sexta-feira, julho 17, 2009

Ouzeria Brettos, Atenas

O ouzo é uma bebida pouco usual no ocidente da Europa, mas bem conhecida no Mediterrâneo oriental. Poderia dizer-se que o ouzo é mais popular entre os gregos que, nestas nossas paragens do ocidente, o cheirinho do bagaço após as refeições. Na Grécia e em Chipre é muito consumido, como aperitivo ou bebida ocasional. Bebe-se em todas as partes, a todas as horas do dia.
Procurou o viajante provar ouzo em Atenas. Teve dificuldade em encontrar estabelecimentos onde se bebesse primordialmente esta beberagem tradicional. Com a excepção, claro, desta ouzeria, que se reclama como a mais antiga destilaria da cidade, cumprindo este ano, 2009, um século.
Fica no bairro da Plaka, no coração histórico da Atenas tradicional. É um estabelecimento antigo, hoje em dia, sobretudo, destinado a turistas. Mas ainda assim, um registo diferente, numa zona onde predominam as lojas de souvenirs.
A Ouzeria Brettos fica na Rua Kydathineon, 41,Plaka, Atenas (
www.brettosplaka.com).

quinta-feira, julho 16, 2009

Naturlandia, Andorra

Trata-se de uma espécie de parque temático, com várias diversões que têm como tema comum a neve. À primeira vista, parece ser um plano B para férias na neve, para aqueles que, por acaso do destino, por vocação ou por dinheiro (ou falta dele), nunca puderam iniciar-se nos elitistas e caríssimos desportos de inverno.
O acesso é demorado e exige carro próprio. De Andorra-la-Vella, toma-se a estrada de Espanha, por cerca de 10 quilómetros, até Santa Júlia de Loria. Daqui, inicia-se uma subida de montanha de 17 quilómetros, inicialmente por estrada sinuosa, em zonas habitadas, depois por estrada de floresta de coníferas, lindíssima. Ao longe, avistam-se inúmeros picos nevados dos Pirineos, numa fantástica paisagem aberta, de vistas rasgadas.

O acesso à Naturlandia é livre e aberto. Pelo contrário, cada uma das actividades que pretenda fazer-se será paga. Podem praticar-se variadas modalidades de neve para principiantes, desde as descidas de trenó para crianças (como as que se vêm nos noticiários quando ao fim-de-semana neva na Serra da Estrela) até ao esqui de fundo, ou às caminhadas nórdicas, com raquetes e bastões. O Campo de Neve tem 15 quilómetros de pistas de neve (sobretudo de esqui de fundo). É possível alugar equipamento completo para todas as actividades (por exemplo, botas para esquiar, esquis e bastões custam 15 euros – depois, o acesso às pistas, para esquiar por um dia, custa 12 € - para crianças, 7,5 €).

O Tobotronc é uma das principais atracções da Naturlandia. É uma espécie de montanha russa que atravessa um bosque de pinheiros, em forte descida (entre os 2050 e os 1550 metros de altitude), por um percurso que no inverno está sempre nevado. Anuncia-se como o tobogan de natureza mais comprido do mundo, com um percurso total de 5300 metros. A subida, tal como a de uma montanha russa, é mais lenta (ao longo de 1,7 quilómetros e 11 minutos) e a descida (de 3,6 quilómetros) depende da velocidade que o condutor do tobogan pretenda imprimir ao veículo. A experiência é inesquecível. Uma viagem completa custa 9 € (5,5 para crianças de 5 a 11 anos – menos que isso, não podem ir).

quarta-feira, julho 15, 2009

Bar Obama, Barcelona

Não se cansa o viajante de pensar e dizer que, passando por Barcelona, encontra sempre motivo de surpresa ou admiração. Sem a movida de Madrid, nem o cosmopolitismo de Londres, nem o glamour de Paris, Barcelona tem o calor mediterrânico, a riqueza multicultural de uma cidade em que metade dos habitantes são forasteiros e a patine própria da grande capital da arquitectura.
Pelo caminho, ficam desafios. Como este, com que se topou o viajante na Avinguda de las Corts Catalanas, próximo da Plaça de Catalunya. Será apenas oportunismo político ou a ideia é mais sofisticada e cavalga a onda do marketing moderno?

O local é um banal bar retro, que no seu interior reproduz um suposto ambiente colonial. Pretende apelar ao mercado de turistas anglo-saxónicos que chegam a Barcelona: decor africanista, de pendor inglesado. O próprio perfil é o de um pub inglês, onde se bebe mais do que se come, embora disponha de refeições ligeiras.
Fica a nota e referência web (
www.obamabcn.com).

terça-feira, julho 14, 2009

sábado, abril 11, 2009

Pedro e Inês em Alcobaça

A história não é a mais velha do mundo, mas é das mais belas do mundo: amor secreto, casamento proibido e sanção capital. É a história do Infante Pedro, filho do Rei D. Afonso IV e de Inês, a Castro, galega de origem, coroada rainha de Portugal depois de morta. O maior vestígio desta trágica história medieval portuguesa é o mosteiro de Alcobaça, que o infante, já depois de coroado rei D. Pedro I, escolheu para sepulcro de ambos. Ela tinha morrido às mãos dos esbirros do pai do seu amado. Ele, após a morte dela, coroou-a rainha e mandou que os seus restos fossem trasladados para Alcobaça.
Nos monumentais túmulos, mandados construir pelo rei, góticos exuberantes, sem perder a dimensão humana, encontrou o viajante gratificação para este desvio por terras do Oeste de Portugal.
Mas outras encontrou também. Este Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça está entre os maiores monumentos religiosos portugueses e é, porventura, o mais simbolicamente associado à história nacional. O rival Mosteiro da Batalha ficou umbilicalmente ligado à dinastia de Avis e o Convento de Mafra foi um produto do século dourado, pago com o ouro brasileiro. O Mosteiro de Alcobaça, pelo contrário, ficou ligado a toda a história nacional. Foi construído durante a primeira dinastia, por impulso dos reis Sancho II e Afonso III, em terrenos doados à Ordem Beneditina de Cister pelo rei D.Afonso Henriques (que tentou por esta via, como tentou por várias outras, convencer o papado a reconhecer o reino de Portugal). Depois, D.Dinis pagou a construção do claustro monumental que ainda tem o seu nome. É o chamado claustro do silêncio, que aliás impressionou o viajante, pela sua perfeição: gótico austero, do início, sem a exuberância do flamejante. No seu tempo, por aqui deambulavam os beneditinos tonsurados, em oração silenciosa. Estavam proibidos de qualquer palavra, pelo voto de silêncio. Menos silêncio tem o lugar hoje. Em tempo de Semana Santa, encontrou o viajante o mosteiro muito frequentado por turistas e outros visitantes, sobretudo os ruidosos vizinhos espanhóis, sempre muito abundantes nesta época festiva.
Mas muito depois de D.Dinis, o mosteiro manteve grandes ligações com a Casa Real. No tempo de D. Manuel os seus filhos chegaram a ser Abades do Mosteiro (primeiro D. Afonso, depois D. Henrique, o que mais tarde foi Cardeal Rei). Mais de dois séculos depois, D, Maria I inaugurou o Panteão Real, onde ainda hoje estão as sepulturas de alguns membros da Casa Real da Iª Dinastia. Um pouco por todo o lado é possível ver ícones da casa real. Este é, aliás, o único panteão real que o viajante conhece, para além do modesto e sombrio panteão real, escondido no mosteiro de São Vicente de Fora.
No resto do conjunto, apreciou o viajante o austero gótico e, nalguns casos, a evolução mais recente para o manuelino. Não ficou indiferente à solene sala do capítulo (assim chamada por aqui ouvirem, os monges, todos os dias, uma leitura de um capítulo da vida de São Bento), ou à magnífica cozinha, ou ao dormitório dos monges.Mas o viajante também recolheu boa impressão da sóbriíssima igreja do mosteiro. Irrepreensível gótico do inicial. Altas colunas e perfeitos arcos quebrados, suportando abóbadas altivas. Três naves, cortadas por um transepto em cruz, encimado por um pequeno deambulatório, de capelas hoje vazias, depois da desgraça do Matafrades. Diz-se que esta é a maior igreja de Portugal.
E no meio da cruz gótica, ladeando o altar mor, os ditos túmulos, de Pedro e Inês – ou deveria dizer-se de Inês e Pedro -, um em frente do outro, para que possam encontrar-se logo, no primeiro momento que se seguir ao juízo final, quando ambos ressuscitaram dos mortos para a vida eterna.

domingo, abril 05, 2009

A Suíça e os suíços

Desde há muito que o viajante se vem deslumbrando com a Suíça, a sua organização e arrumação, a sua disciplina e limpeza. Além disso, é uma constatação objectiva a de que o país é fantástico: é bem evidente a generosidade do Criador com este povo, ao escolher para ele as paisagens que aqui colocou. Sendo organizado e economicamente muito sólido, o país também tem das mais bonitas paisagens do mundo. Porém, não há bela sem senão. E a simpatia que o viajante sente pela Suíça só tem igual na antipatia que sente pelos suíços. É verdade que tem sido sempre tratado com muita educação sempre que calha passar por território helvético. No entanto, vem sempre o viajante com a impressão de que os suíços são gente fechada, opaca e muito cinzenta.

Gente muito cinzenta, de rosto inexpressivo e incaracterístico, que mesmo noutras paragens pode o viajante reconhecer. Os suíços são cinzentos no corpo e na alma. Não exteriorizam, em geral, as suas emoções ou sentimentos. Talvez sejam assim porque o seu país é tão perfeito e compostinho. Porque nele tudo funciona bem e é para ser o que é. Ocorre citar, a este propósito o Grande Eça, descrevendo a idílica ilha da deusa Calipso, onde se perdeu Ulisses: “o problema é que tudo é perfeito”, “o irreparável e supremo mal está na perfeição” (“Ulisses”, in Contos de Eça de Queirós).
Como consolação, evoca o viajante os incontornáveis símbolos helvéticos, encabeçados pelo Matterhorn, ou Monte Cervino, nas imediações de Zermatt. Esta esbelta montanha, inspiradora do Toblerone, cuja imagem se reproduz nas caixas dos lápis de cor Caran d’Ache e também da imagem genérica dos filmes da Paramount Pictures, emparelha em importância iconográfica com a igualmente célebre edelweiss (Leontopodium Alpinum), a carnuda e nobre florzinha branca dos Alpes, imortalizada por Julie Andrews em “Música no Coração” e descrita mais tarde por Goscinny e Uderzo, em “Asterix na Helvetia”.Ainda como consolação, tem o viajante verificado que os aviões suíços são os únicos de cujas janelas se podem tirar fotografias: estão limpas.

quarta-feira, abril 01, 2009

Sagrada Família, Barcelona

A ideia de erigir o Templo Expiatório da Sagrada Família, aquele que é hoje o ícone maior de Barcelona, teve origem em 1874, embora as suas obras tenham começado somente em 1882. Neste ano, a Associação de Devotos de São José, entidade promotora do templo, começou a construir a cripta. Decidiu ainda contratar o arquitecto Antoni Gaudí para que redesenhasse um velho projecto que existia para a construção. Este, assim fez. Afastou por completo o projecto que existia, em estilo neogótico e reformulou a própria orientação geral da obra. Deste plano original, manteve apenas a planta gótica, em cruz latina. Sobre ela, o arquitecto modernista catalão aplicou a sua criatividade e o seu estilo, dominado pelos elementos geométricos e naturalistas. Gaudí trabalhou na construção do templo até 1926, ano da sua morte, deixando nesta data desenhadas plantas das partes ainda por construir.

Começou o viajante a sua visita à Sagrada Família na entrada nascente e terminou-a a poente, na chamada Fachada da Paixão. Impressionaram ambas as fachadas – a primeira, exuberantíssima, cheia de detalhes e recortes naturalistas, a outra mais minimalista e sóbria, mas esmagadora,. É tema de ambas o tempo evangélico. Percorreu ainda o viajante a nave principal, já coberta mas inacabada. Faz claramente parecer estar-se num bosque fantasmagórico. Ao que parece, era esse o objectivo de Gaudí. A visita às torres é difícil, por ser imensamente concorrida, mesmo em épocas fora das férias de verão (tem o custo adicional de 2,5 €). Estão já construídas 12 das 18 torres previstas no projecto (todas elas votivas: 12 dedicadas aos apóstolos – são as já prontas -, outras 4 aos evangelistas, uma ainda, maior que as anteriores (125 metros), dedicada à Virgem e a mais alta delas dedicada a Jesus Cristo. Com 170 metros de altura, esta última, ainda por erguer, em forma de cúpula maior, fará da Sagrada Família a mais alta catedral europeia – mais alta que os 69 metros da Notre dame de Paris, ou os 110 metros de St. Paul de Londres, ou os 137 metros de São Pedro de Roma. Será também das maiores. Quando estiver pronta, os seus 4.500 metros quadrados albergarão14 mil pessoas.É natural esta perspectiva altiva, de construção em grande altura. Gaudí privilegiou a elevação, tal como sabia acontecer com as catedrais góticas medievais. O propósito era que o edifício se elevasse na direcção dos Céus, em louvor a Deus.

Pagou o viajante a entrada nesta igreja ainda por acabar (11 €) com a satisfação de saber que o seu contributo vai financiar o que falta por construir. Sendo concebida desde a sua origem como um templo expiatório, toda a construção tem sido erigida com o produto das contribuições e esmolas que para o efeito vão sendo deixadas (entre elas, a da compra de bilhetes) pelos visitantes, fiéis ou admiradores da obra. Já agendou o viajante nova visita a Barcelona para 2035, altura em que espera, mantendo-se ao ritmo actual, que a igreja esteja concluída.A igreja está aberta a visitas das 9 às 18 horas (de Abril a Setembro, até às 20 horas). Fecha a 25 e 26 de Dezembro e a 1 e 6 de Janeiro. As entradas ficam entre os Carrers de Provença e de Mallorca, e os de Sardenya e Marina, na zona oriental do Eixample, um pouco a norte da Avinguda Diagonal. É servida pelo metro (linhas 2 e 5).

terça-feira, março 24, 2009

Bratislava, Eslováquia

Em passagem anterior, há mais de 20 anos (portanto antes da queda do célebre Muro e da dissolução dos regimes ditos socialistas), reteve o viajante de Bratislava a impressão de uma cidade cinzenta e triste. Revisitada agora, manteve a impressão.
Embora capital de uma nova república, a principal cidade da Eslováquia continua a ter estrutura de pequena cidade de província: não tem grandes avenidas nem perspectivas urbanísticas rasgadas. A cidade tem imensos edifícios barrocos, dos tempos do império austro-húngaro, que lhe dão um certo ar austríaco e centro europeu. Mas nem todos estão recuperados e em bom estado. Sobretudo, a cidade antiga tem ainda muitas marcas do abandono a que foi votada durante o período socialista. O mesmo pode dizer-se das variadíssimas igrejas, quase todas também do período barroco. Dir-se-ia que a cidade ganhou maioridade no século XVIII, mas as construções nobres ficaram por aí. No horizonte, sobretudo na margem direita do Danúbio (que por sinal, nada tem de azul), ficam ainda as silhuetas dos maciços bairros de betão, ao estilo soviético.
É certo que no centro antigo proliferam os cafés de ambiente moderno, normalmente com grandes janelas vidradas para a rua. E que nas ruas desta mesma zona se vêm estacionados muitos carros de luxo e sobretudo desportivos. Estas duas são notas comuns a muitos outros países da antiga cortina de ferro que, após a respectiva abertura, aderiram ao modelo capitalista e aos respectivos extremos, bem conhecidos. Não chega, porém, Bratislava ao excesso da vizinha Praga. Talvez porque os eslovacos são muito mais conservadores e provincianos que os checos, não chegaram aqui os casinos em massa nem as casas de sexo. Além disso, os omnipresentes eléctricos e a imensa e dominante gente com ar modesto e humilde desfasem as ilusões de se estar numa cidade rica ou mesmo nova-rica. Apesar de herdar a altivez tradicional nos eslavos, a cidade é modesta e provinciana.
Ao passear pelas suas ruas, não diria o viajante que foi provisoriamente (durante três séculos, desde 1541 a 1830, após a ocupação de Budapeste pelos turcos) a capital da Hungria e que na modesta, embora elegante catedral de São Martinho, foram coroados 9 dos reis e 8 das rainhas húngaras.
Bratislava é desde 1993 a capital da República da Eslováquia, que nessa data se separou, por consenso, da República Checa (no chamado divórcio de veludo, que se seguiu à revolução igualmente de veludo, a qual depôs o regime comunista, em1989). Terá entre 400 e 500 mil habitantes – são 5 milhões e meio, os eslovacos de todo o país. Embora tenha aeroporto, há muito poucos voos para Bratislava. A melhor forma de chegar é voar para Viena e, daqui, percorrer em autocarro os 60 quilómetros que separam Bratislava do aeroporto austríaco (sempre em auto-estrada, demora um pouco menos que uma hora).

segunda-feira, março 23, 2009

"Avenue des Portugais", Paris

Por mais que se programem e organizem, as viagens nunca decorrem como o viajante as prepara. Em viagem, acontecem-lhe sempre surpresas. E ainda bem.
Vem esta consideração a propósito de algo que o viajante descobriu, caminhando por Paris. De mapa na mão e nariz no ar, à procura de uma determinada curiosidade, foi o viajante surpreendido pelo nome de uma pequena rua transversal ao seu percurso: Avenue des Portugais. A surpresa foi maior por estar numa das mais nobres zonas da cidade e não nos subúrbios desta que é a terceira cidade portuguesa (ou pelo menos da terceira cidade com mais habitantes portugueses…). De facto, passava o viajante na Avenue Kléber, logo à saída da Place Charles de Gaulle, quase ao lado da coquete Avenue Foch e muito próximo da Avenue des Champs-Elysées.

Avenue des Portugais, ou Avenida dos Portugueses. Ao lado, uma lápide esclarece que o nome da artéria foi escolhido pelas autoridades municipais de Paris, em 1918, como homenagem aos 30.000 soldados portugueses que combateram do lado das forças aliadas na libertação de França. Portanto, os portugais são os membros do Corpo Expedicionário Português que, entre 1917 e 1918 intervieram na Grande Guerra, mas tarde conhecida como Iª Guerra Mundial.
É certo que a avenida é curta – terá talvez cem metros de extensão. E é também certo que entre um hotel, num dos lados e um edifício público no outro, ambos com fachadas viradas para a Avenue Kleber, não há nenhum edifício com portas para esta avenida – é uma via para onde dão apenas janelas de edifícios.
Mas é elegante e está numa zona chiquérrima de Paris. O gesto do município parisiense foi bonito e o viajante não conseguir evitar orgulho ao passar por aqui.

sexta-feira, março 13, 2009

Cerveja na Alsácia

Questiona-se o viajante sobre se verdadeiramente há uma cerveja típica da Alsácia ou, pelo contrário, se a cerveja que se produz nesta região do leste de França é apenas uma manifestação regional de um perfil de uma bebida pouco menos que globalizada. Recorda o viajante, de memória, a Kanterbrau, cerveja do mestre Kanter e a Kronenbourg (do bairro de Cronenbourg), ambas produzidas nos subúrbios de Estrasburgo. Mas ainda a Fisher e a Mützig. Além da 1664, a topo de gama da Kronenbourg e das inúmeras artesanais, que surgem localmente, aqui e ali nas bierstub de Estrasburgo e Colmar.

Na Alsácia produzem-se cervejas industriais, vendidas em todo o mundo. Mas também cervejas blanches (weiss) caseiras e ambrées excepcionais. Algumas são engarrafas, enquanto outras são apenas conhecidas no bairro onde são produzidas. Ou mesmo na bierstub onde se bebem.

Cogitava o viajante sobre estas coisas, debaixo da gelada chuva miudinha de Estrasburgo, nestes dias do início de Março, percorrendo as ruelas da Grande Ilha, a zona medieval circundante da catedral, quando se deparou com uma loja que, à falta de melhor, qualificou como bieroteca. Vende cervejas. Apenas cervejas. Mas muitas. De todo o mundo, muitas marcas conhecidas. Mas também de França, tipos desconhecidos, ao menos do viajante. Reteve na memória uma cerveja de castanhas, que fez recordar o “Asterix na Córsega” e os javalis que se alimentavam das ditas.

Por fora, esta loja não tem rótulo ou anúncio. Mas na verdade o local tem nome, que o viajante anotou: Village de la Biére. E fica na Rue des Fréres, nº 22, no cruzamento com a Rue du Faisan, em Estrasburgo (telefone +351.03.88.36.90.04). Verificou depois que está aberta de terça a sexta, das 10:00 às 12:30 e das 14:30 às 19:30.

quinta-feira, março 12, 2009

Viajar para a Rússia

O longínquo norte da Europa oriental é um destino misterioso, pouco divulgado e fora das páginas das revistas de viagens que se vendem nos quiosques. Com excepção de rápidas excursões a São Petersburgo, a partir da Finlândia, não estão divulgadas viagens organizadas para o extenso território russo. Terá o viajante que preparar, ele mesmo, a aventura. Ou então recorrer a agências de viagem de vão de escada, frequentadas por emigrantes russos, que recorrem aos seus serviços para planear viagens para voltar ao seu país.
E a aventura começa ainda antes da saída de Lisboa, quando se tenta obter o visto de entrada no consulado da Federação Russa, na Rua Visconde de Santarém, 57, nas proximidades do Instituto Superior Técnico. Apenas está aberto às segundas, quartas, quintas e sextas, das 9h30 às 12h30, mas mal andará o turista se não chegar muito antes da hora de abertura. É que, fora da porta, com chuva ou sol, forma-se uma fila invariavelmente demorada que, quando muito, avança à razão de meia dúzia de pessoas por hora.
Não é fácil entrar no consulado à primeira. E depois disso, continua a não ser fácil obter o visto de entrada. Não é fácil e supõe várias dores de cabeça. Calhou ao viajante ir a Moscovo visitar uma instituição pública da Federação Russa. Só lhe foi permitido obter visto porque tinha recebido um convite da dita instituição (em russo, claro…). Se o não tivesse recebido, pura e simplesmente o visto não lhe era concedido: na Rússia moderna só se admitem aqueles visitantes que a Federação Russa quer admitir. No tempo dos soviéticos dizia-se que o rigor no controle da entrada de estrangeiros era necessário para que os miseráveis que viviam no ocidente da Europa não emigrassem todos para lá. Agora, não se sabe qual é a razão oficial.
Estando-se disposto a frequentar vãos de escada, pode sempre comprar-se um visto turístico a uma agência de viagens. Quem ganha com isso, não o sabe o viajante. A verdade é que cumprir as formalidades necessárias à viagem será difícil para quem viaje isoladamente.

A Rússia é um país enigmático mas simultaneamente romântico. Só aqui poderia ter acontecido a histórica do Dr. Jivago, tal como só aqui poderia ter tido real força o movimento bolchevique. Por outro lado, os russos são por definição burocráticos, com um inacreditável convicção. O país tem uma dimensão fora de toda a proporção, com um tamanho descomunal e 147 milhões de habitantes. Manifesta-se pelos extremos, até no clima, rigorosíssimo no Inverno. Tem uma história conturbada e brutalmente violenta, desde a idade média às chamadas depurações estalinistas, que eliminaram milhões de adversários do regime comunista. Moscovo é uma digna capital deste império, com majestosos edifícios públicos e degradadíssimos e infindáveis bairros de prédios habitacionais, onde vivem a maioria esmagadora e pobre dos seus 10 milhões de habitantes. Os russos, eles mesmos, justificam a reputação de ensimesmados, deprimidos e nada amigáveis. Em geral não se riem, porque o sorriso é sinal de idiotia ou menoridade intelectual. Só depois de os compreender percebeu o viajante alguns dos clichés associados aos antigos dirigentes dos países comunistas ou marxistas-leninistas, igualmente tidos, ao menos nos filmes da série 007, como frios, desprovidos de emoções e de sentido de humor. Porém, se se ignorarem as referências do passado recente e se tiver espírito aberto a novas perspectivas, a experiência russa pode revelar-se agradavelmente surpreendente.

sexta-feira, fevereiro 20, 2009

Neve em Andorra

As estâncias de férias de inverno sempre deram ao viajante a impressão de lugares tranquilos, mesmo sendo plenos de actividade. Mas além disso – e sobretudo -, a forte convicção de que são locais de charme, frequentados por gente sofisticada e endinheirada. Compreende por isso o viajante a expressão “país do ouro branco”, aplicada a regiões que exploram a neve e as actividades desportivas e de lazer a ela associadas. Será o caso de Andorra.

Porém, não encontrou o viajante em Andorra essa tal realidade charmosa e sofisticada. Este micro país, com o título de Principado, fica encravado entre Espanha e França, no coração dos Pirineos. No mapa, tem de largura máxima 29 quilómetros, de leste a oeste, e de altura máxima, de norte a sul, 25 quilómetros. Todo ele é alta montanha (os seus picos atingem 2946 metros e a altitude mínima, à saída para Espanha, é um pouco mais de 800 metros…) No entanto, não encontrou aqui o viajante nada que lhe recordasse aquela aura distinta das férias de Inverno. Há neve, é certo, e com ela há toda a mística poesia da brancura luminosa. Há também muitas e boas instalações e equipamentos para desportos de Inverno. Não faltam quilómetros e quilómetros de pistas, classificadas de todas as cores e graus de dificuldade. Há confortáveis equipamentos de apoio. Telecadeiras, telecabines, esplanadas e bares em altitude. Escolas de esqui e várias estâncias especialmente preparadas para debutantes e inexperientes nestas práticas.
Mas falta a Andorra o polimento. Falta-lhe charme e até mesmo compostura. As montanhas são bonitas. A neve também. Mas o urbanismo é caótico e a arquitectura dos lugares, em geral, é muito plebeia e pobre. Em concordância, nas estradas abundam carros “artilhados” (de tunning). Os milhares de portugueses que trabalham nos hotéis (há 9000 portugueses em Andorra, numa população total de 60000 mil habitantes) não estranharão o sempre presente cheiro a fritos no ar, a fazer recordar o ar do Albufeira. Aliás, ocorreu ao viajante que, de certa forma, Andorra está para as estâncias de inverno como o Algarve está para as estâncias balneares do mediterrâneo. Sem ofensa.

Este Principado de Andorra só tem nobreza no nome. Enquanto estado independente, chamar-lhe país de opereta é elevar demasiado elogiosamente o termo comparativo. Vale-lhe, claro, ficar a uma distância aceitável de Portugal e ter uma boa oferta hoteleira a preço abordáveis.
De Portugal a Andorra, dependendo do ponto de partida, a distância por estrada é de 1000 a 1200 quilómetros. Faz-se, embora não seja demasiado fácil, num dia de viagem, graças à rede de autovias espanholas. Será opção mais confortável e rápida a viagem de avião até Barcelona (a 220 quilómetros) ou Toulouse (a 190 quilómetros) – ambas as ligações, de carro, tomarão menos de três horas. Para Barcelona, há cerca de 10 voos por dia, a partir de Lisboa. Para Toulouse, apenas um.

sexta-feira, fevereiro 13, 2009

Em Paris com Eça

Apresentado por Eça de Queirós, conhece o viajante desde os bancos do Liceu (a que hoje se chama Escola Secundária), o palacete do nº 202 dos Campos Elíseos, em Paris. Sabe que se trata de um digno e velho palácio comprado pelo avô de Jacinto (A Cidade e as Serras) a um príncipe polaco que depois da tomada de Varsóvia se meteu a frade capucho. Em tal palácio se entra por uma “álea bem areada”, ladeada de “uma relva mais lisa e varrida que a lã de um tapete”. No interior, “ouro pesado nos seus estuques e ramalhudas sedas”. Das suas varandas, abertas sobre os lilases (que Charles Aznavour dizia terem acabado há vinte anos), vê-se a eternamente chic Avenue des Champs-Elysées.
Quis o destino que o viajante desaguasse na Place de L’Etoile, agora oficialmente Charles de Gaulle, no topo da elísia avenida. Por aqui, não faltam palacetes como o do 202: solenes, com dignas fachadas de pedra trabalhada e jardins pequenos mas altivos. Entre eles estaria, concerteza, o 202.
Em vão o viajante o procurou. Rapidamente verificou que, do lado dos números pares, a numeração da avenida termina no nº 156 que, por sinal, é a embaixada de um país do petróleo do golfo.
Teve assim que confiar na imaginação do grande Eça para descobrir o prodigioso 202. E o seu elevador, do rés-do-chão para o primeiro andar (“era espaçoso, tapetado e oferecia, para aquela jornada de sete segundos, confortos numerosos: um divã, uma pele de urso, um roteiro das ruas de Paris, prateleiras gradeadas com charutos e livros”)
Também só pela imaginação de Eça logrou o viajante visitar o ambiente do palácio, de “temperatura macia e tépida. Um criado, mais atento ao termómetro que um piloto à agulha, regulava destramente a boca dourada do calorífero. E perfumadores entre palmeiras, como num terraço santo de Benares, esparziam um vapor aromatizado e salutarmente humedecendo aquele ar delicado e superfino”.

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

O aeroporto de Paris encerrou

Calhou ao viajante, neste Inverno rigoroso, ficar impedido de voltar a casa e perder um voo, por os aeroportos de Paris terem sido encerrados, por causa do mau tempo, a 9 de Fevereiro de 2009.
Na ocasião, não deixou o viajante de recordar o mau tempo na epopeia, narrada por Eça de Queirós, da viagem de Jacinto e do seu amigo Zé Fernandes, de Paris para o Douro, de comboio, através de Espanha (A Cidade e as Serras). Recordou o viajante a terrível tempestade que se abateu sobre o percurso ferroviário e, em particular, sobre Medina del Campo, a qual atrasou o comboio de Paris e por pouco não fez perder aos nossos heróis o comboio de Portugal. Quem o perdeu foi o fiel e dedicado Grilo, criado de Jacinto, que com eles viajava, transportando todas as suas 23 malas.
Sem malas chegou Jacinto, o Príncipe da Grã-Ventura, à estação de Tormes, tendo como única bagagem uma bengala e um exemplar, já lido, do “Jornal do Comércio”.

Ainda a propósito, anotou o viajante o caótico balanço das viagens de Zé Fernandes: “viajei; trinta e quatro vezes, à pressa, desfiz e refiz a mala. Onze vezes passei o dia num vagão, envolto em poeirada e fumo, sufocado, a escorrer suor. Catorze vezes subi, derreadamente, a escadaria desconhecida de um hotel; e espalhei o olhar incerto por um quarto desconhecido; e estranhei uma cama desconhecida, donde me erguia, estremunhado, para pedir, em línguas desconhecidas, um café com leite que sabia a fava. Perdi uma chapeleira, quinze lenços, três ceroulas e duas botas, uma branca e outra envernizada, ambas do pé direito. Percorri, com pé respeitoso e abafado, vinte e nove catedrais. Trilhei molemente, com uma dor surda na nuca, em catorze museus, cento e quarenta salas…. Gastei seis mil francos. Tinha viajado!” (A Cidade e as Serras, Eça de Queirós, Ed. Livros do Brasil, página 102)

No episódio da segunda-feira passada, em Paris, a sorte do viajante foi melhor. Conseguiu voo para casa na tarde do dia seguinte, jantou tranquilamente um entrecôte numa brasserie de Saint Germain-des-Prés e a parte menos interessante foi ter que contentar-se com um hotelzito de esquina no Quartier Latin.