sábado, janeiro 09, 2010

Moscovo

Henri Cartier-Bresson, o mítico fotógrafo viajante francês do século XX, fundador (com Robert Capa), da Agência Magnum, em Nova Iorque, percorreu a URSS na década de 1950, altura em que muito poucos cidadãos de países ocidentais logravam tal façanha. Quando chegou, de comboio, a Moscovo, ficou extasiado pela dimensão da cidade. Registou nas suas anotações que se sentiu como um campónio que chegou à cidade.
De certa forma, também assim se sentiu o viajante, ao chegar à maior cidade da Europa – no início do século XXI, Moscovo terá cerca de 10 milhões de habitantes). Mas a grandeza da cidade não é de agora. Esta cidade gigantesca foi capital da Rússia desde a Idade Média até que o Czar Pedro o Grande a transferiu para São Petersburgo, no início do século XVIII. Voltou a ser de novo capital após a revolução bolchevique, de 1917.

Nela anotou o viajante a rede de metro gigantesca mas muito eficaz e a imensa teia de aranha de vias rodoviárias, que percorrem a zona urbana e os subúrbios. Por todo o lado se encontram zonas arborizadas, a separar os bairros. Estes bairros, ainda herdados do regime comunista, são todos imensos, muito cinzentos e todos iguais uns aos outros. Percebe-se que até há 20 anos eram dormitórios sem vida nem actividade. É curioso como após a implantação da economia de mercado, nas zonas de passagem de pessoas, por exemplo, junto das saídas do metro, surgiram pequenas lojas improvisadas que vendem bens de primeira necessidade. Será, talvez, a forma como a cidade supre a falta de comércio de bairro estruturado.

Faltaram ao viajante os cafés e bares (apenas encontrou barracas na rua com o nome de café) e lamentou que todos os restaurantes estejam no centro e sejam muito caros.De facto, parece que são uma das inovações do capitalismo que a população russa ainda não pode pagar: aqueles que querem beber uma cerveja, compram a lata numa dessa barracas e bebem na rua. Também só há táxis no centro. Em alternativa aos transportes públicos é por isso muito frequente ver pessoas nos passeios, na beira da estrada, a pedir boleia – o sistema supõe que quem vá de boleia pague uma pequena quantia ao condutor, acordada antes de entrar no veículo.

Na rua, as pessoas são taciturnas e não sorriem nem falam, a não ser que seja necessário. Não se cumprimentam quando se dirigem a outras – para comprar coisas, por exemplo; também não desejam bom dia nem agradecem nada, por rotina; dizem apenas o indispensável. Do outro lado de Moscovo estão os novos-ricos, herdeiros por processos pouco claros da nomenklatura do regime soviético.

sexta-feira, janeiro 08, 2010

Podgorica, Montenegro

Leu o viajante, durante a sua estadia na capital da nova República de Montenegro, que “Podgorica é um sítio para chegar, fazer o que tem que se fazer e andar”. Assim fez e não se arrependeu. De facto, a capital deste estado balcânico, até 2006 integrante de uma federação herdeira da antiga Jugoslávia, tem muito pouco interesse.

Nada tem o viajante contra a Baixa da Banheira, cujo nome conhece, mas onde nunca foi. Não sabe exactamente se o impressionismo do nome desta localidade da margem sul do Tejo espelha a realidade daquela terra. Porém, ao chegar a Podgorica, teve o viajante a sensação de poder ter chegado à Baixa da Banheira. A cidade não é grande e tem algumas avenidas largas, traçadas em época moderna, no tempo em que se chamava ainda Titograd e se integrava na Jugoslávia. Além disso, tem bairros antigos, sem charme ou interesse algum, que parecem antigas aldeias negligenciadas da periferia de Lisboa que, com a pressão imobiliária foram envolvidos por urbanizações massivas.

Tem o viajante encontrado por este mundo fora países pequenos com cidades e capitais com muita alma. Mas não foi o caso desta cidade, capital de Montenegro. Ficou-lhe a impressão de um enorme subúrbio, sem garra, com uma ou outra estátua a ocupar o lugar cêntrico de um jardim degradado. Pelo contrário, os habitantes revelaram-se gente dinâmica, alegre e activa. Passeiam pela cidade e desfrutam das comodidades urbanas pela noite dentro. Podgorica, com pouco mais de 100 mil habitantes tem casinos que funcionam 24 horas por dia!

quarta-feira, janeiro 06, 2010

Txapela, taberna vasca, Barcelona.

Não tem o viajante recomendado muitos restaurantes por aqui. E quando o tem feito é, em regra, para referir um outro tipo, no qual não cabe o Txapela. É um bar de tapas, á espanhola, podendo comer-se nas mesas ou também no balcão. É animado, sempre com muito ruído de copos e pratos a serem servidos. Sendo em Espanha, claro que atravessam o ar imensas conversas em voz alta.

As tapas e os pintxos são uma fórmula de sucesso. Recorda o viajante que há já vários anos que chegaram a Portugal e foram muito bem sucedidos. As tapas são baratas e não empanturram. E são o melhora acompanhamento para uma “copa”. No Txapela servem Estrella Damm, talvez a melhor cerveja espanhola.

E a acompanhá-la, “xistorra”, linguiça de Navarra, condimentada, mais dura e consistente que o “sagardoa”, chouriço mais macilento, mas muito saboroso, cofitado em cidra. Ou então “arantxa” que é uma das campeãs – espetada de gambas, cogumelos e bacon, temperados com ervas e flor de sal. O “pop” é uma espetada de rodelas de polvo em vinagrete. Do mesmo género é o “vizcaya”, espetada de lagostim, salmão e maruca, com pimento picante, de piquillo. A “esquixada”, é uma receita catalã: salada de bacalhau picado com tomate e azeite. Já a “urola”, ou escalivada com anchovas, é uma receita maiorquina, onde predominam legumes assados no forno. Quanto ao “txiki”, são peixinhos em vinagrete. Além de muitos outras, que o viajante não conseguiu degustar, podem tomar-se ainda outras tapas e pintxos mais vulgares, como o “ibèric”, tapa de presunto serrano, ou o “patxi aizpuru”, de salmão fumado com queijo fresco.
O Txapela fica no Passeig de Gracia, nº 8, 08007 Barcelona (telefone 93.412.0289).

segunda-feira, janeiro 04, 2010

Vilnius, Lituânia

Na capital Lituana, em Dezembro de 2009, ficou o viajante a saber que tinham aberto os saldos de Drogas. Conseguiu descobrir que Drogas é uma cadeia local de perfumarias…

sábado, janeiro 02, 2010

Pipa, Rio Grande do Norte, Brasil

A imprensa de viagens fez de Pipa uma das mecas dos turistas que procuram o nordeste brasileiro. O cliché é perfeito: clima fantástico, praias paradisíacas, preços baratos e a garantia de um povo amigável e simpático; para portugueses ainda a facilidade da língua e a similitude de hábitos com os locais.
Calhou ao viajante passar por perto e o apelo parecia magnético e irrecusável. Por isso, lá foi o viajante de carro, vindo de Natal. A viagem durou cerca de duas horas, em parte por estradas nacionais e em parte por estradas estreitas, através de aldeolas no mato.


Há autocarros a partir da capital do Rio Grande do Norte, mas é bem sabido o desconforto, a imprevisibilidade e insegurança dos transportes públicos neste tipo de paragens. O “vilarejo”(é a expressão local) de Pipa é na verdade um lugarejo de uma só rua, estreita e sinuosa, rodeada de velhas casas de pescadores, agora transformadas em “creperias” ou “mercadinhos”, ou lojas de artesanato. Todas elas pouco cuidadas e sem sofisticação alguma. Parece o Algarve, nos anos setenta, mas em versão tropical.

A condizer, o ambiente é descontraído. Leia-se desorganizado, quase a querer evocar a herança hippy. Aliás, Pipa foi “inventada” por hippies que aqui chegaram nos anos 70 e ficaram, abrindo “pousadas” caseiras e descontraídas, familiares e pouco exigentes. É verdadeiramente uma estância de férias alternativa, para desportistas e artistas livres.

Dito isto, tem o viajante que esclarecer que, apesar disso, gostou da jornada e até a recomenda. Na verdade, próximo de Pipa há praias como nenhumas outras que o viajante conheça na costa brasileira. Além da Praia do Amor (assim conhecida porque a linha da areia lembra a forma de um coração…), merece particular referência a Praia do Madeiro. É uma linha de areia finíssima encosta a uma falésia de argila, coberta de densa floresta atlântica. Em frente, a Ponta do Madeiro é uma zona de reserva natural, de acesso restrito: aqui vêm regulartmente desovar tartarugas marinhas. O acesso à Praia do Madeiro é feito por uma rude escada construída por troncos de coqueiros, formando degraus (170!). Lá em baixo, há um ou dois bares de praia, mas não há energia eléctrica. E tudo o que se vende foi carregado às costas…
É quase ofensivo deixar dito que a água é limpa. É claro que é limpa! E quente. Muito quente mesmo! E se o banhista tiver sorte verá golfinhos, a nadar ou a saltar nas ondas, à frente do seu nariz. Ouviu o viajante este discurso ao motorista que o conduziu desde Natal e logo identificou a conversa típica de guia turístico… Porém, a verdade é que na curta hora que aqui acabou por passar, os golfinhos apareceram, a meio da baía, a talvez 100 ou 200 metros do areia, indiferentes às poucas dezenas de banhistas que por aqui andavam.

Pipa fica no município de Tibau do Sul, 80 quilómetros a sul de Natal. A estrada de acesso é sempre asfaltada, embora em boa parte seja sinuosa, atravessando campos de coqueiros e enormíssimas extensões de cana-de-açúcar. Além, claro, de povoados muito pobres. A alternativa é o percurso da praia, muito mais curto, mas igualmente demorado. Faz-se de buggy, pela areia, aproveitando a maré vazia.

sexta-feira, janeiro 01, 2010

Minde, Alcanena, Santarém

Em Agosto de 2009, andava o viajante à procura do falar minderico quando viu esta placa, colocada na estrada, na entrada desta vila ribatejana, à beira num campo de eucaliptos, cercado por um muro de tijolos nus. E sorriu, mas não sabe o viajante porque lho recomendavam.

quinta-feira, dezembro 31, 2009

Mosteiro de Kyiv-Pechersk Lavra, Kiev, Ucrânia

O leste da Europa – e em particular o território anteriormente correspondente à União Soviética -, tem-se revelado ao viajante como uma caixa de surpresas. No passado, o acesso turístico a estas terras estava vedado. Desde logo, porque era impossível ir lá. Mas sobretudo porque sobre elas pairava um véu místico, de medo do KGB, do controlo militar e da asfixia exercida pela estrutura do partido comunista. Kiev, capital da Ucrânia, foi a terceira da União Soviética. Foi uma das suas cidades emblemáticas – foi até uma cidade modelo socialista.

Porém, já muito antes disso, a Ucrânia tinha sido um dos centros mais importantes da igreja ortodoxa aquando do grande cisma do ocidente. Foi da Ucrânia que a religião se expandiu para a própria Rússia. E, na Ucrânia, o coração da Igreja Ortodoxa foi o Mosteiro de Kyiv-Pechersk Lavra, actualmente no limite urbano de Kiev, a sul da cidade. O mosteiro foi fundado no século XI e é ainda hoje em dia um dos lugares mais santos da igreja ortodoxa. É mesmo o maior lugar de culto e peregrinação da Ucrânia. Terá sido fundado no ano de 1051, por monges que já aqui viviam, em grutas. Estas grutas ainda hoje em dia guardam as sepulturas, que são visitáveis, de monges.

Teve o viajante oportunidade de visitar um mosteiro restaurado, reluzente nas suas cúpulas, pintado e lavado. Porém, o mosteiro teve ao longo da história muitas vicissitudes, sendo por diversas vezes destruído. A versão actual é sobretudo resultado de obras do século XVII e de obras de reconstrução, após a segunda guerra mundial, na segunda metade do século XX. Durante o estalinismo o mosteiro foi gerido pelo Estado e só após a queda do comunismo e a declaração da independência de Ucrânia voltou a ter monges e a presença da Igreja Ortodoxa. Actualmente, funciona aqui um seminário e aqui reside o chefe máximo da Igreja Ortodoxa da Ucrânia.

O mosteiro é também património da Unesco e, achou o viajante, só ele já justifica uma visita a Kiev. A visita faz-se sobretudo às várias igrejas. Nelas, impressionaram o viajante as cúpulas douradas, em forma de cebola, que as coroam. Bem se vê que são recentes, muito polidas e brilhantes, mas nem por isso deixam de deslumbrar. De entre as igrejas sobressai a rica catedral da “Dormition” e a respectiva fachada decorada, restaurada recentemente, após muitos séculos de sucessivas destruições. É actualmente um panteão de ilustres ucranianos. Ao lado, merece visita o edifício do antigo refeitório dos monges, com igreja anexa. Também magnífica, achou o viajante, é a torre do campanário, com mais de 96 metros de altura e extensamente decorada. Quanto às outras igrejas, a de Todos os Santos, do século XVII, é das mais originais. E ainda se podem visitar a Igreja da Natividade e a Igreja da Exultação da Cruz.

O espaço é vedado e a entrada, com horário, é paga. Foi o viajante auxiliado na compra do bilhete pelo seu intérprete que talvez o tenha igualmente ludibriado na conversão para a moeda local. Normal… Evidentemente, nesta terra de escassíssimos turistas (e muito menos estrangeiros), o preço apenas está afixado em ucraniano (em caracteres cirílicos). E raras são aqueles que falam língua estrangeiras. Em todo o caso, há outras entradas, para além da principal, por onde entram os locais. Por aqui não se cobram bilhetes nem se limitam as visitas à entrada até às 5 da tarde. Além do bilhete é importantíssimo comprar também um guia com mapa, porque o recinto do mosteiro é grande e não há indicações para visitantes. O Mosteiro de Kyiv-Pechersk Lavra fica a cerca de 3 quilómetros do centro de Kiev. O acesso por táxi será fácil e não será caro. Também será fácil chegar em autocarro e há uma estação de metro a menos de um quilómetro. A pé, chega-se do centro em 40 minutos e o passeio é agradável, pelos jardins sobranceiros ao rio Dniepr.

quarta-feira, dezembro 30, 2009

São Pedro do Sul, Beira Alta, Portugal

Pelos vistos, a fama do local e do poder curativo das águas de São Pedro do Sul já vem do tempo da ocupação romana da Península Ibérica. Esta constatação não foi novidade ou surpresa para o viajante: a generalidade das actuais termas portuguesas foi “descoberta” e explorada pelos romanos, que nelas buscavam a tal SPA, ou salute per aquam.
Aquilo que o viajante encontrou em São Pedro do Sul, em visita invernal, foi uma pequena terra de província, calma e adormecida. Talvez no verão o sítio seja mais animado.
Encontrou uma bonita zona fluvial, muito bem arranjada. E o resto do centro da terra igualmente cuidado. Quanto às águas, muito quentes, não as experimentou o viajante, mas soube de quem o fez que fazem bem ao aparelho digestivo e ao reumatismo.
No antigo regime, São Pedro do Sul era local de férias familiares de reformados e pensionistas, que aqui passavam temporadas em tratamentos, em ambiente modesto e português suave, com recato, sobriedade e frugalidade. Este estereotipo caiu em desuso e já não se adequa às exigências modernas. Por exemplo, ao antigo Grande Hotel, não bastava ter no seu currículo festas no salão e a aura de hotel de época: por isso se renovou.
Calhou ficar o viajante no Hotel Inatel Palace, uma versão melhorada do antigo Grande Hotel de São Pedro do Sul. Este hotel clássico foi inaugurado em 1930 e, na altura, tornou-se conhecido por ter mais de 100 quartos e pelo seu enorme salão, onde se realizaram imensas festas e bailes que ficaram célebres. Veio a ser propriedade da FNAT, instituição antiga, antecessora do INATEL, que comprou o hotel em 1959, altura em que estava já em decadência. Foi renovado e agora passou a ter apenas 77 quartos, melhores que os antigos. Mantém o magnífico salão, agora como restaurante. Esta versão moderna passou a ser menos pretensiosa. Continua a ter peneiras e a ser provinciana, mas está muito mais agradável. As instalações são confortáveis e a decoração foi cuidada. Sem luxo (diárias a rondar os 30 ou 40 €) propicia estadias tranquilas. Talvez falhe um pouco no serviço de restaurante.
São Pedro do Sul fica a 28 quilómetros de Viseu, com acesso a partir da A25, antigo IP5. O percurso demora meia hora, por estradas sinuosas, embora em geral em bom estado. O Inatel Palace fica muito próximo das termas. Mais informações podem ser obtidas em www.inatel.pt, embora o site seja muito fraco e de difícil consulta.

terça-feira, dezembro 29, 2009

Pristina, Kosovo, Setembro de 2006

Não estranhou o viajante que esta loja afixasse, junto com o horário, a informação de que era proibido fumar. Mais inusitada achou a informação, bem sublinhada – até em inglês, de que se proibia igualmente a entrada a pessoas portadoras de armas de fogo.

terça-feira, dezembro 08, 2009

Cairo, Egipto

Sabia o viajante que a capital do Egipto (e também a maior cidade de África, o mais importante centro islâmico do mundo e a sede da Liga Árabe) é uma megalópole imensamente poluída com perto de vinte milhões de habitantes. Como bem refere algum dos guias da cidade, o Cairo é uma cidade inacabada e inacabável. É inacabada porque, tendo origem no primeiro milénio da nossa era, o que hoje se visita é produto de muitas e diversificadas épocas históricas, que deram à cidade um estatuto de permanente evolução, saltitando entre dominador e dominador. É inacabável porque o êxodo do mundo rural para o centro urbano a tornou imensa e descontrolada. Boa parte da cidade é feita de edifícios construídos com tijolos ainda não revestidos – as construções estão ainda por acabar e nunca acabarão de ser construídas. E são às centenas de milhares os edifícios assim.
Nas zonas que o urbanismo ainda conseguiu gerir as avenidas são larguíssimas e compridíssimas, percorrendo bairros e bairros, que ultrapassam por via de viadutos urbanos, debaixo dos quais se organizam paragens de autocarros, mercados ou apenas parques de estacionamento. Na zona da mesquita e madraça de Al-Azahar e do célebre mercado Khan Al-Khalili, há uma avenida elevada por cima de outra. Numa e noutra o trânsito é caótico. As habituais linhas pintadas no chão, para delimitar as faixas de rodagem, são meramente indicativas, referências opcionais. Formam-se habitualmente muito mais filas de trânsito do que as faixas previstas. A condução é alucinada e arriscada – recorda em particular o viajante uma corrida de táxi, que mais pareceu um jogo de playstation: ultrapassagens, curvas, guinadas, golpes de volante e outras peripécias. É verdade que nas ruas do Cairo haverá, talvez, pelo menos meia dúzia de semáforos. Porém, embora funcionem, ninguém os respeita: têm que ser os polícias de trânsito a regular o fluxo do tráfego. Também não há passadeiras para peões. Atravessar uma avenida larga é sempre uma aventura arriscada e arrojada. Incrivelmente, há poucos acidentes.
Uma das memórias mais fortes que o viajante guarda desta cidade é a do som dos altifalantes dos muezzin, no topo dos minaretes das mesquitas, chamando para a oração por várias vezes ao dia. À hora da prece, das centenas de mesquitas do centro do Cairo sentem-se chamadas, que se sobrepõem uma às outras, atropelando-se e confundindo-se, numa desordenada sinfonia de vozes que ecoam, vindas de todos os quadrantes. Outra das incontornáveis memórias sonoras do Cairo é a do incansável e infindável som de bep-bep, das buzinas de todos os automóveis que circulam. Para os motoristas do Cairo, conduzir significa abrir caminho numa enchente de automóveis, a toques de buzina. Não são toques prolongados e mal dispostos de protestos, como se ouvem noutros países mediterrânicos: são antes pequenos e infindáveis toques repetidos de buzina, para alertar os restantes condutores.
Mesmo pertencendo a África, o Cairo não esconde a sua preferida vertente mediterrânica. Aliás, sofreu ao longo da história invasões de povos de todo o Mediterrâneo e também do Próximo Oriente. Ainda agora sofre pequenas invasões de turistas, em muito menor número do que noutros tempos, pelo receio das ameaças terroristas que vão pairando sobre um país muçulmano moderado, que não acolhe nem apoia extremistas. Para além dos turistas, o país e, em particular a capital, são o destino do mais variado tipo de pessoas: para aqui convergem muçulmanos de todo o mundo, mas também cristãos, da comunidade copta, que congrega um décimo da população do país. A predominância muçulmana não esconde a variedade de culturas que, como sempre aconteceu na história do Egipto, ainda actualmente por aqui se cruzam.
Há visitas imprescindíveis na cidade. O melhor panorama que sobre ela se obtém é o da Cidadela. A Cidadela é um recinto amuralhado, onde foram construídas várias mesquitas. Além disso, alberga quatro pequenos museus. Vale mais a paisagem do que a evocação histórica, nesta fortificação construída pelo mítico general sírio Salah ad-Din al-Ayyubi, conhecido na margem norte do Mediterrâneo como Saladino e famoso por ter derrotado os Cruzados, expulsando-os de Jerusalém, no século XII. A Cidadela é uma visita incontornável, sobretudo ao cair da tarde. Mais tarde, ainda, é a altura certa para visitar o bazar Khan Al-Khalili, com as suas ruas estreitas cheias de vendedores que insistem em chamar os turistas. Não menos turistas se encontram no Museu Egípcio do Cairo, um outro dos locais mais interessantes: nele se podem ver peças que se conhecem desde os livros da escola secundária. Por último, feita a ronda das mesquitas, quanto a património, está o Cairo visto na sua essência.

terça-feira, dezembro 01, 2009

A cerveja checa

O povo checo é o maior consumidor de cerveja do mundo. Cada um dos checos bebe, em média, 155 litros de cerveja por ano, o que dá uma média de meio litro por dia! Os checos consomem ainda mais cerveja que os campeões alemães e os super campeões irlandeses

Em plena Boémia, na sua zona mais ocidental, fica Plzen, onde foi inventada a primeira cerveja do tipo Pilsen, ou pilsener. A origem desta produção tradicional está na Idade Média, quando o rei checo Venceslau II outorgou a um conjunto de famílias da cidade o direito exclusivo de fabricar cerveja, usando os métodos tradicionais, ao estilo de Plzen, portanto. Mais tarde, no século XIX, os descendentes destas linhagens, todos pequenos produtores, acabaram por criar uma empresa de dimensão municipal, a que chamaram Plzensky Prazdroj, onde viria a nascer uma mítica cerveja de cor âmbar claro, que agora se vende em mais de 50 países diferentes: a Pilsner Urquell.

Não muito distante, a poucas dezenas de quilómetros, fica Ceske Budejovice, igualmente um antigo centro cervejeiro, tal como o de Plzen, com origem no século XIII. Aqui se produz a mundialmente famosa Budweiser Budvar, que há alguns anos intentou um processo em tribunal contra o seu representante no mercado norte-americano. Em causa estava o direito sobre o nome da marca. Por esta razão, desde então, nos Estados Unidos esta cerveja é produzida com o petit nom de Bud, ficando o original para a casa checa. Será, talvez, a cerveja mais difundida por todo o mundo.

Um pouco mais a sul fica Cesky Krumlov, uma fantástica vila medieval, classificada como Património da Humanidade pela UNESCO e rodeada pelo rio Vltava. Aqui, as tradições cervejeiras são igualmente medievais mas, ao contrário das de Ceske Budejovice e das de Plzen, a industrialização foi muito mais limitada e a Eggenberg, a cerveja local, não alcançou a dimensão das outras marcas cervejeiras. Talvez por isso, em Cesky Krumlov predominam ainda as pequenas cervejarias, que vendem o seu próprio produto, normalmente muito cerealado e espesso, de cor escuríssima e travo agridoce.

De fora, deixou o viajante até agora outras marcas, como a Gambrinus ou a Staropramen (que se produz no centro de Praga, podendo visitar-se e até almoçar na cervejaria), com igual e merecido prestígio mas sem a mesma marca local e histórica.

domingo, novembro 29, 2009

Centro de Interpretação da Batalha de Aljubarrota, Portugal

Voltou o viajante orgulhoso da visita a este novíssimo centro de interpretação.
Não é o viajante militarista nem adepto da perspectiva segundo a qual a história é uma mera sucessão de feitos guerreiros - pelo contrário. Além disso, sem reservas o diz, gosta o viajante de Espanha, onde se sente como numa segunda pátria; sente os espanhóis como aqueles que, de entre todos os povos do mundo, mais se parecem com os portugueses.
Dito isto e apesar disso, voltou o viajante orgulhoso do feito de Nuno Álvares Pereira, agora São Nuno de Santa Maria e do seu rei, João I de Portugal. Voltou também orgulhoso da tareia que os bravos portugueses deram nos invasores castelhanos, em Agosto de 1385. Mas sobretudo, voltou orgulhoso da forma como este marco incontornável da história nacional é evocado no Centro de Interpretação da Batalha de Aljubarrota.

O Centro está instalado num edifício moderníssimo, funcional, rodeado de árvores da flora mediterrânica. Em volta, foram colocadas placas em locais chave do campo onde decorreu a batalha. É assim possível identificar no terreno o local onde o condestável do reino, Nuno Álvares, instalou o seu posto de comando e ainda alguns vestígios das trincheiras (fossos e covas dos lobos). Esta parte da visita é simbólica, porque o passar do tempo e a acção humana fizeram desaparecer a maior parte dos vestígios dos combates, eles mesmos muito modestos, já que a batalha ocorreu num campo aberto, sem construções.

No interior do centro pode visitar-se uma sala pedagógica onde se reúnem vestígios recolhidos no campo de batalha. Nesta mesma sala há uma exposição explicativa do contexto histórico em que se deu a batalha. É fantástica a ideia de apresentar o período em que se inseriu em forma de dominó, composto por factos que inexoravelmente se empurraram uns aos outros: o casamento do rei D. Fernando com Leonor Teles de Menezes (a 15 de Maio de 1372), o tratado de Salvaterra de Magos (de 2 de Abril de 1383), que previa o casamento da única herdeira de D. Fernando com D. Juan I de Castela e permitia a D. Leonor vir a ser regente do reino, caso o rei falecesse, até à maioridade da filha – o que veio a suceder a 23 de Outubro de 1383 –, a sublevação do povo de Lisboa em defesa do Mestre de Avis (a 6 de Dezembro de 1383) e, por último, as cortes de Coimbra (a 6 de Abril de 1385), nas quais D. João foi aclamado como rei de Portugal. De facto, Aljubarrota foi a inevitável consequência deste dominó de factos, que se empurraram uns aos outros.

Porém, a melhor parte da visita é a apresentação multimédia, com duração de meia hora, que decorre de hora a hora. Por ser muito realista é também um pouco violenta e crua, podendo impressionar os mais pequenos. Mas sem ultrapassar qualquer limite. Esta apresentação relata a sucessão histórica de acontecimentos que antecederam a batalha e recria esta, de uma forma notável. A obra apresentada está ao nível das superproduções da história do cinema, ganhando ainda por ser multimédia. Do melhor nível. E mais não diz o viajante para te deixar a ti, leitor fiel, entre a expectativa criada, alguma margem para surpresa e admiração.

O Centro de Interpretação da Batalha de Aljubarrota (www.fundacao-aljubarrota.pt) fica em São Jorge, junto da antiga Estrada Nacional 1, muito próximo da Batalha, de onde dista meia dúzia de quilómetros. Está aberto das 10 às 19 horas (de Outubro a Abril encerra às 17 horas e 30 minutos). Encerra às segundas-feiras. A entrada custa 7 € (3,5 para estudantes). Aos fins-de-semana há interessantíssimas oficinas para os mais novos.

sexta-feira, novembro 27, 2009

Bolonha, Itália

Chegou o viajante a Bolonha com duas recordações que retirou do seu imaginário de sempre: a do spaghetti à bolonhesa e a da universidade. O prato de massa é conhecido em todo o mundo, mas não o encontrou aqui o viajante, embora o procurasse. Quanto à universidade, essa sim está presente. Há muitos estudantes pelas ruas e várias escolas universitárias. Há, sobretudo, a memória. Tem o nome de Bolonha o actual modelo de formação universitária europeu, o que não terá acontecido por acaso. A cidade tem uma das universidades mais antigas da Europa – e nela a mais antiga escola de direito, fundada em finais do século XII. Diz-se que no século XIII já tinha mais de 10 mil alunos e o seu ensino de direito (na época, romano…) gozava de uma excelente reputação! Foi nesta universidade que estudou direito o Doutor João das Regras, um dos mais insignes juristas portugueses de sempre, personagem fulcral das Cortes de Coimbra de 1385, nas quais foi aclamado rei D. João I.

Em tempos idos, a cidade foi independente, sendo governada, como muitas outras cidades italianas, por poderosas famílias de comerciantes. É talvez por isso que abundam em todas as ruas do centro antigo majestosos palácios com origem, sobretudo, no período do renascimento. Bolonha é, de facto, uma cidade de palácios, porta si, porta sim, no centro histórico. É também uma cidade de arcadas. As ruas e praças principais da zona antiga – a Via dell’ Independenza, a Via Ugo Bassi, a via Farini, entre várias outras, são integralmente bordejadas por arcadas, por debaixo dos palacetes, onde há lojas e onde os transeuntes podem passar abrigados do sol e da chuva. Além disso, destas marcas importantes, notou o viajante que todos os edifícios do centro antigo estão revestidos das mesmas tonalidades, entre o ocre e a cor de tijolo. Não há variações, o que dá ao núcleo histórico uma enorme harmonia.

Na zona do centro antigo ficou o viajante muito impressionado com o Palazzo del Podestá e com a Basílica de San Petronio, ambos na Piazza Maggiore. Aliás, a própria Piazza Maggiore é ela mesma muito bonita. O ambiente é todo renascentista, começando no Pallazo del Podestá, com origem no século XIII e acabando no Pallazo Comunalle (construído entre o século XIII e o século XVI). Pelo meio, fica sobretudo a imponente Basílica de San Petronio (começada no séculoXIV, mas sobretudo marcada pelo século XV). Sem a finura decorativa de outros templos italianos da mesma época, é enorme e imponente. Não longe, reteve também o viajante o Pallazo dell’ Archiginnasio, onde está instalada a biblioteca universitária e as incríveis torres inclinadas da Piazza di Porta Ravegnana. Estas últimas, são duas insólitas construções do início do século XII, muito esbeltas e altas, pertencentes em tempos a duas poderosas famílias locais que, com elas pretendiam demonstrar o seu poder, ao mesmo tempo que na sua altura representavam as causas que defendiam. Uma delas tem cerca de 50 metros de altura e a outra cerca do dobro disso. Para subir ao topo da mais alta delas há que vencer 486 degraus. Não o fez o viajante: as torres estão há muito inclinadas, como a célebre congénere de Pisa e por isso instáveis (em particular a mais pequena delas). Decorrem trabalhos de recuperação e de consolidação.

Bolonha é actualmente um importante centro industrial e comercial e isso é visível na cidade. É também um centro de feiras e exposições, por ficar no centro geográfico da bota italiana: por aqui passam as grandes ligações ferroviárias e rodoviárias entre o norte e o sul.
Talvez por isso, a cidade é conhecida como referência gastronómica. Mesmo não tendo o viajante provado o spaghetti que trazia na lembrança, provou outras muitas coisas – massas, entre elas -, talvez menos familiares para quem não é daqui, mas nem por isso menos saborosas.Bolonha tem ligação diária da TAP e por isso é de muito fácil acesso a partir de Lisboa. A melhor forma de chegar ao centro histórico, a partir do aeroporto, é apanhar o Aerobus, no próprio terminal. A viagem até à estação central de comboios dura meia hora e custa 5 euros.

quarta-feira, novembro 25, 2009

Rossio,Lisboa

..."prefira a lotaria Casa Travassos..."
..."e terá dinheiro aos maços..."
(sem mais comentários)

quarta-feira, outubro 07, 2009

Kato Paphos, Chipre

A existência deste parque arqueológico surpreendeu o viajante. Pela área que ocupa e pelo imenso significado dos vestígios que reune. Kato Paphos é a estação arqueológica mais importante de Chipre. É também a mais popular e de fácil acesso, já que fica mesmo junto do mar e do porto de Pafos. Tem um imensop parque de estacionamento e na povoação anexa há hotéis, restaurantes e lojas de souvenirs. O recinto está aberto diariamente das 8 às 18 e o bilhete custa 3,4 €.
Kato Pafos foi uma importante cidade do baixo-império romano. No período romano foi mesmo a capital e mais importante cidade da ilha. Mas terá sido fundada muito antes, pelo século IV AC. Um século depois veio a ser incorporada no reino ptolomaico, de Alexandria, que aproveitou a sua excelente posição estratégica, dominando o Mediterrâneo oriental. É sobretudo do período romano que se conservam vestígios arqueológicos.

De facto, foram encontrados em Kato Pafhos importantíssimos vestígios de quatro “villas” romanas, todas elas abundantemente decoradas com mosaicos, espantosamente bem conservados. Uma delas é conhecida como Casa de Dionísio e foi a primeira a ser descoberta, em 1962. Visita-se sobre estrados de madeira, para que possam apreciar-se os 500 metros quadrados de mosaicos que cobrem o seu solo. A casa ficou assim apodada por abundarem nela mosaicos com motivos alusivos ao deus romano do vinho. Datará, talvez, do século II e foi destruída pelos terramotos que abalaram Chipre nos séculos IV e V.Os mosaicos desta casa deixaram ao viajante a impressão de estar perante um legado fantástico, de enormíssima dimensão e riqueza, que apenas encontra paralelo nas grandes estações arquelógicas romanas, como Pompeia.

Outra das “villas” é a casa de Teseu, talvez do período helenístico, que julga-se ter correspondido à casa do governador romano de Chipre e que foi sendo utilizada até ao século VII. Esta casa de habitação tinha uma dimensão enorme (ocupava um quadrilátero de 120 metros por 90 metros). O nome desta casa ficou a dever-se à descoberta de um mosaico, que ainda se conserva, no qual se descreve o mito clássico de Teseu e do Minotauro.

Kato Pafhos tem ainda em visita as casas de Orfeu e de Aion e o Odeon, anfiteatro bastante restaurado, actualmente utilizado em concertos de verão. São por último visitáveis os vestígios da ágora, apenas perceptível e do asklepeion, em igual condição. Dentro do recinto fica ainda o castelo bizantino Saranda Kolones que, apesar de interessante, parece desprezível depois da visita aos mosaicos romanos.
O conjunto é património classificado pela Unesco.