quinta-feira, fevereiro 10, 2011

Recife Velho, Pernambuco, Brasil

 Modelou o viajante na sua memória as cidades do hemisfério sul, sobretudo do Novo Mundo, como imensos aglomerados de pessoas, algumas das quais trabalham em altíssimas torres de escritórios no centro e vivem em condomínios fechados, enquanto a esmagadora maioria da população vivem em bairros pobres e em favelas, que crescem nos morros próximos. Neste tipo de cidades, não tem o viajante encontrado propriamente um centro, no sentido europeu – costumam ter algumas ruas comerciais, com caríssimas lojas de marcas internacionais globalizadas, uma zona com altas torres de bancos e consultoras financeiras, por vezes, uma zona de hotéis e embaixadas. Tudo muito compartimentado e isolado, sem aparente ligação.
 Muito menos tem o viajante encontrado nestas cidades aquilo a que habitualmente se chama um centro histórico – aquela zona mais antiga e cuidada, onde terá estado a sua origem. Têm, é certo, zonas mais polarizadoras de interesse, que vão variando ao longo do tempo, com a construção de novos edifícios de escritórios, hotéis e restaurantes.
 Foi por isso uma surpresa verificar que em Recife, capital do brasileiro Estado de Pernambuco, a herança portuguesa (e - vá lá -, também alguma holandesa), deixaram na malha urbana um conjunto grande de quarteirões antigos, sucessivamente renovados e remodelados sem que ficasse prejudicada a sua traça e o ambiente de contexto. Na zona conhecida como Recife Antigo, zona mais interessante desta megacidade de 3 milhões de habitantes, implantada em ilhas que separam o mar da foz do rio Capibaribe, encontram-se edifícios dos séculos XVIII e XIX, igrejas barrocas e maneiristas e ainda fortes militares construídos para defender a cidade na época colonial.
 Merece particular visita o Forte das Cinco Pontas. A versão actual, após a reconstrução portuguesa, tem planta quadrangular e quatro bastiões em forma de ponta, mas quando os holandeses o edificaram, em 1630, durante a ocupação espanhola, teria de facto uma original forma, de estrela com cinco pontas. Foi construído para defender o Recife de ataques vindos do mar e para proteger o seu acesso ao Atlântico – começava na altura a exportação do açúcar, a grande riqueza da região.
 Algumas das suas ruas fizerem o viajante julgar estar num Portugal tropical. Foi o caso da muito fotografada Rua da Aurora ou da Rua do Bom Jesus, onde fica a antiga sinagoga Kahal Zur Israel, a primeira que foi construída na América do Sul, em 1642, período de alguma distensão e tolerância, sob domínio holandês. Não longe, fica a Igreja da Madre de Deus, construída no século XVII, em estilo por aqui conhecido como colonial e que se diria ser barroco. Ainda na zona, não pode o viajante deixar de visitar o Convento Franciscano de Santo António, que inclui a sua igreja, do século XIX e uma capela lateral, do século XVIII, conhecida como Capela Dourada (da qual já deu aqui o viajante conta), por ser folheada a ouro.
Este património religioso foi a resposta com que os portugueses do século XVII (conhecidos como Mascates) quiseram marcar a expulsão dos holandeses destas paragens, que ocorreu por essa altura.

sábado, fevereiro 05, 2011

Mechelen, Bélgica

 De vez em quando, inesperadas curvas da estrada revelam ao viajante pérolas escondidas. Assim aconteceu numa ocasional passagem em Malines (em francês), ou Mechelen (em flamengo), uma pequena cidade a meio caminho entre Bruxelas e Antuérpia. Esta pequena cidade, actualmente de província, já foi, em tempos, capital de todos os Países Baixos e é ainda a sede do arcebispado católico da Bélgica.
 Calhou o viajante chegar a Mechelen de comboio, vindo de Bruxelas (breve percurso de 20 minutos) e ficar desiludido com o aspecto vulgar da zona da gare, bem como com o perfil comum da zona pedonal onde passou a caminho do centro histórico. Mas ao chegar ao Grote Markt, a principal praça da cidade, reconciliou-se com a terra. O Grote Markt é uma praça de piso empedrado, bordejada de casas em estilo hanseático, bem conservadas, algumas das quais com origem no século XVI. Foi essa a altura em que Mechelen era a capital, no tempo da regente Margarida de Áustria, tia daquele que viria a ser o imperador Carlos V, que também aqui cresceu.
Num dos topos do Grote Markt fica a magnífica catedral de Sint Rumbold, com uma altíssima torre sineira e ricas pinturas dos séculos XVII e XVIII – uma das mais conhecidas é uma pintura de Anton Van Dijck, representando Cristo Crucificado, no altar de Santa Ana (óleo sobre tela de 1630). Ficou o viajante muito impressionado com a invulgar altivez da torre.
No outro topo, fica o fantástico palácio gótico tardio e renascença onde actualmente está instalada a sede do município local. A toda a volta da praça há cafés e cervejarias (a cidade tem a sua própria cerveja – a Gouden Carolus –, dita a preferida do imperador Carlos V).
Mechelen foi portanto uma interessante paragem. É uma típica cidade flamenga, muito mais tranquila que Bruges ou Gent e sem as hordas de turistas daquelas. É também muito mais modesta, mas valeu a pena fazer o desvio, pelo agrado do passeio pelas ruas pedonais e pelo conjunto de edifícios antigos, muito bem preservados. Valeu também pela evocação histórica: esta cidade que agora tem apenas cerca de 80 mil habitantes já foi um dos mais importantes centros da arte flamenga – em particular assim foi durante o período do renascimento.

Fica a meio caminho entre Bruxelas e Antuérpia, a uma curta distância de ambas. A viagem de comboio, desde Bruxelas, custa 4 € e há 2 a 3 comboios por hora.

terça-feira, fevereiro 01, 2011

Canary Wharf, Londres

 É engraçado perceber como cada específico local causar sensações únicas, por vezes difíceis de explicar a quem não esteve ali, ou impressões que vão muito para além daquilo que se vê. Não deixa o viajante de se impressionar com esta capacidade que os sítios têm de o impressionar, de uma forma ou outra.
Canary Wharf, nas docas do sueste londrino, construída a partir de destroços industriais, em décadas recentes, nas margens do Tamisa, é um desses locais de impressão muito clara. Essa impressão passa pelos figura dos majestáticos arranha-céus de vidro, sóbrios mas muito imponentes, a recortar o horizonte plano e a dar cor e luz à paisagem. Sentiu o viajante algo de futurismo, de desafio ao tempo que se vive. Mas também opressão pelos edifícios, e pela densidade deles. Nas esquinas das ruas, olhando para cima não se vê o céu: vê-se uma cruz azul, entre paredes espelhadas que sobem vertiginosamente na vertical.

Nesta zona empresarial de Londres há muita gente na rua, a circular ordenada mas apressadamente, sobretudo em horas de entrada ou saída do trabalho. Percebe-se bem que o tempo desta gente vale muito dinheiro.
Mas a opressão é também dos nomes: estão aqui instaladas as sedes dos mais poderosos bancos e outras instituições financeiras do mundo. Sente-se muito poder e grande, embora discretíssima, riqueza. Será talvez aqui que tem mais fiel recriação em versão moderna o já extinto ambiente dos gentlemen, de chapéu de coco, da antiga City. Não há chapéus, nem guarda chuvas, nem The Times, agora substituído pelos jornais gratuitos, distribuídos na entrada do metro.

Canary Wharf fica na parte oriental de Londres, na zona do East Ham. Tem estação de metro e por isso facilíssimo acesso. A visita vale pelo ambiente exterior do bairro. Pode ainda passear-se pelos antigos bairros das docas, em tempos ocupados por armazéns portuário, que agora foram adaptados a trendy casas de habitação.
A linha do skyline é também muito impressiva, sobretudo vista das antigas docas. Do outro lado do rio Tamisa, na margem sul, fica o antigo Millenium Dome, o pavilhão feito para comemorar o início do segundo milénio e que depois da passagem da sua época ficou como sala de concertos, agora com o nome de O2 Arena. Nada longe, para sul, fica Greenwich, a do meridiano e do tempo médio.

sábado, janeiro 29, 2011

Catedral de Siena, Itália

Siena, a segunda cidade da Toscana, a 90 quilómetros de Florença, vive ofuscada pela cidade dos Medici. Tem muito menos turistas que aquela e o seu núcleo antigo é bem menos exuberante. Não obstante, são ainda assim milhares os turistas que todos os anos visitam Siena. E vêm atraídos por dois motivos principais: por um lado, o célebre Il Campo, uma das praças góticas mais famosas do mundo, onde anualmente se realiza o Palio, uma das festas tradicionais mais conhecidas de Itália; por outro, a catedral de Siena, o Duomo, que foi um dos edifícios mais marcantes da arquitectura da sua época.
 Tem o viajante que confessar que o Duomo de Siena foi uma grande surpresa. Já tinha lido que era um edifício majestoso. Mas na verdade achou que é muito mais que isso. A torre sineira é o edifício mais alto da harmoniosa cidade, ainda mais alta que a torre do palácio municipal, no Campo. Quer a torre, quer a abóbada da catedral, ao lado, estão revestidas de mármore preto e branco, formando um conjunto de uma elegância fantástica.
Quanto à fachada do Duomo, é exuberantemente rendilhada, no mais exuberante gótico italiano, de mármore branco, muito bem recuperado, aqui e ali marcado pelo mármore rosa – todo o resto do edifício é também de mármore, por vezes matizado de preto, outras vezes de verde-escuro.

 A entrada no interior do Duomo é paga (6€). Mas vale bem a pena, sobretudo pelo magnífico piso de composição em ladrilhos, que nem sempre está aberto para visita - esteve-o no verão de 2009, altura em que o viajante por ali passou.
Os mosaicos do piso representam sobretudo histórias bíblicas (uma magnífica representação do sacrifício dos inocentes, painéis sobre a história de Jesus, ou de Moisés, ou o sacrifício de Isaac) mas também de outros motivos – por exemplo, há uma roda da fortuna com nomes de filósofos gregos. Por toda a catedral há imensa estatuária e altares, mas toda a sua riqueza é ofuscada pela exuberância do piso.

 Ao lado, fica a biblioteca da catedral, a Libreria Piccolomina, compartimento especialmente construído para ser biblioteca, profusamente decorado no tecto e nas paredes, com cenas da época e da vida do próprio abade construtor. Em armários laterais podem ver-se imensos livros de salmos, com riquíssimas iluminuras. Achou o viajante que a riqueza da decoração desta sala, só por si, valeu a visita à catedral.

domingo, janeiro 23, 2011

Maurício, a ilha de todas as cores

 Como ideia geral, a ilha Maurício causou no viajante a impressão de ser uma espécie de antecipação histórica da aldeia global, aglomerada nesta isolada paragem do Índico ainda antes do sociólogo canadiano Marshall McLuhan ter criado o conceito. Na verdade, vários povos ocuparam, apenas desde há cerca de 5 séculos, uma ilha paradisíaca onde antes não vivia ninguém. E desde então, todos têm vivido ali em conjunto. São de diferentes etnias, oriundos de diferentes continentes, professando diversas religiões, mas dão-se bem entre eles.
De facto, na ilha Maurício, indianos (hindus e tamiles), crioulos e brancos (católicos) e paquistaneses (muçulmanos) partilham uma ilha superpovoada, mas onde vai havendo riqueza para todos.

 Claro que, pelo caminho, quase desapareceu a vegetação endémica da ilha, para ser plantada no seu lugar, de forma intensiva, cana-de-açúcar, o sustento económico tradicional e histórico de quase toda a população. Por outro lado, depois do dodó (o castiço passaruço que foi sendo caçado até ser dado como extinto, a bem dos estômagos dos marinheiros holandeses que aqui aportaram no século XVIII) há hoje em dia outras espécies, sobretudo marinhas ameaçadas pelo incessante crescimento do turismo, que já ultrapassou em muito o açúcar como fonte de receitas da ilha.
Apesar disso, os maurícios são gente alegre e simpática. Claro que já descobriram que os turistas podem dar-lhes dinheiro a ganhar. Têm por isso razões para os tratar bem. Mas, ao contrário de outros povos que o viajante tem conhecido (por exemplo o italiano ou o egípcio), não deixam de ser simpáticos quando percebem que não vão fazer negócio. Pelo contrário: em geral esforçam-se mesmo por agradar e fazem-no de uma forma genuína.



 Não deixou o viajante de pensar, quando passou pela ilha, que nesta hospitalidade sincera estava a marca genética dos portugueses, que foram os primeiros humanos (que se saiba) que pisaram a ilha. O navegador português Pedro de Mascarenhas terá chegado à ilha entre 1503 e 1507. Aliás, o arquipélago de que a Maurício faz parte, conjuntamente com a vizinha Reunião e com a longínqua Rodrigues, ficou desde então baptizado como “Arquipélago das Mascarenhas”. Quanto à ilha propriamente dita, deram-lhe os portugueses o nome de ilha do Cisne, com o qual terão achado parecido o agora extreminado dodó.
Porém, este baptismo lusitano rapidamente foi substituído. Metade de um século depois os holandeses vieram ocupá-la a ilha e, em homenagem ao seu regente, Maurício de Nassau, passaram a chamá-la Ilha Maurício.

 Além de comerem os dodós todos, os holandeses trouxeram também a cana-de-açúcar. E com ela tiveram que vir os escravos africanos, para trabalhar na sua plantação, na colheita e nos engenhos. Depois da abolição da escravatura na Europa, os donos das plantações da ilha, entretanto ocupada pelos ingleses, viraram-se para a Índia e passaram a recrutar trabalhadores livres, que aqui acorreram com as suas famílias.
E assim se povoou, com população colorida, esta ilha antes deserta, onde agora vive mais de um milhão e duzentos mil habitantes, numa pequena área de apenas 1.800 quilómetros quadrados.
Além do colorido das gentes, das suas religiões e roupas, a Ilha Maurício é também uma ilha colorida pela sua natureza. Surgem flores por todo o lado, durante todo o ano, sobretudo amarelas e vermelhas. Além das flores comuns, há árvores muito floridas – é o caso da flamboyant, a exuberante árvores de flores vermelhas, típica da ilha.

Mas, a Maurício é ainda colorida nas línguas que fala. Todos aqui falam crioulo, derivado do francês. Falam crioulo entre eles, em casa, entre amigos, independentemente da sua etnia ou religião. Mas se a conversa envolver um desconhecido, ou se for formal, ou profissional, então será em francês. Não será assim se o contacto for escrito (num email, por exemplo, ou num requerimento a uma entidade pública). Nesse caso usado o inglês, a única das três que é qualificada como língua oficial. Da mesma forma, na estrada, os sinais de trânsito têm texto em inglês, mas os nomes das localidades são franceses, tal como estão escritos em francês os anúncios comerciais, na beira da estrada. Apesar disso, a circulação faz-se à inglesa, pela esquerda. Mas as informações diárias sobre o estado do trânsito são transmitidas na rádio em crioulo. Tudo com muita tranquilidade…
A Ilha Maurício fica no Oceano Índico, a 3000 quilómetros de Moçambique. É pequena (de norte a sul a distância máxima é de 63 quilómetros e de leste a oeste é de 47 quilómetros). Tem voos a partir de Paris (diários) e de Londres (4 vezes por semana) que normalmente fazem o percurso para lá durante a noite e regressam logo de manhã, chegando à Europa ao fim do dia (o voo durará 11 a 12 horas). É um destino turístico muito procurado pelas suas praias de águas coralinas, verde-esmeralda e pelo seu interior, com natureza pouco explorada. O clima é bom, com tempo agradável durante todo o ano, mas em Janeiro e Fevereiro chove muito.

sábado, janeiro 01, 2011

As igrejas românicas de Andorra

 A Andorra vai-se às compras ou para o esqui. Em ambos os casos, na versão low cost. Nas compras, porque os impostos são muito reduzidos e os modelos de fim de linha, já ultrapassados, de roupa, sapatos, máquinas fotográficas e outras tecnologias se vendem baratos. No esqui, porque a oferta de hotéis é simpática e, por preços mais modestos, prestam serviços parecidos com os dos Pirenéus de Espanha ou França. Além disso, há portugueses em todos os lados, quer como clientes quer, sobretudo, como empregados da hotelaria.
O viajante tem um fraquinho pelo românico. Já aqui deixou nota da passagem pelo vale de Boí, ao lado, na Catalunha, onde as igrejas românicas são de facto um fenómeno notável, a justificar a viagem. Não poderá dizer o mesmo das igrejas românicas de Andorra. Também elas são uma versão mais simples, menos sofisticadas e ricas que as do outro lado da montanha. Mas apesar disso valem o desvio no regresso do esqui.
São em geral igrejas de estilo lombardo, que bem revelam a importância da religião e da religiosidade no período medieval, quando foram construídas. Vem dessa altura a instituição do co-principado de Andorra, em que um dos co-príncipes é o bispo católico de la Seu d’ Urgell, na província espanhola de Lleida. Esta importância justificará a grande densidade de igrejas românicas no pequeno principado pirenaico: em Andorra ainda subsistem 44 destes templos católicos, num território de apenas 468 quilómetros quadrados. Este conjunto de edifícios religiosos constitui, aliás, o património cultural e arquitectónico mais valioso do país.
 Em geral são edifícios pequenos e simples, muito sóbrios, com interior de uma única nave, coberta com telhado de madeira. No topo costumam ter uma abside redonda, semicircular. Algumas delas conservam frescos, mas a maior parte deles foi retirada e está em museus fora de Andorra – em particular assim acontece com o Museu Nacional de Arte da Catalunha, em Barcelona.
As autoridades do turismo de Andorra criaram uma rota do românico, que começa em Canillo e acaba em Grau Roig. Ninguém o percorre todo. Alguns visitantes fogem ao esqui e procuram Santa Coloma, próxima de Andorra la Vella, uma das mais representativas, que figura em todos os guias. Outros, Sant Climent, na zona de La Massana.
Achou o viajante que bastaria ficar pelo mais fácil, visitando a igreja de Sant Joan de Caselles, em Canillo, na beira da estrada e com facilíssimo acesso para quem pretenda cruzar o principado pela estrada principal, de sul para norte. É um edifício dos séculos XI e XII, ligeiramente alterado nos séculos XV e XVI. Notou de especial um campanário externo, unido à nave principal por um alpendre que os paroquianos usavam como sala de reunião comunal.

segunda-feira, dezembro 06, 2010

Kiev, cidade vibrante

 A capital da Ucrânia já foi uma cidade soviética modelo. No centro urbano abundavam conservadoríssimos e monumentais edifícios públicos, todos restaurados após a IIª Guerra Mundial. Ali havia também edifícios novos, no chamado estilo estalinista, muito neoclássico, em pedra rendilhada. Mas também eram tipicamente estalinistas alguns modernaços edifícios de vidro e aço, no pior gosto dos anos 70, condizentes com outros frutos da época, como os colarinhos compridos, as longas bigodaças ou as calças de boca-de-sino. Portanto, o centro de Kiev era feio, nessa época.
 Depois, na periferia havia bairros gigantescos, com incontáveis prédios onde vivia o proletariado urbano: edifícios muito pouco engraçados e de má construção, todos iguais (para serem igualitários, claro) em bairros todos iguais, a quilómetros uns dos outros e a ainda mais quilómetros do centro. Tudo, em obediência ao planeamento.
 Hoje em dia, a par destas velhas realidades, surgem edifícios de escritórios e centros comerciais, de vidro e aço, decorados com coloridos néones que por todo o lado marcam as longas noites. As outrora amplas avenidas de majestáticos edifícios estalinistas tornaram-se pequenas para escoarem o trânsito de um dos parques automóveis mais luxuosos da Europa. Na rua, onde antes havia medo e discreto cinzentismo, há agora gente elegante e bem vestida, orgulhosa da sua liberdade, que exerce exuberantemente.
 Iguais, permanecem os imensos parques arborizados de Kiev, talvez o mais importante legado do período soviético dos comunistas à cidade. Sobretudo ao longo do rio Dnipro (Dnieper em russo), estende-se um dos maiores parques urbanos que o viajante conhece, se não o maior. Fica entre o mosteiro de São Miguel, no coração da cidade e o mosteiro de Pechersk-Lavra. Ao longo dele sucedem-se monumentos, memoriais, pracetas (incluindo a do Parlamento Nacional – o Verkhovna Rada) e, sobretudo, muitos quiosques onde se vendem bebidas e comida ligeira. Calhou ter o viajante passado por aqui em dia de bom tempo e surpreendeu-o a enorme quantidade de pessoas que passeavam ou apenas descansavam.
 Noutra perspectiva, Kiev é a cidade das máfias, com ligações a oligarcas do antigo regime. Esta gente circula pelo trânsito em automóveis de luxo, conduzidos por guarda-costas privados e espalham o seu controlo por todo o tecido social. Apesar disso, diz-se que apenas 60% dos juízes são corruptos, o que é um bom score, se comparado com os 80% dos restantes funcionários públicos ou com os 90% dos professores, que exigem subornos para dar notas altas. Diz-se, claro, mas não se sabe ao certo…
Portanto, Kiev reinventa-se sobre a herança do passado e não será por acaso que tantos ucranianos abandonam o país, até para Portugal, em busca de uma vida mais tranquila.
Mas também se reinventa procurando as suas raízes na antiga Ucrânia, profundamente cristã e ortodoxa. Será talvez por isso que Kiev é hoje a cidade das igrejas e dos mosteiros. Foi aqui que o viajante encontrou dos mais impressionantes templos ortodoxos que se conhecem. Neste vertente, a visita Kiev vale a pena pelo conjunto do mosteiro de São Miguel, pelo lindíssimo conjunto da igreja de Santa Sofia, no cento histórico da cidade e, sobretudo, pelo mosteiro de Pechersk-Lavra.

segunda-feira, outubro 25, 2010

Patagónia, Argentina

Voando da Patagónia para Buenos Aires, durante a noite,  o viajante recordouSaint-Exupéry, que em Voo Nocturno descrevia os medos e apreensões daqueles que, em 1931, data da publicação daquele livro, cruzavam pelo ar o deserto da Patagónia, na escuridão.
Tal como o principezinho, viu o viajante, de longe em longe, muito de longe em longe, um ou outro pontinho de luz a quebrar a noite. Claro que em 2010, a viagem faz-se confortavelmente, sentado num moderno voo comercial, pilotado por profissionais e monitorizado por atentíssimos computadores.
Mas ainda agora, "após cem quilómetros de charnecas mais despovoadas do que o mar, se cruzava com uma herdade perdida”. Assim é boa parte do percurso, de dois mil quilómetros, do Estreito de Magalhães até Buenos Aires.


A Patagónia impressionou o viajante pela permanente cor castanha carregada do deserto estéril. Ainda no relato de Saint-Exupéry, campos “luminosos, duma luminosidade perene: naquela região, os campos não cessam de espalhar o seu ouro, assim como no inverno não findam a sua apoteose de neve”. Além da cor quente, encontrou o viajante vento fortíssimo e persistente. Este vento dificulta o crescimento de árvores e plantas. Árvores, só as há nas raras povoações e foram plantadas por mão humana. Outras plantas, são todas elas muito baixas e até rastejantes, sem grandes ramos nem folhagens, para sobreviver à ventania: são em geral arbustos de muito pequeno porte, espinhosos e de folhas duras. A Patagónia é deserta e não chove quase nunca, apesar de a região contar com inúmeros lagos de águas muito azuis, vindas dos glaciares dos Andes. No fundo, esta é uma terra desgraçada, onde a vida é penosa e a sobrevivência muito difícil.
É difícil perceber a atracção que este pedaço de terra exerce sobre viajantes de todos os quadrantes, tal como exerceu no passado sobre pioneiros e aventureiros. A sua costa é recortada e inóspita. Talvez por isso – e por ter pouquíssima população -, ainda vivem nesta costa muitos leões-marinhos que, de vez em quando, servem de almoço a orcas. Assim é, em particular, na Península Valdez, aliás o único lugar do mundo onde foram vistas orcas a atacar leões-marinhos nas praias, para se alimentarem.

O primeiro europeu a chegar a esta terra foi Fernão de Magalhães, em 1520, mas esta vastíssimo território continuou por explorar até ao século XIX, altura em que a Argentina independente levou a cabo, simultaneamente, uma campanha de povoamento do interior e uma guerra contra os indígenas Mapuches e Tehuelche (estes últimos foram mesmo inteiramente exterminados).

Calhou o viajante parar em El Calafate, uma terra com menos de um século, construída nas margens do Lago Argentino, o maior do país. Mas não foi o lago que fez aqui ocorrer povoadores: antes foi a proximidade do Parque Nacional dos Glaciares, onde se integra o mundialmente famoso Glaciar Perito Moreno. Mesmo sendo primavera, encontrou o viajante uma terra ainda com neve e baixas temperaturas, embora durante o dia e com sol aberto tivesse registado 15 graus. Nada, claro, que se comparasse com as nevadas e as noites geladas do inverno, altura em que chegam a atingir-se 20 graus abaixo de zero! E, anote-se, El Calafate é considerada, no contexto do grande sul, uma estância com temperaturas moderadas! O pior, na primavera e no verão, é mesmo o vento, vindo da cordilheira, em regra gelado, mas sempre muito forte.

domingo, outubro 24, 2010

Teotihuican, México


Das aulas de história, na escola secundária, não recorda o viajante qualquer referência às civilizações centro-americanas anteriores à chegada de Cristóvão Colombo à América. Sentiu pois alguma dificuldade em localizar a cultura olmeca, que terá surgido um milénio antes do início da era de Cristo (e se desenvolveu na actual zona de Tabasco e de Vera Cruz, nas costas do golfo do México). Ou a cultura azteca, que ocupou o mesmo espaço daquela, um milénio depois. Ou ainda a civilização maia, que surgiu na península do Iucatão e na Guatemala, na segunda parte do primeiro milénio da nossa era. Custou-lhe algo distinguir e individualizar estas civilizações e etnias, que foram tão diferentes entre elas como o terão sido na Europa a fenícia, da grega ou esta da romana.

Porém, mesmo depois de assimilar todas estas nuances, ainda sentiu perplexidade ao procurar saber o contexto em que surgiu e se desenvolveu a cidade de Teotihuican, que ficou a 45 quilómetros da actual cidade do México. Aliás, a origem da cidade é pouco ou nada conhecida. Terá surgido pelo menos um século antes de Cristo e chegou a atingir os 200 mil habitantes, tendo nessa época palácios, pirâmides e templos. Mas sem se saber porquê, colapsou lá para o século VIII depois de Cristo, altura em que chegaram a estas terras os aztecas.
O nome originário da cidade é também desconhecido, já que aquele que se conhece lhe foi dado pelos aztecas e quererá dizer “lugar onde os deuses são feitos”, por julgarem que foi aqui que os deuses criaram o universo. É talvez isso que explica que os dois mais importantes edifícios da cidade, tal como ela subsiste, sejam as pirâmides do Sol e da Lua. Nas civilizações do México central, ao contrário do que acontecia com a egípcia, as pirâmides não tinham funções tumulares, sendo apenas templos nomeadamente destinados a ritos sacrificiais.
A pirâmide do Sol impressionou o viajante, pela sua gigantesca dimensão. Diz-se ser a terceira maior pirâmide do mundo (sendo a maior a de Quéops, no Egipto e a segunda maior a de Cholula, próximo de Puebla, igualmente no México Central).
A sua base tem 220 metros e atinge 62 metros de altura (o que equivale a um prédio de 22 andares). Na sua construção foram usados três milhões de toneladas de pedras empilhadas, sem uso de ferramentas metálicas ou animais de carga, que por aqui, na época, não se conheciam, sendo certo que também ainda não tinha chegado aqui a invenção da roda.
Subiu o viajante ao topo, não sem algum esforço, mas valeu a pena. Após 248 degraus, chegou à antiga plataforma onde ficava o templo. Daqui avista-se todo o conjunto das ruínas da cidade: a pirâmide da Lua, a norte e o antigo palácio de Quetzalcoatl (que quer dizer, literalmente, serpente emplumada). A uni-los, a calçada dos mortos, ladeada de templos e de palácios, nalguns dos quais ainda é possível ver frescos.
Quanto ao Palácio de Quetzalcoatl, o seu recinto é igualmente visitável e a visita vale a pena, porque ainda se podem ver, numa das suas fachadas, enormes esculturas, em particular de cabeças de serpentes e de jaguares. Este palácio é identificado como sendo a residência do mais importante sacerdote da cidade.

A entrada no recinto das ruínas é paga e a visita supõe andar bastante a pé. Da cidade do México pode vir-se de autocarro. Ou então, com mais conforto, em visitas organizadas (poderão custar 30 €) ou ainda, em alternativa, individualmente, de táxi, que esperará que se faça a visita (poderá custar 100 €).

sábado, setembro 25, 2010

Castelo de Santo Estêvão, Chaves

A aldeia de Santo Estêvão, localizada na veiga do rio Tâmega, dista cinco quilómetros de Chaves, sede do concelho do qual faz parte. Grande e populosa, é atravessada por uma estrada municipal, que ligas às estradas nacionais de Bragança (a EN 103) e da fronteira espanhola (a EN 103-5). Na parte mais elevada da povoação, contornado pela estrada, abre-se um terreiro inclinado no topo do qual fica uma esbelta torre.
Esta torre de pedra é o que resta da fortificação medieval de Santo Estêvão. Sólida e airosa, é tipicamente medieval, encimada por ameias e decorada com seteiras.
Pensa-se que foi construída no tempo do rei D. Sancho I, mas as características do edifício levam a concluir que sofreu obras no tempo de D. Dinis. Supõe-se que aqui se refugiou a população da vizinha vila de Chaves durante a ocupação muçulmana, sendo por isso aqui que se reorganizou o município flaviense depois da reconquista.

A torre é granítica, tendo adquirido a cor acastanhada dos velhos edifícios de pedra. Não tem o habitual aspecto inóspito e agressivo dos castelos, antes se aparentando muito urbana e civilizada, com muitas aberturas para o exterior. Tem quatro pisos, todos eles acessíveis. Anota-se a curiosidade das seteiras, boa parte das quais geminadas. É possível visitar o interior da torre, pedido que a mesma seja aberta. Tem a chave uma zeladora, que vive próximo.

domingo, agosto 29, 2010

Museu Miró, Barcelona

O Museu e Fundação Miró são referidos pelos guias turísticos como uma das mais interessantes visitas que actualmente se podem fazer em Barcelona. É bem certo, desde logo porque Joan Miró é catalogado com um dos mais emblemáticos artistas espanhóis de sempre. Não ficou o viajante desiludido com a visita, mesmo tendo que esperar para ultrapassar uma boa fila, nas bilheteiras, talvez mais razoável do que a que haverá quando chegam à Catalunha as habituais hordas de turistas dos meses de verão.
O edifício, discreto na paisagem, revela-se amigável e muito adequado à função. É profusamente inundado pela luz do sol e está cheio de recantos muito agradáveis. Recorda o viajante o pátio onde fica a esplanada do bar. Embora seja interior e fechado, é muito airoso e arborizado.
A colecção do museu, que requer gosto pelo estilo, claro está, é muito interessante. Comporta evidentemente, sobretudo, peças de Joan Miró. Impressionou verdadeiramente o viajante um célebre mural em tapeçaria, feito de propósito para a Fundação. Tem que ser visto a partir de dois andares diferente. Ficou ainda o viajante com memória da discreta pintura “Maio de 68”.

Aquilo que normalmente mais cativa na obra de Miró é a cor, de uma frescura viva e magnética. Mas também a desconcertante irregularidade das formas.
Noutras zonas da cidade de Barcelona é igualmente possível ver obras de Miró. Deu o viajante sobretudo conta do célebre mural em azulejos, que reveste a parede exterior do aeroporto do Prat, e ainda do falo que ocupa o centro da praça que ladeia o Carrer de Tarragona.

A Fundação Miró fica em Barcelona, no Parc de Montjuic. Está aberta de terça-feira a sábado, das 10 às 19 horas (no verão, até às 20 horas e aos domingos apenas até às 14 horas e 30 minutos). A entrada, para adultos, custa 8,5 €, mas há várias tarifas reduzidas disponíveis.