domingo, abril 05, 2009

A Suíça e os suíços

Desde há muito que o viajante se vem deslumbrando com a Suíça, a sua organização e arrumação, a sua disciplina e limpeza. Além disso, é uma constatação objectiva a de que o país é fantástico: é bem evidente a generosidade do Criador com este povo, ao escolher para ele as paisagens que aqui colocou. Sendo organizado e economicamente muito sólido, o país também tem das mais bonitas paisagens do mundo. Porém, não há bela sem senão. E a simpatia que o viajante sente pela Suíça só tem igual na antipatia que sente pelos suíços. É verdade que tem sido sempre tratado com muita educação sempre que calha passar por território helvético. No entanto, vem sempre o viajante com a impressão de que os suíços são gente fechada, opaca e muito cinzenta.

Gente muito cinzenta, de rosto inexpressivo e incaracterístico, que mesmo noutras paragens pode o viajante reconhecer. Os suíços são cinzentos no corpo e na alma. Não exteriorizam, em geral, as suas emoções ou sentimentos. Talvez sejam assim porque o seu país é tão perfeito e compostinho. Porque nele tudo funciona bem e é para ser o que é. Ocorre citar, a este propósito o Grande Eça, descrevendo a idílica ilha da deusa Calipso, onde se perdeu Ulisses: “o problema é que tudo é perfeito”, “o irreparável e supremo mal está na perfeição” (“Ulisses”, in Contos de Eça de Queirós).
Como consolação, evoca o viajante os incontornáveis símbolos helvéticos, encabeçados pelo Matterhorn, ou Monte Cervino, nas imediações de Zermatt. Esta esbelta montanha, inspiradora do Toblerone, cuja imagem se reproduz nas caixas dos lápis de cor Caran d’Ache e também da imagem genérica dos filmes da Paramount Pictures, emparelha em importância iconográfica com a igualmente célebre edelweiss (Leontopodium Alpinum), a carnuda e nobre florzinha branca dos Alpes, imortalizada por Julie Andrews em “Música no Coração” e descrita mais tarde por Goscinny e Uderzo, em “Asterix na Helvetia”.Ainda como consolação, tem o viajante verificado que os aviões suíços são os únicos de cujas janelas se podem tirar fotografias: estão limpas.

quarta-feira, abril 01, 2009

Sagrada Família, Barcelona

A ideia de erigir o Templo Expiatório da Sagrada Família, aquele que é hoje o ícone maior de Barcelona, teve origem em 1874, embora as suas obras tenham começado somente em 1882. Neste ano, a Associação de Devotos de São José, entidade promotora do templo, começou a construir a cripta. Decidiu ainda contratar o arquitecto Antoni Gaudí para que redesenhasse um velho projecto que existia para a construção. Este, assim fez. Afastou por completo o projecto que existia, em estilo neogótico e reformulou a própria orientação geral da obra. Deste plano original, manteve apenas a planta gótica, em cruz latina. Sobre ela, o arquitecto modernista catalão aplicou a sua criatividade e o seu estilo, dominado pelos elementos geométricos e naturalistas. Gaudí trabalhou na construção do templo até 1926, ano da sua morte, deixando nesta data desenhadas plantas das partes ainda por construir.

Começou o viajante a sua visita à Sagrada Família na entrada nascente e terminou-a a poente, na chamada Fachada da Paixão. Impressionaram ambas as fachadas – a primeira, exuberantíssima, cheia de detalhes e recortes naturalistas, a outra mais minimalista e sóbria, mas esmagadora,. É tema de ambas o tempo evangélico. Percorreu ainda o viajante a nave principal, já coberta mas inacabada. Faz claramente parecer estar-se num bosque fantasmagórico. Ao que parece, era esse o objectivo de Gaudí. A visita às torres é difícil, por ser imensamente concorrida, mesmo em épocas fora das férias de verão (tem o custo adicional de 2,5 €). Estão já construídas 12 das 18 torres previstas no projecto (todas elas votivas: 12 dedicadas aos apóstolos – são as já prontas -, outras 4 aos evangelistas, uma ainda, maior que as anteriores (125 metros), dedicada à Virgem e a mais alta delas dedicada a Jesus Cristo. Com 170 metros de altura, esta última, ainda por erguer, em forma de cúpula maior, fará da Sagrada Família a mais alta catedral europeia – mais alta que os 69 metros da Notre dame de Paris, ou os 110 metros de St. Paul de Londres, ou os 137 metros de São Pedro de Roma. Será também das maiores. Quando estiver pronta, os seus 4.500 metros quadrados albergarão14 mil pessoas.É natural esta perspectiva altiva, de construção em grande altura. Gaudí privilegiou a elevação, tal como sabia acontecer com as catedrais góticas medievais. O propósito era que o edifício se elevasse na direcção dos Céus, em louvor a Deus.

Pagou o viajante a entrada nesta igreja ainda por acabar (11 €) com a satisfação de saber que o seu contributo vai financiar o que falta por construir. Sendo concebida desde a sua origem como um templo expiatório, toda a construção tem sido erigida com o produto das contribuições e esmolas que para o efeito vão sendo deixadas (entre elas, a da compra de bilhetes) pelos visitantes, fiéis ou admiradores da obra. Já agendou o viajante nova visita a Barcelona para 2035, altura em que espera, mantendo-se ao ritmo actual, que a igreja esteja concluída.A igreja está aberta a visitas das 9 às 18 horas (de Abril a Setembro, até às 20 horas). Fecha a 25 e 26 de Dezembro e a 1 e 6 de Janeiro. As entradas ficam entre os Carrers de Provença e de Mallorca, e os de Sardenya e Marina, na zona oriental do Eixample, um pouco a norte da Avinguda Diagonal. É servida pelo metro (linhas 2 e 5).

terça-feira, março 24, 2009

Bratislava, Eslováquia

Em passagem anterior, há mais de 20 anos (portanto antes da queda do célebre Muro e da dissolução dos regimes ditos socialistas), reteve o viajante de Bratislava a impressão de uma cidade cinzenta e triste. Revisitada agora, manteve a impressão.
Embora capital de uma nova república, a principal cidade da Eslováquia continua a ter estrutura de pequena cidade de província: não tem grandes avenidas nem perspectivas urbanísticas rasgadas. A cidade tem imensos edifícios barrocos, dos tempos do império austro-húngaro, que lhe dão um certo ar austríaco e centro europeu. Mas nem todos estão recuperados e em bom estado. Sobretudo, a cidade antiga tem ainda muitas marcas do abandono a que foi votada durante o período socialista. O mesmo pode dizer-se das variadíssimas igrejas, quase todas também do período barroco. Dir-se-ia que a cidade ganhou maioridade no século XVIII, mas as construções nobres ficaram por aí. No horizonte, sobretudo na margem direita do Danúbio (que por sinal, nada tem de azul), ficam ainda as silhuetas dos maciços bairros de betão, ao estilo soviético.
É certo que no centro antigo proliferam os cafés de ambiente moderno, normalmente com grandes janelas vidradas para a rua. E que nas ruas desta mesma zona se vêm estacionados muitos carros de luxo e sobretudo desportivos. Estas duas são notas comuns a muitos outros países da antiga cortina de ferro que, após a respectiva abertura, aderiram ao modelo capitalista e aos respectivos extremos, bem conhecidos. Não chega, porém, Bratislava ao excesso da vizinha Praga. Talvez porque os eslovacos são muito mais conservadores e provincianos que os checos, não chegaram aqui os casinos em massa nem as casas de sexo. Além disso, os omnipresentes eléctricos e a imensa e dominante gente com ar modesto e humilde desfasem as ilusões de se estar numa cidade rica ou mesmo nova-rica. Apesar de herdar a altivez tradicional nos eslavos, a cidade é modesta e provinciana.
Ao passear pelas suas ruas, não diria o viajante que foi provisoriamente (durante três séculos, desde 1541 a 1830, após a ocupação de Budapeste pelos turcos) a capital da Hungria e que na modesta, embora elegante catedral de São Martinho, foram coroados 9 dos reis e 8 das rainhas húngaras.
Bratislava é desde 1993 a capital da República da Eslováquia, que nessa data se separou, por consenso, da República Checa (no chamado divórcio de veludo, que se seguiu à revolução igualmente de veludo, a qual depôs o regime comunista, em1989). Terá entre 400 e 500 mil habitantes – são 5 milhões e meio, os eslovacos de todo o país. Embora tenha aeroporto, há muito poucos voos para Bratislava. A melhor forma de chegar é voar para Viena e, daqui, percorrer em autocarro os 60 quilómetros que separam Bratislava do aeroporto austríaco (sempre em auto-estrada, demora um pouco menos que uma hora).

segunda-feira, março 23, 2009

"Avenue des Portugais", Paris

Por mais que se programem e organizem, as viagens nunca decorrem como o viajante as prepara. Em viagem, acontecem-lhe sempre surpresas. E ainda bem.
Vem esta consideração a propósito de algo que o viajante descobriu, caminhando por Paris. De mapa na mão e nariz no ar, à procura de uma determinada curiosidade, foi o viajante surpreendido pelo nome de uma pequena rua transversal ao seu percurso: Avenue des Portugais. A surpresa foi maior por estar numa das mais nobres zonas da cidade e não nos subúrbios desta que é a terceira cidade portuguesa (ou pelo menos da terceira cidade com mais habitantes portugueses…). De facto, passava o viajante na Avenue Kléber, logo à saída da Place Charles de Gaulle, quase ao lado da coquete Avenue Foch e muito próximo da Avenue des Champs-Elysées.

Avenue des Portugais, ou Avenida dos Portugueses. Ao lado, uma lápide esclarece que o nome da artéria foi escolhido pelas autoridades municipais de Paris, em 1918, como homenagem aos 30.000 soldados portugueses que combateram do lado das forças aliadas na libertação de França. Portanto, os portugais são os membros do Corpo Expedicionário Português que, entre 1917 e 1918 intervieram na Grande Guerra, mas tarde conhecida como Iª Guerra Mundial.
É certo que a avenida é curta – terá talvez cem metros de extensão. E é também certo que entre um hotel, num dos lados e um edifício público no outro, ambos com fachadas viradas para a Avenue Kleber, não há nenhum edifício com portas para esta avenida – é uma via para onde dão apenas janelas de edifícios.
Mas é elegante e está numa zona chiquérrima de Paris. O gesto do município parisiense foi bonito e o viajante não conseguir evitar orgulho ao passar por aqui.

sexta-feira, março 13, 2009

Cerveja na Alsácia

Questiona-se o viajante sobre se verdadeiramente há uma cerveja típica da Alsácia ou, pelo contrário, se a cerveja que se produz nesta região do leste de França é apenas uma manifestação regional de um perfil de uma bebida pouco menos que globalizada. Recorda o viajante, de memória, a Kanterbrau, cerveja do mestre Kanter e a Kronenbourg (do bairro de Cronenbourg), ambas produzidas nos subúrbios de Estrasburgo. Mas ainda a Fisher e a Mützig. Além da 1664, a topo de gama da Kronenbourg e das inúmeras artesanais, que surgem localmente, aqui e ali nas bierstub de Estrasburgo e Colmar.

Na Alsácia produzem-se cervejas industriais, vendidas em todo o mundo. Mas também cervejas blanches (weiss) caseiras e ambrées excepcionais. Algumas são engarrafas, enquanto outras são apenas conhecidas no bairro onde são produzidas. Ou mesmo na bierstub onde se bebem.

Cogitava o viajante sobre estas coisas, debaixo da gelada chuva miudinha de Estrasburgo, nestes dias do início de Março, percorrendo as ruelas da Grande Ilha, a zona medieval circundante da catedral, quando se deparou com uma loja que, à falta de melhor, qualificou como bieroteca. Vende cervejas. Apenas cervejas. Mas muitas. De todo o mundo, muitas marcas conhecidas. Mas também de França, tipos desconhecidos, ao menos do viajante. Reteve na memória uma cerveja de castanhas, que fez recordar o “Asterix na Córsega” e os javalis que se alimentavam das ditas.

Por fora, esta loja não tem rótulo ou anúncio. Mas na verdade o local tem nome, que o viajante anotou: Village de la Biére. E fica na Rue des Fréres, nº 22, no cruzamento com a Rue du Faisan, em Estrasburgo (telefone +351.03.88.36.90.04). Verificou depois que está aberta de terça a sexta, das 10:00 às 12:30 e das 14:30 às 19:30.

quinta-feira, março 12, 2009

Viajar para a Rússia

O longínquo norte da Europa oriental é um destino misterioso, pouco divulgado e fora das páginas das revistas de viagens que se vendem nos quiosques. Com excepção de rápidas excursões a São Petersburgo, a partir da Finlândia, não estão divulgadas viagens organizadas para o extenso território russo. Terá o viajante que preparar, ele mesmo, a aventura. Ou então recorrer a agências de viagem de vão de escada, frequentadas por emigrantes russos, que recorrem aos seus serviços para planear viagens para voltar ao seu país.
E a aventura começa ainda antes da saída de Lisboa, quando se tenta obter o visto de entrada no consulado da Federação Russa, na Rua Visconde de Santarém, 57, nas proximidades do Instituto Superior Técnico. Apenas está aberto às segundas, quartas, quintas e sextas, das 9h30 às 12h30, mas mal andará o turista se não chegar muito antes da hora de abertura. É que, fora da porta, com chuva ou sol, forma-se uma fila invariavelmente demorada que, quando muito, avança à razão de meia dúzia de pessoas por hora.
Não é fácil entrar no consulado à primeira. E depois disso, continua a não ser fácil obter o visto de entrada. Não é fácil e supõe várias dores de cabeça. Calhou ao viajante ir a Moscovo visitar uma instituição pública da Federação Russa. Só lhe foi permitido obter visto porque tinha recebido um convite da dita instituição (em russo, claro…). Se o não tivesse recebido, pura e simplesmente o visto não lhe era concedido: na Rússia moderna só se admitem aqueles visitantes que a Federação Russa quer admitir. No tempo dos soviéticos dizia-se que o rigor no controle da entrada de estrangeiros era necessário para que os miseráveis que viviam no ocidente da Europa não emigrassem todos para lá. Agora, não se sabe qual é a razão oficial.
Estando-se disposto a frequentar vãos de escada, pode sempre comprar-se um visto turístico a uma agência de viagens. Quem ganha com isso, não o sabe o viajante. A verdade é que cumprir as formalidades necessárias à viagem será difícil para quem viaje isoladamente.

A Rússia é um país enigmático mas simultaneamente romântico. Só aqui poderia ter acontecido a histórica do Dr. Jivago, tal como só aqui poderia ter tido real força o movimento bolchevique. Por outro lado, os russos são por definição burocráticos, com um inacreditável convicção. O país tem uma dimensão fora de toda a proporção, com um tamanho descomunal e 147 milhões de habitantes. Manifesta-se pelos extremos, até no clima, rigorosíssimo no Inverno. Tem uma história conturbada e brutalmente violenta, desde a idade média às chamadas depurações estalinistas, que eliminaram milhões de adversários do regime comunista. Moscovo é uma digna capital deste império, com majestosos edifícios públicos e degradadíssimos e infindáveis bairros de prédios habitacionais, onde vivem a maioria esmagadora e pobre dos seus 10 milhões de habitantes. Os russos, eles mesmos, justificam a reputação de ensimesmados, deprimidos e nada amigáveis. Em geral não se riem, porque o sorriso é sinal de idiotia ou menoridade intelectual. Só depois de os compreender percebeu o viajante alguns dos clichés associados aos antigos dirigentes dos países comunistas ou marxistas-leninistas, igualmente tidos, ao menos nos filmes da série 007, como frios, desprovidos de emoções e de sentido de humor. Porém, se se ignorarem as referências do passado recente e se tiver espírito aberto a novas perspectivas, a experiência russa pode revelar-se agradavelmente surpreendente.

sexta-feira, fevereiro 20, 2009

Neve em Andorra

As estâncias de férias de inverno sempre deram ao viajante a impressão de lugares tranquilos, mesmo sendo plenos de actividade. Mas além disso – e sobretudo -, a forte convicção de que são locais de charme, frequentados por gente sofisticada e endinheirada. Compreende por isso o viajante a expressão “país do ouro branco”, aplicada a regiões que exploram a neve e as actividades desportivas e de lazer a ela associadas. Será o caso de Andorra.

Porém, não encontrou o viajante em Andorra essa tal realidade charmosa e sofisticada. Este micro país, com o título de Principado, fica encravado entre Espanha e França, no coração dos Pirineos. No mapa, tem de largura máxima 29 quilómetros, de leste a oeste, e de altura máxima, de norte a sul, 25 quilómetros. Todo ele é alta montanha (os seus picos atingem 2946 metros e a altitude mínima, à saída para Espanha, é um pouco mais de 800 metros…) No entanto, não encontrou aqui o viajante nada que lhe recordasse aquela aura distinta das férias de Inverno. Há neve, é certo, e com ela há toda a mística poesia da brancura luminosa. Há também muitas e boas instalações e equipamentos para desportos de Inverno. Não faltam quilómetros e quilómetros de pistas, classificadas de todas as cores e graus de dificuldade. Há confortáveis equipamentos de apoio. Telecadeiras, telecabines, esplanadas e bares em altitude. Escolas de esqui e várias estâncias especialmente preparadas para debutantes e inexperientes nestas práticas.
Mas falta a Andorra o polimento. Falta-lhe charme e até mesmo compostura. As montanhas são bonitas. A neve também. Mas o urbanismo é caótico e a arquitectura dos lugares, em geral, é muito plebeia e pobre. Em concordância, nas estradas abundam carros “artilhados” (de tunning). Os milhares de portugueses que trabalham nos hotéis (há 9000 portugueses em Andorra, numa população total de 60000 mil habitantes) não estranharão o sempre presente cheiro a fritos no ar, a fazer recordar o ar do Albufeira. Aliás, ocorreu ao viajante que, de certa forma, Andorra está para as estâncias de inverno como o Algarve está para as estâncias balneares do mediterrâneo. Sem ofensa.

Este Principado de Andorra só tem nobreza no nome. Enquanto estado independente, chamar-lhe país de opereta é elevar demasiado elogiosamente o termo comparativo. Vale-lhe, claro, ficar a uma distância aceitável de Portugal e ter uma boa oferta hoteleira a preço abordáveis.
De Portugal a Andorra, dependendo do ponto de partida, a distância por estrada é de 1000 a 1200 quilómetros. Faz-se, embora não seja demasiado fácil, num dia de viagem, graças à rede de autovias espanholas. Será opção mais confortável e rápida a viagem de avião até Barcelona (a 220 quilómetros) ou Toulouse (a 190 quilómetros) – ambas as ligações, de carro, tomarão menos de três horas. Para Barcelona, há cerca de 10 voos por dia, a partir de Lisboa. Para Toulouse, apenas um.

sexta-feira, fevereiro 13, 2009

Em Paris com Eça

Apresentado por Eça de Queirós, conhece o viajante desde os bancos do Liceu (a que hoje se chama Escola Secundária), o palacete do nº 202 dos Campos Elíseos, em Paris. Sabe que se trata de um digno e velho palácio comprado pelo avô de Jacinto (A Cidade e as Serras) a um príncipe polaco que depois da tomada de Varsóvia se meteu a frade capucho. Em tal palácio se entra por uma “álea bem areada”, ladeada de “uma relva mais lisa e varrida que a lã de um tapete”. No interior, “ouro pesado nos seus estuques e ramalhudas sedas”. Das suas varandas, abertas sobre os lilases (que Charles Aznavour dizia terem acabado há vinte anos), vê-se a eternamente chic Avenue des Champs-Elysées.
Quis o destino que o viajante desaguasse na Place de L’Etoile, agora oficialmente Charles de Gaulle, no topo da elísia avenida. Por aqui, não faltam palacetes como o do 202: solenes, com dignas fachadas de pedra trabalhada e jardins pequenos mas altivos. Entre eles estaria, concerteza, o 202.
Em vão o viajante o procurou. Rapidamente verificou que, do lado dos números pares, a numeração da avenida termina no nº 156 que, por sinal, é a embaixada de um país do petróleo do golfo.
Teve assim que confiar na imaginação do grande Eça para descobrir o prodigioso 202. E o seu elevador, do rés-do-chão para o primeiro andar (“era espaçoso, tapetado e oferecia, para aquela jornada de sete segundos, confortos numerosos: um divã, uma pele de urso, um roteiro das ruas de Paris, prateleiras gradeadas com charutos e livros”)
Também só pela imaginação de Eça logrou o viajante visitar o ambiente do palácio, de “temperatura macia e tépida. Um criado, mais atento ao termómetro que um piloto à agulha, regulava destramente a boca dourada do calorífero. E perfumadores entre palmeiras, como num terraço santo de Benares, esparziam um vapor aromatizado e salutarmente humedecendo aquele ar delicado e superfino”.

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

O aeroporto de Paris encerrou

Calhou ao viajante, neste Inverno rigoroso, ficar impedido de voltar a casa e perder um voo, por os aeroportos de Paris terem sido encerrados, por causa do mau tempo, a 9 de Fevereiro de 2009.
Na ocasião, não deixou o viajante de recordar o mau tempo na epopeia, narrada por Eça de Queirós, da viagem de Jacinto e do seu amigo Zé Fernandes, de Paris para o Douro, de comboio, através de Espanha (A Cidade e as Serras). Recordou o viajante a terrível tempestade que se abateu sobre o percurso ferroviário e, em particular, sobre Medina del Campo, a qual atrasou o comboio de Paris e por pouco não fez perder aos nossos heróis o comboio de Portugal. Quem o perdeu foi o fiel e dedicado Grilo, criado de Jacinto, que com eles viajava, transportando todas as suas 23 malas.
Sem malas chegou Jacinto, o Príncipe da Grã-Ventura, à estação de Tormes, tendo como única bagagem uma bengala e um exemplar, já lido, do “Jornal do Comércio”.

Ainda a propósito, anotou o viajante o caótico balanço das viagens de Zé Fernandes: “viajei; trinta e quatro vezes, à pressa, desfiz e refiz a mala. Onze vezes passei o dia num vagão, envolto em poeirada e fumo, sufocado, a escorrer suor. Catorze vezes subi, derreadamente, a escadaria desconhecida de um hotel; e espalhei o olhar incerto por um quarto desconhecido; e estranhei uma cama desconhecida, donde me erguia, estremunhado, para pedir, em línguas desconhecidas, um café com leite que sabia a fava. Perdi uma chapeleira, quinze lenços, três ceroulas e duas botas, uma branca e outra envernizada, ambas do pé direito. Percorri, com pé respeitoso e abafado, vinte e nove catedrais. Trilhei molemente, com uma dor surda na nuca, em catorze museus, cento e quarenta salas…. Gastei seis mil francos. Tinha viajado!” (A Cidade e as Serras, Eça de Queirós, Ed. Livros do Brasil, página 102)

No episódio da segunda-feira passada, em Paris, a sorte do viajante foi melhor. Conseguiu voo para casa na tarde do dia seguinte, jantou tranquilamente um entrecôte numa brasserie de Saint Germain-des-Prés e a parte menos interessante foi ter que contentar-se com um hotelzito de esquina no Quartier Latin.

domingo, dezembro 07, 2008

Brasília e Niemeyer

No próximo dia 15 de Dezembro, Óscar Niemeyer completará 101 anos. O nome dispensa mais comentários biográficos e a idade e vivacidade, que tem confirmado na televisão, deixam o viajante cheio de respeito e parado no terreno. Mora em Copacabana, em cujos morros, segundo o próprio, o arquitecto do mundo nascido no Brasil se inspirou para encontrar as linhas curvas intermináveis que marcam a generalidade das suas criações.

Quando o tema de conversa é a capital federal brasileira, mesmo o viajante mais desatento pensa logo no génio de Niemeyer. É universal a imagem de alguns dos mais emblemáticos edifícios de Brasília. É o caso do Palácio da Alvorada, construído entre 1956 e 1958 para ser residência oficial do presidente da República, um dos mais emblemáticos da cidade e da carreira de Niemeyer. Impressiona a sua simplicidade e discrição. Recorda bem o viajante os vários edifícios da Praça dos Três Poderes, desenhada por Lúcio Costa, logo na elaboração do plano piloto da cidade e cheia de simbolismo. Está delimitada por três edifícios desenhados por Óscar Niemeyer: o Palácio do Planalto, onde funciona a Presidência da República, poder executivo, o Congresso Nacional, sede do poder legislativo e o Supremo Tribunal Federal, emblema do poder judicial. O Congresso, um dos modernos emblemas de Brasília, é um só edifício, com duas torres paralelas e duas cúpulas, de sentido invertido, encimando uma delas o Senado e a outra a Câmara dos Deputados. O Palácio do Planalto e o Supremo Tribunal Federal partilham o estilo, de arcos investidos e larguíssimas coberturas.

Porém, o edifício que mais marcou o viajante na sua passagem na capital do planalto foi a Catedral Metropolitana Nossa Senhora da Aparecida, construída entre 1958 e 1971. A sua silhueta é ainda hoje motivo de especulação. Niemeyer é e era ateu, mas a igreja revela profunda compreensão da fé católica. Pretende quebrar com a tradicional traça das grandes catedrais, com escuras e compridas naves em frente de um altar. Pelo contrário, é vagamente arredondada e está inundada de luz, projectando-se para o céu. A entrada faz-se pela penumbra de um túnel, intimando à preparação para a meditação. Dentro, pendentes do tecto, estão os três arcanjos; antecedendo a entrada, no exterior, estão os quatro apóstolos evangelistas. Em poucas igrejas modernas encontrou o viajante tanta consonância entre a fé a sua representação. É notável, para uma igreja projectada por um comunista, numa cidade que pretendia servir ideais socialistas. Ficou o viajante com vontade de ver também a primeira grande obra de Niemeyer, curiosamente também um templo religioso: a Igreja São Francisco de Assis de Belo Horizonte, em Minas Gerais, também conhecida por Igrejinha da Pampulha, que pelas suas linhas não usuais ficou por muito tempo por benzer pela Igreja Católica.

sábado, dezembro 06, 2008

Igreja de Santo António de Pádua, Roma

É notícia destes dias a próxima inauguração, na Igreja de Santo António dos Portugueses, em Roma, de um novo órgão de tubos, que motivou referências da agência católica Ecclesia e da Radio Vaticana, por ser considerado um instrumento único na capital italiana. Para uma próxima ida a Roma, deixou o viajante a Chiesa di Sant’Antonio dei Portoghesi, templo barroco mas com origem no século XV (a construção ficou a dever-se a D. Antão Martins de Chaves, mas essa é outra história), que tem o estatuto de igreja da comunidade portuguesa que vive em Roma.
Mas passou e entrou o viajante na Chiesa Sant’Antonio da Padova, que fica próxima da Catedral de São João de Latrão, na zona oriental da cidade eterna.
Já antes, em Pádua, revelando mau feitio, o viajante tinha ficado incomodado com a facilidade com que o nosso popular santo de Lisboa foi adoptado pela gente daquelas paragens, como se fosse dali. E aqui, em Roma, a incomodidade repetiu-se. Concerteza que o mesmo teria acontecido em vários outros locais de Itália, se o acaso ali tivesse levado o viajante: há igrejas e basílicas evocativas de Santo António de Pádua em Milão, Bolonha e muitas cidades.


Ficou o viajante incomodado, mas sem razão. Deveria ter ficado feliz com a difusão do culto a Santo António, pelo que isso significa. Esta Igreja de Santo António de Pádua, em Roma, fica na Via Merulana, nº 21. É um templo de finais do século XIX, construído para ser a sede romana da Ordem dos Frades Menores de São Francisco. Tem uma escadaria dupla, que dá acesso a um majestoso pórtico, onde está uma estátua de Santo António, com o menino. Tem interior de três naves e uma capela lateral dedicada ao santo. Tudo visto, porém, em Roma, entre tantos e tão grandiosos templos, não fora a devoção lusitana e não seria este um local que chamasse a atenção.

terça-feira, dezembro 02, 2008

O outro Kremlin, Moscovo

Kremlin é um sinistro nome do tempo da guerra-fria, símbolo do mal e da intriga em todos os filmes do agente 007. Agora, que está parcialmente aberto ao público, a sua beleza e magnificência transformaram-no num marco incontornável quando se visita Moscovo, a capital da Federação Russa. As suas catedrais, tão inesperadas como surpreendentes, são jóias magníficas da arte religiosa russa. O actual formato da cidadela (cidadela é o significado, em russo, de ”kremlin”), vem do século XV, altura em que foram construídas as muralhas avermelhadas que a cercam. Aqui se instalou a corte russa e aqui ficou também a sede da Igreja Ortodoxa Russa. O Kremlin foi o coração do poderio dos csares, antes de ser a sede do império soviético. Sem dúvida, esteve à altura das suas funções.
Entrando no Kremlin, imediatamente o viajante respirou muito poder no ar. Não pode deixar de reparar no grande número de militares a patrulhar todo o sítio, ordenando as zonas de visita. Nem nos luxuosos veículos escuros que constantemente circulam a alta velocidade, não se sabe de onde nem para onde. Talvez de, ou para, algum dos enormíssimos edifícios não visitáveis, com gigantescas fachadas, com que se deparou em cada canto.

Só as igrejas estão todas visitáveis. A Catedral da Assunção (Uspensky Sobor), construída entre 1475 e 1479, destinou-se a ser a igreja privada dos grandes príncipes de Moscovo e dos Czares da Rússia. Na Catedral do Arcanjo (Arkhangelsky Sobor), do início do século XVIII, estão os restos mortais dos príncipes e dos Czares. Era, aliás aqui que costumavam fazer-se as cerimónias de casamento, coroação e funeral dos czares. Ambas as catedrais estão fantasticamente decoradas. Os topos estão revestidos de incunábulos, em madeira pintada, ornados de prata, como moldura. O resto, as paredes laterais e as altíssimas colunas, estão cobertas de frescos. Ainda é visitável a Catedral da Anunciação (Blagoveshchensky Sobor) e a pequena igreja de Nossa Senhora do Santo (Tserkov Risopolozheniya), destinada a ser a igreja privativa dos patriarcas da igreja ortodoxa.













A torre sineira de Ivan o Grande (Kolokolnya Ivana Velikogo), construída no século XVI, está encimada, como as catedrais, pelas tradicionais cúpulas douradas, em forma de cebola. É o edifício mais alto do Kremlin, mas apenas pode visitar-se a sala térrea. Nunca foi colocado no seu lugar o célebre sino do Czar (Tsar-kolokol), que foi deixado ao lado, no chão. É, diz-se, o maior sino do mundo, mas nunca chegou a tocar, porque se partiu ainda antes que isso tivesse acontecido. É um objecto monstruoso, construído em 1735. Mede mais de seis metros quer de altura, quer de largura. Pesará, julga-se, 200 toneladas. Não está longe outra peça construída para ser a maior do mundo no seu género: o canhão do Czar (Tsar-Pushka), que mede 5,34 metros de comprimento e pesará 40 toneladas. Também nunca disparou um tiro.

O Kremlin está aberto para visitas todos os dias, com excepção das quintas-feiras, das 10 às 17 horas. O bilhete custa 300 rublos (cerca de 8,5 euros, ao câmbio de Dezembro de 2008). Servem-no várias estações de metro, a melhor forma de transporte em Moscovo, e fica no centro do centro da capital russa.

segunda-feira, dezembro 01, 2008

Vale de Ventos, Parque Natural da Serra de Aire e Candeeiros

Já andou por aqui o viajante a pé, trilhando percursos marcados pelo PNSAC. Próximo da povoação de Vale de Ventos há uma antiga casa-abrigo do Parque Natural, agora abandonada, O que não está abandonado é o dito percurso pedestre, de dois quilómetros e meio de extensão, que se percorre em pouco mais de uma hora, que o viajante recomenda que se faça, sobretudo, no fim da primavera, quando as plantas aromáticas estão pujantes. Nessa altura correm pela serra, trazidos pelo vento, aromas dos sabores da cozinha mediterrânica, que não vêm enlatados nem liofilizados. Pelo chão encontram-se tufos de orégãos e largas extensões de alecrim. No fim do Outono, a zona é agreste. Fazendo justiça ao topónimo, há sempre ventania fria e desagradável. Havendo sol, mesmo assim, o passeio é muito agradável. Vale, nesse caso, a paisagem aberta, desde os limites do pinhal, para o interior, até ao mar, para oeste. Em dia claro, do alto da Serra, já viu o viajante, lá ao longe, a Berlenga!A ventania persistente foi concerteza a razão que levou à escolha da serra para instalação de um enorme parque eólico, com mais de 30 aerogeradores.
A serra de Candeeiros é encimada por uma crista regular, que pode percorrer-se no sentido sul/norte. Graças à necessidade de acesso aos locais de construção dos aerogeradores, foi construída uma estrada em terra, que atravessa toda a crista da serra, entre Vale de Ventos e o Alto da Serra. Esta última povoação, sobranceira a Rio Maior, fica na antiga Estrada Nacional nº 1, a partir da qual se acede à serra. A antiga Nacional 1 tem na actualidade ar abandonado, em particular ao fim-de-semana, altura em que quase não tem trânsito. De alguma forma, faz lembrar a mística Route 66, na versão “Cars”, em desenhos animados.
Os aerogeradores do alto da serra são torres com 110 metros de altura e 300 toneladas de peso. Cada um deles pode custar 2,5 milhões de euros e produz energia eléctrica suficiente para alimentar de electricidade 400 casas. As pás dos hélices têm 40 metros de comprimento e, com vento forte, vê-las passar, girando, na base da torre, é toda uma experiência.