terça-feira, dezembro 29, 2009

Pristina, Kosovo, Setembro de 2006

Não estranhou o viajante que esta loja afixasse, junto com o horário, a informação de que era proibido fumar. Mais inusitada achou a informação, bem sublinhada – até em inglês, de que se proibia igualmente a entrada a pessoas portadoras de armas de fogo.

terça-feira, dezembro 08, 2009

Cairo, Egipto

Sabia o viajante que a capital do Egipto (e também a maior cidade de África, o mais importante centro islâmico do mundo e a sede da Liga Árabe) é uma megalópole imensamente poluída com perto de vinte milhões de habitantes. Como bem refere algum dos guias da cidade, o Cairo é uma cidade inacabada e inacabável. É inacabada porque, tendo origem no primeiro milénio da nossa era, o que hoje se visita é produto de muitas e diversificadas épocas históricas, que deram à cidade um estatuto de permanente evolução, saltitando entre dominador e dominador. É inacabável porque o êxodo do mundo rural para o centro urbano a tornou imensa e descontrolada. Boa parte da cidade é feita de edifícios construídos com tijolos ainda não revestidos – as construções estão ainda por acabar e nunca acabarão de ser construídas. E são às centenas de milhares os edifícios assim.
Nas zonas que o urbanismo ainda conseguiu gerir as avenidas são larguíssimas e compridíssimas, percorrendo bairros e bairros, que ultrapassam por via de viadutos urbanos, debaixo dos quais se organizam paragens de autocarros, mercados ou apenas parques de estacionamento. Na zona da mesquita e madraça de Al-Azahar e do célebre mercado Khan Al-Khalili, há uma avenida elevada por cima de outra. Numa e noutra o trânsito é caótico. As habituais linhas pintadas no chão, para delimitar as faixas de rodagem, são meramente indicativas, referências opcionais. Formam-se habitualmente muito mais filas de trânsito do que as faixas previstas. A condução é alucinada e arriscada – recorda em particular o viajante uma corrida de táxi, que mais pareceu um jogo de playstation: ultrapassagens, curvas, guinadas, golpes de volante e outras peripécias. É verdade que nas ruas do Cairo haverá, talvez, pelo menos meia dúzia de semáforos. Porém, embora funcionem, ninguém os respeita: têm que ser os polícias de trânsito a regular o fluxo do tráfego. Também não há passadeiras para peões. Atravessar uma avenida larga é sempre uma aventura arriscada e arrojada. Incrivelmente, há poucos acidentes.
Uma das memórias mais fortes que o viajante guarda desta cidade é a do som dos altifalantes dos muezzin, no topo dos minaretes das mesquitas, chamando para a oração por várias vezes ao dia. À hora da prece, das centenas de mesquitas do centro do Cairo sentem-se chamadas, que se sobrepõem uma às outras, atropelando-se e confundindo-se, numa desordenada sinfonia de vozes que ecoam, vindas de todos os quadrantes. Outra das incontornáveis memórias sonoras do Cairo é a do incansável e infindável som de bep-bep, das buzinas de todos os automóveis que circulam. Para os motoristas do Cairo, conduzir significa abrir caminho numa enchente de automóveis, a toques de buzina. Não são toques prolongados e mal dispostos de protestos, como se ouvem noutros países mediterrânicos: são antes pequenos e infindáveis toques repetidos de buzina, para alertar os restantes condutores.
Mesmo pertencendo a África, o Cairo não esconde a sua preferida vertente mediterrânica. Aliás, sofreu ao longo da história invasões de povos de todo o Mediterrâneo e também do Próximo Oriente. Ainda agora sofre pequenas invasões de turistas, em muito menor número do que noutros tempos, pelo receio das ameaças terroristas que vão pairando sobre um país muçulmano moderado, que não acolhe nem apoia extremistas. Para além dos turistas, o país e, em particular a capital, são o destino do mais variado tipo de pessoas: para aqui convergem muçulmanos de todo o mundo, mas também cristãos, da comunidade copta, que congrega um décimo da população do país. A predominância muçulmana não esconde a variedade de culturas que, como sempre aconteceu na história do Egipto, ainda actualmente por aqui se cruzam.
Há visitas imprescindíveis na cidade. O melhor panorama que sobre ela se obtém é o da Cidadela. A Cidadela é um recinto amuralhado, onde foram construídas várias mesquitas. Além disso, alberga quatro pequenos museus. Vale mais a paisagem do que a evocação histórica, nesta fortificação construída pelo mítico general sírio Salah ad-Din al-Ayyubi, conhecido na margem norte do Mediterrâneo como Saladino e famoso por ter derrotado os Cruzados, expulsando-os de Jerusalém, no século XII. A Cidadela é uma visita incontornável, sobretudo ao cair da tarde. Mais tarde, ainda, é a altura certa para visitar o bazar Khan Al-Khalili, com as suas ruas estreitas cheias de vendedores que insistem em chamar os turistas. Não menos turistas se encontram no Museu Egípcio do Cairo, um outro dos locais mais interessantes: nele se podem ver peças que se conhecem desde os livros da escola secundária. Por último, feita a ronda das mesquitas, quanto a património, está o Cairo visto na sua essência.

terça-feira, dezembro 01, 2009

A cerveja checa

O povo checo é o maior consumidor de cerveja do mundo. Cada um dos checos bebe, em média, 155 litros de cerveja por ano, o que dá uma média de meio litro por dia! Os checos consomem ainda mais cerveja que os campeões alemães e os super campeões irlandeses

Em plena Boémia, na sua zona mais ocidental, fica Plzen, onde foi inventada a primeira cerveja do tipo Pilsen, ou pilsener. A origem desta produção tradicional está na Idade Média, quando o rei checo Venceslau II outorgou a um conjunto de famílias da cidade o direito exclusivo de fabricar cerveja, usando os métodos tradicionais, ao estilo de Plzen, portanto. Mais tarde, no século XIX, os descendentes destas linhagens, todos pequenos produtores, acabaram por criar uma empresa de dimensão municipal, a que chamaram Plzensky Prazdroj, onde viria a nascer uma mítica cerveja de cor âmbar claro, que agora se vende em mais de 50 países diferentes: a Pilsner Urquell.

Não muito distante, a poucas dezenas de quilómetros, fica Ceske Budejovice, igualmente um antigo centro cervejeiro, tal como o de Plzen, com origem no século XIII. Aqui se produz a mundialmente famosa Budweiser Budvar, que há alguns anos intentou um processo em tribunal contra o seu representante no mercado norte-americano. Em causa estava o direito sobre o nome da marca. Por esta razão, desde então, nos Estados Unidos esta cerveja é produzida com o petit nom de Bud, ficando o original para a casa checa. Será, talvez, a cerveja mais difundida por todo o mundo.

Um pouco mais a sul fica Cesky Krumlov, uma fantástica vila medieval, classificada como Património da Humanidade pela UNESCO e rodeada pelo rio Vltava. Aqui, as tradições cervejeiras são igualmente medievais mas, ao contrário das de Ceske Budejovice e das de Plzen, a industrialização foi muito mais limitada e a Eggenberg, a cerveja local, não alcançou a dimensão das outras marcas cervejeiras. Talvez por isso, em Cesky Krumlov predominam ainda as pequenas cervejarias, que vendem o seu próprio produto, normalmente muito cerealado e espesso, de cor escuríssima e travo agridoce.

De fora, deixou o viajante até agora outras marcas, como a Gambrinus ou a Staropramen (que se produz no centro de Praga, podendo visitar-se e até almoçar na cervejaria), com igual e merecido prestígio mas sem a mesma marca local e histórica.

domingo, novembro 29, 2009

Centro de Interpretação da Batalha de Aljubarrota, Portugal

Voltou o viajante orgulhoso da visita a este novíssimo centro de interpretação.
Não é o viajante militarista nem adepto da perspectiva segundo a qual a história é uma mera sucessão de feitos guerreiros - pelo contrário. Além disso, sem reservas o diz, gosta o viajante de Espanha, onde se sente como numa segunda pátria; sente os espanhóis como aqueles que, de entre todos os povos do mundo, mais se parecem com os portugueses.
Dito isto e apesar disso, voltou o viajante orgulhoso do feito de Nuno Álvares Pereira, agora São Nuno de Santa Maria e do seu rei, João I de Portugal. Voltou também orgulhoso da tareia que os bravos portugueses deram nos invasores castelhanos, em Agosto de 1385. Mas sobretudo, voltou orgulhoso da forma como este marco incontornável da história nacional é evocado no Centro de Interpretação da Batalha de Aljubarrota.

O Centro está instalado num edifício moderníssimo, funcional, rodeado de árvores da flora mediterrânica. Em volta, foram colocadas placas em locais chave do campo onde decorreu a batalha. É assim possível identificar no terreno o local onde o condestável do reino, Nuno Álvares, instalou o seu posto de comando e ainda alguns vestígios das trincheiras (fossos e covas dos lobos). Esta parte da visita é simbólica, porque o passar do tempo e a acção humana fizeram desaparecer a maior parte dos vestígios dos combates, eles mesmos muito modestos, já que a batalha ocorreu num campo aberto, sem construções.

No interior do centro pode visitar-se uma sala pedagógica onde se reúnem vestígios recolhidos no campo de batalha. Nesta mesma sala há uma exposição explicativa do contexto histórico em que se deu a batalha. É fantástica a ideia de apresentar o período em que se inseriu em forma de dominó, composto por factos que inexoravelmente se empurraram uns aos outros: o casamento do rei D. Fernando com Leonor Teles de Menezes (a 15 de Maio de 1372), o tratado de Salvaterra de Magos (de 2 de Abril de 1383), que previa o casamento da única herdeira de D. Fernando com D. Juan I de Castela e permitia a D. Leonor vir a ser regente do reino, caso o rei falecesse, até à maioridade da filha – o que veio a suceder a 23 de Outubro de 1383 –, a sublevação do povo de Lisboa em defesa do Mestre de Avis (a 6 de Dezembro de 1383) e, por último, as cortes de Coimbra (a 6 de Abril de 1385), nas quais D. João foi aclamado como rei de Portugal. De facto, Aljubarrota foi a inevitável consequência deste dominó de factos, que se empurraram uns aos outros.

Porém, a melhor parte da visita é a apresentação multimédia, com duração de meia hora, que decorre de hora a hora. Por ser muito realista é também um pouco violenta e crua, podendo impressionar os mais pequenos. Mas sem ultrapassar qualquer limite. Esta apresentação relata a sucessão histórica de acontecimentos que antecederam a batalha e recria esta, de uma forma notável. A obra apresentada está ao nível das superproduções da história do cinema, ganhando ainda por ser multimédia. Do melhor nível. E mais não diz o viajante para te deixar a ti, leitor fiel, entre a expectativa criada, alguma margem para surpresa e admiração.

O Centro de Interpretação da Batalha de Aljubarrota (www.fundacao-aljubarrota.pt) fica em São Jorge, junto da antiga Estrada Nacional 1, muito próximo da Batalha, de onde dista meia dúzia de quilómetros. Está aberto das 10 às 19 horas (de Outubro a Abril encerra às 17 horas e 30 minutos). Encerra às segundas-feiras. A entrada custa 7 € (3,5 para estudantes). Aos fins-de-semana há interessantíssimas oficinas para os mais novos.

sexta-feira, novembro 27, 2009

Bolonha, Itália

Chegou o viajante a Bolonha com duas recordações que retirou do seu imaginário de sempre: a do spaghetti à bolonhesa e a da universidade. O prato de massa é conhecido em todo o mundo, mas não o encontrou aqui o viajante, embora o procurasse. Quanto à universidade, essa sim está presente. Há muitos estudantes pelas ruas e várias escolas universitárias. Há, sobretudo, a memória. Tem o nome de Bolonha o actual modelo de formação universitária europeu, o que não terá acontecido por acaso. A cidade tem uma das universidades mais antigas da Europa – e nela a mais antiga escola de direito, fundada em finais do século XII. Diz-se que no século XIII já tinha mais de 10 mil alunos e o seu ensino de direito (na época, romano…) gozava de uma excelente reputação! Foi nesta universidade que estudou direito o Doutor João das Regras, um dos mais insignes juristas portugueses de sempre, personagem fulcral das Cortes de Coimbra de 1385, nas quais foi aclamado rei D. João I.

Em tempos idos, a cidade foi independente, sendo governada, como muitas outras cidades italianas, por poderosas famílias de comerciantes. É talvez por isso que abundam em todas as ruas do centro antigo majestosos palácios com origem, sobretudo, no período do renascimento. Bolonha é, de facto, uma cidade de palácios, porta si, porta sim, no centro histórico. É também uma cidade de arcadas. As ruas e praças principais da zona antiga – a Via dell’ Independenza, a Via Ugo Bassi, a via Farini, entre várias outras, são integralmente bordejadas por arcadas, por debaixo dos palacetes, onde há lojas e onde os transeuntes podem passar abrigados do sol e da chuva. Além disso, destas marcas importantes, notou o viajante que todos os edifícios do centro antigo estão revestidos das mesmas tonalidades, entre o ocre e a cor de tijolo. Não há variações, o que dá ao núcleo histórico uma enorme harmonia.

Na zona do centro antigo ficou o viajante muito impressionado com o Palazzo del Podestá e com a Basílica de San Petronio, ambos na Piazza Maggiore. Aliás, a própria Piazza Maggiore é ela mesma muito bonita. O ambiente é todo renascentista, começando no Pallazo del Podestá, com origem no século XIII e acabando no Pallazo Comunalle (construído entre o século XIII e o século XVI). Pelo meio, fica sobretudo a imponente Basílica de San Petronio (começada no séculoXIV, mas sobretudo marcada pelo século XV). Sem a finura decorativa de outros templos italianos da mesma época, é enorme e imponente. Não longe, reteve também o viajante o Pallazo dell’ Archiginnasio, onde está instalada a biblioteca universitária e as incríveis torres inclinadas da Piazza di Porta Ravegnana. Estas últimas, são duas insólitas construções do início do século XII, muito esbeltas e altas, pertencentes em tempos a duas poderosas famílias locais que, com elas pretendiam demonstrar o seu poder, ao mesmo tempo que na sua altura representavam as causas que defendiam. Uma delas tem cerca de 50 metros de altura e a outra cerca do dobro disso. Para subir ao topo da mais alta delas há que vencer 486 degraus. Não o fez o viajante: as torres estão há muito inclinadas, como a célebre congénere de Pisa e por isso instáveis (em particular a mais pequena delas). Decorrem trabalhos de recuperação e de consolidação.

Bolonha é actualmente um importante centro industrial e comercial e isso é visível na cidade. É também um centro de feiras e exposições, por ficar no centro geográfico da bota italiana: por aqui passam as grandes ligações ferroviárias e rodoviárias entre o norte e o sul.
Talvez por isso, a cidade é conhecida como referência gastronómica. Mesmo não tendo o viajante provado o spaghetti que trazia na lembrança, provou outras muitas coisas – massas, entre elas -, talvez menos familiares para quem não é daqui, mas nem por isso menos saborosas.Bolonha tem ligação diária da TAP e por isso é de muito fácil acesso a partir de Lisboa. A melhor forma de chegar ao centro histórico, a partir do aeroporto, é apanhar o Aerobus, no próprio terminal. A viagem até à estação central de comboios dura meia hora e custa 5 euros.

quarta-feira, novembro 25, 2009

Rossio,Lisboa

..."prefira a lotaria Casa Travassos..."
..."e terá dinheiro aos maços..."
(sem mais comentários)

quarta-feira, outubro 07, 2009

Kato Paphos, Chipre

A existência deste parque arqueológico surpreendeu o viajante. Pela área que ocupa e pelo imenso significado dos vestígios que reune. Kato Paphos é a estação arqueológica mais importante de Chipre. É também a mais popular e de fácil acesso, já que fica mesmo junto do mar e do porto de Pafos. Tem um imensop parque de estacionamento e na povoação anexa há hotéis, restaurantes e lojas de souvenirs. O recinto está aberto diariamente das 8 às 18 e o bilhete custa 3,4 €.
Kato Pafos foi uma importante cidade do baixo-império romano. No período romano foi mesmo a capital e mais importante cidade da ilha. Mas terá sido fundada muito antes, pelo século IV AC. Um século depois veio a ser incorporada no reino ptolomaico, de Alexandria, que aproveitou a sua excelente posição estratégica, dominando o Mediterrâneo oriental. É sobretudo do período romano que se conservam vestígios arqueológicos.

De facto, foram encontrados em Kato Pafhos importantíssimos vestígios de quatro “villas” romanas, todas elas abundantemente decoradas com mosaicos, espantosamente bem conservados. Uma delas é conhecida como Casa de Dionísio e foi a primeira a ser descoberta, em 1962. Visita-se sobre estrados de madeira, para que possam apreciar-se os 500 metros quadrados de mosaicos que cobrem o seu solo. A casa ficou assim apodada por abundarem nela mosaicos com motivos alusivos ao deus romano do vinho. Datará, talvez, do século II e foi destruída pelos terramotos que abalaram Chipre nos séculos IV e V.Os mosaicos desta casa deixaram ao viajante a impressão de estar perante um legado fantástico, de enormíssima dimensão e riqueza, que apenas encontra paralelo nas grandes estações arquelógicas romanas, como Pompeia.

Outra das “villas” é a casa de Teseu, talvez do período helenístico, que julga-se ter correspondido à casa do governador romano de Chipre e que foi sendo utilizada até ao século VII. Esta casa de habitação tinha uma dimensão enorme (ocupava um quadrilátero de 120 metros por 90 metros). O nome desta casa ficou a dever-se à descoberta de um mosaico, que ainda se conserva, no qual se descreve o mito clássico de Teseu e do Minotauro.

Kato Pafhos tem ainda em visita as casas de Orfeu e de Aion e o Odeon, anfiteatro bastante restaurado, actualmente utilizado em concertos de verão. São por último visitáveis os vestígios da ágora, apenas perceptível e do asklepeion, em igual condição. Dentro do recinto fica ainda o castelo bizantino Saranda Kolones que, apesar de interessante, parece desprezível depois da visita aos mosaicos romanos.
O conjunto é património classificado pela Unesco.

quarta-feira, agosto 26, 2009

Los Roques, Venezuela

Há muito poucos destinos onde o viajante tenha sentido vontade de ficar. É certo que há imensos paraísos desconhecidos que se vão encontrando, sem esperar, aqui e ali. Porém, nem todos os ditos paraísos deslumbram. E Los Roques foi especial. É um conjunto de ilhas de areia, acumulada sobre formações de coral, onde entretanto cresceu alguma escassa vegetação tropical, dando origem a um exuberante arquipélago de praias de areia branquíssima, onde batem águas muito quentes, que variam de entre tonalidades verdes esmeralda e azul turquesa.

Chegou o viajante, como toda a gente, de avião, vindo de Caracas. Ia dirigido a uma posada, que encontrou na Internet. Sabem bem os visitantes de Los Roques que o alojamento em Gran Roque, a única ilha povoada, é adequado ao nível de protecção ambiental do local: desde 1972 é proibido construir nas ilhas e, consequentemente, todas as posadas são antigas casas de pescadores, um pouco melhoradas, para acolher turistas. Garantem algum conforto, em alojamento familiar e hospitaleiro, mas estão muito longo dos padrões internacionais de conforto. E hotéis, não há. Esta opção teve, porém, desde logo a vantagem de garantir apoio local, desde o desembarque até à entrada no avião de volta. A posada (http://www.posada-acquamarina.com) encarregou-se de organizar programas e refeições, o que num povoado perdido numa ilha perdida no Caribe não foi nada desprezível.

Deixando os areais brancos, optou o viajante por percorrer algumas das ilhotas, a bordo de um dos muitos barcos que oferecem o transporte para as praias, parando aqui e ali. Isso permitiu-lhe ver sítios dos mais belos onde já passou: mar de tonalidades incríveis e indescritíveis, com peixes a nadar aos pés de quem tomava banho e praias de anúncio de televisão.

Los Roques são mais de 40 ilhas e duas centenas de recifes de coral, dispostos em volta de uma imensa laguna central. Ficam a um pouco menos de uma hora de voo do aeroporto de Caracas, cerca de 170 quilómetros distantes da costa da Venezuela. Vários operadores privados fazem a ligação aérea, a partir do aeroporto nacional de Caracas.

Além de Gran Roque, as ilhas de acesso mais fácil são Franciquí, Madrisquí, y Crasquí, a cinco minutos de barco. Mas o viajante menos turista deverá ir também a Espenky, com excelentes praias desertas, de água verde, a Cayo de Água, no extremo ocidental, com a praia mais bonita ou a Dos Mesquises, onde está baseada a Fundação Científica Los Roques, que desenvolve um interessante programa de protecção das tartarugas marinhas.

Los Roques tem cerca de mil habitantes permanentes, a maior parte dos quais trabalhando em actividades de turismo ou com ele relacionadas. O arquipélago é desde 1972 parque nacional, pela importância e diversidade dos seus corais, pela inúmera variedade de crustáceos (identificaram-se aqui 200 espécies diferentes), moluscos (existem aqui 140 espécies), equinodermes (45 espécies), esponjas (60 espécies) e peixes (nadam por aqui 280 espécies diferentes). Além disso, nidificam no arquipélago mais de 90 espécies de aves e quatro tipos diferentes de tartarugas marinhas, consideradas em risco.

terça-feira, agosto 25, 2009

Pistas de Dinossáurios da Serra de Aire

Há um pouco mais de uma década, o tema dos dinossáurios estava em moda. Depois da saga dos vários episódios de Jurassic Park, de Steven Spielberg, baseado nas histórias de Michael Crichton, surgiram imensas exposições científicas de vestígios de dinossáurios. Em Portugal, calhou descobrirem-se nessa altura vestígios de pegadas que não se conheciam antes, o que impulsionou a protecção e divulgação das outras, já antes conhecidas. Descobriu-se Carenque e a Pedreira do Galinha e ficou a saber-se mais da Lourinhã e da Praia Grande.
Passou o viajante na Pedreira do Galinha, depois destes anos todos de espera, com grande expectativa. E a expectativa foi correspondida pela grandeza do local, bem como o foi pela forma como está organizada a visita. As instalações deste Monumento Natural (assim classificado em 1996) são eficazes, embora modestas. Além da bilheteira, há uma pequena loja, com bebidas frescas e serviços sanitários. Talvez a grandeza do local merecesse renovação e modernização.

A jazida de pegadas de dinossáurios da Pedreira do Galinha foi descoberta em 1994. Calcula-se que será do período Jurássico tendo provavelmente 175 milhões de anos. Consiste no registo, na pedra calcárea, de pegadas de saurópodes, que eram dinossáurios herbívoros, quadrúpedes, com a cabeça muito pequena e a cauda muito longa. O seu corpanzil era enorme – poderia medir 30 metros de comprimento e pesar 70 toneladas! Julga-se que os saurópodes terão sido os maiores animais terrestres que já existiram.
Quanto aos trilhos da Pedreira do Galinha, são os mais antigos e mais longos trilhos de pegadas de saurópodes que se conhecem em todo o mundo. A visita consiste num percurso, de 1000 metros, em volta da antiga pedreira. A zona de laje calcária visitável tem cerca de 60 mil metros quadrados e reúne centenas de pegadas, em cerca de duas dezenas de pistas.

Supõe-se que as pegadas terão sido impressas em lama calcária, talvez no fundo de uma lagoa. Depois, essa lama terá sido coberto por outras camadas de sedimentos que, com o decurso do tempo, ao longo de milhões de anos, se converteu na pedra calcária que hoje pode observar-se.

O Monumento Natural fica na vertente oriental da Serra de Aire, virada para a bacia do rio Tejo, no concelho de Ourém, mesmo junto da localidade de Bairro, integrada no Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros. A partir de Fátima, chega-se por estradas secundárias, nem sempre bem sinalizadas, e dista 10 quilómetros. De Torres Novas, dista 16 quilómetros e as estradas não são melhores.
Pode visitar-se todos os dias (com excepção das 2ªs feiras), das 10 às 18 horas, mas fecha à hora de almoço (das 12:30 às 14 horas). O bilhete de entrada custa 2 € para adultos e 1 € para crianças. Ver mais em
www.pegadasdedinossaurios.org.

segunda-feira, agosto 24, 2009

Palácio da Música Catalã, Barcelona

Há poucos ícones mais representativos do orgulho catalão do que o Palau de la Musica Catalana, sede do Orfeó Catalá.
O Orfeó foi fundado no fim do século XIX, como forma de dar continuidade ao tradicional canto popular catalão, cantado por músicos amadores, que na época estava em declínio. Escabeçou esta iniciativa o maestro compositor catalão Luís Millet, que conseguiu com o desenvolvimento do Orfeó renovar e dar mais vigor à música vocal regional. Mais tarde, o próprio Orfeó, já próspero, comprou um conjunto de edifícios velhos, no popular bairro de Sant Pére. Para renovaro local, encomendou ao arquitecto catalão Francesc Domenec i Muntaner o projecto de uma nova sala de espectáculos.
Este percurso está pois indelevelmente marcado pelo cunho autonomista e nada poderia dar mais voz a este orgulho que a escolha de um arquitecto de aqui e de um estilo que nasceu na Catalunha. De facto, o Palau, uma impressionante demonstração de criatividade, é uma das manifestações arquitectónicas mais exuberantes que o viajante teve oportunidade de observar. Quiçá ainda mais exuberante e colorida que qualquer das obras de Gaudí.
Impressionou o viajante, sobretudo, o detalhe: por exemplo, milhares de rosas em cerâmica revestem os tectos; colunas em vidro amarelo transparente apoiam os corrimões das escadas de acesso aos pisos superiores; as janelas, todas elas, estão decoradas com motivos florais. Depois, a sala de concertos, com a magnífica cabeceira onde está o palco. Profusa decoração, meia em terracota, meia em ladrilhos, para dar forma às musas inspiradoras. E, cereja em cima do bolo, a clarabóia de vitral colorido, no tecto central da sala, que dá imensa vida e alegria ao recinto.
É verdade que o exterior do velho Palau, as fachadas encaixadas na malha urbana de Sant Pére (e por isso extremamente difícil de fotografar…) já valem a deslocação. Mas a visita ao interior é imprescindível para bem poerceber a essência da arquitectura modernista.
Só é possível visitar o edifício em visitas guiadas, a horas fixas (das 10 às 15h30), sendo recomendável comprar o bilhete com antecedência (é possível fazê-lo na Internet – www.palaumusica.org), porque há sempre grande procura. A entrada custa 12 € (mais 1€ de taxa para marcações na Internet).
O Palau fica no centro de Barcelona, próximo da Via Layetana, a apenas 10 minutos a pé, da Plaça de Catalunya.

domingo, agosto 23, 2009

Marte em Agosto

Recebeu o viajante uma inflamada mensagem de correio electrónico (como provavelmente tu, leitor), apelando para o seguinte: Marte, o planeta vermelho, está a passar perto da Terra e atinge o ponto mais próximo no dia 27 de Agosto. Por isso, ficará mais brilhante e parecerá, no céu, uma segunda Lua Cheia. Dizia ainda a dita mensagem que, por razões decorrentes da sua órbita, Marte iria passar apenas a 56 milhões de quilómetros da Terra, o que já não acontecia há 60 mil anos, razão pela qual o fenómeno tinha sido visto pela última vez pelos “neandertais”. E mais: só voltaria a ser assim em 2287.
Estranhou o viajante, por não se prever Lua Cheia para esta semana. Pelo contrário, hoje mesmo, lá pelas seis da tarde, conseguiu ver que a Lua saia da fase de Lua Nova e iniciava o percurso para Quarto Crescente (estava ainda bem alta no céu, àquela hora). Por outro lado, daqui a 2287 faltam menos de 60 mil anos…
Virou o viajante o nariz para o céu e viu Marte – ou pelos menos acredita ser Marte -, um pouco acima do horizonte (a foto acima foi tirada a 22 de Agosto, pelas 10 da noite, nos campos do Ribatejo). Estava brilhante, mais que todas as estrelas do firmamento, mas parecia nenhuma segunda lua. Julga tu, leitor, pelo que consegues ver.

Uma pesquisa rápida na Internet permitiu tirar dúvidas: de facto, de vez em quando, Marte passa mais perto da Terra. Mas nem sequer é o caso de 2009. Já foi assim em 2003, ano em que passou aos tais 56 milhões de quilómetros (foi a maior aproximação desde havia muito) e voltou a ser em 2007 (passou a cerca de 88 milhões de quilómetros – o que é muito, comparado como os 100 milhões que se esperam para 2010).
Ficou o viajante com o consolo de, sem Lua, poder ver bem outras coisas: quando tirou a fotografia acima, conseguiu identificar, mesmo no centro, a constelação do Cisne e logo acima, sobre a esquerda, a constelação da Lira (e a sua brilhantíssima estrela Vega). Mais à esquerda, próximo do canto superior, a constelação da Águia. Na margem da fotografia, à esquerda, quase toda a Cassiopeia. E do lado oposto, à direita, o Golfinho. Ao fundo, parte do Dragão.
E se não é assim, assim pareceu ao viajante.

sábado, agosto 22, 2009

Museu da Electricidade, Lisboa

Não saindo de ao pé de casa, em visita de domingo de manhã, descobriu o viajante o Museu da Electricidade de Lisboa, na antiga Central Tejo, à beira-rio. Fica na Avenida de Brasília, entre a linha-férrea de Cascais e o Tejo. O edifício onde está instalado é incontornável, até pela sua dimensão, na frente ribeirinha da capital. O museu está aberto de terça-feira a domingo, das 10 às 18 horas.
O conjunto actual é o resultado de obras de recuperação profundas, que terminaram em 2005 e deixaram ao viajante duas fantásticas visitas: por um lado, à central eléctrica, tal como ela seria em tempos em que ali se produzia energia; por outro, à cave, onde foram instalados equipamentos didácticos, destinados aos mais novos. Estes últimos constituem um museu interactivo, dos modernos, orientado para a percepção do fenómeno da electricidade, para a segurança e para as diversas formas de produzir e de utilizar a electricidade na vida moderna.

Quanto ao edifício, tem a patine dos velhos edifícios da revolução industrial, a fazer recordar Manchester ou os subúrbios de Londres. Fachadas altas e elegantes, em tijolos, rasgadas por enormes janelas envidraçadas. O interior é imponente: grandes galerias e complexas naves, recheadas de sofisticados equipamentos – todos eles já um pouco com perfil vintage.

sexta-feira, agosto 21, 2009

Vale do Reno, Alemanha

Bacharach (www.bacharach.de), Junho de 2009

quinta-feira, agosto 20, 2009

Museu do Ar, Alverca

Aviões, cockpits, viagens aéreas e travessias épicas ou grandes combates aéreos, são temas claramente masculinos. Cheiram a óleo, a fumo e a motores ruidosos, tudo transpirando adrenalina. É este o ambiente que se encontra no Museu do Ar, da Força Aérea Portuguesa, em Alverca, às portas de Lisboa.

Revisitou-o agora o viajante, no ano em que faz 40 anos (foi oficialmente inaugurado a 1 de Julho de 1969). Aquilo que encontrou, foi um ambiente modernizado e muito acolhedor. O Museu do Ar é um museu pequeno, caseiro e familiar. Mas nem por isso modesto ou desinteressante.
Além de muita informação histórica sobre o passado da Força Aérea Portuguesa, disponibiliza vários modelos de aviões comerciais e, sobretudo, de combate. Destacam-se réplicas de modelos emblemáticos, como por exemplo o Cruzeiro do Sul (gémeo do Santa Cruz), no qual Gago Coutinho e Sacadura Cabral atingiram o Brasil, depois de atravessarem o Atlântico Sul, partindo de Lisboa.

O Museu do Ar é um destino familiar. Tem visitas das 10 às 17 horas (no verão, até às 18 horas). Está fechado às segundas-feiras, no Natal, Ano Novo e no Domingo de Páscoa.
Fica em Alverca do Ribatejo, a cerca de 15 quilómetros de Lisboa, junto da estação dos caminhos-de-ferro (Linha do Norte). De Lisboa, chega-se pela A1, derivando na saída de Alverca (
http://www.emfa.pt/www/po/musar).