quarta-feira, junho 08, 2011

Visitar a China

  Partiu o viajante para o extremo oriente com uma apreensão que já há muito deixou de ter nas vésperas de viajar: apreensão pelo desconhecido, pela dificuldade de lidar com a diferença, pelo bloqueio linguístico, pela distância, física e geográfica, cultural e civilizacional.
Porém, em geral, os mais básicos receios não se confirmaram. Aliás, já assim tinha sido na preparação da viagem: foi fácil e expedito obter o visto de entrada, na Embaixada da China em Lisboa (recorda bem o viajante o pesadelo que foi obter o da Rússia, ainda não há muito). Por outro lado, as marcações e reservas, à distância, mesmo sem apoio local, foram eficazes. Do lado de lá do mundo, por email, veio rapidamente sempre resposta tranquila para tudo.
  Ficam, porém, duas notas importantes: a primeira, quanto à dimensão do país e de tudo o que nele cabe; a segunda, para a diferença de conceitos e de referências.
Quanto à dimensão, é óbvio o tamanho gigantesco, quase fora da escala humana, do país mais povoado do mundo (e o terceiro em extensão geográfica, apenas menor que a Rússia e o Canadá).
Na China tudo é de enorme dimensão e em enorme quantidade. Há sempre muita gente em qualquer sítio e em qualquer ocasião. Até por isso, ficou clara no viajante a ideia de que para este país, cada pessoa, em si mesma, conta pouco mais do que um número, em mais de mil milhões deles.
  No que respeita às referências, em geral, os chineses têm as deles bem vincadas. A China esteve completamente fechada ao mundo ocidental (e não apenas ao mundo ocidental, mas mesmo ao mundo exterior à China, em geral), durante muitos séculos e apenas desde há três décadas foi permitido ao povo chinês começar, gradualmente e muito devagar, a perceber que há outras formas de viver e de ser.
  Os chineses chegam sempre antes da hora marcada e são disciplinados e obedientes. As hierarquias são um valor absoluto e incontestável. Por outro lado, embora se note um espírito afoito e despachado, de quem quer ser eficaz no seu trabalho, é bem evidente que não existe espírito crítico nem muito menos sentido de humor. Sobretudo esta falta absoluta de sentido de humor cria barreiras e produz choques.
  Os chineses não são hostis aos estrangeiros, mas são intransigentes com quem desrespeita as suas regras. Falam muito alto, para se fazerem impor e não hesitarão em insultar nem em descompor aqueles com quem têm divergências. Ficou, a esse propósito, o viajante, na memória, com as vozes estridentes muito marcadas dos discursos públicos.
Queria o viajante ter actualizado estes cadernos de viagem e não conseguiu: os blogs são proibidos na China, tal como o Facebook ou o Youtube: todas estas realidades internéticas estão tecnicamente inacessíveis, por meio de uma operação tecnológica que os informáticos já apelidam de “Great Firewall of China”.
Não tinha o viajante a noção de que em 2010 visitaram a China mais de 55 milhões de visitantes (sobretudo sul-coreanos, japoneses, russos e norte-americanos).

domingo, junho 05, 2011

Museu de Ramsés II, Mênfis, Egipto

 Ramsés II, talvez o mais poderoso faraó da história do Egipto e das suas 30 dinastias, que governaram o país durante quase 30 séculos, teve, no seu tempo, um templo em Mênfis. O local é hoje em dia uma modestíssima aldeia do vale do Nilo, a 27 quilómetros do Cairo, que já nem se chama como então (o seu actual nome é Mit Rahina). Aquele faraó foi um caso de rara longevidade: por um lado, foi o senhor dos reinos unificados do Baixo e do Alto Egipto durante um imenso período de 67 anos (entre 1279 e 1213 a.C.); por outro, a sua múmia - prosaicamente, o seu cadáver, embalsamenado -, ainda existe e está conservada no Museu do Cairo, na sala das múmias reais – está portanto conservada desde há mais de 3.200 anos!
 O poder faraónico foi fundado pelo rei Narmer, que cerca de 3100 a.C. unificou o Baixo e o Alto Egipto, dando assim origem a um longo período que os historiadores dividem em Império Antigo, Império Médio e Império Novo, além de outros períodos intermédios e do período dinástico tardio, já numa fase terminal da civilização egípcia. O Império Antigo (séculos 27 a 22 a.C.) foi aquele durante o qual terão sido construídas as grandes pirâmides que ainda hoje existem. O Império Novo (séculos 16 a 11 a.C.) correspondeu à época dourada dos faraós. Neste período viveram a maior parte dos grandes faraós que a história recorda como tal: entre outros, Tutankhamon, Akhenaton, a Rainha Hatsheput, Nefertiti e o próprio Ramsés II.
 Mênfis (nome grego da cidade a que os egípcios chamavam Mennefer) foi a primeira capital do Egipto unificado, desde o terceiro milénio antes de Cristo. Foi o viajante à procura dos vestígios de Mênfis, mas nada encontrou que mereça menção. Diz-se que por estar perto do Cairo foi mais facilmente saqueada por invasores – sobretudo pelos romanos. Se foi assim, facilmente seriam levados depois pelas cheias do Nilo os restantes vestígios da cidade, construída em tijolos de barro. Actualmente, já nada resta da Mênfis imperial. Desapareceu completamente, seja por ter sido gasta pelo tempo, seja pelo crescimento populacional desta zona, que é muito próxima do Cairo. A única visita interessante a fazer na localidade é a do Museu de Mit Rahina, onde repousa uma gigantesca estátua de Ramsés II.
Além da estátua, a visita ao museu apenas vale por duas ou três peças mais. Tudo o resto não merece referência especial. A estátua representado Ramsés II é enormíssima. Foi feita em calcário e está deitada no chão, desde logo porque já não tem pés. Por outro lado, porque tem mais de 10 metros de altura e pesará cerca de 100 toneladas. Fora do museu, no jardim, pode ver-se uma enorme esfinge de alabastro, que será a maior escultura neste material que se conhece.
A entrada no museu custa 35 libras egípcias (pouco mais de 4 €). Do Cairo, o acesso por estrada é bom e a melhor forma de chegar é de táxi.

quarta-feira, junho 01, 2011

Hotel Burj Al Arab, Dubai

 
A mística deste hotel é global: o seu estatuto e até mesmo a sua imagem granjearam-lhe fama à escala planetária. Diz-se ter 7 estrelas, classificação estranha, que “rebenta” a escala clássica e legal, de 5. A verdade é que este é um hotel classificado de cinco estrelas. E, oficialmente, nunca se referiu em lado nenhum - nem a direcção do hotel o assume -, que o hotel tem sete estrelas. Explorando o tema, facilmente veio o viajante a concluir que o estrelato exagerado é o resultado de uma bem montada estratégia de marketing.
A história é simples: a família do Emir do Dubai definiu há muito uma clara estratégia política e económica que tem em vista tornar aquele emirato árabe como um destino turístico de luxo. Foi feito investimento em hotéis, centros comerciais, infra estruturas urbanas, marinas, urbanizações e edifícios arrojados (a célebre torre mais alta do mundo e as duas célebres palmeiras “desenhadas” no mar), entre muitas outras iniciativas.
  A par disso, foi montada uma vasta campanha promocional, sendo convidados jornalistas de todo o mundo a visitar o Dubai. Um deles, francamente deslumbrado com o luxo desmedido do Burj-al-Arab, publicou, em clara e assumida hipérbole, que este hotel merecia muito mais que as cinco estrelas: valia pelo menos sete estrelas. O mote estava dado. Ao marketing do Emir, que tem evidentemente interesses financeiros no hotel, interessava cavalgar a onda e a chalaça nunca foi desmentida. E para a voz corrente as cinco estrelas transformaram-se em sete.

O Hotel Burj al Arab (Torre dos Árabes) foi construído entre 1994 e 1999, numa pequena ilha artificial junto à praia de Jumeirah, na costa do emirado do Dubai - a 280 metros da costa. Tem uma bem conhecida estrutura em forma de vela, para imitar um dhow, os tradicionais barcos de pesca do golfo arábico. A “vela” terá 321 metros de altura (é mais alta que a torre Eiffel!). O hotel tem 202 suites – não tem quartos simples. A suite real tem 670 metros quadrados e inclui recepção com água de rosas, toalhas refrescantes aquecidas e bebidas (não alcoólicas,claro…) Isto, depois de um transfer em Rolls Royce a partir do aeroporto. Em suma, um disparate que custa mais de 3000 euros por noite. Não custou, claro, ao viajante, cuja passagem por estas terras, durante quase uma semana, custou muito menos que isso… 

O resto da história, retirou-a o viajante das revistas: o átrio é forrado a folhas de ouro, há colunas douradas e uma cascata no hall. O seu heliporto, no topo, já serviu para que Roger Federer e André Agassi trocarem bolas de ténis – claro está que no dia seguinte surgiram nos jornais de todo o mundo as fotografias. A praia é privativa e está fechada ao acesso do público. Como aliás acontece com todo o hotel e com uma enorme área de jardim e praia em volta: apenas se pode entrar se se tiver efectuado uma reserva.
Não. Claro que o viajante não efectuou qualquer reserva, nem visitou o interior.

terça-feira, maio 31, 2011

Praia de Copacabana, Rio de Janeiro


Atenção: NO STRESS”, diz a placa à entrada da praia. Para que não haja dúvida - e como se fosse necessário…

sábado, maio 28, 2011

Centro Memorial do Holocausto dos Judeus da Macedónia, Skopje

 
A palavra “macedónia” é usada em francês e em espanhol para designar aquilo que em português chamamos salada de frutas ou, também, salada russa – no fundo, uma desorganização harmoniosa de pequenos pedaços de alimentos de vários tipos, que em conjunto formam um prato. A parábola é excelente. Na verdade, o povo que ocupa o país dos Balcãs que hoje em dia conhecemos como Macedónia é o resultado da fusão de uma grande sucessão de povos que, ao longo de vários milénios de história, desde o tempo em que o rei Filipe, pai de Alexandre, que veio a ser O Grande, consolidou aqui um reino independente da restante Grécia. Neste território passaram assim gentes de todos os quadrantes, etnias e crenças que se foram fixando. Actualmente, por imposição da diplomacia grega, que reclama para uma parte do seu território esta histórica denominação oficial, nas instâncias internacionais o nome do país é FYROM – acrónimo em inglês de Antiga República Jugoslava da Macedónia.

 
Talvez tenha sido este ambiente de descontraída fusão que atraiu para aqui, após o fim da idade média (por obra de D. Manuel em Portugal e dos reis católicos, em Espanha, em 1492) o fluxo migratório de judeus sefarditas, que foram expulsos da Península Ibérica e que tiveram que procurar outras paragens para se estabelecer. É bem conhecida a migração judaica portuguesa para a Holanda. Menos conhecida mas não menos importante, foi esta deslocação para os Balcãs. A partir do século XVI formou-se na Macedónia uma grande comunidade judaica, toda ela com origem nas populações expulsas da Península Ibérica.
  Esta comunidade floresceu e foi muito importante no contexto da região. E foi sempre bem tolerada pelos vários impérios dominantes. Em particular, foi bem aceite pelo império turco otomano, que sempre conviveu bem com outras religiões – anotou o viajante que em Skopje, capital da Macedónia, coexistem mesquitas e igrejas, todas elas do tempo da ocupação turca. Ambas as crenças vivam em paz com a outra se nenhuma igreja fosse mais alta que qualquer mesquita (essa é a razão pela qual algumas igrejas foram construídas um pouco enterradas no chão).
 
Bem sentiu o viajante esta “macedónia” de povos pelas ruas de Skopje, vendo passar gente alta e baixa, morena e mais clara, oriental e ocidental. Mas o local que mais lhe revelou este cadinho de culturas foi o Centro Memorial do Holocausto do Judeus da Macedónia. Não esperava o viajante encontrar, na pequena capital de um país com 2 milhões de habitantes, uma exposição permanente tão interessante e incisiva sobre a diáspora dos sefarditas peninsulares, desde que saíram da Península até ao quase extermínio pelos nazis, durante a Segunda Guerra Mundial. Tocou-o toda esta história, de vários séculos, de tolerância com os judeus da diáspora – ainda mais, tendo esta comunidade tido origem em sefarditas expulsos da Península Ibérica.
O que, talvez, impressionou mais o viajante foi a preservação que estas gentes fizeram da cultura peninsular: mantiveram usos e costumes ibéricos e mantiveram, entre si, o ladino, a língua que usavam entre nós até ao século XVI.

 O “Sentro Memorial del Holocausto de los Djudios de la Makedonia” foi criado em 2005, mas o seu edifício apenas ficou concluído e abriu ao público em 2011. Fica num edifício modernaço, de vidro e pedra (não se poderá dizer que seja de muito bom gosto…), entre o centro histórico de Skopje e o rio Vardar, próximo da célebre Ponte de Pedra (Kameni Most). Tem entrada livre

domingo, maio 22, 2011

Jardim Botânico de Pamplemousse, Ilha Maurício

 Próximo de Port Louis, a capital da ilha Maurício, fica um jardim botânico cuja origem remonta ao século XVIII. De carro, a partir da cidade, não se demorará mais que 15 minutos a chegar.
O nome oficial do lugar é Jardim Botânico Sir Seewoosagur Ramgoolam, em homenagem ao primeiro dirigente político da Maurício após a independência, em 1968.
Porém, a criação do jardim é muito anterior: teve origem durante o domínio francês da ilha, ao que se diz, tendo em visto reproduzir nesta terra fértil as sementes de especiarias que na época se cultivavam nas colónias e, em particular, no extremo oriente. Tais sementes eram eram aqui facilmente reproduzidas, em excelentes condições climatéricas e de solo. E muito mais perto de França, onde iriam ser vendidas. Durante o século XVIII foram daqui exportados para a Europa essências e especiarias (canela, pimenta, entre outras).

 No entanto, após 1775, o jardim deixou de privilegiar essa vertente e passou a plantar-se aqui o maior número possível de plantas, sobretudo aquelas que se afiguravam mais raras. E é disso que beneficiam os visitantes de hoje. Podem ver-se no jardim variadíssimas espécies de palmeiras, por exemplo Mas também a árvore de cânfora. Ou araucárias de diversíssimos tipos.
Mas a estrela da visita é o tanque dos enormes nenúfares da Amazónia, os “victoria regia”, tão grandes que chegam a pesar 45 quilos e a medir um metro de diâmetro. Diz-se que podem suportar, sem se afundarem, um bebé pequeno. Ao lado, está um outro lago de nenúfares e flores de lótus, as flores sagradas dos hindus.

 Este é daqueles locais onde o viajante achou efectiva vantagem em fazer uma visita guiada, acompanhado por um guia, portanto. O parque tem 90 hectares e visita-se bem no espaço de uma hora. A entrada é paga. É uma visita imperdível.

quinta-feira, maio 19, 2011

Casa Chimera, Kiev, Ucrânia

 Caminhando pelas ruas de Kiev foi o viajante surpreendido por uma casa em “estilo gaudi”, com as suas fachadas profusamente decoradas com esculturas e gárgulas em cimento, representado fantasmagóricos animais e outros seres. De tudo viu por aqui: rinocernontes, elefantes, e até algumas formas diferentes de representação humana. Em geral, o ambiente é de caça, uma das paixões do seu desenhador. Veio o viajante a saber que foi construída pelo arquitecto Vladislav Gorodetski para habitação da sua família, no início do século XX (entre 1901 e 1902). Diz-se que os animais da fachada são uma evocação da caça, principal ocupação dos tempos livres do arquitecto.
No seu tempo, foi um edifício arrojado, não apenas na estética, mas também nas funcionalidades que integrava: tinha um compartimento gelado (nada difícil, na Ucrânia) para conservar alimentos, adega, lavandaria, celeiro, para alojar carruagens e animais e, na cave, previu um compartimento especial para alojar uma vaca, para que houvesse leite fresco para todos os dias.
Este edifício fica na Rua Bankova, 20, próximo da central Rua Khrechatyla, esmo em frente do imponente edifício da Presidência da República da Ucrânia. Desde 2005 que o edifício, que é propriedade do Estado ucraniano, é utilizado como residência presidencial, para alojar convidados estrangeiros.

domingo, maio 15, 2011

Museu Rodin, Paris

De Paris, diz-se que tem 400 museus, de temáticas tão improváveis como os perfumes ou a caça. E além dos museus, tem milhentas outras coisas para ver e fazer. Ou apenas para sentir, porque em Paris basta estar para se ser tocado pela alma, pela grandeza e pela dimensão universal da cidade.
Por isso, nunca tinha ocorrido ao viajante visitar o Museu Rodin, um pequeno museu, de temática específica, como tantos outros, ali ao pé da Ecole Militaire e não longe da torre Eiffel.
 Começou por surpreendê-lo o edifício onde está instalado: é um antigo palacete (o Palácio Biron, do século XVIII), que tem a majestade, a sobriedade e a elegância das casas da velha aristocracia francesa. Ao entrar no jardim e vê-lo, ao fundo, sentiu-se o viajante a visitar Tintim e o capitão Hadock, em Moulinsart. Mas o próprio jardim, de vários hectares (em pleno centro de Paris, como se se estivesse no campo!) é muito interessante: é um tradicional jardim à francesa, com caminhos de areia, que o divide em diversos sectores diferenciados. É aqui, no jardim, que se podem encontrar algumas das mais iconográficas obras de Rodin: entre elas, O Pensador, A Porta do Inferno, Balzac e Vítor Hugo.
 Quanto ao museu, mostra as obras do escultor Auguste Rodin (1840-1917). Guardam-se aqui milhares de esculturas, bronzes, mármores, esquiços, aguarelas, estampas e gravuras. Além das obras de Rodin, ainda pertencem ao museu milhares de peças de outros artistas seus amigos ou seus contemporâneos: pinturas, esculturas, fotografia e outros.
Chamaram a atenção algumas peças notáveis, conhecidas do grande público. Reteve o viajante duas: O Pensador, de 1902 (o tal que está no jardim) e A Catedral (as célebres mãos, entrelaçadas), de 1908.

Este museu foi curiosamente criado por iniciativa do próprio Rodin, em 1916, na casa onde já vivia desde 1908, como inquilino. O Estado comprou a casa e doou-a ao museu. Foi uma espécie de compensação pela doação que o escultor fez, das suas obras, ao Estado Francês (além das obras, ainda doou a sua biblioteca e as suas cartas e outros manuscritos). Porém, o museu apenas acabou por abrir em 1919, já depois da morte de Rodin, em 1917.

Fica na Rue de Varenne, 79, em Paris (www.musee-rodin.fr). Muito próximo, fica a estação de metro de Varenne, na linha 13. O museu está aberto de terça a domingo, das 10h00 às 17h45. A entrada custa 6 euros, para maiores de 18 anos (há uma interessante possibilidade de bilhete combinado com o Museu de Orsay).

quinta-feira, maio 12, 2011

Os mercados de Istambul, Turquia

Todos os guias turísticos sublinham, por ser emblemático, como um dos mais importantes ícones de Istambul, o Grande Bazar – o Kapali Çarsi, em turco. Diz-se ser o maior e mais antigo bazar do mundo, já que foi fundado no século XVI pelo sultão Mehmet II – ao que parece, a ideia subjacente era a de fazer dele o núcleo comercial mais importante do império turco. Com esse intuito, foram incluídas no bazar, além das lojas, cafés, armazéns, mesquitas, banhos e alojamentos para viajantes (os caravansarai).
Ainda actualmente o Grande Bazar tem cerca de 60 ruas cobertas, todas elas com lojas – que se estima serem cerca de 4500, ocupando uma área total de mais de 300 mil metros! Esta dimensão, dos números, impressionou o viajante ainda antes de chegar. Depois, marcou-o a complexidade das ruas cobertas – complexidade que não se identifica com confusão; e marcou-o também a ordem do comércio, manifestada por exemplo na existência de ruas especializadas: embora hoje em dia as “especialidades” estejam muito mitigadas continuam a ser bem identificáveis nalguns casos, como por exemplo o da Rua dos Joalheiros. Actualmente, o Grande Bazar é mais atracção turística do que centro comercial para a população local.
Ainda mais turístico é um outro bazar que, embora muito mais pequeno é também muito bonito. O Misir Çarsisi, ou Bazar Egípcio, também conhecido por Bazar das Especiarias, fica muito próximo da Ponte de Gálata e, ao contrário do Grande Bazar, tem acesso fácil e rápido. Talvez por isso seja quase em exclusivo destinado a turistas. Aquilo que se vende aqui é variado, mas especificamente do interesse de turistas: louças, couros, panos, latoaria, açafrão, pimentas, azeitonas ou queijo tradicional. Não deixa, em todo o caso, de ser pitoresco e colorido.
Porém, estes mercados “oficiais”, com nome e lugar marcado no mapa, não esgotam os locais de venda com perfil de mercado. Aliás, as ruas que envolvem quer um, quer o outro mercado têm elas mesmas mercados de rua muito mais genuínos. Na rua, em lojas abertas, com menos charme e sofisticação que nos mercados, vende-se de tudo: de jóias a materiais de construção, passando por roupa ou pequenos electrodomésticos. Aí sim, encontra-se a genuína alma comerciante turca e podem fazer-se bons negócios.

quarta-feira, abril 20, 2011

Museu Egípcio, Cairo, Egipto

 Quando, secretamente emocionado, o viajante viu ao vivo a máscara funerária de Tutankhamon, ocorreu-lhe que muito maior terá sido a emoção do arqueólogo americano Howard Carter quando a descobriu, no Vale dos Reis, em 1922. Sobretudo, porque esta máscara foi encontrada no seu lugar, intacta, na câmara funerária do próprio faraó, conjuntamente com um incomensurável tesouro e muitos outros objectos utilitários e de adorno. No Museu Egípcio do Cairo guardam-se 1700 peças provenientes do túmulo de Tutankhamon. Quanto à máscara, feita de 11 quilos de ouro e decorada com outros materiais preciosos é uma peça impressionante. É aquela a que é dado mais destaque em todo o Museu Egípcio. Anotou nela o viajante um olhar vago, quase distante e vazio. A cara retratada, supõe-se, é a do próprio faraó. Aliás, assim acontecia com todos os faraós: as máscaras retratavam o mais fielmente as suas caras, para que na outra vida as suas almas reconhecessem com facilidade os seus corpos.
 O Museu Egípcio fica em pleno centro do Cairo, muito próximo do Nilo, na Praça Midan Tahrir, onde no recente inverno milhares de pessoas se manifestaram até derrubar do poder o presidente da república de havia 30 anos. As autoridades planeiam transferi-lo muito em breve para um novo edifício, próximo de Guiza (a que os portugueses chamam Gizé). Porém, sobre esta “brevidade”, qualquer habitante do Cairo esclarecerá que há mais de 10 anos que está para breve a transferência. Por isso, para já, este museu centenário, que abriu as portas em 1902 (e não parece ter tido, deste então, remodelações significativas), apresenta-se muito antiquado, com um estilo muito desajustado ao que se espera hoje em dia de um museu de prestígio internacional. Pareceu ao viajante um daqueles clássicos museus dos livros do Tintim, com muitas peças expostas em pedestais e outras tantas em armários de madeira, com portas envidraçadas. Muito poucas das peças expostas têm legendas ou estão identificadas. Os expositores estão em salas muito altas e desconfortáveis, pouco iluminadas, atulhadas de armários e caixas onde se acotovelam peças e mais peças. Dizem os guias que a colecção do museu inclui mais de 100.000 peças de arte egípcia, embora apenas estejam expostas 12 mil delas. Esta aparente desorganização contribui, seguramente, para o desaparecimento de algumas das peças ali guardadas, durante a revolução do início de 2011.
 Não obstante, o visitante gostou da visita do museu. Aqui encontrou o enorme colosso de Akenaton, o faraó que teve como esposa principal a rainha Nefertiti e o colosso de Amenhotep III (a que os portugueses chamam Amenófis). Também estão no museu as ricas estátuas de Rahotep e Nohet, príncipes do Egipto (Rahotep era irmão do faraó) e a fantástica estátua de Ka-Aper, conhecido pelos guias turísticos como “o presidente da Câmara”. Esta estátua, do Império Antigo, em madeira, é notável pela expressão da sua face e pela profundidade do seu olhar: os seus olhos têm um contorno de cobre; a zona branca do olho é feita de quartzo e as córneas de cristal de pedra, transparente e perfurado, tendo sido recheado, no seu interior, com massa preta para imitar a “menina do olho”.
Por outro lado, a sala das múmias, é toda uma experiência, que provoca sentimentos muito difíceis de descrever. Estão expostas várias múmias, de outros tantos faraós, em estado de conservação fantástico, para a idade. Na prática, são todos eles cadáveres com mais de 3000 anos. É notável a complexa técnica de embalsamamento, desenvolvida pelos antigos egípcios, que permitiu que estes faraós “sobrevivessem”, embora mortos, durante três milénios. Talvez a mais impressionante delas seja a múmia de Ramsés II, que foi descoberta no fim do século XIX.
O Museu Egípcio está aberto das 9 às 18 horas, mas os guardas gostam de antecipar o cumprimento do horário do encerramento, expulsado os visitantes, bastante antes da hora do fecho. O bilhete custa 60 libras egípcias, mas a visita da sala das múmias reais exige um bilhete adicional de mais 100 libras – cerca de 12 euros.

terça-feira, abril 19, 2011

Raval, Barcelona


Pode ser verdade que o português seja uma língua traiçoeira. Mas o catalão não o é menos.

domingo, abril 10, 2011

Florença, Itália

 De Florença tinha o viajante a ideia de ser a cidade onde floriu em todo o seu esplendor o génio artístico italiano, entre os séculos XIII e XVI, dando origem ao período histórico que ficou conhecido como Renascimento. Desde essa altura que passou a ser uma das capitais do mundo da arte, sendo ainda hoje a cidade que mais guarda a herança renascentista.
No Renascimento, a cultura e as artes libertaram-se do peso das trevas medievais e abriram-se ao mundo, cultivando a abertura de espírito, que permitiu a criatividade e deu origem a grandes avanços técnicos e científicos. É dessa altura a pretensão do saber universal: cada homem de cultura deveria também ser de ciência e de técnica e de artes e de literatura.

 Em legado deste período, a grande casa dos Médici, os mecenas mais proeminentes da história de Florença (Lourenço de Médici terá sido o modelo do “Príncipe” de Maquiavel), acabou por ser herdada pelos duques de Lorena, que a passaram a Napoleão no início do século XVIII. Talvez por isso, quando Itália se unificou como reino, Florença foi sua capital, entre 1865 e 1870.
Foi nesta cidade que surgiu o génio de Dante Alighieri, mas também foi aqui que viveram Giotto, Botticelli, Fra Angélico, Petrarca ou Maquiavel. Por aqui se revelaram também Miguel Ângelo e Leonardo da Vinci.



 Na visita à cidade, o “Duomo”, esmagou o viajante, pela sua imponência. Pela elegância. Pela originalidade. Esta Catedral ou “Duomo Santa Maria del Fiore” é a 4ª maior igreja da cristandade, depois de São Pedro, em Roma, São Paulo, de Londres e da Catedral de Milão. Foi construída entre 1334 e 1360, planeada por Giotto (Giotto di Bondone) Está marcada pela geometria da sua decoração.
Subiu o viajante à sua cúpula, depois de esperar numa enorme fila que demorou 40 minutos. Mas valeu a pena. Os seus 463 degraus íngremes, por escadas e túneis, dão acesso a um varandim a meio da abóbada. Nesta abóbada foi pintada uma fantástica representação do juízo final. Diz-se que esta abóbada, da autoria de Brunelleschi, é a maior cúpula do mundo. O viajante achou-a avassaladora.

 Mas ainda mais avassaladora achou a recompensa no topo da subida: uma paisagem de cortar a pouca respiração que ainda lhe sobrou depois da subida. Do topo da cúpula vê-se toda Florença: as igrejas, os palácios e a harmonia da cidade, das ruas e da malha urbana.
Em frente, a torre sineira da catedral, ou “Campanile” tem 85 metros de altura (a altura de em edifício de quase 30 andares…). É igualmente construída em mármore branco, com listas verdes escuras.
Porém, Florença é muito rica em memórias arquitectónicas e inevitavelmente a memória do viajante recupera outras imagens; a Piazza della Signoria, com o Palazzo Vecchio e a estátua de David, de Miguel Ângelo é um dos mais impressivos. Esta gigantesca estátua do modelo renascentista é uma cópia da original, que está na Galeria da Academia. Ao lado, a Galeria dos Uffizi, na altura em remodelação, um dos mais famosos museus do mundo, é tido como o maior museu de Itália. Foi fundada no século XVI, por Francisco de Medici, que aliás era o dono das suas primeiras colecções. Guarda a maior colecção do mundo de arte renascentista.
 Por sua vez, a ponte Vecchio, a emblemática ponte sobre o rio Arno, com origem no século XIV, é um dos mais conhecidos ícones de Florença. Ainda agora cheia de lojas – actualmente, são sobretudo joalharias, mas na idade média havia aqui lojas de pescadores, carniceiros e artesãos de couro.
Outros há, como a igreja de Santa Maria Novella, ou a de Santa Croce, onde estão as sepulturas de Miguel Ângelo, Galileo Galilei e Maquiavel. Mas o viajante preferiu – e considerou mesmo essencial -, a vista ao miradouro da Piazzale Michelangiolo, a caminho de S.Miniato al Monte, de onde se tem uma vista fantástica sobre a cidade. Pode subir-se a pé, embora a encosta seja inclinada. Desde o rio Arno, a subida poderá demorar talvez 15 minutos, por escadarias fáceis, mas íngremes. Mas a vista, sobretudo ao pôr-do-sol, é lindíssima e vale bem a pena.



 Florença deixou na memória do viajante uma enorme quantidade de palácios e palacetes, de origem medieval ou renascença, a bordejar ruas estreitas. E também as impressionantes avalanches de turistas, sobretudo asiáticos. Mas à margem desta sensação de parque temático, recorda o viajante que, ao lado da Ponte Vecchio, comeu o melhor gelado de toda a sua vida, de banana e frutos do bosque (duas bolas por 9 €…).
Florença é uma cidade de acesso difícil: o seu aeroporto tem muito poucos voos. É por isso mais confortável utilizar Bolonha, que tem voos diários de Lisboa, com a TAP e depois fazer a ligação de comboio (de cerca de uma hora).