domingo, março 20, 2011

Glaciar Perito Moreno, Patagónia, Argentina

 Poucos fenómenos naturais impressionaram tanto o viajante como o glaciar Perito Moreno, na descida da cordilheira dos Andes para as estepes da Patagónia argentina. Ficou o viajante com a memória bem marcada pelas variações dos matizes azuis do gelo, mais ou menos intensos consoante o ângulo em que lhe dá a luz do sol. Mas também pela grandeza da mole gelada e pelo súbito ruído surdo, a esmagar o silêncio, dos pedaços de gelo que, de quando em quando, se vão destacando das paredes frontais do glaciar e mergulham nas águas geladas do Lago Argentino.
 Este glaciar integra o “Parque Nacional de los Glaciares”, classificado como património mundial da Unesco desde 1981. O parque tem este estatuto desde 1971, mas já era área protegida desde 1937. Integra 47 glaciares, numa enorme área de 7240 quilómetros quadrados (sensivelmente a mesma área do distrito de Évora, segundo maior distrito português, que tem 7393 quilómetros quadrados). Fica a três mil quilómetros a sul de Buenos Aires, na enorme província de Santa Cruz, um dos estados que integram a estrutura federal da República Argentina.
Reteve o viajante que os glaciares da região formam o chamado campo de gelo da Patagónia do Sul, que é considerada a terceira maior massa de gelo do globo, a seguir à Antárctida e à Groenlândia (os campos de gelo têm, no seu conjunto, 14 mil quilómetros quadrados). O glaciar Perito Moreno é o mais acessível. Próximo, ficam o glaciar Upsala e o glaciar Viedma, que são maiores mas mais longínquos. E também, dizem os locais, menos espectaculares. Além da mole de gelo branco azulado, o especial atractivo do Perito Moreno está na circunstância de atravessar um lago a meio, dando assim origem a dois quando o gelo avança até atingir a outra margem. Nessa altura, por efeito dos rios que alimentam o lago, as águas de um dos lados sobem bastante mais, exercendo pressão sobre o gelo, que acaba por ceder e rebentar, criando fendas no glaciar e formando rios subterrâneos que, pouco tempo depois, fazem despedaçar o glaciar. Este fenómeno tem ocorrido duas ou três vezes por década, consoante o rigor dos invernos e o calor do degelo, no verão austral.
 Todas estas águas alimentam o gélido lago Argentino, o maior do país. Ficou o viajante impressionado por ver ali a boiar pedaços de glaciar, verdadeiros icebergs, de cor azulada. Como os outros lagos da região, o Argentino é o resultado do degelo, no final das glaciações: os glaciares desceram da cordilheira dos Andes e escavaram os típicos vales em forma de U, deixando atrás deles fundas depressões, que se encheram de água formando inúmeros lagos, geralmente de forma alongada.
 O Glaciar Perito Moreno mede 31 quilómetros de comprimento, por 4 de largura – diz-se que forma uma área do tamanho da cidade de Buenos Aires. A forma mais fácil de o visitar é fazer o passeio de barco, que parte da chamada península de Magalhães, que fica na outra margem do lago, mesmo em frente. Há cinco a seis passeios por dia, que duram uma hora. O bilhete compra-se na entrada para o barco. Mas também há visitas a pé: há programas de um dia inteiro, de trekking sobre o próprio glaciar. Supõem sair de manhã cedo, apanhar um barquito para a base do glaciar e caminhar sobre o gelo um par de horas, antes de voltar. Para os mais comodistas, é sempre possível ver o glaciar de longe, percorrendo passadiços de madeira instalados em degraus no morro fronteiro ao glaciar, na península de Magalhães, mesmo em frente do Canal de Los Témpanos (nome local para iceberg).
 O glaciar fica a 80 quilómetros de El Calafate, em estrada boa, sempre asfaltada. Se se optar por não usar os autocarros de excursão, que saem de manhã cedo, pode sempre contratar-se transporte individual, de carro – neste caso, a viagem durará uma hora para cada lado, por paisagem fantástica, de estepe e montanhas geladas e custará 450 pesos argentinos (cerca de 80 euros). A entrada na zona do “Parque Nacional de los Glaciares” é paga (75 pesos, cerca de 14 euros).
El Calafate é a cidade mais importante da região. Pode chegar-se lá, desde Buenos Aires, por avião (há três voos diários para cada lado). O aeroporto dista 20 quilómetros da cidade e na terra há muitos hotéis e restaurantes.

terça-feira, março 15, 2011

Istambul, Turquia

Será um chavão dizer que Istambul é uma cidade europeia com um pé na Ásia. Ou então, talvez, que é uma cidade asiática que se instalou na pontinha oriental da Europa. Ou então, ainda, que é verdadeiramente o resultado de uma diluição centenária de culturas, umas nas outras. Para além dos clichés, dela ficou o viajante com a impressão de ser uma cidade única, com estrutura claramente europeia mas alma oriental: é uma metrópole de grandes avenidas e organização pensada, mas a sua imagem dominante – aquela que fica na retina e nas objectivas das máquinas fotográficas -, é a das lojas e bazares coloridos.
Com este cadinho de histórias e civilizações, não consegue o viajante esclarecer no seu espírito qual é o sentimento essencial que lhe deixa Istambul. Recorda os palácios monumentais, em pedra bem trabalhada, sobretudo no bairro dito novo, construído a partir do século XIX na antiga colónia genovesa, em volta da Torre de Gálata. Mas também não esquece as vielas do bairro de Tahtakale, próximo de Eminonu e do Bazar Egípcio, em piso tosco, por onde ao fim do dia escorre a água das lojas que são lavadas à mangueirada.
A enorme e moderna Praça Taksim poderia facilmente confundir-se com qualquer praça de qualquer país do sul ou do leste da Europa. Tem um ambiente desordenadamente cosmopolita, multicolor, com o ar cheio dos pregões dos vendedores ambulantes, de flores e castanhas assadas, sobretudo. Os transeuntes passam por aqui apressados, em direcção à Istiklal Caddesi, uma rua pedonal muito comercial, por onde circula um típico eléctrico, como os de Lisboa, sempre apinhado de gente. Este é o bairro de Beyoglu, onde ainda há imensas reminiscências do tempo em que Istambul era a capital da Turquia – aqui ficam ainda algumas antigas representações europeias (consulados antigos, ainda em funcionamento) e igrejas cristãs, de comunidades estrangeiras. É bem conhecido e representativo deste ambiente europeizado o Palácio Dolmabahçe, construído por ordem do sultão Abdul Mecit, em meados de mil e oitocentos. A obra foi tão cara e o resultado tão sumptuoso que quase levou o país à falência – e terá até precipitado os movimentos republicanos, que vieram a culminar com a instauração da república laica, nas primeiras décadas do século XX.
Na zona mais turística – o eixo que une os iconográficos monumentos conhecidos em todo o mundo (o Palácio Topkapi, a Mesquita Azul e a Santa Sofia) com o Grande Bazar, há mais turistas que turcos. Há restaurantes de néones coloridos, como no Algarve, na costa grega ou no sul de Espanha. Talvez sejam um pouco mais genuínos e talvez tenham um pouco mais de cor local.
Já no bairro que envolve a Mesquita de Süleymaniye, na descida para a Praça de Emïnonü e a Ponte de Gálata, o ambiente é asiático profundo, com estreitas vielas cheias de lojas para habitantes locais. Nesta zona onde não circulam estrangeiros, o ambiente parece o de uma aldeia grande – por vezes, a rua chega mesmo a ser de terra batida.

quinta-feira, março 10, 2011

Museu Nacional de Antropologia, Cidade do México

 Poucas vezes um museu tem impressionado tanto o viajante, como o impressionou este maior museu da capital federal mexicana. Antes de mais, o edifício é grandioso, embora plano. Tem grandes espaços e grandes soluções de arquitectura. Admirou o viajante o grande pilar esculpido que serve de base de sustentação à fonte de água, em forma de guarda-chuva, que decora o pátio e suporta a pala central.
 Porém, o que mais justifica a visita são as colecções. Não se conseguem ver todas de seguida, nem de uma única vez, porque o museu é enorme e as peças imensas. Para verdadeiramente apreciar o extensíssimo acervo do museu, devem seleccionar-se aquelas, de entre as 22 salas de exposição, que pretendem visitar-se. Numa visita rápida, de uma tarde, apenas teve o viajante oportunidade de passar pela sala de Teotihuacan, pela sala azteca ou mexica e ainda pela sala maia.
Na sala de Teotihuacan, estão dispostas peças originais retiradas daquela cidade e reproduções de frescos que ainda ali se encontram, bem como modelos que reproduzem a cidade.

 Na sala dedicada ao povo dos mexica, também designados por aztecas, encontram-se imensas peças, a generalidade das quais encontradas no sub-solo da própria cidade do México, na zona do chamado Templo Maior. Recordou o viajante que o conquistador espanhol Hernán Cortez, ao deparar-se neste local com a capital azteca (de que deu conta à Coroa Espanhola como sendo uma cidade maior que qualquer cidade de Espanha) ordenou a sua destruição e sobre os seus escombros erigiu aquela que viria ser a capital da Nova Espanha. A estatuária é particularmente expressiva, nesta sala azteca. É imperdível a chamada pedra do sol, erradamente tida como sendo um calendário, durante décadas, mas hoje em dia pacificamente tida apenas como uma escultura destinada a homenagear o sol e, porventura, a nela serem feitos sacrifícios.
 É igualmente impressionante, embora talvez menos, a estatuária da sala maia, onde anotou o viajante haver um dos raríssimos exemplares de escritos maias que ainda existem. De facto, logo após a conquista espanhola, os invasores destruíram todos os documentos escritos que encontraram, para assim poderem mais facilmente impor a sua cultura e a sua religião.
O Museu Nacional de Antropologia fica no centro da cidade do México, no interior do Parque de Chapultepec. Está aberto de terça-feira a domingo, das 9 às 19 horas. Habitualmente tem muitos visitantes. A entrada é paga, a não ser aos domingos.

segunda-feira, fevereiro 28, 2011

Castelo de Monforte de Rio Livre, Chaves

Numa crista descampada, desolada e ventosa da serra do Brunheiro, sobranceira ao vale de Chaves, a 825 metros de altitude, ergue-se o castelo de Monforte de Rio Livre. A partir da Estrada Nacional 103, que faz a ligação de Chaves a Bragança, deriva-se em Águas Frias por um estrada de terra em bastante mau estado, com cerca de um quilómetro. O acesso é mau, sempre em terra batida, mas por vezes muito irregular.
O castelo e a vila de Monforte de Rio Livre foram um senhorio do príncipe D. Francisco, irmão do Rei D. João V. Antes disso, existiu aqui um concelho medieval, protegido por um castelo construído no tempo de D. Dinis. É ainda esse o conjunto edificado que resiste ao tempo, depois de ter sido abandonado progressivamente após a extinção do concelho, em 1853.
 Da grande vila restam ruínas, cobertas de matagais. Em volta, há ainda grandes panos de muralhas e vestígios das portas. O castelo propriamente dito, que constituía a alcáçova, todo construído em granito cinzento, é composto por uma torre de menagem e um recinto anexo. O estado de conservação desta alcáçova é sofrível, sendo ainda possível subir ao caminho de ronda e à torre, agora protegida por um telhado restaurado.
 Pode visitar-se o recinto amuralhado sem qualquer restrição. Já quanto à alcáçova, é aberta e encerrada, no verão, de Abril a Setembro, de acordo com um horário que ali está afixado. Mas este horário é meramente indicativo. Já calhou ter o viajante passado aqui em horas “de expediente” e a porta estar fechada. Em todo o caso, aqui fica: o castelo está aberto das 10:00 às 12:30 e das 14:00 às 18:00. Mas encerra às segundas-feiras, às terças durante a manhã e ainda no primeiro fim-de-semana de cada mês.

segunda-feira, fevereiro 14, 2011

Sakkara, Egipto

 Quando se pensa em pirâmides, pensa-se no Egipto e quando se pensa no Egipto, pensa-se em pirâmides. Normalmente, nas pirâmides de Gizé (a que no Egipto se chama Guiza).
Porém, as pirâmides de Gizé, tal como a enigmática esfinge, ao lado delas, são apenas algumas das que restam do conjunto de antigos monumentos funerários egípcios, sobretudo do período do Império Antigo (séculos 30 a séculos 21 a.C). Ficam mesmo no limite urbano do Cairo e por isso são facilmente acessíveis aos turistas. Além disso, estão bem conservadas, ao contrário do que acontece com muitas outras das que se encontram na região que as envolve.

 Porém, as pirâmides de Gizé não são as mais antigas que se conhecem. Em Sakkara, região que fica entre o limite do vale do Nilo e o deserto, a sul do Cairo, ainda é possível visitar aquela que foi a precursora de todas as pirâmides egípcias, construída para servir de sepultura ao faraó Djoser, da 3ª dinastia (portanto, entre 2700 e 2600 antes de Cristo).
Até esta altura, os faraós eram sepultados em profundas covas escavadas na rocha, sobre as quais depois era construída uma mastaba, completamente rasa, que cobria a sepultura. As mastabas eram feitas de tijolos de barro e não tinham câmara funerária no interior, ao contrário do que veio acontecer com as pirâmides. Apenas cobriam uma câmara funerária muito profunda, escavada na rocha. Todavia, Imhotep, talvez o primeiro de todos os arquitectos, em meados do século 27 a. C., optou por fazer uma mastaba de pedra, sobre a qual colocou outra mastaba, e outra, e outra, cada vez mais estreitas, em forma de pirâmide. E assim, esta mastaba convertida em pirâmide foi a precursora das todas as outras que ulteriormente vieram a ser construídas.

 A pirâmide de Sakkara foi construída em pedra, enquanto todas as mastabas que a antecederam foram construídas em tijolos de barro. Foi assim, provavelmente, o primeiro edifício do mundo a ser construído em pedra. É, em todo o caso, o mais antigo que se conhece.
Sakkara, onde foi construída a pirâmide, foi a necrópole real do período em que a capital do Egipto era em Mênfis, portanto no período do Império Antigo – de 3100 a 2200 aC.
Fica a cerca de 30 km do Cairo. A entrada no recinto custa 60 libras egípcias (um pouco menos que 8 €). A forma mais fácil de chegar aqui, a partir do Cairo, é de taxi.

quinta-feira, fevereiro 10, 2011

Recife Velho, Pernambuco, Brasil

 Modelou o viajante na sua memória as cidades do hemisfério sul, sobretudo do Novo Mundo, como imensos aglomerados de pessoas, algumas das quais trabalham em altíssimas torres de escritórios no centro e vivem em condomínios fechados, enquanto a esmagadora maioria da população vivem em bairros pobres e em favelas, que crescem nos morros próximos. Neste tipo de cidades, não tem o viajante encontrado propriamente um centro, no sentido europeu – costumam ter algumas ruas comerciais, com caríssimas lojas de marcas internacionais globalizadas, uma zona com altas torres de bancos e consultoras financeiras, por vezes, uma zona de hotéis e embaixadas. Tudo muito compartimentado e isolado, sem aparente ligação.
 Muito menos tem o viajante encontrado nestas cidades aquilo a que habitualmente se chama um centro histórico – aquela zona mais antiga e cuidada, onde terá estado a sua origem. Têm, é certo, zonas mais polarizadoras de interesse, que vão variando ao longo do tempo, com a construção de novos edifícios de escritórios, hotéis e restaurantes.
 Foi por isso uma surpresa verificar que em Recife, capital do brasileiro Estado de Pernambuco, a herança portuguesa (e - vá lá -, também alguma holandesa), deixaram na malha urbana um conjunto grande de quarteirões antigos, sucessivamente renovados e remodelados sem que ficasse prejudicada a sua traça e o ambiente de contexto. Na zona conhecida como Recife Antigo, zona mais interessante desta megacidade de 3 milhões de habitantes, implantada em ilhas que separam o mar da foz do rio Capibaribe, encontram-se edifícios dos séculos XVIII e XIX, igrejas barrocas e maneiristas e ainda fortes militares construídos para defender a cidade na época colonial.
 Merece particular visita o Forte das Cinco Pontas. A versão actual, após a reconstrução portuguesa, tem planta quadrangular e quatro bastiões em forma de ponta, mas quando os holandeses o edificaram, em 1630, durante a ocupação espanhola, teria de facto uma original forma, de estrela com cinco pontas. Foi construído para defender o Recife de ataques vindos do mar e para proteger o seu acesso ao Atlântico – começava na altura a exportação do açúcar, a grande riqueza da região.
 Algumas das suas ruas fizerem o viajante julgar estar num Portugal tropical. Foi o caso da muito fotografada Rua da Aurora ou da Rua do Bom Jesus, onde fica a antiga sinagoga Kahal Zur Israel, a primeira que foi construída na América do Sul, em 1642, período de alguma distensão e tolerância, sob domínio holandês. Não longe, fica a Igreja da Madre de Deus, construída no século XVII, em estilo por aqui conhecido como colonial e que se diria ser barroco. Ainda na zona, não pode o viajante deixar de visitar o Convento Franciscano de Santo António, que inclui a sua igreja, do século XIX e uma capela lateral, do século XVIII, conhecida como Capela Dourada (da qual já deu aqui o viajante conta), por ser folheada a ouro.
Este património religioso foi a resposta com que os portugueses do século XVII (conhecidos como Mascates) quiseram marcar a expulsão dos holandeses destas paragens, que ocorreu por essa altura.

sábado, fevereiro 05, 2011

Mechelen, Bélgica

 De vez em quando, inesperadas curvas da estrada revelam ao viajante pérolas escondidas. Assim aconteceu numa ocasional passagem em Malines (em francês), ou Mechelen (em flamengo), uma pequena cidade a meio caminho entre Bruxelas e Antuérpia. Esta pequena cidade, actualmente de província, já foi, em tempos, capital de todos os Países Baixos e é ainda a sede do arcebispado católico da Bélgica.
 Calhou o viajante chegar a Mechelen de comboio, vindo de Bruxelas (breve percurso de 20 minutos) e ficar desiludido com o aspecto vulgar da zona da gare, bem como com o perfil comum da zona pedonal onde passou a caminho do centro histórico. Mas ao chegar ao Grote Markt, a principal praça da cidade, reconciliou-se com a terra. O Grote Markt é uma praça de piso empedrado, bordejada de casas em estilo hanseático, bem conservadas, algumas das quais com origem no século XVI. Foi essa a altura em que Mechelen era a capital, no tempo da regente Margarida de Áustria, tia daquele que viria a ser o imperador Carlos V, que também aqui cresceu.
Num dos topos do Grote Markt fica a magnífica catedral de Sint Rumbold, com uma altíssima torre sineira e ricas pinturas dos séculos XVII e XVIII – uma das mais conhecidas é uma pintura de Anton Van Dijck, representando Cristo Crucificado, no altar de Santa Ana (óleo sobre tela de 1630). Ficou o viajante muito impressionado com a invulgar altivez da torre.
No outro topo, fica o fantástico palácio gótico tardio e renascença onde actualmente está instalada a sede do município local. A toda a volta da praça há cafés e cervejarias (a cidade tem a sua própria cerveja – a Gouden Carolus –, dita a preferida do imperador Carlos V).
Mechelen foi portanto uma interessante paragem. É uma típica cidade flamenga, muito mais tranquila que Bruges ou Gent e sem as hordas de turistas daquelas. É também muito mais modesta, mas valeu a pena fazer o desvio, pelo agrado do passeio pelas ruas pedonais e pelo conjunto de edifícios antigos, muito bem preservados. Valeu também pela evocação histórica: esta cidade que agora tem apenas cerca de 80 mil habitantes já foi um dos mais importantes centros da arte flamenga – em particular assim foi durante o período do renascimento.

Fica a meio caminho entre Bruxelas e Antuérpia, a uma curta distância de ambas. A viagem de comboio, desde Bruxelas, custa 4 € e há 2 a 3 comboios por hora.

terça-feira, fevereiro 01, 2011

Canary Wharf, Londres

 É engraçado perceber como cada específico local causar sensações únicas, por vezes difíceis de explicar a quem não esteve ali, ou impressões que vão muito para além daquilo que se vê. Não deixa o viajante de se impressionar com esta capacidade que os sítios têm de o impressionar, de uma forma ou outra.
Canary Wharf, nas docas do sueste londrino, construída a partir de destroços industriais, em décadas recentes, nas margens do Tamisa, é um desses locais de impressão muito clara. Essa impressão passa pelos figura dos majestáticos arranha-céus de vidro, sóbrios mas muito imponentes, a recortar o horizonte plano e a dar cor e luz à paisagem. Sentiu o viajante algo de futurismo, de desafio ao tempo que se vive. Mas também opressão pelos edifícios, e pela densidade deles. Nas esquinas das ruas, olhando para cima não se vê o céu: vê-se uma cruz azul, entre paredes espelhadas que sobem vertiginosamente na vertical.

Nesta zona empresarial de Londres há muita gente na rua, a circular ordenada mas apressadamente, sobretudo em horas de entrada ou saída do trabalho. Percebe-se bem que o tempo desta gente vale muito dinheiro.
Mas a opressão é também dos nomes: estão aqui instaladas as sedes dos mais poderosos bancos e outras instituições financeiras do mundo. Sente-se muito poder e grande, embora discretíssima, riqueza. Será talvez aqui que tem mais fiel recriação em versão moderna o já extinto ambiente dos gentlemen, de chapéu de coco, da antiga City. Não há chapéus, nem guarda chuvas, nem The Times, agora substituído pelos jornais gratuitos, distribuídos na entrada do metro.

Canary Wharf fica na parte oriental de Londres, na zona do East Ham. Tem estação de metro e por isso facilíssimo acesso. A visita vale pelo ambiente exterior do bairro. Pode ainda passear-se pelos antigos bairros das docas, em tempos ocupados por armazéns portuário, que agora foram adaptados a trendy casas de habitação.
A linha do skyline é também muito impressiva, sobretudo vista das antigas docas. Do outro lado do rio Tamisa, na margem sul, fica o antigo Millenium Dome, o pavilhão feito para comemorar o início do segundo milénio e que depois da passagem da sua época ficou como sala de concertos, agora com o nome de O2 Arena. Nada longe, para sul, fica Greenwich, a do meridiano e do tempo médio.

sábado, janeiro 29, 2011

Catedral de Siena, Itália

Siena, a segunda cidade da Toscana, a 90 quilómetros de Florença, vive ofuscada pela cidade dos Medici. Tem muito menos turistas que aquela e o seu núcleo antigo é bem menos exuberante. Não obstante, são ainda assim milhares os turistas que todos os anos visitam Siena. E vêm atraídos por dois motivos principais: por um lado, o célebre Il Campo, uma das praças góticas mais famosas do mundo, onde anualmente se realiza o Palio, uma das festas tradicionais mais conhecidas de Itália; por outro, a catedral de Siena, o Duomo, que foi um dos edifícios mais marcantes da arquitectura da sua época.
 Tem o viajante que confessar que o Duomo de Siena foi uma grande surpresa. Já tinha lido que era um edifício majestoso. Mas na verdade achou que é muito mais que isso. A torre sineira é o edifício mais alto da harmoniosa cidade, ainda mais alta que a torre do palácio municipal, no Campo. Quer a torre, quer a abóbada da catedral, ao lado, estão revestidas de mármore preto e branco, formando um conjunto de uma elegância fantástica.
Quanto à fachada do Duomo, é exuberantemente rendilhada, no mais exuberante gótico italiano, de mármore branco, muito bem recuperado, aqui e ali marcado pelo mármore rosa – todo o resto do edifício é também de mármore, por vezes matizado de preto, outras vezes de verde-escuro.

 A entrada no interior do Duomo é paga (6€). Mas vale bem a pena, sobretudo pelo magnífico piso de composição em ladrilhos, que nem sempre está aberto para visita - esteve-o no verão de 2009, altura em que o viajante por ali passou.
Os mosaicos do piso representam sobretudo histórias bíblicas (uma magnífica representação do sacrifício dos inocentes, painéis sobre a história de Jesus, ou de Moisés, ou o sacrifício de Isaac) mas também de outros motivos – por exemplo, há uma roda da fortuna com nomes de filósofos gregos. Por toda a catedral há imensa estatuária e altares, mas toda a sua riqueza é ofuscada pela exuberância do piso.

 Ao lado, fica a biblioteca da catedral, a Libreria Piccolomina, compartimento especialmente construído para ser biblioteca, profusamente decorado no tecto e nas paredes, com cenas da época e da vida do próprio abade construtor. Em armários laterais podem ver-se imensos livros de salmos, com riquíssimas iluminuras. Achou o viajante que a riqueza da decoração desta sala, só por si, valeu a visita à catedral.

domingo, janeiro 23, 2011

Maurício, a ilha de todas as cores

 Como ideia geral, a ilha Maurício causou no viajante a impressão de ser uma espécie de antecipação histórica da aldeia global, aglomerada nesta isolada paragem do Índico ainda antes do sociólogo canadiano Marshall McLuhan ter criado o conceito. Na verdade, vários povos ocuparam, apenas desde há cerca de 5 séculos, uma ilha paradisíaca onde antes não vivia ninguém. E desde então, todos têm vivido ali em conjunto. São de diferentes etnias, oriundos de diferentes continentes, professando diversas religiões, mas dão-se bem entre eles.
De facto, na ilha Maurício, indianos (hindus e tamiles), crioulos e brancos (católicos) e paquistaneses (muçulmanos) partilham uma ilha superpovoada, mas onde vai havendo riqueza para todos.

 Claro que, pelo caminho, quase desapareceu a vegetação endémica da ilha, para ser plantada no seu lugar, de forma intensiva, cana-de-açúcar, o sustento económico tradicional e histórico de quase toda a população. Por outro lado, depois do dodó (o castiço passaruço que foi sendo caçado até ser dado como extinto, a bem dos estômagos dos marinheiros holandeses que aqui aportaram no século XVIII) há hoje em dia outras espécies, sobretudo marinhas ameaçadas pelo incessante crescimento do turismo, que já ultrapassou em muito o açúcar como fonte de receitas da ilha.
Apesar disso, os maurícios são gente alegre e simpática. Claro que já descobriram que os turistas podem dar-lhes dinheiro a ganhar. Têm por isso razões para os tratar bem. Mas, ao contrário de outros povos que o viajante tem conhecido (por exemplo o italiano ou o egípcio), não deixam de ser simpáticos quando percebem que não vão fazer negócio. Pelo contrário: em geral esforçam-se mesmo por agradar e fazem-no de uma forma genuína.



 Não deixou o viajante de pensar, quando passou pela ilha, que nesta hospitalidade sincera estava a marca genética dos portugueses, que foram os primeiros humanos (que se saiba) que pisaram a ilha. O navegador português Pedro de Mascarenhas terá chegado à ilha entre 1503 e 1507. Aliás, o arquipélago de que a Maurício faz parte, conjuntamente com a vizinha Reunião e com a longínqua Rodrigues, ficou desde então baptizado como “Arquipélago das Mascarenhas”. Quanto à ilha propriamente dita, deram-lhe os portugueses o nome de ilha do Cisne, com o qual terão achado parecido o agora extreminado dodó.
Porém, este baptismo lusitano rapidamente foi substituído. Metade de um século depois os holandeses vieram ocupá-la a ilha e, em homenagem ao seu regente, Maurício de Nassau, passaram a chamá-la Ilha Maurício.

 Além de comerem os dodós todos, os holandeses trouxeram também a cana-de-açúcar. E com ela tiveram que vir os escravos africanos, para trabalhar na sua plantação, na colheita e nos engenhos. Depois da abolição da escravatura na Europa, os donos das plantações da ilha, entretanto ocupada pelos ingleses, viraram-se para a Índia e passaram a recrutar trabalhadores livres, que aqui acorreram com as suas famílias.
E assim se povoou, com população colorida, esta ilha antes deserta, onde agora vive mais de um milhão e duzentos mil habitantes, numa pequena área de apenas 1.800 quilómetros quadrados.
Além do colorido das gentes, das suas religiões e roupas, a Ilha Maurício é também uma ilha colorida pela sua natureza. Surgem flores por todo o lado, durante todo o ano, sobretudo amarelas e vermelhas. Além das flores comuns, há árvores muito floridas – é o caso da flamboyant, a exuberante árvores de flores vermelhas, típica da ilha.

Mas, a Maurício é ainda colorida nas línguas que fala. Todos aqui falam crioulo, derivado do francês. Falam crioulo entre eles, em casa, entre amigos, independentemente da sua etnia ou religião. Mas se a conversa envolver um desconhecido, ou se for formal, ou profissional, então será em francês. Não será assim se o contacto for escrito (num email, por exemplo, ou num requerimento a uma entidade pública). Nesse caso usado o inglês, a única das três que é qualificada como língua oficial. Da mesma forma, na estrada, os sinais de trânsito têm texto em inglês, mas os nomes das localidades são franceses, tal como estão escritos em francês os anúncios comerciais, na beira da estrada. Apesar disso, a circulação faz-se à inglesa, pela esquerda. Mas as informações diárias sobre o estado do trânsito são transmitidas na rádio em crioulo. Tudo com muita tranquilidade…
A Ilha Maurício fica no Oceano Índico, a 3000 quilómetros de Moçambique. É pequena (de norte a sul a distância máxima é de 63 quilómetros e de leste a oeste é de 47 quilómetros). Tem voos a partir de Paris (diários) e de Londres (4 vezes por semana) que normalmente fazem o percurso para lá durante a noite e regressam logo de manhã, chegando à Europa ao fim do dia (o voo durará 11 a 12 horas). É um destino turístico muito procurado pelas suas praias de águas coralinas, verde-esmeralda e pelo seu interior, com natureza pouco explorada. O clima é bom, com tempo agradável durante todo o ano, mas em Janeiro e Fevereiro chove muito.

sábado, janeiro 01, 2011

As igrejas românicas de Andorra

 A Andorra vai-se às compras ou para o esqui. Em ambos os casos, na versão low cost. Nas compras, porque os impostos são muito reduzidos e os modelos de fim de linha, já ultrapassados, de roupa, sapatos, máquinas fotográficas e outras tecnologias se vendem baratos. No esqui, porque a oferta de hotéis é simpática e, por preços mais modestos, prestam serviços parecidos com os dos Pirenéus de Espanha ou França. Além disso, há portugueses em todos os lados, quer como clientes quer, sobretudo, como empregados da hotelaria.
O viajante tem um fraquinho pelo românico. Já aqui deixou nota da passagem pelo vale de Boí, ao lado, na Catalunha, onde as igrejas românicas são de facto um fenómeno notável, a justificar a viagem. Não poderá dizer o mesmo das igrejas românicas de Andorra. Também elas são uma versão mais simples, menos sofisticadas e ricas que as do outro lado da montanha. Mas apesar disso valem o desvio no regresso do esqui.
São em geral igrejas de estilo lombardo, que bem revelam a importância da religião e da religiosidade no período medieval, quando foram construídas. Vem dessa altura a instituição do co-principado de Andorra, em que um dos co-príncipes é o bispo católico de la Seu d’ Urgell, na província espanhola de Lleida. Esta importância justificará a grande densidade de igrejas românicas no pequeno principado pirenaico: em Andorra ainda subsistem 44 destes templos católicos, num território de apenas 468 quilómetros quadrados. Este conjunto de edifícios religiosos constitui, aliás, o património cultural e arquitectónico mais valioso do país.
 Em geral são edifícios pequenos e simples, muito sóbrios, com interior de uma única nave, coberta com telhado de madeira. No topo costumam ter uma abside redonda, semicircular. Algumas delas conservam frescos, mas a maior parte deles foi retirada e está em museus fora de Andorra – em particular assim acontece com o Museu Nacional de Arte da Catalunha, em Barcelona.
As autoridades do turismo de Andorra criaram uma rota do românico, que começa em Canillo e acaba em Grau Roig. Ninguém o percorre todo. Alguns visitantes fogem ao esqui e procuram Santa Coloma, próxima de Andorra la Vella, uma das mais representativas, que figura em todos os guias. Outros, Sant Climent, na zona de La Massana.
Achou o viajante que bastaria ficar pelo mais fácil, visitando a igreja de Sant Joan de Caselles, em Canillo, na beira da estrada e com facilíssimo acesso para quem pretenda cruzar o principado pela estrada principal, de sul para norte. É um edifício dos séculos XI e XII, ligeiramente alterado nos séculos XV e XVI. Notou de especial um campanário externo, unido à nave principal por um alpendre que os paroquianos usavam como sala de reunião comunal.