domingo, outubro 24, 2010

Teotihuican, México


Das aulas de história, na escola secundária, não recorda o viajante qualquer referência às civilizações centro-americanas anteriores à chegada de Cristóvão Colombo à América. Sentiu pois alguma dificuldade em localizar a cultura olmeca, que terá surgido um milénio antes do início da era de Cristo (e se desenvolveu na actual zona de Tabasco e de Vera Cruz, nas costas do golfo do México). Ou a cultura azteca, que ocupou o mesmo espaço daquela, um milénio depois. Ou ainda a civilização maia, que surgiu na península do Iucatão e na Guatemala, na segunda parte do primeiro milénio da nossa era. Custou-lhe algo distinguir e individualizar estas civilizações e etnias, que foram tão diferentes entre elas como o terão sido na Europa a fenícia, da grega ou esta da romana.

Porém, mesmo depois de assimilar todas estas nuances, ainda sentiu perplexidade ao procurar saber o contexto em que surgiu e se desenvolveu a cidade de Teotihuican, que ficou a 45 quilómetros da actual cidade do México. Aliás, a origem da cidade é pouco ou nada conhecida. Terá surgido pelo menos um século antes de Cristo e chegou a atingir os 200 mil habitantes, tendo nessa época palácios, pirâmides e templos. Mas sem se saber porquê, colapsou lá para o século VIII depois de Cristo, altura em que chegaram a estas terras os aztecas.
O nome originário da cidade é também desconhecido, já que aquele que se conhece lhe foi dado pelos aztecas e quererá dizer “lugar onde os deuses são feitos”, por julgarem que foi aqui que os deuses criaram o universo. É talvez isso que explica que os dois mais importantes edifícios da cidade, tal como ela subsiste, sejam as pirâmides do Sol e da Lua. Nas civilizações do México central, ao contrário do que acontecia com a egípcia, as pirâmides não tinham funções tumulares, sendo apenas templos nomeadamente destinados a ritos sacrificiais.
A pirâmide do Sol impressionou o viajante, pela sua gigantesca dimensão. Diz-se ser a terceira maior pirâmide do mundo (sendo a maior a de Quéops, no Egipto e a segunda maior a de Cholula, próximo de Puebla, igualmente no México Central).
A sua base tem 220 metros e atinge 62 metros de altura (o que equivale a um prédio de 22 andares). Na sua construção foram usados três milhões de toneladas de pedras empilhadas, sem uso de ferramentas metálicas ou animais de carga, que por aqui, na época, não se conheciam, sendo certo que também ainda não tinha chegado aqui a invenção da roda.
Subiu o viajante ao topo, não sem algum esforço, mas valeu a pena. Após 248 degraus, chegou à antiga plataforma onde ficava o templo. Daqui avista-se todo o conjunto das ruínas da cidade: a pirâmide da Lua, a norte e o antigo palácio de Quetzalcoatl (que quer dizer, literalmente, serpente emplumada). A uni-los, a calçada dos mortos, ladeada de templos e de palácios, nalguns dos quais ainda é possível ver frescos.
Quanto ao Palácio de Quetzalcoatl, o seu recinto é igualmente visitável e a visita vale a pena, porque ainda se podem ver, numa das suas fachadas, enormes esculturas, em particular de cabeças de serpentes e de jaguares. Este palácio é identificado como sendo a residência do mais importante sacerdote da cidade.

A entrada no recinto das ruínas é paga e a visita supõe andar bastante a pé. Da cidade do México pode vir-se de autocarro. Ou então, com mais conforto, em visitas organizadas (poderão custar 30 €) ou ainda, em alternativa, individualmente, de táxi, que esperará que se faça a visita (poderá custar 100 €).

sábado, setembro 25, 2010

Castelo de Santo Estêvão, Chaves

A aldeia de Santo Estêvão, localizada na veiga do rio Tâmega, dista cinco quilómetros de Chaves, sede do concelho do qual faz parte. Grande e populosa, é atravessada por uma estrada municipal, que ligas às estradas nacionais de Bragança (a EN 103) e da fronteira espanhola (a EN 103-5). Na parte mais elevada da povoação, contornado pela estrada, abre-se um terreiro inclinado no topo do qual fica uma esbelta torre.
Esta torre de pedra é o que resta da fortificação medieval de Santo Estêvão. Sólida e airosa, é tipicamente medieval, encimada por ameias e decorada com seteiras.
Pensa-se que foi construída no tempo do rei D. Sancho I, mas as características do edifício levam a concluir que sofreu obras no tempo de D. Dinis. Supõe-se que aqui se refugiou a população da vizinha vila de Chaves durante a ocupação muçulmana, sendo por isso aqui que se reorganizou o município flaviense depois da reconquista.

A torre é granítica, tendo adquirido a cor acastanhada dos velhos edifícios de pedra. Não tem o habitual aspecto inóspito e agressivo dos castelos, antes se aparentando muito urbana e civilizada, com muitas aberturas para o exterior. Tem quatro pisos, todos eles acessíveis. Anota-se a curiosidade das seteiras, boa parte das quais geminadas. É possível visitar o interior da torre, pedido que a mesma seja aberta. Tem a chave uma zeladora, que vive próximo.

domingo, agosto 29, 2010

Museu Miró, Barcelona

O Museu e Fundação Miró são referidos pelos guias turísticos como uma das mais interessantes visitas que actualmente se podem fazer em Barcelona. É bem certo, desde logo porque Joan Miró é catalogado com um dos mais emblemáticos artistas espanhóis de sempre. Não ficou o viajante desiludido com a visita, mesmo tendo que esperar para ultrapassar uma boa fila, nas bilheteiras, talvez mais razoável do que a que haverá quando chegam à Catalunha as habituais hordas de turistas dos meses de verão.
O edifício, discreto na paisagem, revela-se amigável e muito adequado à função. É profusamente inundado pela luz do sol e está cheio de recantos muito agradáveis. Recorda o viajante o pátio onde fica a esplanada do bar. Embora seja interior e fechado, é muito airoso e arborizado.
A colecção do museu, que requer gosto pelo estilo, claro está, é muito interessante. Comporta evidentemente, sobretudo, peças de Joan Miró. Impressionou verdadeiramente o viajante um célebre mural em tapeçaria, feito de propósito para a Fundação. Tem que ser visto a partir de dois andares diferente. Ficou ainda o viajante com memória da discreta pintura “Maio de 68”.

Aquilo que normalmente mais cativa na obra de Miró é a cor, de uma frescura viva e magnética. Mas também a desconcertante irregularidade das formas.
Noutras zonas da cidade de Barcelona é igualmente possível ver obras de Miró. Deu o viajante sobretudo conta do célebre mural em azulejos, que reveste a parede exterior do aeroporto do Prat, e ainda do falo que ocupa o centro da praça que ladeia o Carrer de Tarragona.

A Fundação Miró fica em Barcelona, no Parc de Montjuic. Está aberta de terça-feira a sábado, das 10 às 19 horas (no verão, até às 20 horas e aos domingos apenas até às 14 horas e 30 minutos). A entrada, para adultos, custa 8,5 €, mas há várias tarifas reduzidas disponíveis.


sexta-feira, agosto 27, 2010

O Egipto e os egípcios

Do Egipto tinha o viajante a imagem, das aulas de História, de um país de agricultores que viviam nas margens do Nilo, criando riqueza para que o faraó pudesse mandar construir templos e pirâmides onde vinha a ser venerado e sepultado. Verificou que ainda actualmente se trata de um país de agricultores, mas que uma boa parte destes, no decurso do século XX, descobriu a vida urbana e migrou, sobretudo para o Cairo, que se tornou uma megalópole, poluída e caótica, com perto de vinte milhões de habitantes.
Apesar disso, o riquíssimo vale do Nilo continua a ser cultivado, tal como o era há 50 séculos. Esta estreita faixa de terra das margens do grande rio, onde chegam as cheias que tornam a terra fértil (ou chegavam, já que actualmente o caudal está regularizado, precisamente para evitar cheias) é a única zona cultivável do país – todo o restante território é absolutamente desértico.

Os egípcios são muito conservadores. Teve o viajante oportunidade de observar como, num determinado serviço público, no Cairo, todos os funcionários eram homens. Apenas havia por ali meia dúzia de senhoras, com tarefas de secretariado e de relações públicas com o estrangeiro (porque falavam línguas estrangeiras…) e todas elas, sem excepção, usavam roupa larga (de modo a disfarçar-lhes as formas do corpo) e lenço na cabeça (o célebre hijáb). Talvez fosse, pensou o viajante, por causa dos ensinamentos oficiais que se aprendem nas madraças (o texto que segue pode ser consultado em http://ptislam.webnode.com, uma espécie de página não oficial da Comunidade Islâmica em Portugal) “é necessário que as mulheres se cubram, baixem os olhares e guardem a modéstia na sua interacção com os homens com os quais elas não tenham parentesco, de acordo com as normas islâmicas. A vestimenta da mulher deve cobrir todo o corpo, excepto a face, as mãos (palmas e dedos) e os pés. O cabelo não deve ser exposto, pois o Islão considera-o metade da beleza da mulher. (…). Se colocarmos carne fresca à disposição, sem qualquer cobertura, e os cães comerem-na, a culpa será dos animais ou da carne destapada? É óbvio que o problema estará na carne destapada, pois se a mesma estivesse constantemente tapada, nada disso teria acontecido. Da mesma forma, se a mulher cobrir convenientemente o seu corpo, assim como ditam as regras do Hijáb, e demonstrar a sua modéstia, muitos desastres e imoralidades poderão ser evitados”.
Embora o Egipto seja habitualmente considerado um país islâmico moderado e moderno, o Islão é, segundo a Constituição, a religião oficial do Estado – apesar de 10 por cento da população ser cristã copta. O Cairo é uma das tradicionais cidades das Mil e Uma Noites e é na cidade que fica a escola corânica da Mesquita de Al-Azhar, a mais antiga madraça de todas, criada em 970 d.C.. Al-Azhar é também a mais antiga universidade do mundo, sendo igualmente a mais respeitada pelos muçulmanos sunitas de todo o mundo.
Recordou o viajante por estas terras que Maomé, o Profeta da revelação islâmica, teve um número não determinado de esposas. Sabe-se que na última década da sua vida terá casado com pelo menos dez. É oficial a explicação islâmica de que foi ao casar-se com a última delas que o Profeta teve a revelação pela qual um homem não deve ter mais que quatro esposas, a menos que tenha posses para sustentar todas elas e os respectivos filhos. E a este propósito recordou também o viajante aquilo que foi uma verdadeira antecipação histórica deste postulado islâmico da nossa era, que terá sido feita por Ramsés II, talvez o mais poderoso faraó da história do Egipto, que reinou durante o Império Novo e ergueu templos e obeliscos por todo o reino. Este faraó, evidentemente muito rico, teve cerca de 200 filhos…

Em geral, os egípcios são muito simpáticos com estrangeiros. E ainda mais se tiverem a expectativa de virem a ganhar dinheiro com eles. Todos falam muito alto e têm profundas convicções. Evidentemente, todos os discursos e alocuções públicas, começam com a sacramental expressão “em nome de Alá”.
Curiosamente, se por um lado não têm como hábito lavar as mãos antes ou depois das refeições, por outro nunca deixam de fazer as abluções antes das orações: lavam a cara, as mãos e os braços até aos cotovelos, passam água no cabelo e, se usarem sapatos e peúgas, passam água nestas últimas, para simbolicamente ficarem purificados. Não consegue o viajante esquecer o sentimento estranho que sentiu quando, perguntando-se porque tinham, uma boa percentagem dos homens com quem se cruzou no Cairo, marcas negras na testa, realizou que essas marcas eram o resultado de pancadas no chão, durante as orações. Os egípcios são exuberantes e, no momento actual, é bem visto deixar claro que se é muçulmano bem convicto e praticante.

quinta-feira, agosto 26, 2010

Natal, Rio Grande do Norte, Brasil

A 25 de Dezembro de 1599 fundeou na foz do rio Potengui o Capitão-Mor de Pernambuco Manuel Mascarenhas Homem e decidiu estabelecer aqui uma nova povoação. Dias depois, a 6 de Janeiro de 1600, ordenou que se começasse a construção de um fortim, que viesse a defender a foz do rio e a futura vila.
Esse forte, desde essa data conhecido como Forte dos Reis Magos, foi construído nos recifes da embocadura do rio, no local onde este encontra o mar. Para os padrões portugueses europeus, é modesto, mas está muito bem preservado e é visitável. É, talvez, o único local da cidade a merecer especial visita. Todo o demais interesse dos milhares de turistas que aqui chegam todos os anos (15% dos quais são portugueses), vai para as muitas praias, a norte e a sul da cidade, ao longo de toda a costa do Estado de Rio Grande do Norte.
Uma boa parte dos turistas escolhe a Praia da Ponta Negra, na zona sul, próxima do chamado Morro do Careca, uma imensa duna de 120 metros de altura, actualmente de acesso interdito, por razões de protecção ambiental. Aliás, a protecção das zonas dunares é muito importante em Natal. No centro da cidade, ao longo da orla costeira, foi delimitado o Parque das Dunas, uma imensa reserva de dunas e bosque, onde ainda há exemplares do quase extinto pau-brasil.
Aquilo que mais apreciou o viajante em Natal foi, porém, a tranquilidade. Nesta cidade de 800 mil habitantes há menos crimes que noutras. Não há engarrafamentos e foi justamente a tranquilidade que as autoridades potiguares (apodo que assumem como seu todos os norte-riograndenses) escolheram como seu slogan turístico. Invocam até estudos oficiais que concluem que esta cidade de sol é a capital estadual mais tranquila do Brasil. Admite o viajante que assim seja mas, apesar disso, não logrou compreender como funcionará um tranquilómetro.

segunda-feira, agosto 23, 2010

Basílica de São João de Latrão, Roma

De passagem por Roma, cumpriu o viajante uma visita que havia muito tinha em vista, à Basílica de São João de Latrão. Este templo cristão integra, conjuntamente com São Pedro, Santa Maria Maior e São Paulo Extramuros, o conjunto das quatro basílicas metropolitanas de Roma. Claro que só isso justificaria a passagem por este enormíssimo templo. Mas o objectivo era mais de detalhe, já que nesta basílica pode ver-se o mausoléu de D. Antão Martins de Chaves, que o viajante queria descobrir. E descobriu-o, logo à entrada, do lado esquerdo, na entrada para a nave lateral direito, ao lado do altar de São João Evangelista.

A entrada habitual para esta Patriarcale Arcabasilia del SS.Mo Salvatore e dei Santi Giovanni Battista ed Evangelista é feita pela fachada setentrional. Esta fachada, ao lado do Palazzo del Laterano, dá acesso lateral ao templo, entrando-se directamente na ala transversal. Do lado oposto, fica o altar do Santíssimo Sacramento. À direita de quem entra, fica a abside de topo da basílica, à esquerda, abre-se a nave principal, para lá do altar papal.

A basílica surpreende. Por fora, parece apenas uma enorme igreja, neoclássica, de inspiração renascentista, que em Roma não se destaca de tantas outras. Parece até modesta, ao lado do Palazzo del Laterano. Porém, ao entrar nela, ficou o viajante esmagado perante tanta majestade e riqueza na decoração. Perante a profusão de mármores e dourados. Enfim, perante o ambiente exuberantemente rico.

D. Antão Martins de Chaves foi um alto dignitário da Igreja Católica no século XV. Terá provavelmente nascido em Chaves, Trás-os-Montes, e veio a falecer em Roma a 11 de Julho de 1447. Foi bispo do Porto, entre 1424 e 1439 e cardeal em Roma a partir de 1440. A localização do mausoléu e as inscrições nele gravadas revelam que D. Antão foi, no seu tempo, de um notável dirigente da Igreja de Roma. Talvez um dos mais notáveis de sempre.
Da própria pedra tumular retira-se que aquele é o SEPVLCRVM DOMINI ANTONII CARDINALIS PORTVGALENSIS QVI OBIIT ROME, ou seja, o “sepulcro de Dom Antão Cardeal Português que faleceu em Roma”. No topo do altar onde se insere o túmulo, está um escudo, supostamente com as armas de D. Antão. O brasão contém cinco chaves, as mesmas que integram tradicionalmente o brasão da antiga vila medieval, agora cidade de Chaves. Como se retira também do sarcófago, CVIVS ANIMA IN PACE REQVIESCAT AMEN (que a sua alma descanse em paz, ámen).

domingo, agosto 22, 2010

Restaurante Club House da Penha Longa, Serra de Sintra

Prefere o viajante os locais modestos às tascas finas e presunçosas, que não pode pagar. Mas por vezes calha ser convidado. E para locais mais distintos. Foi o que sucedeu com a Club House da Penha Longa, sítio que supostamente deveria servir de bar e restaurante de apoio ao clube de golfe local, mas que parece que acabou por tornar-se num lugar de referência para quem cultiva o caro desporto de comer em restaurantes estrelados.

A decoração do restaurante é assumida e provocadoramente vanguardista, com grande predomínio de acrílicos e metalizados, que têm em vista criar ambiente propício para experimentalismos culinário como os que aqui se praticam.
O chef (não é o viajante habitué destes lugares, mas diz que assim tem que se referir chamar, mesmo em português, aos artistas culinários da moda) da casa, que não é residente, é Sergi Arola, o catalão consagrado em Espanha, por ser também o chef do Hotel Arts, em Barcelona e de um ou dois lugares mais, em Madrid. Ao que parece, vai abrir outro restaurante em São Paulo, a novíssima meca da culinária sofisticada.
Sergi Arola obteve já, pelas suas artes no Arts, duas estrelas do guia Michelin. Além disso, conquistou o Prémio Nacional de Gastronomia de Espanha, em 2003. Foi discípulo de Ferran Adriá do mítico El Bulli e cultiva uma imagem de excentricidade chique: anda sempre de moto, usa roupa de cabedal e um brinco na orelha. Actualmente é o autor das ementas da classe executiva da Ibéria - Linhas Aéreas de Espanha. Não conseguiu nunca o viajante voar em executiva nesta companhia de nuestros hermanos que, tantas dores de cabeça lhe tem dado, sobretudo em ligações perdidas, mas as fotografias da revista de bordo prometiam!
Da passagem no Club House da Penha Longa, reteve o viajante na memória umas sardinhinhas de escabeche, cruas claro, umas batatinhas alioli de formato diferente e um bacalhau de estalo, sobre espigas de milho.

quinta-feira, agosto 19, 2010

Ria Formosa, Algarve


Bem sabe o viajante que o Algarve não existe: existem vários algarves ou, se se preferir, férias de verão no Algarve são como o Natal, como um homem quiser. Veio esta consideração a propósito de uma passagem pela celebérrima praia do Gigi, ou da Quinta do Lago, na costa algarvia, logo a seguir ao Ancão, entre Vilamoura e a ilha de Faro. Deixou o viajante de lado o passadiço para a praia e para o restaurante e optou por um caminho de terra ao longo da ria.


Neste limite ocidental do Parque Natural da Ria Formosa, formou-se ao longo dos milénios um longo cordão dunar que separa o mar da terra. Entre este cordão dunar e terra firme permaneceu uma zona alagadiça, de sapal, que enche com a maré. Este tipo de ecossistema, que ocupa uma orla costeira de cerca de 60 km, desde a Praia da Manta Rota, a leste, até à socialissima praia do Ancão – ou do Gigi, como é conhecida pelas tias, forma o sistema lagunar da Ria Formosa, composto por todas estas lagunas separadas do mar por um comprido cordão de ilhas de areia, que se dispõem paralelamente à costa. No seu interior vive um grande número de espécies de fauna, sobretudo aves e anfíbios, porque grande parte da área do Parque Natural está permanentemente inundado ou sujeito ao efeito das marés, formando vastas zonas de sapais. É aqui que nidificam espécies de aves que migram para cá no inverno, vindas do Norte da Europa e no verão, vindas de África. É também por aqui que é ainda possível ver exemplares de camaleão, que se diz estar praticamente extinto na Europa.



Voltando à Quinta do Lago, procurou um viajante um percurso pedestre, de descoberta dos habitats da zona, delimitado, de um lado, por um campo de golfe e de outro pelo sapal. Este caminho, identificado como trilho de São Lourenço, com 3.200 metros de comprimento, faz-se em meia hora para cada lado e permite descobrir o sapal e as suas aves e caranguejos, a ria, onde se encontram por vezes apanhadores de amêijoa e berbigão, os movimentos das marés e as aves marinhas.

Mas o ponto mais interessante do percurso são as casinhas de observação de aves. Uma delas está virada para a laguna dunar delimitada pela ria e a outra está virada para o interior e as lagoas de água doce, muito alimentadas pela regra e nutrientes do campo de golfe. A casa da ria permite observar aves marinhas. Foi interessante, mas não logrou o viajante ver nada de extraordinário: garças-brancas, garças-reais, pilritos, pernilongos e alfaiates. Já do outro lado, na casa da lagoa de água doce, a avifauna é muito mais rica. Consegui o viajante ver com abundância vários tipos de patos, mergulhões-pequenos, galeirões, galinhas de água. Foi mais fugaz a passagem em voo rasante de um guarda-rios, com a sua penugem colorida azulada. Mais ao longe, entre os juncos, avistou ainda o viajante um camão (porphyrio porphyrio), ave que se diz ser muito rara e que, em todo a Europa apenas é possível de aqui.
Admite o viajante que no Outono e no Inverno, quando chegam as aves migrantes, a densidade e diversidade seja maior. Mesmo assim, nesta visita de Agosto, as espécies que foi possível identificar já valeram a visita.

O percurso começa no parque de estacionamento da praia da Quinta do Lago. Chega-se lá, a partir da Via do Infante, derivando para Almalsil e, daqui, para Vale do Lobo. Depois, para a Quinta do Lago, que é necessário atravessar toda até à praia.

terça-feira, fevereiro 09, 2010

Port Louis, Ilha Maurício

A cidade nem é grande nem pequena: é uma capital com cerca de 170 mil habitantes. Tem estrutura europeia, com igreja e edifícios públicos, no centro. Tem também alguma influência do Novo Mundo: tem um bairro com grandes prédios, onde se instalaram os bancos e outras sociedades financeiras. Mas na verdade, tem alma crioula. Apesar disso, metade dos seus habitantes são de origem indiana e há uma boa comunidade chinesa, que controla o comércio.
Este cliché define Port Louis, a capital da Ilha Maurício: é uma cidade multicultural, multiétnica e multirreligiosa. A sua malha urbana denota a sua origem francesa (foram os franceses que a desenvolveram, no século XVIII, apesar de o local ter sido povoado por holandeses desde cem anos antes). Porém, a sua estrutura de cidade colonial não consegue esconder a sua alma de pequeno povoado crioulo. Predominam as casas baixas, de traça tropical. Os poucos palacetes que sobram, de outras eras, são modestos e albergam, todos eles, hoje em dia, as instituições políticas da nação. Assim acontece, por exemplo, com o antigo palácio do governador (actualmente palácio do Governo), em cuja entrada pode ainda ver-se uma imponente estátua da Rainha Vitória. Ao lado, o palácio do Primeiro-ministro é uma mansão colonial, que passa despercebida. Há ainda o teatro municipal, discreto, numa esquina. E pronto, quanto a edifícios antigos fica a terra por aqui.
De resto, a visita que o viajante achou mais interessante foi a do mercado municipal, num antigo edifício, do século XIX, renovado há meia dúzia de anos. Se o visitante conseguir esquecer o lixo e o cheiro, encontrará aqui um animado espectáculo colorido e inesquecível. Nas bancas vendem-se legumes, especiarias, pimentos e malaguetas, peixe fumado e muitas outras coisas (made in china). Os compradores são sobretudo habitantes locais e, por isso, os vendedores ainda não estão viciados em turistas. O ambiente é portanto genuíno.
Não conseguiu, no entanto, o viajante deixar de passar pela Caudan Water Front, a nova zona marítima. Estruturalmente, é um centro comercial junto do mar, construído em antigas instalações portuárias. É ali que se localizam as lojas modernas da cidade (as outras são mais tradicionais e antigas), os bares e restaurantes modernos (os da cidade velha não inspiram confiança, sobretudo no que respeita à higiene…) e as diversões para turistas. O local poderia fazer recordar qualquer marina algarvia, sem barcos e com algumas moscas mais. Mas é o orgulho dos locais.

terça-feira, fevereiro 02, 2010

Os céus da África Oriental

Por vezes, sem contar, tem o viajante anotado do melhor que tem vivido por esse mundo fora.
Já tem o viajante umas horitas de voo na sua conta. Mais do que quereria, mas menos do que gostava. Nesta presunção (da tal que se toma como água benta), vai afirmar que fez uma das mais fantásticas viagens de avião que poderão fazer-se. Calhou ter que voar, quase um dia inteiro, através do leste do continente africano, num percurso que ligava a Ilha Maurício a Londres. Ao contrário do que é usual neste tipo de voos, foi diurno e por isso propiciou uma fantástica visita aérea ao Quénia, à Etiópia, ao Sudão e à Líbia.
Depois das águas verde-esmeralda que rodeiam a Ilha Maurício e dos territórios secos, de vegetação rasteira, do norte de Madagáscar, pode o viajante avistar as ilhas costeiras próximas a Mombaça. Zanzibar está mais ao sul, mas Pemba é bem visível desde o ar, com a sua barreira de coral e praias de areia branca. Mombaça é o centro de um enorme estuário, de águas escuras. É impossível, a este propósito, esquecer Vasco da Gama, que aqui passou em 1498, na rota para Calecut. De Mombaça era o piloto árabe que o guiou à Índia.
Seguiu-se território queniano, de estepe massai – terra vermelha fogo, pontilhada pelos arbustos da savana. Aqui não se avistam traços de povoação e os únicos sinais dissonantes da desolação são as manchas verdes dos córregos que levam água na estação das chuvas.
Pouco depois, aguardava o viajante, lá ao longe, nos limites do Quénia e da Tanzânia, a cereja no cimo do bolo de África: embora enevoado, o Kilimanjaro deixava-se ver, com o topo muito menos nevado do que é habitual ver-se nas fotografias.
As proximidades de Nairobi revelam povoação. Em regra, pequenos povoados e aldeias pobres, de casas com telhados de folhas de zinco. Nairobi, por seu lado, vista do ar, revela-se uma cidade muito dispersa, com subúrbios imensos e espalhados pelo campo.
A norte, avista-se uma das pontas da enorme depressão do Rift, por aqui menos rica em achados que mais a sul, na Tanzânia, mas ainda assim impressionante. Lá para trás ficou já o Lago Vitória, pouco mais que uma miragem no fundo do horizonte. Rumo ao Mediterrâneo, vai escasseando a povoação.
Depois, desaparecem de todo os vestígios de povoados e passam a dominar o relevo as montanhas da Etiópia, que se compreende ser uma nação de pastores. São montanhas escarpadas e florestadas, sem pinta de presença humana. Mas, pouco depois, a rota passa às planuras do sul do Sudão. Por aqui, no primeiro troço do Nilo, a terra começa a ficar mais seca. Ainda é possível ver aldeias de palhotas. Muitas aldeias de palhotas, agrupadas de forma desorganizada mas coesa, na planura seca e quente. Delas partem caminhos em todas as direcções, embora por todo o lado haja secura. E piora com o avanço para norte. No vale do Nilo Superior não há árvores e, consoante se avança, deixa gradualmente de ver-se tanto mato rasteiro, que acaba por desaparecer de todo. Nas planuras entre Cartum e as montanhas de Darfur avista-se finalmente o deserto.
No início, este deserto manifesta-se pela terra nua e pelas pedras. Depois, chegam mesmo as dunas, a anunciar o Deserto da Líbia. Do terreno vem a cor quente da areia, por vezes ocre, noutros casos mais escura. Sensação de imenso calor. Lá em baixo, como nos filmes, a magia das dunas. E montanhas isoladas, rodeadas de deserto. E ainda, de vez em quando, uma daquelas obras megalómanas que o regime de Khadafi construía no deserto, há 20 anos: plantações agrícolas nas areias, com água trazida à distância.
No deserto, o ar não é límpido e isso prejudica a vista. E assim será até ao Mediterrâneo, onde termina, no golfo de Bengazi.

segunda-feira, fevereiro 01, 2010

Siena, Toscana, Itália

Conhecia, há muito, o viajante a fama do Palio de Siena, esse festival anual que se realiza em Maio, talvez a manifestação pública mais famosa de Itália. Chama a Siena milhares de pessoas que vêm ver uma corrida de cavalos que dura apenas meia dúzia de minutos. Essa corrida de cavalos, em que compete um cavaleiro por cada uma das nove paróquias de Siena, realiza-se anualmente na praça de Il Campo, no centro da cidade. É bem esclarecedor, quanto à sua dimensão planetária, o pormenor de ter já surgido como pano de fundo em parte de um dos filmes da série 007.
Não foi o viajante a Siena durante o Palio, altura em que esgotam os hotéis e as ruas pedonais do centro se tornam intransitáveis. Mas mesmo em época baixa, sentiu a grande pressão das hordas de turistas anglo americanos e japoneses que, ruidosamente uns e ordeiramente, em grupos, os outros, enchem cada rua e cada praça e cada palácio e cada igreja da cidade. Nessa medida, tal como Florença ou Veneza, Siena tornou-se um enorme parque temático, para turistas, com gigantescos parques de autocarros fora de portas e uma complexa rede de ruas fechadas ao trânsito, cheias de lojas que vendem coisas supostamente típicas da cidade.
Esta última vertente permitiu à população local soltar a sua iniciativa e criatividade, reinventado o “típico”. Há lojas especializadas em quase todos os ícones do “típico” italiano: lojas em que se vendem azeites com aromas, lojas de “pastas” eróticas e afrodisíacas, lojas de roupa muito específica. Passou o viajante por um “cravattificio” (seja lá o que isso for) que, pelo insólito, lhe ficou na memória… Neste contexto de centro comercial especializado, é difícil encontrar na cidade recantos tranquilos onde se respire o verdadeiro ambiente local.
Não obstante, não deixou o viajante de se deslumbrar com a finura do “Duomo”, a catedral gótica profusamente e exuberantemente decorada. Nem de apreciar Il Campo, com a sua arquitectura que constitui um dos melhores exemplos de gótico civil na Europa, dizem os guias. Ou ainda de ficar impressionadíssimo com os inúmeros e enormes palácios medievais, fortes e altos, com grossíssimas paredes e vários andares, a tornarem as estreitas ruas muito escuras.
Ao contrário de Florença, que evoluiu após a Idade Média, Siena parou no século XIV, altura em que se estima que tivesse cerca de cem mil habitantes. Nessa altura, a sua economia estava estruturada no comércio e na actividade financeira. Porém, esta economia não sobreviveu à grave crise provocada pela peste negra, que a partir de 1348 dizimou 7 de cada 10 habitantes de Siena. Pouco sobrou das várias estirpes de banqueiros, de ganadeiros e de ricos comerciantes e artesãos.
Não deixa de ser interessante anotar, no início de 2010, quase na ressaca de uma gravíssima crise financeira, com origem social, tal como aquela que abalou Siena no fim da Idade Média, que foi neste último período que teve origem o Banco Monte dei Paschi di Sienna, que desde o século XIV tem sede na cidade, nos palacetes da Piazza Salimberi (nome da família de banqueiros e negociantes de seda e cereais que lhe deu origem). Este banco, um dos mais antigos de Itália e da Europa, ainda existentes, foi originariamente fundado em 1472 como instituição de beneficência, emprestando dinheiro aos carenciados.
Siena, a segunda cidade da Toscana, fica a 90 quilómetros de Florença. A partir da a capital da região tem acesso por estrada e por comboio (regional, que demora cerca de uma hora).