terça-feira, fevereiro 09, 2010

Port Louis, Ilha Maurício

A cidade nem é grande nem pequena: é uma capital com cerca de 170 mil habitantes. Tem estrutura europeia, com igreja e edifícios públicos, no centro. Tem também alguma influência do Novo Mundo: tem um bairro com grandes prédios, onde se instalaram os bancos e outras sociedades financeiras. Mas na verdade, tem alma crioula. Apesar disso, metade dos seus habitantes são de origem indiana e há uma boa comunidade chinesa, que controla o comércio.
Este cliché define Port Louis, a capital da Ilha Maurício: é uma cidade multicultural, multiétnica e multirreligiosa. A sua malha urbana denota a sua origem francesa (foram os franceses que a desenvolveram, no século XVIII, apesar de o local ter sido povoado por holandeses desde cem anos antes). Porém, a sua estrutura de cidade colonial não consegue esconder a sua alma de pequeno povoado crioulo. Predominam as casas baixas, de traça tropical. Os poucos palacetes que sobram, de outras eras, são modestos e albergam, todos eles, hoje em dia, as instituições políticas da nação. Assim acontece, por exemplo, com o antigo palácio do governador (actualmente palácio do Governo), em cuja entrada pode ainda ver-se uma imponente estátua da Rainha Vitória. Ao lado, o palácio do Primeiro-ministro é uma mansão colonial, que passa despercebida. Há ainda o teatro municipal, discreto, numa esquina. E pronto, quanto a edifícios antigos fica a terra por aqui.
De resto, a visita que o viajante achou mais interessante foi a do mercado municipal, num antigo edifício, do século XIX, renovado há meia dúzia de anos. Se o visitante conseguir esquecer o lixo e o cheiro, encontrará aqui um animado espectáculo colorido e inesquecível. Nas bancas vendem-se legumes, especiarias, pimentos e malaguetas, peixe fumado e muitas outras coisas (made in china). Os compradores são sobretudo habitantes locais e, por isso, os vendedores ainda não estão viciados em turistas. O ambiente é portanto genuíno.
Não conseguiu, no entanto, o viajante deixar de passar pela Caudan Water Front, a nova zona marítima. Estruturalmente, é um centro comercial junto do mar, construído em antigas instalações portuárias. É ali que se localizam as lojas modernas da cidade (as outras são mais tradicionais e antigas), os bares e restaurantes modernos (os da cidade velha não inspiram confiança, sobretudo no que respeita à higiene…) e as diversões para turistas. O local poderia fazer recordar qualquer marina algarvia, sem barcos e com algumas moscas mais. Mas é o orgulho dos locais.

terça-feira, fevereiro 02, 2010

Os céus da África Oriental

Por vezes, sem contar, tem o viajante anotado do melhor que tem vivido por esse mundo fora.
Já tem o viajante umas horitas de voo na sua conta. Mais do que quereria, mas menos do que gostava. Nesta presunção (da tal que se toma como água benta), vai afirmar que fez uma das mais fantásticas viagens de avião que poderão fazer-se. Calhou ter que voar, quase um dia inteiro, através do leste do continente africano, num percurso que ligava a Ilha Maurício a Londres. Ao contrário do que é usual neste tipo de voos, foi diurno e por isso propiciou uma fantástica visita aérea ao Quénia, à Etiópia, ao Sudão e à Líbia.
Depois das águas verde-esmeralda que rodeiam a Ilha Maurício e dos territórios secos, de vegetação rasteira, do norte de Madagáscar, pode o viajante avistar as ilhas costeiras próximas a Mombaça. Zanzibar está mais ao sul, mas Pemba é bem visível desde o ar, com a sua barreira de coral e praias de areia branca. Mombaça é o centro de um enorme estuário, de águas escuras. É impossível, a este propósito, esquecer Vasco da Gama, que aqui passou em 1498, na rota para Calecut. De Mombaça era o piloto árabe que o guiou à Índia.
Seguiu-se território queniano, de estepe massai – terra vermelha fogo, pontilhada pelos arbustos da savana. Aqui não se avistam traços de povoação e os únicos sinais dissonantes da desolação são as manchas verdes dos córregos que levam água na estação das chuvas.
Pouco depois, aguardava o viajante, lá ao longe, nos limites do Quénia e da Tanzânia, a cereja no cimo do bolo de África: embora enevoado, o Kilimanjaro deixava-se ver, com o topo muito menos nevado do que é habitual ver-se nas fotografias.
As proximidades de Nairobi revelam povoação. Em regra, pequenos povoados e aldeias pobres, de casas com telhados de folhas de zinco. Nairobi, por seu lado, vista do ar, revela-se uma cidade muito dispersa, com subúrbios imensos e espalhados pelo campo.
A norte, avista-se uma das pontas da enorme depressão do Rift, por aqui menos rica em achados que mais a sul, na Tanzânia, mas ainda assim impressionante. Lá para trás ficou já o Lago Vitória, pouco mais que uma miragem no fundo do horizonte. Rumo ao Mediterrâneo, vai escasseando a povoação.
Depois, desaparecem de todo os vestígios de povoados e passam a dominar o relevo as montanhas da Etiópia, que se compreende ser uma nação de pastores. São montanhas escarpadas e florestadas, sem pinta de presença humana. Mas, pouco depois, a rota passa às planuras do sul do Sudão. Por aqui, no primeiro troço do Nilo, a terra começa a ficar mais seca. Ainda é possível ver aldeias de palhotas. Muitas aldeias de palhotas, agrupadas de forma desorganizada mas coesa, na planura seca e quente. Delas partem caminhos em todas as direcções, embora por todo o lado haja secura. E piora com o avanço para norte. No vale do Nilo Superior não há árvores e, consoante se avança, deixa gradualmente de ver-se tanto mato rasteiro, que acaba por desaparecer de todo. Nas planuras entre Cartum e as montanhas de Darfur avista-se finalmente o deserto.
No início, este deserto manifesta-se pela terra nua e pelas pedras. Depois, chegam mesmo as dunas, a anunciar o Deserto da Líbia. Do terreno vem a cor quente da areia, por vezes ocre, noutros casos mais escura. Sensação de imenso calor. Lá em baixo, como nos filmes, a magia das dunas. E montanhas isoladas, rodeadas de deserto. E ainda, de vez em quando, uma daquelas obras megalómanas que o regime de Khadafi construía no deserto, há 20 anos: plantações agrícolas nas areias, com água trazida à distância.
No deserto, o ar não é límpido e isso prejudica a vista. E assim será até ao Mediterrâneo, onde termina, no golfo de Bengazi.

segunda-feira, fevereiro 01, 2010

Siena, Toscana, Itália

Conhecia, há muito, o viajante a fama do Palio de Siena, esse festival anual que se realiza em Maio, talvez a manifestação pública mais famosa de Itália. Chama a Siena milhares de pessoas que vêm ver uma corrida de cavalos que dura apenas meia dúzia de minutos. Essa corrida de cavalos, em que compete um cavaleiro por cada uma das nove paróquias de Siena, realiza-se anualmente na praça de Il Campo, no centro da cidade. É bem esclarecedor, quanto à sua dimensão planetária, o pormenor de ter já surgido como pano de fundo em parte de um dos filmes da série 007.
Não foi o viajante a Siena durante o Palio, altura em que esgotam os hotéis e as ruas pedonais do centro se tornam intransitáveis. Mas mesmo em época baixa, sentiu a grande pressão das hordas de turistas anglo americanos e japoneses que, ruidosamente uns e ordeiramente, em grupos, os outros, enchem cada rua e cada praça e cada palácio e cada igreja da cidade. Nessa medida, tal como Florença ou Veneza, Siena tornou-se um enorme parque temático, para turistas, com gigantescos parques de autocarros fora de portas e uma complexa rede de ruas fechadas ao trânsito, cheias de lojas que vendem coisas supostamente típicas da cidade.
Esta última vertente permitiu à população local soltar a sua iniciativa e criatividade, reinventado o “típico”. Há lojas especializadas em quase todos os ícones do “típico” italiano: lojas em que se vendem azeites com aromas, lojas de “pastas” eróticas e afrodisíacas, lojas de roupa muito específica. Passou o viajante por um “cravattificio” (seja lá o que isso for) que, pelo insólito, lhe ficou na memória… Neste contexto de centro comercial especializado, é difícil encontrar na cidade recantos tranquilos onde se respire o verdadeiro ambiente local.
Não obstante, não deixou o viajante de se deslumbrar com a finura do “Duomo”, a catedral gótica profusamente e exuberantemente decorada. Nem de apreciar Il Campo, com a sua arquitectura que constitui um dos melhores exemplos de gótico civil na Europa, dizem os guias. Ou ainda de ficar impressionadíssimo com os inúmeros e enormes palácios medievais, fortes e altos, com grossíssimas paredes e vários andares, a tornarem as estreitas ruas muito escuras.
Ao contrário de Florença, que evoluiu após a Idade Média, Siena parou no século XIV, altura em que se estima que tivesse cerca de cem mil habitantes. Nessa altura, a sua economia estava estruturada no comércio e na actividade financeira. Porém, esta economia não sobreviveu à grave crise provocada pela peste negra, que a partir de 1348 dizimou 7 de cada 10 habitantes de Siena. Pouco sobrou das várias estirpes de banqueiros, de ganadeiros e de ricos comerciantes e artesãos.
Não deixa de ser interessante anotar, no início de 2010, quase na ressaca de uma gravíssima crise financeira, com origem social, tal como aquela que abalou Siena no fim da Idade Média, que foi neste último período que teve origem o Banco Monte dei Paschi di Sienna, que desde o século XIV tem sede na cidade, nos palacetes da Piazza Salimberi (nome da família de banqueiros e negociantes de seda e cereais que lhe deu origem). Este banco, um dos mais antigos de Itália e da Europa, ainda existentes, foi originariamente fundado em 1472 como instituição de beneficência, emprestando dinheiro aos carenciados.
Siena, a segunda cidade da Toscana, fica a 90 quilómetros de Florença. A partir da a capital da região tem acesso por estrada e por comboio (regional, que demora cerca de uma hora).

quinta-feira, janeiro 28, 2010

Olinda, Pernambuco, Brasil

Era uma velha referência, não concretizada, a visita a esta cidade que foi já declarada património cultural da Humanidade, a apenas sete quilómetros de Recife, a enorme capital do Estado Brasileiro de Pernambuco. Na verdade, esta região emblemática da colonização do Brasil foi daqueles locais onde mais sentiu o viajante a dimensão e magnificência da história de Portugal
Olinda foi fundada por holandeses. A tradição diz que Maurício de Nassau, o regente holandês na viragem do século XV para o XVI, altura do colapso do poderio português na região, olhando para este sítio terá dito “ó linda!” Ignora o viajante se o líder da libertação dos flamengos terá vindo aqui alguma vez, mas é sabido que de facto os holandeses controlaram esta região durante a regência espanhola de Portugal.
Porém, aquilo que ficou para a história foi o legado português, em particular na arquitectura religiosa. Olinda é um preservadíssimo conjunto de modestas casas, mas muito interessantes e coloridas, aqui e ali interrompidas por casas burguesas (que em Portugal seguiriam o estilo de “casa de brasileiro”). Mas além disso, contém um imenso conjunto de igrejas e conventos. Na Sé, construída no século XVI, onde está actualmente sepultado o mundialmente famoso D. Hélder Câmara, destaca-se a sacristia, decorada com móveis de madeira escura, de jacarandá. Também chamam a atenção os azulejos portugueses, originais, trazidos na época directamente da Europa.
Porém, o edifício que mais impressionou o viajante foi a Basílica de São Bento, também com origem no século XVI: é barroca e guarda um exuberantíssimo altar de madeira folheada a ouro. O conjunto é majestático e está em belíssimo estado de conservação e manutenção. Infelizmente, não pode dizer-se o mesmo de vários outros conjuntos religiosos, um pouco mais degradados.
Na memória do viajante ficou ainda o pitoresco do contraste do traço formal barroco e neoclássico das alvas igrejas, com a exuberância desalinhada da vegetação tropical que as rodeia. E também a inverosímil sintonia tropical que todo o conjunto de edifícios religiosos encontra com as casas coloridas das ruas inclinadas da cidade. Estas casas, raramente pintadas de cores discretas, manifestam de forma exuberante o mais profundo e alegre gosto de além Atlântico, dos habitantes das terras de Vera-Cruz.
Olinda fica junto de Recife, de cujo conjunto urbano faz parte. Visita-se com tranquilidade a pé, em meia dúzia de horas

quarta-feira, janeiro 27, 2010

Petra tou Romiou, Chipre

Quase passou o viajante, sem dar conta, por um dos locais mais míticos de Chipre, na estrada costeira, no extremo sul da ilha. Aqui, no troço de Paphos para Limassol, a costa é alcantilada e a estrada vai-a seguindo, subindo e descendo as falésias consoante estas também sobre e descem. Esta zona é justamente divulgada pelos guias como uma das mais bonitas parcelas da costa sul.
As encostas são de rocha calcária muito branca e, além disso, muito próximo da praia, emergem frequentemente das águas escolhos tão graciosos como perigosos.
É assim também a zona de Petra tou Romiou, onde várias rochas emergem das águas, muito próximo da costa, formando estranhos avanços da terra no mar. O local é estranho, e tem vindo a ser conhecido como a Rocha de Afrodite.
De acordo com a mitologia grega, foi aqui que nasceu Afrodite, emergindo das espumas marinhas e chegando à praia sobre uma concha puxada por golfinhos.
Veio a descansar em Palepaphos, a velha Paphos, onde mais tarde veio a ser-lhe erguido um templo, do qual ainda se conservam vestígios, embora muito escassos.
Afrodite, mais tarde conhecida entre os romanos como Vénus, casou-se com Hefesto, mas ficou conhecida por ter tido muitos amantes. De todos teve filhos (Eneias, Príapo, Hermafrodita, Eros, Ares e Adónis). Foi para os gregos antigos, também, a deusa da beleza, do amor e da fertilidade.
Por isso, em arbustos próximos da praia é possível encontrar lenços atados, ou pedaços de tecido, que as mulheres inférteis aí deixam, em pedido de ajuda à deusa. Viu-os o viajante – não é mera conversa de guia de viagem. Da mesma forma, também tradicionalmente ocorrem aí mulheres sós ou desgostosas de amores, com a mesma finalidade.
Do local ficou o viajante com a impressão de uma praia bonita. E nada mais., Mas de banho difícil, porque em vez de areia tem enormes calhaus rolados.

terça-feira, janeiro 26, 2010

Quinta da Regaleira, Sintra

Veio o viajante da Quinta da Regaleira com a sensação que deverá ter tido Saint-Exupery quando disse que aquilo que é mais importante não se vê com os olhos. De facto, este enigmático recanto da Serra de Sintra é estranho e não se deixa perceber logo à primeira.
O local é muitíssimo fácil de encontrar: fica no percurso que liga a vila de Sintra ao Palácio de Seteais. Aquilo que logo se vê da estrada é o conjunto de edifícios da quinta, que datam do início do século XX.
O palacete, propriamente dito, é neo-manuelino. O mesmo se passa com a capela, que fica muito próxima do palácio. O conjunto, na versão que hoje existe, destinou-se a servir de férias aos proprietários (a família de António Carvalho Monteiro, também conhecido como o Monteiro dos Milhões, por ter regressado do Brasil muito rico – circunstância que, aliás, lhe permitiu comprar em hasta pública esta propriedade). Foi seu principal arquitecto Luigi Manini, que já antes tinha desenhado o Palace Hotel do Buçaco.
Ficou o viajante impressionado com os interiores, nalguns casos mitigados de arte nova. Em particular, ficou-lhe na memória, logo na entrada, a sala da caça.
O jardim é uma espécie de representação cosmogónica, com lugares desconhecidos e inusitados. Por todo o lado se encontram referências à filosofia, à música, à literatura, à religião, à magia e alquimia, de tudo se encontrando representações místicas. Grutas, torres, fontes, pórticos, lagos, cascatas, túneis. Tudo culmina no impressionante poço iniciático, que entra pela terra dentro. Pode descer-se ao fundo dos seus 27 metros por uma escada em caracol, colada às paredes do poço. De lá de baixo partem túneis, cuja saída fica noutras zonas da propriedade.
Há uma enorme variedade de árvores por todo o jardim. Logo na entrada, encontra-se um enorme cipreste e uma gigantesca araucária. Depois, cedros, magnólias, camélias, castanheiros, sobreiros, pinheiros, tílias e várias outras espécies exóticas.
A Quinta da Regaleira pode ser visitada entre as 10 e as 17 horas (última entrada às 18 horas na primavera e outono e às 20 horas no verão). Há visitas guiadas, com hora marcada (no verão será necessário marcar com antecedência). O bilhete de entrada custa 6 €, mas há tarifas reduzidas para crianças, estudantes, reformados e famílias.

segunda-feira, janeiro 25, 2010

Miradouro de São Lourenço, Chaves

O inverno que corre já pintou Trás-os-Montes de branco por várias vezes. Em particular, perto do Natal, altura das imagens acima e em baixo, caíram vários nevões que cortaram estradas, paralisaram actividades e, acima de tudo, deixaram no ar um mágico e musical sentimento de “white christmas as it used to be”.Em Chaves, onde cai pouca e rara neve, o manto branco deixa-se sempre ver ao longe, causando inveja, nas encostas das Serra do Brunheiro e, mais ao longe, do Alvão e do Larouco. Este ano, porém, o espírito natalício foi mais generoso e fez chegar à neve até às ruas e jardins da cidade. Não precisaram os flavienses de ir ao Miradouro de São Lourenço, como fez o viajante, para pisar a neve fofa, acabada de cair, e ter a soberba vista do vale de Chaves coberto de branco.

terça-feira, janeiro 12, 2010

Pirâmides de Gizé, Egipto

Quando chegou a Gizé, no limite urbano do Cairo, levava o viajante alguma emoção. Recordava, a propósito, as palavras que se diz Napoleão ter dito aos seus soldados, quando aqui chegaram, no fim do século XVIII: “daqui do alto, quarenta e cinco séculos vos contemplam!”.

No entanto, não conseguiu o viajante encontrar no lugar a magia que esperava descobrir. Desde logo, a zona das pirâmides fica no limite do perímetro urbano desta megalópole de 20 milhões de habitantes, a cerca de 12 km do centro. A viagem para aqui chegar, sempre algo duradoura, pelo inevitável e caótico trânsito, deixa profundas notas de suburbanidade e de miséria do terceiro mundo. Depois, toda a visita é indelevelmente marcada pela constante e muito maçadora presença de vendedores de souvenirs, de tratadores de cavalos e camelos que querem impingir passeios pelo deserto, ou ainda de outros habitantes locais que insistem em servir de guias às ruínas.
Não é fácil esquecer estes assaltos e recordar que estes edifícios funerários, que tinham em vista preservar o corpo embalsamado do defunto faraó nelas sepultado, foram construídos 26 séculos antes de Cristo. Nessa época, ainda não tinha despontado em Portugal a cultura castreja, estando ainda a uma distância de dois mil anos a fundação do império romano. Não obstante, a grande pirâmide de Gizé é ainda hoje o maior edifício em pedra jamais construído pelo homem. Esta pirâmide, destinada a ser a sepultura do faraó Khufu, tinha na sua origem 146 metros de altura (actualmente, o topo está um pouco danificado e por isso é menos alta). Na sua construção foram usados 2,3 milhões de blocos de pedra (cada um deles pesando duas toneladas e meia), trazidos de barco, do Alto Egipto pelo rio Nilo.

Heródoto, o grego conhecido como pai da história, visitou estas pirâmides, já na altura consideradas velhíssimas antiguidades, há cerca de 2500 anos, tal como fez com boa parte dos vestígios de cidades do Egipto antigo que hoje em dia se conhecem. E já nessa altura, portanto cinco séculos antes do nascimento de Cristo, considerou as pirâmides um monumento histórico de referência. De tal forma que por ele foram consideradas uma das sete maravilhas do mundo antigo. São aliás, das sete, a única que ainda sobrevive. Anotou o viajante que até 1889, data da construção da torre Eiffel, em Paris, a grande pirâmide foi também o mais alto edifício do mundo. Foi Heródoto quem referiu que a sua construção demorou 20 anos e empregou 100.000 trabalhadores. À grande pirâmide chamou pirâmide de Quéops (e não de Khufu, como lhe chamavam os egípcios) e às outras duas pirâmides de Quéfren e Miquerinos (e não Khafré e Menkauré, que eram os nomes dos respectivos faraós, em egípcio antigo).

Próximo do conjunto das três pirâmides há varias outras, de dimensão bastante menor. Destinavam-se a servir de sepultura às esposas dos faraós. Estão bastante menos conservadas. Um pouco ao lado, em plano inferior, encontra-se a esfinge de Gizé, um dos mais fotografados e fotogénicos monumentos do mundo. A esfinge é uma colossal estátua com corpo de leão e cabeça humana, que se supõe ter sido feita para guardar o túmulo de Quéops, ou Khufu, interpondo-se entre a sua pirâmide e o vale do Nilo. Está muito degradada porque foi esculpida numa só peça rochosa. E sofreu muita erosão.
A entrada na área custa 60 libras egípcias – cerca de 8 €, mas a entrada no recinto da esfinge, tal como a descida à câmara da pirâmide de Khufu supõem o pagamento de bilhetes especiais.
Gizé é facilmente atingível a partir do Cairo, de táxi, já que não existe nenhum ou outro qualquer meio de transporte colectivo que um estrangeiro possa usar com sucesso e eficácia. O recinto abre muito cedo, logo pelas 8 horas, mas fecha igualmente cedo, pelas 17 horas (os guardas egípcios gostam de cumprir o horário do encerramento, tratando de o executar, literalmente expulsando os visitantes, meia hora antes da hora de fecho).

sábado, janeiro 09, 2010

Moscovo

Henri Cartier-Bresson, o mítico fotógrafo viajante francês do século XX, fundador (com Robert Capa), da Agência Magnum, em Nova Iorque, percorreu a URSS na década de 1950, altura em que muito poucos cidadãos de países ocidentais logravam tal façanha. Quando chegou, de comboio, a Moscovo, ficou extasiado pela dimensão da cidade. Registou nas suas anotações que se sentiu como um campónio que chegou à cidade.
De certa forma, também assim se sentiu o viajante, ao chegar à maior cidade da Europa – no início do século XXI, Moscovo terá cerca de 10 milhões de habitantes). Mas a grandeza da cidade não é de agora. Esta cidade gigantesca foi capital da Rússia desde a Idade Média até que o Czar Pedro o Grande a transferiu para São Petersburgo, no início do século XVIII. Voltou a ser de novo capital após a revolução bolchevique, de 1917.

Nela anotou o viajante a rede de metro gigantesca mas muito eficaz e a imensa teia de aranha de vias rodoviárias, que percorrem a zona urbana e os subúrbios. Por todo o lado se encontram zonas arborizadas, a separar os bairros. Estes bairros, ainda herdados do regime comunista, são todos imensos, muito cinzentos e todos iguais uns aos outros. Percebe-se que até há 20 anos eram dormitórios sem vida nem actividade. É curioso como após a implantação da economia de mercado, nas zonas de passagem de pessoas, por exemplo, junto das saídas do metro, surgiram pequenas lojas improvisadas que vendem bens de primeira necessidade. Será, talvez, a forma como a cidade supre a falta de comércio de bairro estruturado.

Faltaram ao viajante os cafés e bares (apenas encontrou barracas na rua com o nome de café) e lamentou que todos os restaurantes estejam no centro e sejam muito caros.De facto, parece que são uma das inovações do capitalismo que a população russa ainda não pode pagar: aqueles que querem beber uma cerveja, compram a lata numa dessa barracas e bebem na rua. Também só há táxis no centro. Em alternativa aos transportes públicos é por isso muito frequente ver pessoas nos passeios, na beira da estrada, a pedir boleia – o sistema supõe que quem vá de boleia pague uma pequena quantia ao condutor, acordada antes de entrar no veículo.

Na rua, as pessoas são taciturnas e não sorriem nem falam, a não ser que seja necessário. Não se cumprimentam quando se dirigem a outras – para comprar coisas, por exemplo; também não desejam bom dia nem agradecem nada, por rotina; dizem apenas o indispensável. Do outro lado de Moscovo estão os novos-ricos, herdeiros por processos pouco claros da nomenklatura do regime soviético.

sexta-feira, janeiro 08, 2010

Podgorica, Montenegro

Leu o viajante, durante a sua estadia na capital da nova República de Montenegro, que “Podgorica é um sítio para chegar, fazer o que tem que se fazer e andar”. Assim fez e não se arrependeu. De facto, a capital deste estado balcânico, até 2006 integrante de uma federação herdeira da antiga Jugoslávia, tem muito pouco interesse.

Nada tem o viajante contra a Baixa da Banheira, cujo nome conhece, mas onde nunca foi. Não sabe exactamente se o impressionismo do nome desta localidade da margem sul do Tejo espelha a realidade daquela terra. Porém, ao chegar a Podgorica, teve o viajante a sensação de poder ter chegado à Baixa da Banheira. A cidade não é grande e tem algumas avenidas largas, traçadas em época moderna, no tempo em que se chamava ainda Titograd e se integrava na Jugoslávia. Além disso, tem bairros antigos, sem charme ou interesse algum, que parecem antigas aldeias negligenciadas da periferia de Lisboa que, com a pressão imobiliária foram envolvidos por urbanizações massivas.

Tem o viajante encontrado por este mundo fora países pequenos com cidades e capitais com muita alma. Mas não foi o caso desta cidade, capital de Montenegro. Ficou-lhe a impressão de um enorme subúrbio, sem garra, com uma ou outra estátua a ocupar o lugar cêntrico de um jardim degradado. Pelo contrário, os habitantes revelaram-se gente dinâmica, alegre e activa. Passeiam pela cidade e desfrutam das comodidades urbanas pela noite dentro. Podgorica, com pouco mais de 100 mil habitantes tem casinos que funcionam 24 horas por dia!

quarta-feira, janeiro 06, 2010

Txapela, taberna vasca, Barcelona.

Não tem o viajante recomendado muitos restaurantes por aqui. E quando o tem feito é, em regra, para referir um outro tipo, no qual não cabe o Txapela. É um bar de tapas, á espanhola, podendo comer-se nas mesas ou também no balcão. É animado, sempre com muito ruído de copos e pratos a serem servidos. Sendo em Espanha, claro que atravessam o ar imensas conversas em voz alta.

As tapas e os pintxos são uma fórmula de sucesso. Recorda o viajante que há já vários anos que chegaram a Portugal e foram muito bem sucedidos. As tapas são baratas e não empanturram. E são o melhora acompanhamento para uma “copa”. No Txapela servem Estrella Damm, talvez a melhor cerveja espanhola.

E a acompanhá-la, “xistorra”, linguiça de Navarra, condimentada, mais dura e consistente que o “sagardoa”, chouriço mais macilento, mas muito saboroso, cofitado em cidra. Ou então “arantxa” que é uma das campeãs – espetada de gambas, cogumelos e bacon, temperados com ervas e flor de sal. O “pop” é uma espetada de rodelas de polvo em vinagrete. Do mesmo género é o “vizcaya”, espetada de lagostim, salmão e maruca, com pimento picante, de piquillo. A “esquixada”, é uma receita catalã: salada de bacalhau picado com tomate e azeite. Já a “urola”, ou escalivada com anchovas, é uma receita maiorquina, onde predominam legumes assados no forno. Quanto ao “txiki”, são peixinhos em vinagrete. Além de muitos outras, que o viajante não conseguiu degustar, podem tomar-se ainda outras tapas e pintxos mais vulgares, como o “ibèric”, tapa de presunto serrano, ou o “patxi aizpuru”, de salmão fumado com queijo fresco.
O Txapela fica no Passeig de Gracia, nº 8, 08007 Barcelona (telefone 93.412.0289).

segunda-feira, janeiro 04, 2010

Vilnius, Lituânia

Na capital Lituana, em Dezembro de 2009, ficou o viajante a saber que tinham aberto os saldos de Drogas. Conseguiu descobrir que Drogas é uma cadeia local de perfumarias…

sábado, janeiro 02, 2010

Pipa, Rio Grande do Norte, Brasil

A imprensa de viagens fez de Pipa uma das mecas dos turistas que procuram o nordeste brasileiro. O cliché é perfeito: clima fantástico, praias paradisíacas, preços baratos e a garantia de um povo amigável e simpático; para portugueses ainda a facilidade da língua e a similitude de hábitos com os locais.
Calhou ao viajante passar por perto e o apelo parecia magnético e irrecusável. Por isso, lá foi o viajante de carro, vindo de Natal. A viagem durou cerca de duas horas, em parte por estradas nacionais e em parte por estradas estreitas, através de aldeolas no mato.


Há autocarros a partir da capital do Rio Grande do Norte, mas é bem sabido o desconforto, a imprevisibilidade e insegurança dos transportes públicos neste tipo de paragens. O “vilarejo”(é a expressão local) de Pipa é na verdade um lugarejo de uma só rua, estreita e sinuosa, rodeada de velhas casas de pescadores, agora transformadas em “creperias” ou “mercadinhos”, ou lojas de artesanato. Todas elas pouco cuidadas e sem sofisticação alguma. Parece o Algarve, nos anos setenta, mas em versão tropical.

A condizer, o ambiente é descontraído. Leia-se desorganizado, quase a querer evocar a herança hippy. Aliás, Pipa foi “inventada” por hippies que aqui chegaram nos anos 70 e ficaram, abrindo “pousadas” caseiras e descontraídas, familiares e pouco exigentes. É verdadeiramente uma estância de férias alternativa, para desportistas e artistas livres.

Dito isto, tem o viajante que esclarecer que, apesar disso, gostou da jornada e até a recomenda. Na verdade, próximo de Pipa há praias como nenhumas outras que o viajante conheça na costa brasileira. Além da Praia do Amor (assim conhecida porque a linha da areia lembra a forma de um coração…), merece particular referência a Praia do Madeiro. É uma linha de areia finíssima encosta a uma falésia de argila, coberta de densa floresta atlântica. Em frente, a Ponta do Madeiro é uma zona de reserva natural, de acesso restrito: aqui vêm regulartmente desovar tartarugas marinhas. O acesso à Praia do Madeiro é feito por uma rude escada construída por troncos de coqueiros, formando degraus (170!). Lá em baixo, há um ou dois bares de praia, mas não há energia eléctrica. E tudo o que se vende foi carregado às costas…
É quase ofensivo deixar dito que a água é limpa. É claro que é limpa! E quente. Muito quente mesmo! E se o banhista tiver sorte verá golfinhos, a nadar ou a saltar nas ondas, à frente do seu nariz. Ouviu o viajante este discurso ao motorista que o conduziu desde Natal e logo identificou a conversa típica de guia turístico… Porém, a verdade é que na curta hora que aqui acabou por passar, os golfinhos apareceram, a meio da baía, a talvez 100 ou 200 metros do areia, indiferentes às poucas dezenas de banhistas que por aqui andavam.

Pipa fica no município de Tibau do Sul, 80 quilómetros a sul de Natal. A estrada de acesso é sempre asfaltada, embora em boa parte seja sinuosa, atravessando campos de coqueiros e enormíssimas extensões de cana-de-açúcar. Além, claro, de povoados muito pobres. A alternativa é o percurso da praia, muito mais curto, mas igualmente demorado. Faz-se de buggy, pela areia, aproveitando a maré vazia.