segunda-feira, novembro 17, 2008

São Martinho de Anta, Trás-os-Montes

A escola onde fiz os meus primeiros exames”, dizia dela Miguel Torga. Veio aqui o viajante em romagem, um ano após as comemorações da data do centenário do nascimento de Adolfo Correia da Rocha, neste cruzamento transmontano onde acaba o Doiro e começa a Montanha.

A escola onde fiz os meus primeiros exames, e um rancho de crianças à porta, à espera de fazer os seus. Pacoviozitos, como eu fui, que desceram da serra e vieram pagar o seu ingénuo tributo à cultura. Alguns, viram hoje estradas e automóveis pela primeira vez(…). E pus-me a pensar na barbaridade que vai abandonar aqueles espíritos à pedagogia das pedras. Dos meus companheiros de classe, alguns finos como corais, poucos assinam hoje o nome. A mão amoldou-se de tal maneira ao cabo da enxada, foi tanta a negrura e a fome que os rodeou, que esqueceram de todo que havia letras e pensamento” – Miguel Torga, Diário.

Na escola de São Martinho de Anta, em Setembro de 2008 um anúncio avisava que as aulas começariam, após as férias do verão, a 12. Informava também dos manuais escolares. Como no resto do país. Com excepção de uma deslocada placa, mandada colocar por saudosistas de Coimbra, nada mais a distinguia de outras escolas, por aí fora.
A visita foi para o viajante o cumprimento de um tributo torguiano, com devoção mas sem conseguir ter emoção. Torga construiu um universo interior de enorme dimensão, estruturando-o de forma muito composta. Dotou-o de tantos detalhes tão ricos e delicados. Porém, as referências terrenas deste universo esfumaram-se logo que os dias do médico-escritor terminaram. O mundo virtual de Miguel Torga já não existe em lado nenhum. Se calhar, já não existia quando foi criado e foi apenas um fantástico exercício de memória analítica.
São Martinho de Anta fica no concelho de Sabrosa, a 20 quilómetros de Vila Real, por estradas sofríveis. A Vila Real chega-se, por vias rápidas, em três horas e meia desde Lisboa e em pouco mais de uma hora a partir do Porto. Quanto á escola, fica logo á entrada da povoação, antes do casario, quando se chega vindo de Vila Real.

domingo, novembro 16, 2008

Parque da Pena, Sintra

Não se cansa nunca o viajante deste local, declarado Paisagem Cultural Património da Humanidade, pela UNESCO em 1995.
Noutros tempos, a Serra de Sintra estava isolada da civilização e apenas foi conhecido por monges e reis: os monges, procuravam aqui recolhimento, na natureza exuberante; os reis de tempos antigos da nacionalidade, a quem não faltava tempo para caçadas demoradas em zonas distantes da capital, souberam apreciar a beleza da zona e o seu clima suave.
No lugar que hoje é o Palácio da Pena, talvez logo no século XII, altura em que a região foi pacificamente reconquistada aos Mouros, surgiu um pequeno edifício religioso. No seu lugar veio a ser construído um mosteiro, três séculos mais tarde, que no século XIX, com a extinção das ordens religiosas, passou para o Estado. Foi nessa altura, 1838, comprado por D. Fernando II, o príncipe consorte que veio a construir aqui, a partir da década seguinte, o magnífico palácio romântico.

A par do palácio, quis também D. Fernando construir um parque botânico, onde fosse possível encontrar árvores e outras espécies vegetais de todo o planeta. Este parque acolhe sempre tranquilamente o viajante, a quem de todas as vezes conta novos segredos, revelando recantos desconhecidos e árvores de que não sabia.
Gosta o viajante de passar na Fonte dos Passarinhos (pavilhão de estilo árabe, que fica na transição da encosta para a zona baixa do parque) e emociona-o subir à Cruz Alta, colocada no local mais alto da Serra de Sintra, a 529 metros de altitude. Daqui se vê a Estátua do Guerreiro, esculpida em bronze, a dominar a serra e o parque, da qual se diz-se ter sido mandada fazer pelo próprio D. Fernando II como representação dele próprio, a velar pela sua obra.
Mas, já ficou dito, o que mais impressiona no interior do parque, é a abundância e exuberância de espécies arbóreas raras em Portugal. Aqui viu o viajante sequóias, originárias da América do Norte, algumas das quais com perto de cem metros de altitude, ou Gingko Biloba, árvores antiquíssimas, trazidas da China, talvez as últimas representantes da flora anterior às glaciações, ou fetos arbóreos, vindos da Nova Zelândia, que diferem dos comuns por terem porte de árvore e chegarem a atingir 10 metros de altura (é notável o lugar conhecido como “feteira da rainha”). Impressionam qualquer um as túias, (thuja plicata), também oriundas da América do Norte, cujos ramos baixos são curvos, em forma de J ou as magnólias.

O Parque da Pena tem uma área de oitenta hectares, completamente arborizados e é visitável durante todo o ano, das 10 às 18 horas (no verão, das 9h30 às 20). O acesso faz-se a partir da vila de Sintra (duas dezenas de quilómetros a oeste de Lisboa), pela estrada nacional 247-3, numa subida íngreme, de dois ou três quilómetros. Pode subir-se de automóvel (o estacionamento é difícil no verão), de autocarro ou a pé (neste caso, exige-se preparação e boa resistência).

sábado, agosto 16, 2008

Praia do Bom Sucesso, Costa Oeste, 22h40m

O jornal dizia que o eclipse seria total. Durante a tarde, a improvável chuva de Agosto fez temer que o fenómeno se eclipsasse. À noite, as nuvens não permitiram confirmar a amplitude da coisa. Felizmente abriram ainda um pouco e deixaram perceber a estranheza da escuridão da noite em tempo de lua cheia.



sexta-feira, agosto 15, 2008

Estádio Sansiro, Milão

Acaba o viajante de ouvir nas notícias que Lisboa vai hoje ser visitada pela equipa de futebol treinada pelo Special One José Mourinho. Luís Figo, o super craque intemporal virá também ao Estádio da Luz, defrontar o Benfica. Serviu esta informação de mote ao viajante para recordar a visita ao Estádio de Sansiro, também conhecido por Giuseppe Meazza, em Milão.

Fica na zona ocidental da cidade e tem acesso pela linha 1 do Metro (estação Piazzale Lotto). O estádio teve origem em 1926, altura em que foi construído, por vontade e impulso de um rico industrial da cidade, Piero Pirelli, fabricante de pneus, à época presidente do A.C.Milan. Foi o estádio do clube até 1939, início da Segunda Guerra Mundial. Depois do conflito, que atravessou dramaticamente a cidade, a propriedade do estádio passou para a Comune di Milano. Nessa altura, o local passou também a ser usado em competição pelo F.C.Internazionalle (o Inter). O actual formato do edifício data de 1990, altura em que foi renovado para o Campeonato do Mundo Itália ’90. Comporta 85 mil espectadores, o que faz dele um dos maiores da Europa. Adoptou o nome de Giuseppe Meazza, em homenagem ao melhor futebolista italiano de todos os tempos, que assim se chamava. Actualmente, jogam no estádio o A.C.Milan (fundado em 1899) e o Inter (fundado em 1908). É portanto um excelente exemplo de partilha por dois clubes rivais.

Pode visitar-se o seu museu, que reúne documentos e objectos desportivos da histórias dos dois clubes. Os bilhetes custam 12,5 € (crianças 10€). Está aberto todos os dias, das 10 às 17 horas, embora haja condicionantes nos dias de jogo.

quinta-feira, agosto 14, 2008

A nova Potsdamerplatz, Berlim

Sente o viajante algum fascínio pela nova capital da Alemanha. Diz nova, porque em pequeno se habituou a Bona, a capital federal, por contraponto com Berlim, a dividida cidade da ignonímia, da qual só se conheciam as bolas. É por isso conhecimento recente a Potsdamerplatz, local obscuro durante a guerra fria e agora recuperado para os roteiros.

Desde sempre este local, no centro geográfico de Berlim, foi símbolo da sua modernidade. Assim aconteceu na louca década de 1930; nessa época ficavam aqui os cruzamentos das tendências da moda. Pelo caminho, depois de 1963, a zona foi durante décadas um descampado, terra de ninguém, entre as duas partes separadas da cidade, atravessada pelo muro da vergonha.
Nos dias de hoje, a Potsdamerplatz voltou a ser o emblema do progresso de Berlim do século XXI: aqui se encontram actualmente os edifícios de perfil mais reputado da cidade, desenhados pelos mais conceituados arquitectos do momento. Aqui está a sede da Daimler Benz (um edifício de tijolos nus, a evocar o mediterrâneo, inspirado por Renzo Piano, Richard Rogers e Christoph Kohlbecker) a sede dos Deutschbanh e os escritórios da Sony para a Europa (edifício de vidro e aço, desenhado por Helmut Jahn).O conjunto é muito vivo, estando sempre animado por ciclistas e passeantes, que circulam pelas muitas lojas, cinemas e cafés (no complexo de entretenimento Sony Center, há um enorme conjunto de cinemas e outras instalações de lazer, das quais se destaca o cinema tridimensional).


quarta-feira, agosto 13, 2008

Bodegas Barbadillo, San Lucar de Barrameda, Cadiz

Viagens e vinhos são dois temas na moda: viaja-se e aproveita-se para provar os vinhos da região; ou então, procuram-se provas de vinhos e aproveita-se para viajar e conhecer a região. Promete o viajante voltar ao tema, puro e duro, com notas mais substanciais. Ficam agora estas, que não se querem perder.
Na Andaluzia reproduzem-se todos os mais conhecidos ícones de Espanha: touros, guitarras e o flamenco, os pátios frescos e floridos e, claro, o vinho. Que ainda por cima, nesta zona, é verdadeiramente señorito: tem um forte carácter e é seco. Está agora o viajante a pensar no vinho feito da casta palomino fino, que dá origem a um branco de aperitivo, que deve beber-se gelado: a manzanilla de Sanlúcar.
O solo calcário da região, a que chamam albariza – é permeável à água, que armazena na altura das poucas chuvas e depois alimenta as vides. Por outro lado, ao ser quase branca, a albariza sofre menos evaporação – o sol aquece menos a terra que assim acumula mais a humidade – sobretudo o orvalho que todo o ano a proximidade do mar faz formar.
Além disso, ainda provoca um melhor amadurecimento das uvas, porque o branco do solo reflecte a luz solar, amadurando também os cachos escondidos da luz directa pela folhagem.


A manzanilla é o único vinho do mundo que tem um nome feminino. É mais seco, leve e delicado que o restante vinho de Jerez. Provou-o o viajante – e depois bebeu-o abundantemente -, em Sanlucar de Barrameda, junto da foz do Guadalquivir, na Andaluzia, nas Bodegas Barbadillo, que têm visitas para o público.

segunda-feira, julho 07, 2008

Capela da Granjinha, Chaves

Conhece o viajante o românico de inspiração visigótica das Astúrias, bem como o românico pirenaico, do qual já deu conta por aqui.
Não sabe, porém, como enquadrar neste contexto, do românico rural antigo, a capela da Granjinha, uma das mais antigas igrejas católicas da região de Chaves, em Trás-os-Montes. É um templo muito pequeno, situado no termo da freguesia de Valdanta, a cerca de dois quilómetros a sudoeste de Chaves, que ganhou a classificação de imóvel de interesse público. É pequena e acanhada, toda construída em granito. Julga-se que teve origem visigótica, mas o seu aspecto actual é românico.

Mereceu especial atenção do viajante a traça muito simples e sóbria, apenas cortada na sua singeleza pelo arco da porta principal. Este arco, de volta inteira, como sempre nas igrejas românicas, tem três arquivoltas muito decoradas, apoiadas em colunas cujas bases e capitéis estão também ricamente trabalhados.
Soube o viajante que na zona foram feitas escavações arqueológicas e que, por debaixo do próprio altar da capela foi descoberta uma ara romana. Apontaram então os arqueólogos para a forte possibilidade de, antes da capela, ter aqui havido uma villa romana, de cujo templo faria parte esta ara.
A capela da Granjinha está habitualmente fechada e pode ser complicado visitar o seu interior. Já a visita exterior é mais fácil. Basta ir lá. Chega-se, a partir de Chaves, tomando a estrada de Casas dos Montes e, depois, de Valdanta. Um pouco antes desta povoação deriva-se para sul, na direcção de granjinha, onde fica a capela.

sábado, julho 05, 2008

Catedral de São Pedro, Roma

Esta é daquelas visitas que podem significar muito ou nada. Para o turista de castelos e igrejas, é o maior templo cristão do mundo. É grande, de facto. E majestoso: mármores exuberantes, dimensões esmagadoras e estatuária de dignidade avassaladora. Porém, tudo visto, é mais uma igreja. Ou não. Noutra altura dará o viajante conta de como gostou do edifício, na sua dimensão e majestade.

Desta vez, na visita, tinha o viajante na memória as palavras de um blogger discreto (http://www.cronicasdaboavida.blogspot.com/), que dizia que “a 2 de Abril de 2005 morreu um dos Grandes do nosso tempo. Mudou o Mundo e o Mundo mudou com ele. Seguiu os passos de Cristo. Sempre. Totus Tuus.”
Foi o viajante, como já bem se viu, à procura da memória de Karol Wojtila, que enquanto chefe da Igreja usou João Paulo II.
Rapidamente concluiu que em Roma há mais japoneses do que peregrinos e mais turistas que crentes. A magnífica catedral está cheia de voyeurs de clichés, que vão para tirar fotografias. E o túmulo do Santo Padre, próximo da entrada da basílica, vale tanto como uma estrela num qualquer passeio da fama. Valeu aquela pequena capela, do lado oeste do templo. Um velho padre dizia missa para uns quantos sul-americanos, que respondiam em espanhol do novo mundo, enquanto alguns passantes correspondiam lendo as orações escritas em várias línguas e agrafadas aos espaldares das cadeiras de madeira.

domingo, junho 08, 2008

Praia do Bom Sucesso, Óbidos

Está por pouco tempo esta praia ainda bastante preservada da selvajaria do turismo moderno. Em breve, várias urbanizações, já em construção, vão despejar aqui o chamado progresso dos guarda-sóis de praia, dos bares com música do Caribe e das loiraças nórdicas encharcadas de protector solar.
Por isso, já não sobra muito tempo para que o viajante continue a imaginar por aqui a inspiração para a “ocidental praia”, de mar revoltado e céu brumoso, a que não falta, ao longe, a miragem da Berlenga, em dias mais claros.

A Praia do Bom Sucesso, em rigor, fica apenas confinada à margem esquerda da Lagoa de Óbidos, entre a água da lagoa e o mar. Porém, onde ela acaba, começa uma das últimas linhas de falésia a que ainda se pode chamar esse nome, na costa portuguesa. Daqui, sem qualquer povoação ou empreendimento turístico, subsiste ainda uma linha de praia, a bordejar a arriba costeira calcária e por vezes o cordão dunar, ao longo de vários quilómetros. A este troço não pode aceder-se por estrada nem ao longo dele se topa com qualquer perturbação humana. É dos últimos sítios que o viajante conhece, em Portugal, para passear longamente na beira do mar selvagem.
Na ponta, na Praia do Bom Sucesso, há lojas de abastecimento e bares. É também aqui que fica o acesso rodoviário, que vem de Caldas da Rainha ou de Óbidos, por uma estrada secundária que deriva da antiga Nacional de Peniche um pouco depois de A-da-Gorda.

terça-feira, junho 03, 2008

Universidade de Harvard, Boston, Estados Unidos da América

Já foi há algum tempo que o viajante foi em peregrinação a Harvard, no Estado norte-americano de Massachusetts. Peregrinação porque calcorreou a pé os três quilómetros que separam Cambridge, na periferia de Boston, do centro da grande capital da Nova Inglaterra. E peregrinação também porque - não esconde -, foi com emoção que procurou uma de entre a meia dúzia de mais prestigiadas universidades do mundo. O percurso de Boston para Cambridge, onde fica Harvard, revela subúrbios muito civilizados de uma das menos antipáticas cidades americanas. O ambiente é quase europeu.

Já a universidade, sem deixar de impressionar, mostrou-se muito diferente daquilo que o viajante, pouco familiarizado com os padrões transatlânticos, esperava de um tão importante nome. Na verdade, a universidade é toda ela formada por um conjunto de pequenos e até discretos edifícios, cor de tijolo, rodeados de jardins e árvores frondosas, sem que deste conjunto se destaque demasiado qualquer deles. Nenhum é solene, imponente ou sequer muito maior que os restantes. O ambiente é por isso marcado pela discrição e pela harmonia. Sem estar à espera de tanta quase modéstia, descobriu aqui o viajante a verdadeira essência da nação americana: para nada importa ter edifícios grandiosos ou obras de fachada imponente. A verdadeira riqueza está no Homem e na sua obra.
A esta filosofia, a mais antiga universidade dos Estados Unidos junta a procura do progresso pelo desenvolvimento do conhecimento, na literatura, nas artes e na ciência, pondo todas ao serviço da educação da juventude, de espírito aberto à inovação e com liberdade de criação e expressão.
Em Harvard confere-se uma vasta gama de graduações universitárias, do direito à medicina, passando pela engenharia ou pela gestão.


Em 1636, John Harvard, um pastor protestante, doou a sua biblioteca e metade das suas propriedades para a criação de um colégio, à imagem dos colégios universitários ingleses da época. Este tomou então o nome de Harvard College, em homenagem ao benemérito fundador. Ocorreu esta fundação apenas 16 anos após o estabelecimento no Massachusetts da segunda colónia de europeus em terras norte-americanas (o primeiro estabelecimento fixo de colonos data de 1607 e ocorreu na Virgínia). A história de Harvard é por isso inseparável da própria história dos Estados Unidos da América.
Aliás, desde então, é possível encontrar antigos estudantes de Harvard em todos os grandes momentos da história do país. Sete dos seus antigos presidentes (com destaque para John Fitzgerald Kennedy) estudaram aqui. De Harvard saíram também, até agora, mais de 40 laureados com Prémio Nobel.
A vida real, em Harvard, não é igual à dos clássicos filmes sobre os elitistas universitários da costa leste e o campus universitário não é tão edílico como se mostra no cinema. Mas não está muito longe.

segunda-feira, junho 02, 2008

Jacarandás em Lisboa

Tal como Garrett, viajando sem sair de casa, faz o viajante todos os anos uma viagem imaginária aos trópicos, levado pela cor magnética dos jacarandás floridos. Ao chegarem os calores generosos da primavera, as muitas árvores desta espécie plantadas nas avenidas de Lisboa, explodem em flores lilás azulado. Estas flores têm vida muito efémera, como o tempo primaveril e rapidamente caem, deixando no chão um tapete vegetal. Esta explosão de cor é, talvez, na paisagem urbana, o mais claro sinal da chegada da primavera.

Uma consulta rápida permitiu perceber que os jacarandás são árvores da família das Bignoniáceas, com origem na América do Sul, embora tenham sido regularmente exportadas e plantadas em todo o mundo desde há mais de 100 anos. À Europa, a existências dos jacarandás terá chegado após as explorações do alemão Alexander Von Humbolt, em meados do século XIX.

quarta-feira, maio 28, 2008

Sarajevo, (ainda) cidade ferida

Teve o viajante dificuldade em recuperar da sua memória uma cidade com um percurso tão difícil como o de Sarajevo. Desde a antiguidade, a zona da capital da Bósnia foi zona de conflitos: por aqui passou a fronteira que dividiu os impérios romanos do Oriente e do Ocidente. Este detalhe veio a definir, quando o Império do Oriente foi ocupado pelos turcos, o limite máximo da expansão do islamismo na Europa. Esta expansão foi, talvez, a maior marca de fricção que a história deixou para as gerações modernas. Ainda hoje passa por aqui o conflito religioso mais aceso da Europa.
Mais tarde, após a passagem por aqui dos turcos, em 1908 o império austro-húngaro ocupou a Bósnia-Herzegovina. Pouco depois, em 28 de Junho de 1914, um bósnio de etnia sérvia, de Sarajevo, assassinou, a tiro, o Arquiduque Francisco Fernando, herdeiro dos Haugsburgos, imperadores austríacos. Este foi o motivo imediato invocado pela Áustria para declarar guerra á Sérvia e, com isto, despoletar a Grande Guerra, mais tarde conhecida por Iª Guerra Mundial. Desde esse tiro, na entrada para a rude Ponte Latina, nas margens do rio Miljacka, não mais a Bósnia teve paz e liberdade, em simultâneo, até á fase de tranquila tensa que vive hoje.

O território passou a ser uma das repúblicas da federação da Jugoslávia, após a II Guerra Mundial. Quando a Jugoslávia se desmantelou, no início da década de 1990, houve por aqui eleições livres – as primeiras – em Novembro de 1990. Logo então a parte sérvia da população se manifestou contra as partes croata e muçulmana (estas últimas queriam que o país se tornasse independente, como uma nação multiétnica). A independência foi declarada em 15 de Outubro de 1991. Apesar disso, o partido sérvio decidiu formar o seu próprio governo em Pale, a 20km de Sarajevo. Mais tarde, transferiu-se para Banja Luka, onde ainda agora funciona a governo da República Sérvia, uma das duas entidades que compõe a moderna Federação da Bósnia-Herzegovina (a outra é o Distrito Bósnio).

Duas marcas reteve o viajante da sua chegada a Sarajevo. Uma, muito intensa, ficou logo na chegada ao hotel. Abrindo a porta da varanda, foi surpreendido pelos orifícios de dois balásios, que atravessaram o gradeamento. Mais tarde, percorrendo a cidade, viu o viajante muitos outros vestígios dramáticos de guerra urbana. Chamaram-lhe particularmente a atenção os buracos de balas na torre da velha igreja ortodoxa. A outra marca foi a da omnipresença que sentiu de templos e sinais religiosos. Em cada esquina se encontra uma igreja católica, ou uma igreja ortodoxa, ou até mesmo uma sinagoga. Em todo o lado se avistam as torres esguias e elegantes das mesquitas, aqui construídas “à turca”. As religiões, marcas distintivas e agregadora de cada uma das comunidades locais, parecem ter sido ao longo da história desviadas para motivo de conflito entre essas comunidades. Mas este tema fica para outro registo.

quinta-feira, maio 22, 2008

Estes romanos são loucos!


Deve haver poucos que conheçam tão bem os “romanos” como Asterix e Obelix. E se eles diziam que os romanos são loucos, lá saberiam porquê.
Os romanos, comummente identificados com a generalidade dos italianos, são gente à parte. Sabem que na sua língua “romano” significa habitante da capital e não gostam de ser confundidos com os seus restantes compatriotas. Recordam-se do tempo em que eram donos da Europa e do Mediterrâneo e desdenham dos povos que então ocuparam. E dos restantes, que consideram bárbaros, ainda mais.
Em regra, os romanos são exuberantes, mas secos. Transbordam de orgulho. Talvez por isso tenha sido impossível ao viajante, nas suas três ou quatro visitas nos últimos 20 anos, encontrar um romano simpático, naqueles que o atenderam no hotel, ou nos cafés, ou nos restaurantes, ou em qualquer outro lado.

Depois, há a desorganização. Nada é como previsto e a previsão é apenas uma hipotética suposição. É normal ver motoristas de autocarro a falar ao telemóvel enquanto conduzem, ou ver automobilistas a violarem flagrantemente as regras de trânsito.
Apesar disso, em público todos gostam de fazer boa figura. A imagem conta muito para os romanos. Mesmo a bordo de uma Vespa, espere-se desta gente estilo e sofisticação.Se é certo que em Roma há mais turistas que romanos, não é menos certo que é este detalhe que torna a cidade menos antipática.

domingo, maio 04, 2008

Sveti Stefan, Montenegro

Bem sabe o viajante que as máfias internacionais – em particular a russa –, têm escolhido a nova e independente República de Montenegro, para lavar o seu dinheiro sujo. Bem sabe também o viajante que o negócio imobiliário e hoteleiro é dos melhores para quem tem propósitos desta natureza. Consabidamente, Montenegro é desde o tempo da monarquia (de ambos os países) um tradicional aliado da Rússia. Conta-se até a anedota de alguém que pretendia que um cidadão local lhe dissesse, afinal, quantos montenegrinos havia. A resposta terá sido uma pergunta: “com russos ou sem russos”?
Nada disto tem que ver com Sveti Stefan (traduzido em português por Santo Estêvão), uma pequena ilha na costa adriática de Montenegro, que ainda há meia dúzia de décadas era uma aldeia piscatória. Durante o “titismo”, ainda no tempo da antiga Jugoslávia, todas as casas foram expropriadas e reconstruídas, para dar origem a um hotel de luxo. Portanto, toda a ilha é hotel. Dizem os guias que entretanto se degradou e o serviço não corresponde ao estatuto que deveria ter, razão pela qual o governo montenegrino decidiu conceder a exploração do local a um novo concessionário, ligado a um grupo económico asiático.
A ilha-hotel de Sveti Stefan (www.budvanska-rivijera.co.yu) fica cinco quilómetros a sul de Budva, próxima da estrada costeira que liga esta cidade a Bar. O acesso à ilha, em tempos apenas possível na maré baixa, está agora cimentado e regularizado. Não se sendo hóspede do hotel, o acesso à ilha é pago (7€). O alojamento no hotel custará entre 100 e 300 € por noite.

domingo, abril 20, 2008

Catedral de Estrasburgo, França

Estrasburgo é uma cidade emblemática da nova Europa, da paz e da democracia. Já foi francesa, depois alemã e de novo francesa. Agora é uma cidade da Europa dos povos. Na cidade cruzam-se as religiões e os respectivos templos, num bom exemplo de coabitação religiosa. A maior comunidade é a católica, logo seguida da protestante. A judaica é a terceira comunidade religiosa. Os novos ventos da emigração trouxeram também para aqui grandes núcleos de muçulmanos.Não obstante, a catedral católica, de Notre-Dame de Estrasburgo, é uma referência destacada e necessária no horizonte desta cidade de edifícios baixos. Vê-se de toda a cidade, com a sua flecha pontiaguda dirigida a o céu.

Teve origem numa anterior igreja românica, da qual subsistem a cripta e a abside do coro. O que hoje existe foi construído entre 1277 e 1439, em estilo gótico francês puro. A nave principal é majestosa, com 32 metros de altura. Notou o viajante os maravilhosos vitrais coloridos. E notou também uma das grandes atracções para os turistas que visitam a catedral: o relógio astronómico da catedral, construído entre 1838 e 1842, no lugar um outro do século XVI. Esta fantástica máquina, além de medir o tempo, calcula ainda as festas móveis e os eclipses da lua e do sol. Uma das grandes curiosidades do relógio é o desfile de autómatos que assinala todos os quartos de hora, meias horas e horas – ao meio-dia e meia o desfile é dos doze apóstolos, que passam em frente de Cristo, que os benze.

Porém, aquilo que mais impressionou o viajante foi a subida à torre da catedral. Para se chegar à plataforma superior, na base da única agulha, teve o esfalfado viajante que montar 326 degraus - algo como um edifício de vinte e tantos andares. Mas valeu a pena: lá no cimo, domina-se toda a cidade. Vê-se a cidade medieval e as casas de “colombage”, que parecem formar um imenso presépio urbano. Ao lado, vê-se a “petite france”, com os seus canais. Do lado oposto, vêm-se as germânicas praças magestáticas do século XVIII, a leste da cidade e, ao fundo, avistam-se os novos edifícios das instituições europeias, no “quartier européen”.

A entrada na catedral é gratuita. O acesso à torre custa 4,6 €. O edifício está aberto das 9 às 19 horas (mais cedo no Inverno). Mais informações, aqui.

terça-feira, abril 15, 2008

Castelo de Aguiar, Trás-os-Montes

Com o desenvolvimento das vilas e das cidades, no fim da Idade Média, os castelos roqueiros, outrora poderosos pelo controlo territorial que asseguravam, perderam importância. Foram sendo todos abandonados. Foi isso que aconteceu ao castelo de Aguiar, implantado numa mole caótica de granito, sobranceira ao vale de Aguiar. Actualmente, restam apenas ruínas do que parece ter sido uma alcáçova fortificadíssima e inexpugnável.
Diz-se ter sido um castro, talvez romanizado. Não longe daqui os romanos estabeleceram-se e exploraram as minas de ouro de Jales. Depois, quando os leoneses reconquistaram esta zona, o castelo terá sido construído sobre as ruínas do castro. Foi propriedade da casa real, até que D. João I o doou a um tal D.João Beça, que com ele combateu em Aljubarrota. Este último vem referenciado na qualidade de morgado do lugar por Aquilino Ribeiro, em “A Casa Grande de Romarigães”.
O castelo de Aguiar está localizado nos contrafortes da Serra do Alvão, junto da aldeia de Castelo, na freguesia de Telões, Vila Pouca de Aguiar. Fica 5 quilómetros a leste da Estrada Nacional 2, sempre por estrada asfaltada. A partir da A24, fica a cerca de 10 quilómetros, devendo sair-se na saída de Vila Pouca de Aguiar.
A visita ao castelo supõe deixar o carro a algumas centenas de metros e seguir por veredas estreitas e túneis naturais, formados pela vegetação e pelas rochas. Há escadas metálicas colocadas para facilitar a visita mas, mesmo assim, o acesso não é para todos. Vale a aventura e a silenciosa vista rasgada que se encontra no topo da fortificação.

quinta-feira, abril 10, 2008

As máquinas de Leonardo, Forte do Bom Sucesso, Lisboa

Às vezes, é o viajante surpreendido sem sair de casa. Foi o que aconteceu na visita à exposição “O inventor”, onde se exibem modelos de máquinas desenhadas por Leonardo da Vinci, registadas nos seus muitos cadernos de anotações.
É um conjunto de 20 mecanismos, em madeira, com funções específicas na vida quotidiana. De alguns deles – ou ao menos do seu princípio –, saíram mecanismos e utensílios usados na vida moderna.
Sobre estas linhas, elevadores de obras, em baixo, o escafandro e a máquina voadora.

É banal e pouco imaginativo dizê-lo, mas Leonardo foi um dos maiores génios de todos os tempos. Nasceu em 1452, no advento do renascimento italiano. Durante a sua vida (morreu em 1519), foi pintor, arquitecto, matemático, engenheiro. É esta última faceta que se explora nesta exposição, onde se reproduzem os seus projectos de máquinas, ferramentas, instrumentos de medição, barcos, máquinas voadoras, instrumentos musicais e outros.

Agora em Lisboa, a exposição pode visitar-se no Forte do Bom Sucesso, mesmo ao lado da Torre de Belém, em Lisboa, todos os dias, das 10 às 19 horas.
Abriu em 7 de Fevereiro e fechará a 25 de Maio de 2008. O bilhete de entrada custa 5 € (3,5€ para jovens e grupos).