quinta-feira, janeiro 28, 2010

Olinda, Pernambuco, Brasil

Era uma velha referência, não concretizada, a visita a esta cidade que foi já declarada património cultural da Humanidade, a apenas sete quilómetros de Recife, a enorme capital do Estado Brasileiro de Pernambuco. Na verdade, esta região emblemática da colonização do Brasil foi daqueles locais onde mais sentiu o viajante a dimensão e magnificência da história de Portugal
Olinda foi fundada por holandeses. A tradição diz que Maurício de Nassau, o regente holandês na viragem do século XV para o XVI, altura do colapso do poderio português na região, olhando para este sítio terá dito “ó linda!” Ignora o viajante se o líder da libertação dos flamengos terá vindo aqui alguma vez, mas é sabido que de facto os holandeses controlaram esta região durante a regência espanhola de Portugal.
Porém, aquilo que ficou para a história foi o legado português, em particular na arquitectura religiosa. Olinda é um preservadíssimo conjunto de modestas casas, mas muito interessantes e coloridas, aqui e ali interrompidas por casas burguesas (que em Portugal seguiriam o estilo de “casa de brasileiro”). Mas além disso, contém um imenso conjunto de igrejas e conventos. Na Sé, construída no século XVI, onde está actualmente sepultado o mundialmente famoso D. Hélder Câmara, destaca-se a sacristia, decorada com móveis de madeira escura, de jacarandá. Também chamam a atenção os azulejos portugueses, originais, trazidos na época directamente da Europa.
Porém, o edifício que mais impressionou o viajante foi a Basílica de São Bento, também com origem no século XVI: é barroca e guarda um exuberantíssimo altar de madeira folheada a ouro. O conjunto é majestático e está em belíssimo estado de conservação e manutenção. Infelizmente, não pode dizer-se o mesmo de vários outros conjuntos religiosos, um pouco mais degradados.
Na memória do viajante ficou ainda o pitoresco do contraste do traço formal barroco e neoclássico das alvas igrejas, com a exuberância desalinhada da vegetação tropical que as rodeia. E também a inverosímil sintonia tropical que todo o conjunto de edifícios religiosos encontra com as casas coloridas das ruas inclinadas da cidade. Estas casas, raramente pintadas de cores discretas, manifestam de forma exuberante o mais profundo e alegre gosto de além Atlântico, dos habitantes das terras de Vera-Cruz.
Olinda fica junto de Recife, de cujo conjunto urbano faz parte. Visita-se com tranquilidade a pé, em meia dúzia de horas

quarta-feira, janeiro 27, 2010

Petra tou Romiou, Chipre

Quase passou o viajante, sem dar conta, por um dos locais mais míticos de Chipre, na estrada costeira, no extremo sul da ilha. Aqui, no troço de Paphos para Limassol, a costa é alcantilada e a estrada vai-a seguindo, subindo e descendo as falésias consoante estas também sobre e descem. Esta zona é justamente divulgada pelos guias como uma das mais bonitas parcelas da costa sul.
As encostas são de rocha calcária muito branca e, além disso, muito próximo da praia, emergem frequentemente das águas escolhos tão graciosos como perigosos.
É assim também a zona de Petra tou Romiou, onde várias rochas emergem das águas, muito próximo da costa, formando estranhos avanços da terra no mar. O local é estranho, e tem vindo a ser conhecido como a Rocha de Afrodite.
De acordo com a mitologia grega, foi aqui que nasceu Afrodite, emergindo das espumas marinhas e chegando à praia sobre uma concha puxada por golfinhos.
Veio a descansar em Palepaphos, a velha Paphos, onde mais tarde veio a ser-lhe erguido um templo, do qual ainda se conservam vestígios, embora muito escassos.
Afrodite, mais tarde conhecida entre os romanos como Vénus, casou-se com Hefesto, mas ficou conhecida por ter tido muitos amantes. De todos teve filhos (Eneias, Príapo, Hermafrodita, Eros, Ares e Adónis). Foi para os gregos antigos, também, a deusa da beleza, do amor e da fertilidade.
Por isso, em arbustos próximos da praia é possível encontrar lenços atados, ou pedaços de tecido, que as mulheres inférteis aí deixam, em pedido de ajuda à deusa. Viu-os o viajante – não é mera conversa de guia de viagem. Da mesma forma, também tradicionalmente ocorrem aí mulheres sós ou desgostosas de amores, com a mesma finalidade.
Do local ficou o viajante com a impressão de uma praia bonita. E nada mais., Mas de banho difícil, porque em vez de areia tem enormes calhaus rolados.

terça-feira, janeiro 26, 2010

Quinta da Regaleira, Sintra

Veio o viajante da Quinta da Regaleira com a sensação que deverá ter tido Saint-Exupery quando disse que aquilo que é mais importante não se vê com os olhos. De facto, este enigmático recanto da Serra de Sintra é estranho e não se deixa perceber logo à primeira.
O local é muitíssimo fácil de encontrar: fica no percurso que liga a vila de Sintra ao Palácio de Seteais. Aquilo que logo se vê da estrada é o conjunto de edifícios da quinta, que datam do início do século XX.
O palacete, propriamente dito, é neo-manuelino. O mesmo se passa com a capela, que fica muito próxima do palácio. O conjunto, na versão que hoje existe, destinou-se a servir de férias aos proprietários (a família de António Carvalho Monteiro, também conhecido como o Monteiro dos Milhões, por ter regressado do Brasil muito rico – circunstância que, aliás, lhe permitiu comprar em hasta pública esta propriedade). Foi seu principal arquitecto Luigi Manini, que já antes tinha desenhado o Palace Hotel do Buçaco.
Ficou o viajante impressionado com os interiores, nalguns casos mitigados de arte nova. Em particular, ficou-lhe na memória, logo na entrada, a sala da caça.
O jardim é uma espécie de representação cosmogónica, com lugares desconhecidos e inusitados. Por todo o lado se encontram referências à filosofia, à música, à literatura, à religião, à magia e alquimia, de tudo se encontrando representações místicas. Grutas, torres, fontes, pórticos, lagos, cascatas, túneis. Tudo culmina no impressionante poço iniciático, que entra pela terra dentro. Pode descer-se ao fundo dos seus 27 metros por uma escada em caracol, colada às paredes do poço. De lá de baixo partem túneis, cuja saída fica noutras zonas da propriedade.
Há uma enorme variedade de árvores por todo o jardim. Logo na entrada, encontra-se um enorme cipreste e uma gigantesca araucária. Depois, cedros, magnólias, camélias, castanheiros, sobreiros, pinheiros, tílias e várias outras espécies exóticas.
A Quinta da Regaleira pode ser visitada entre as 10 e as 17 horas (última entrada às 18 horas na primavera e outono e às 20 horas no verão). Há visitas guiadas, com hora marcada (no verão será necessário marcar com antecedência). O bilhete de entrada custa 6 €, mas há tarifas reduzidas para crianças, estudantes, reformados e famílias.

segunda-feira, janeiro 25, 2010

Miradouro de São Lourenço, Chaves

O inverno que corre já pintou Trás-os-Montes de branco por várias vezes. Em particular, perto do Natal, altura das imagens acima e em baixo, caíram vários nevões que cortaram estradas, paralisaram actividades e, acima de tudo, deixaram no ar um mágico e musical sentimento de “white christmas as it used to be”.Em Chaves, onde cai pouca e rara neve, o manto branco deixa-se sempre ver ao longe, causando inveja, nas encostas das Serra do Brunheiro e, mais ao longe, do Alvão e do Larouco. Este ano, porém, o espírito natalício foi mais generoso e fez chegar à neve até às ruas e jardins da cidade. Não precisaram os flavienses de ir ao Miradouro de São Lourenço, como fez o viajante, para pisar a neve fofa, acabada de cair, e ter a soberba vista do vale de Chaves coberto de branco.

terça-feira, janeiro 12, 2010

Pirâmides de Gizé, Egipto

Quando chegou a Gizé, no limite urbano do Cairo, levava o viajante alguma emoção. Recordava, a propósito, as palavras que se diz Napoleão ter dito aos seus soldados, quando aqui chegaram, no fim do século XVIII: “daqui do alto, quarenta e cinco séculos vos contemplam!”.

No entanto, não conseguiu o viajante encontrar no lugar a magia que esperava descobrir. Desde logo, a zona das pirâmides fica no limite do perímetro urbano desta megalópole de 20 milhões de habitantes, a cerca de 12 km do centro. A viagem para aqui chegar, sempre algo duradoura, pelo inevitável e caótico trânsito, deixa profundas notas de suburbanidade e de miséria do terceiro mundo. Depois, toda a visita é indelevelmente marcada pela constante e muito maçadora presença de vendedores de souvenirs, de tratadores de cavalos e camelos que querem impingir passeios pelo deserto, ou ainda de outros habitantes locais que insistem em servir de guias às ruínas.
Não é fácil esquecer estes assaltos e recordar que estes edifícios funerários, que tinham em vista preservar o corpo embalsamado do defunto faraó nelas sepultado, foram construídos 26 séculos antes de Cristo. Nessa época, ainda não tinha despontado em Portugal a cultura castreja, estando ainda a uma distância de dois mil anos a fundação do império romano. Não obstante, a grande pirâmide de Gizé é ainda hoje o maior edifício em pedra jamais construído pelo homem. Esta pirâmide, destinada a ser a sepultura do faraó Khufu, tinha na sua origem 146 metros de altura (actualmente, o topo está um pouco danificado e por isso é menos alta). Na sua construção foram usados 2,3 milhões de blocos de pedra (cada um deles pesando duas toneladas e meia), trazidos de barco, do Alto Egipto pelo rio Nilo.

Heródoto, o grego conhecido como pai da história, visitou estas pirâmides, já na altura consideradas velhíssimas antiguidades, há cerca de 2500 anos, tal como fez com boa parte dos vestígios de cidades do Egipto antigo que hoje em dia se conhecem. E já nessa altura, portanto cinco séculos antes do nascimento de Cristo, considerou as pirâmides um monumento histórico de referência. De tal forma que por ele foram consideradas uma das sete maravilhas do mundo antigo. São aliás, das sete, a única que ainda sobrevive. Anotou o viajante que até 1889, data da construção da torre Eiffel, em Paris, a grande pirâmide foi também o mais alto edifício do mundo. Foi Heródoto quem referiu que a sua construção demorou 20 anos e empregou 100.000 trabalhadores. À grande pirâmide chamou pirâmide de Quéops (e não de Khufu, como lhe chamavam os egípcios) e às outras duas pirâmides de Quéfren e Miquerinos (e não Khafré e Menkauré, que eram os nomes dos respectivos faraós, em egípcio antigo).

Próximo do conjunto das três pirâmides há varias outras, de dimensão bastante menor. Destinavam-se a servir de sepultura às esposas dos faraós. Estão bastante menos conservadas. Um pouco ao lado, em plano inferior, encontra-se a esfinge de Gizé, um dos mais fotografados e fotogénicos monumentos do mundo. A esfinge é uma colossal estátua com corpo de leão e cabeça humana, que se supõe ter sido feita para guardar o túmulo de Quéops, ou Khufu, interpondo-se entre a sua pirâmide e o vale do Nilo. Está muito degradada porque foi esculpida numa só peça rochosa. E sofreu muita erosão.
A entrada na área custa 60 libras egípcias – cerca de 8 €, mas a entrada no recinto da esfinge, tal como a descida à câmara da pirâmide de Khufu supõem o pagamento de bilhetes especiais.
Gizé é facilmente atingível a partir do Cairo, de táxi, já que não existe nenhum ou outro qualquer meio de transporte colectivo que um estrangeiro possa usar com sucesso e eficácia. O recinto abre muito cedo, logo pelas 8 horas, mas fecha igualmente cedo, pelas 17 horas (os guardas egípcios gostam de cumprir o horário do encerramento, tratando de o executar, literalmente expulsando os visitantes, meia hora antes da hora de fecho).

sábado, janeiro 09, 2010

Moscovo

Henri Cartier-Bresson, o mítico fotógrafo viajante francês do século XX, fundador (com Robert Capa), da Agência Magnum, em Nova Iorque, percorreu a URSS na década de 1950, altura em que muito poucos cidadãos de países ocidentais logravam tal façanha. Quando chegou, de comboio, a Moscovo, ficou extasiado pela dimensão da cidade. Registou nas suas anotações que se sentiu como um campónio que chegou à cidade.
De certa forma, também assim se sentiu o viajante, ao chegar à maior cidade da Europa – no início do século XXI, Moscovo terá cerca de 10 milhões de habitantes). Mas a grandeza da cidade não é de agora. Esta cidade gigantesca foi capital da Rússia desde a Idade Média até que o Czar Pedro o Grande a transferiu para São Petersburgo, no início do século XVIII. Voltou a ser de novo capital após a revolução bolchevique, de 1917.

Nela anotou o viajante a rede de metro gigantesca mas muito eficaz e a imensa teia de aranha de vias rodoviárias, que percorrem a zona urbana e os subúrbios. Por todo o lado se encontram zonas arborizadas, a separar os bairros. Estes bairros, ainda herdados do regime comunista, são todos imensos, muito cinzentos e todos iguais uns aos outros. Percebe-se que até há 20 anos eram dormitórios sem vida nem actividade. É curioso como após a implantação da economia de mercado, nas zonas de passagem de pessoas, por exemplo, junto das saídas do metro, surgiram pequenas lojas improvisadas que vendem bens de primeira necessidade. Será, talvez, a forma como a cidade supre a falta de comércio de bairro estruturado.

Faltaram ao viajante os cafés e bares (apenas encontrou barracas na rua com o nome de café) e lamentou que todos os restaurantes estejam no centro e sejam muito caros.De facto, parece que são uma das inovações do capitalismo que a população russa ainda não pode pagar: aqueles que querem beber uma cerveja, compram a lata numa dessa barracas e bebem na rua. Também só há táxis no centro. Em alternativa aos transportes públicos é por isso muito frequente ver pessoas nos passeios, na beira da estrada, a pedir boleia – o sistema supõe que quem vá de boleia pague uma pequena quantia ao condutor, acordada antes de entrar no veículo.

Na rua, as pessoas são taciturnas e não sorriem nem falam, a não ser que seja necessário. Não se cumprimentam quando se dirigem a outras – para comprar coisas, por exemplo; também não desejam bom dia nem agradecem nada, por rotina; dizem apenas o indispensável. Do outro lado de Moscovo estão os novos-ricos, herdeiros por processos pouco claros da nomenklatura do regime soviético.

sexta-feira, janeiro 08, 2010

Podgorica, Montenegro

Leu o viajante, durante a sua estadia na capital da nova República de Montenegro, que “Podgorica é um sítio para chegar, fazer o que tem que se fazer e andar”. Assim fez e não se arrependeu. De facto, a capital deste estado balcânico, até 2006 integrante de uma federação herdeira da antiga Jugoslávia, tem muito pouco interesse.

Nada tem o viajante contra a Baixa da Banheira, cujo nome conhece, mas onde nunca foi. Não sabe exactamente se o impressionismo do nome desta localidade da margem sul do Tejo espelha a realidade daquela terra. Porém, ao chegar a Podgorica, teve o viajante a sensação de poder ter chegado à Baixa da Banheira. A cidade não é grande e tem algumas avenidas largas, traçadas em época moderna, no tempo em que se chamava ainda Titograd e se integrava na Jugoslávia. Além disso, tem bairros antigos, sem charme ou interesse algum, que parecem antigas aldeias negligenciadas da periferia de Lisboa que, com a pressão imobiliária foram envolvidos por urbanizações massivas.

Tem o viajante encontrado por este mundo fora países pequenos com cidades e capitais com muita alma. Mas não foi o caso desta cidade, capital de Montenegro. Ficou-lhe a impressão de um enorme subúrbio, sem garra, com uma ou outra estátua a ocupar o lugar cêntrico de um jardim degradado. Pelo contrário, os habitantes revelaram-se gente dinâmica, alegre e activa. Passeiam pela cidade e desfrutam das comodidades urbanas pela noite dentro. Podgorica, com pouco mais de 100 mil habitantes tem casinos que funcionam 24 horas por dia!

quarta-feira, janeiro 06, 2010

Txapela, taberna vasca, Barcelona.

Não tem o viajante recomendado muitos restaurantes por aqui. E quando o tem feito é, em regra, para referir um outro tipo, no qual não cabe o Txapela. É um bar de tapas, á espanhola, podendo comer-se nas mesas ou também no balcão. É animado, sempre com muito ruído de copos e pratos a serem servidos. Sendo em Espanha, claro que atravessam o ar imensas conversas em voz alta.

As tapas e os pintxos são uma fórmula de sucesso. Recorda o viajante que há já vários anos que chegaram a Portugal e foram muito bem sucedidos. As tapas são baratas e não empanturram. E são o melhora acompanhamento para uma “copa”. No Txapela servem Estrella Damm, talvez a melhor cerveja espanhola.

E a acompanhá-la, “xistorra”, linguiça de Navarra, condimentada, mais dura e consistente que o “sagardoa”, chouriço mais macilento, mas muito saboroso, cofitado em cidra. Ou então “arantxa” que é uma das campeãs – espetada de gambas, cogumelos e bacon, temperados com ervas e flor de sal. O “pop” é uma espetada de rodelas de polvo em vinagrete. Do mesmo género é o “vizcaya”, espetada de lagostim, salmão e maruca, com pimento picante, de piquillo. A “esquixada”, é uma receita catalã: salada de bacalhau picado com tomate e azeite. Já a “urola”, ou escalivada com anchovas, é uma receita maiorquina, onde predominam legumes assados no forno. Quanto ao “txiki”, são peixinhos em vinagrete. Além de muitos outras, que o viajante não conseguiu degustar, podem tomar-se ainda outras tapas e pintxos mais vulgares, como o “ibèric”, tapa de presunto serrano, ou o “patxi aizpuru”, de salmão fumado com queijo fresco.
O Txapela fica no Passeig de Gracia, nº 8, 08007 Barcelona (telefone 93.412.0289).

segunda-feira, janeiro 04, 2010

Vilnius, Lituânia

Na capital Lituana, em Dezembro de 2009, ficou o viajante a saber que tinham aberto os saldos de Drogas. Conseguiu descobrir que Drogas é uma cadeia local de perfumarias…

sábado, janeiro 02, 2010

Pipa, Rio Grande do Norte, Brasil

A imprensa de viagens fez de Pipa uma das mecas dos turistas que procuram o nordeste brasileiro. O cliché é perfeito: clima fantástico, praias paradisíacas, preços baratos e a garantia de um povo amigável e simpático; para portugueses ainda a facilidade da língua e a similitude de hábitos com os locais.
Calhou ao viajante passar por perto e o apelo parecia magnético e irrecusável. Por isso, lá foi o viajante de carro, vindo de Natal. A viagem durou cerca de duas horas, em parte por estradas nacionais e em parte por estradas estreitas, através de aldeolas no mato.


Há autocarros a partir da capital do Rio Grande do Norte, mas é bem sabido o desconforto, a imprevisibilidade e insegurança dos transportes públicos neste tipo de paragens. O “vilarejo”(é a expressão local) de Pipa é na verdade um lugarejo de uma só rua, estreita e sinuosa, rodeada de velhas casas de pescadores, agora transformadas em “creperias” ou “mercadinhos”, ou lojas de artesanato. Todas elas pouco cuidadas e sem sofisticação alguma. Parece o Algarve, nos anos setenta, mas em versão tropical.

A condizer, o ambiente é descontraído. Leia-se desorganizado, quase a querer evocar a herança hippy. Aliás, Pipa foi “inventada” por hippies que aqui chegaram nos anos 70 e ficaram, abrindo “pousadas” caseiras e descontraídas, familiares e pouco exigentes. É verdadeiramente uma estância de férias alternativa, para desportistas e artistas livres.

Dito isto, tem o viajante que esclarecer que, apesar disso, gostou da jornada e até a recomenda. Na verdade, próximo de Pipa há praias como nenhumas outras que o viajante conheça na costa brasileira. Além da Praia do Amor (assim conhecida porque a linha da areia lembra a forma de um coração…), merece particular referência a Praia do Madeiro. É uma linha de areia finíssima encosta a uma falésia de argila, coberta de densa floresta atlântica. Em frente, a Ponta do Madeiro é uma zona de reserva natural, de acesso restrito: aqui vêm regulartmente desovar tartarugas marinhas. O acesso à Praia do Madeiro é feito por uma rude escada construída por troncos de coqueiros, formando degraus (170!). Lá em baixo, há um ou dois bares de praia, mas não há energia eléctrica. E tudo o que se vende foi carregado às costas…
É quase ofensivo deixar dito que a água é limpa. É claro que é limpa! E quente. Muito quente mesmo! E se o banhista tiver sorte verá golfinhos, a nadar ou a saltar nas ondas, à frente do seu nariz. Ouviu o viajante este discurso ao motorista que o conduziu desde Natal e logo identificou a conversa típica de guia turístico… Porém, a verdade é que na curta hora que aqui acabou por passar, os golfinhos apareceram, a meio da baía, a talvez 100 ou 200 metros do areia, indiferentes às poucas dezenas de banhistas que por aqui andavam.

Pipa fica no município de Tibau do Sul, 80 quilómetros a sul de Natal. A estrada de acesso é sempre asfaltada, embora em boa parte seja sinuosa, atravessando campos de coqueiros e enormíssimas extensões de cana-de-açúcar. Além, claro, de povoados muito pobres. A alternativa é o percurso da praia, muito mais curto, mas igualmente demorado. Faz-se de buggy, pela areia, aproveitando a maré vazia.

sexta-feira, janeiro 01, 2010

Minde, Alcanena, Santarém

Em Agosto de 2009, andava o viajante à procura do falar minderico quando viu esta placa, colocada na estrada, na entrada desta vila ribatejana, à beira num campo de eucaliptos, cercado por um muro de tijolos nus. E sorriu, mas não sabe o viajante porque lho recomendavam.

quinta-feira, dezembro 31, 2009

Mosteiro de Kyiv-Pechersk Lavra, Kiev, Ucrânia

O leste da Europa – e em particular o território anteriormente correspondente à União Soviética -, tem-se revelado ao viajante como uma caixa de surpresas. No passado, o acesso turístico a estas terras estava vedado. Desde logo, porque era impossível ir lá. Mas sobretudo porque sobre elas pairava um véu místico, de medo do KGB, do controlo militar e da asfixia exercida pela estrutura do partido comunista. Kiev, capital da Ucrânia, foi a terceira da União Soviética. Foi uma das suas cidades emblemáticas – foi até uma cidade modelo socialista.

Porém, já muito antes disso, a Ucrânia tinha sido um dos centros mais importantes da igreja ortodoxa aquando do grande cisma do ocidente. Foi da Ucrânia que a religião se expandiu para a própria Rússia. E, na Ucrânia, o coração da Igreja Ortodoxa foi o Mosteiro de Kyiv-Pechersk Lavra, actualmente no limite urbano de Kiev, a sul da cidade. O mosteiro foi fundado no século XI e é ainda hoje em dia um dos lugares mais santos da igreja ortodoxa. É mesmo o maior lugar de culto e peregrinação da Ucrânia. Terá sido fundado no ano de 1051, por monges que já aqui viviam, em grutas. Estas grutas ainda hoje em dia guardam as sepulturas, que são visitáveis, de monges.

Teve o viajante oportunidade de visitar um mosteiro restaurado, reluzente nas suas cúpulas, pintado e lavado. Porém, o mosteiro teve ao longo da história muitas vicissitudes, sendo por diversas vezes destruído. A versão actual é sobretudo resultado de obras do século XVII e de obras de reconstrução, após a segunda guerra mundial, na segunda metade do século XX. Durante o estalinismo o mosteiro foi gerido pelo Estado e só após a queda do comunismo e a declaração da independência de Ucrânia voltou a ter monges e a presença da Igreja Ortodoxa. Actualmente, funciona aqui um seminário e aqui reside o chefe máximo da Igreja Ortodoxa da Ucrânia.

O mosteiro é também património da Unesco e, achou o viajante, só ele já justifica uma visita a Kiev. A visita faz-se sobretudo às várias igrejas. Nelas, impressionaram o viajante as cúpulas douradas, em forma de cebola, que as coroam. Bem se vê que são recentes, muito polidas e brilhantes, mas nem por isso deixam de deslumbrar. De entre as igrejas sobressai a rica catedral da “Dormition” e a respectiva fachada decorada, restaurada recentemente, após muitos séculos de sucessivas destruições. É actualmente um panteão de ilustres ucranianos. Ao lado, merece visita o edifício do antigo refeitório dos monges, com igreja anexa. Também magnífica, achou o viajante, é a torre do campanário, com mais de 96 metros de altura e extensamente decorada. Quanto às outras igrejas, a de Todos os Santos, do século XVII, é das mais originais. E ainda se podem visitar a Igreja da Natividade e a Igreja da Exultação da Cruz.

O espaço é vedado e a entrada, com horário, é paga. Foi o viajante auxiliado na compra do bilhete pelo seu intérprete que talvez o tenha igualmente ludibriado na conversão para a moeda local. Normal… Evidentemente, nesta terra de escassíssimos turistas (e muito menos estrangeiros), o preço apenas está afixado em ucraniano (em caracteres cirílicos). E raras são aqueles que falam língua estrangeiras. Em todo o caso, há outras entradas, para além da principal, por onde entram os locais. Por aqui não se cobram bilhetes nem se limitam as visitas à entrada até às 5 da tarde. Além do bilhete é importantíssimo comprar também um guia com mapa, porque o recinto do mosteiro é grande e não há indicações para visitantes. O Mosteiro de Kyiv-Pechersk Lavra fica a cerca de 3 quilómetros do centro de Kiev. O acesso por táxi será fácil e não será caro. Também será fácil chegar em autocarro e há uma estação de metro a menos de um quilómetro. A pé, chega-se do centro em 40 minutos e o passeio é agradável, pelos jardins sobranceiros ao rio Dniepr.

quarta-feira, dezembro 30, 2009

São Pedro do Sul, Beira Alta, Portugal

Pelos vistos, a fama do local e do poder curativo das águas de São Pedro do Sul já vem do tempo da ocupação romana da Península Ibérica. Esta constatação não foi novidade ou surpresa para o viajante: a generalidade das actuais termas portuguesas foi “descoberta” e explorada pelos romanos, que nelas buscavam a tal SPA, ou salute per aquam.
Aquilo que o viajante encontrou em São Pedro do Sul, em visita invernal, foi uma pequena terra de província, calma e adormecida. Talvez no verão o sítio seja mais animado.
Encontrou uma bonita zona fluvial, muito bem arranjada. E o resto do centro da terra igualmente cuidado. Quanto às águas, muito quentes, não as experimentou o viajante, mas soube de quem o fez que fazem bem ao aparelho digestivo e ao reumatismo.
No antigo regime, São Pedro do Sul era local de férias familiares de reformados e pensionistas, que aqui passavam temporadas em tratamentos, em ambiente modesto e português suave, com recato, sobriedade e frugalidade. Este estereotipo caiu em desuso e já não se adequa às exigências modernas. Por exemplo, ao antigo Grande Hotel, não bastava ter no seu currículo festas no salão e a aura de hotel de época: por isso se renovou.
Calhou ficar o viajante no Hotel Inatel Palace, uma versão melhorada do antigo Grande Hotel de São Pedro do Sul. Este hotel clássico foi inaugurado em 1930 e, na altura, tornou-se conhecido por ter mais de 100 quartos e pelo seu enorme salão, onde se realizaram imensas festas e bailes que ficaram célebres. Veio a ser propriedade da FNAT, instituição antiga, antecessora do INATEL, que comprou o hotel em 1959, altura em que estava já em decadência. Foi renovado e agora passou a ter apenas 77 quartos, melhores que os antigos. Mantém o magnífico salão, agora como restaurante. Esta versão moderna passou a ser menos pretensiosa. Continua a ter peneiras e a ser provinciana, mas está muito mais agradável. As instalações são confortáveis e a decoração foi cuidada. Sem luxo (diárias a rondar os 30 ou 40 €) propicia estadias tranquilas. Talvez falhe um pouco no serviço de restaurante.
São Pedro do Sul fica a 28 quilómetros de Viseu, com acesso a partir da A25, antigo IP5. O percurso demora meia hora, por estradas sinuosas, embora em geral em bom estado. O Inatel Palace fica muito próximo das termas. Mais informações podem ser obtidas em www.inatel.pt, embora o site seja muito fraco e de difícil consulta.

terça-feira, dezembro 29, 2009

Pristina, Kosovo, Setembro de 2006

Não estranhou o viajante que esta loja afixasse, junto com o horário, a informação de que era proibido fumar. Mais inusitada achou a informação, bem sublinhada – até em inglês, de que se proibia igualmente a entrada a pessoas portadoras de armas de fogo.

terça-feira, dezembro 08, 2009

Cairo, Egipto

Sabia o viajante que a capital do Egipto (e também a maior cidade de África, o mais importante centro islâmico do mundo e a sede da Liga Árabe) é uma megalópole imensamente poluída com perto de vinte milhões de habitantes. Como bem refere algum dos guias da cidade, o Cairo é uma cidade inacabada e inacabável. É inacabada porque, tendo origem no primeiro milénio da nossa era, o que hoje se visita é produto de muitas e diversificadas épocas históricas, que deram à cidade um estatuto de permanente evolução, saltitando entre dominador e dominador. É inacabável porque o êxodo do mundo rural para o centro urbano a tornou imensa e descontrolada. Boa parte da cidade é feita de edifícios construídos com tijolos ainda não revestidos – as construções estão ainda por acabar e nunca acabarão de ser construídas. E são às centenas de milhares os edifícios assim.
Nas zonas que o urbanismo ainda conseguiu gerir as avenidas são larguíssimas e compridíssimas, percorrendo bairros e bairros, que ultrapassam por via de viadutos urbanos, debaixo dos quais se organizam paragens de autocarros, mercados ou apenas parques de estacionamento. Na zona da mesquita e madraça de Al-Azahar e do célebre mercado Khan Al-Khalili, há uma avenida elevada por cima de outra. Numa e noutra o trânsito é caótico. As habituais linhas pintadas no chão, para delimitar as faixas de rodagem, são meramente indicativas, referências opcionais. Formam-se habitualmente muito mais filas de trânsito do que as faixas previstas. A condução é alucinada e arriscada – recorda em particular o viajante uma corrida de táxi, que mais pareceu um jogo de playstation: ultrapassagens, curvas, guinadas, golpes de volante e outras peripécias. É verdade que nas ruas do Cairo haverá, talvez, pelo menos meia dúzia de semáforos. Porém, embora funcionem, ninguém os respeita: têm que ser os polícias de trânsito a regular o fluxo do tráfego. Também não há passadeiras para peões. Atravessar uma avenida larga é sempre uma aventura arriscada e arrojada. Incrivelmente, há poucos acidentes.
Uma das memórias mais fortes que o viajante guarda desta cidade é a do som dos altifalantes dos muezzin, no topo dos minaretes das mesquitas, chamando para a oração por várias vezes ao dia. À hora da prece, das centenas de mesquitas do centro do Cairo sentem-se chamadas, que se sobrepõem uma às outras, atropelando-se e confundindo-se, numa desordenada sinfonia de vozes que ecoam, vindas de todos os quadrantes. Outra das incontornáveis memórias sonoras do Cairo é a do incansável e infindável som de bep-bep, das buzinas de todos os automóveis que circulam. Para os motoristas do Cairo, conduzir significa abrir caminho numa enchente de automóveis, a toques de buzina. Não são toques prolongados e mal dispostos de protestos, como se ouvem noutros países mediterrânicos: são antes pequenos e infindáveis toques repetidos de buzina, para alertar os restantes condutores.
Mesmo pertencendo a África, o Cairo não esconde a sua preferida vertente mediterrânica. Aliás, sofreu ao longo da história invasões de povos de todo o Mediterrâneo e também do Próximo Oriente. Ainda agora sofre pequenas invasões de turistas, em muito menor número do que noutros tempos, pelo receio das ameaças terroristas que vão pairando sobre um país muçulmano moderado, que não acolhe nem apoia extremistas. Para além dos turistas, o país e, em particular a capital, são o destino do mais variado tipo de pessoas: para aqui convergem muçulmanos de todo o mundo, mas também cristãos, da comunidade copta, que congrega um décimo da população do país. A predominância muçulmana não esconde a variedade de culturas que, como sempre aconteceu na história do Egipto, ainda actualmente por aqui se cruzam.
Há visitas imprescindíveis na cidade. O melhor panorama que sobre ela se obtém é o da Cidadela. A Cidadela é um recinto amuralhado, onde foram construídas várias mesquitas. Além disso, alberga quatro pequenos museus. Vale mais a paisagem do que a evocação histórica, nesta fortificação construída pelo mítico general sírio Salah ad-Din al-Ayyubi, conhecido na margem norte do Mediterrâneo como Saladino e famoso por ter derrotado os Cruzados, expulsando-os de Jerusalém, no século XII. A Cidadela é uma visita incontornável, sobretudo ao cair da tarde. Mais tarde, ainda, é a altura certa para visitar o bazar Khan Al-Khalili, com as suas ruas estreitas cheias de vendedores que insistem em chamar os turistas. Não menos turistas se encontram no Museu Egípcio do Cairo, um outro dos locais mais interessantes: nele se podem ver peças que se conhecem desde os livros da escola secundária. Por último, feita a ronda das mesquitas, quanto a património, está o Cairo visto na sua essência.