, herdeiro dos Haugsburgos, imperadores austríacos. Este foi o motivo imediato invocado pela Áustria para declarar guerra á Sérvia e, com isto, despoletar a Grande Guerra, mais tarde conhecida por Iª Guerra Mundial. Desde esse tiro, na entrada para a rude Ponte Latina, nas margens do rio Miljacka, não mais a Bósnia teve paz e liberdade, em simultâneo, até á fase de tranquila tensa que vive hoje.

O território passou a ser uma das repúblicas da federação da Jugoslávia, após a II Guerra Mundial. Quando a Jugoslávia se desmantelou, no início da década de 1990, houve por aqui eleições livres – as primeiras – em Novembro de 1990. Logo então a parte sérvia da população se manifestou contra as partes croata e muçulmana (estas últimas queriam que o país se tornasse independente, como uma nação multiétnica). A independência foi declarada em 15 de Outubro de 1991. Apesar disso, o partido sérvio decidiu formar o seu próprio governo em Pale, a 20km de Sarajevo. Mais tarde, transferiu-se para Banja Luka, onde ainda agora funciona a governo da República Sérvia, uma das duas entidades que compõe a moderna Federação da Bósnia-Herzegovina (a outra é o Distrito Bósnio).

Duas marcas reteve o viajante da sua chegada a Sarajevo. Uma, muito intensa, ficou logo na chegada ao hotel. Abrindo a porta da varanda, foi surpreendido pelos orifícios de dois balásios, que atravessaram o gradeamento. Mais tarde, percorrendo a cidade, viu o viajante muitos outros vestígios dramáticos de guerra urbana. Chamaram-lhe particularmente a atenção os buracos de balas na torre da velha igreja ortodoxa. A outra marca foi a da omnipresença que sentiu de templos e sinais religiosos. Em cada esquina se encontra uma igreja católica, ou uma igreja ortodoxa, ou até mesmo uma sinagoga. Em todo o lado se avistam as torres esguias e elegantes das mesquitas, aqui construídas “à turca”. As religiões, marcas distintivas e agregadora de cada uma das comunidades locais, parecem ter sido ao longo da história desviadas para motivo de conflito entre essas comunidades. Mas este tema fica para outro registo.

quinta-feira, maio 22, 2008

Estes romanos são loucos!


Deve haver poucos que conheçam tão bem os “romanos” como Asterix e Obelix. E se eles diziam que os romanos são loucos, lá saberiam porquê.
Os romanos, comummente identificados com a generalidade dos italianos, são gente à parte. Sabem que na sua língua “romano” significa habitante da capital e não gostam de ser confundidos com os seus restantes compatriotas. Recordam-se do tempo em que eram donos da Europa e do Mediterrâneo e desdenham dos povos que então ocuparam. E dos restantes, que consideram bárbaros, ainda mais.
Em regra, os romanos são exuberantes, mas secos. Transbordam de orgulho. Talvez por isso tenha sido impossível ao viajante, nas suas três ou quatro visitas nos últimos 20 anos, encontrar um romano simpático, naqueles que o atenderam no hotel, ou nos cafés, ou nos restaurantes, ou em qualquer outro lado.

Depois, há a desorganização. Nada é como previsto e a previsão é apenas uma hipotética suposição. É normal ver motoristas de autocarro a falar ao telemóvel enquanto conduzem, ou ver automobilistas a violarem flagrantemente as regras de trânsito.
Apesar disso, em público todos gostam de fazer boa figura. A imagem conta muito para os romanos. Mesmo a bordo de uma Vespa, espere-se desta gente estilo e sofisticação.Se é certo que em Roma há mais turistas que romanos, não é menos certo que é este detalhe que torna a cidade menos antipática.

domingo, maio 04, 2008

Sveti Stefan, Montenegro

Bem sabe o viajante que as máfias internacionais – em particular a russa –, têm escolhido a nova e independente República de Montenegro, para lavar o seu dinheiro sujo. Bem sabe também o viajante que o negócio imobiliário e hoteleiro é dos melhores para quem tem propósitos desta natureza. Consabidamente, Montenegro é desde o tempo da monarquia (de ambos os países) um tradicional aliado da Rússia. Conta-se até a anedota de alguém que pretendia que um cidadão local lhe dissesse, afinal, quantos montenegrinos havia. A resposta terá sido uma pergunta: “com russos ou sem russos”?
Nada disto tem que ver com Sveti Stefan (traduzido em português por Santo Estêvão), uma pequena ilha na costa adriática de Montenegro, que ainda há meia dúzia de décadas era uma aldeia piscatória. Durante o “titismo”, ainda no tempo da antiga Jugoslávia, todas as casas foram expropriadas e reconstruídas, para dar origem a um hotel de luxo. Portanto, toda a ilha é hotel. Dizem os guias que entretanto se degradou e o serviço não corresponde ao estatuto que deveria ter, razão pela qual o governo montenegrino decidiu conceder a exploração do local a um novo concessionário, ligado a um grupo económico asiático.
A ilha-hotel de Sveti Stefan (www.budvanska-rivijera.co.yu) fica cinco quilómetros a sul de Budva, próxima da estrada costeira que liga esta cidade a Bar. O acesso à ilha, em tempos apenas possível na maré baixa, está agora cimentado e regularizado. Não se sendo hóspede do hotel, o acesso à ilha é pago (7€). O alojamento no hotel custará entre 100 e 300 € por noite.