quinta-feira, junho 30, 2011

As mesquitas de Istambul

Ao contrário de outras grandes nações do mundo islâmico, a Turquia é uma república laica. Não obstante, em Istambul, a maior cidade do país (diz-se que terá 4 a 5 milhões de habitantes, ou 10 a 11 milhões, se se incluírem os subúrbios), por todo o lado a marca do islão é bem visível. Istambul tem centenas de mesquitas, com os seus minaretes muito esguios a marcarem a silhueta do horizonte urbano.
A Turquia é islâmica há mais de cinco séculos e para os muçulmanos a mesquita é o lugar mais importante da cidade – é por isso que as mesquitas são sempre os edifícios mais imponentes de cada aglomerado urbano: são vistas como uma manifestação estética dos crentes, que a erigiram por inspiração divina, claro. As mesquitas são o centro da vida social e religiosa, mas são sobretudo um lugar de oração: deve entrar-se nela purificado (por isso os muçulmanos fazem abluções antes de entrar e também por isso não se pode ali entrar com os sapatos, que consideram sujos, por andarem no chão).
Hoje, como há séculos, os muezzin apelam, desde o alto dos minaretes, várias vezes por dia, à oração. Em tempos, faziam-no de viva voz; actualmente as suas vozes ouvem-se a muito grande distância, difundidas por altifalantes.
A mesquita de Istambul que mais marcou o viajante foi a Mesquita Süleymaniye, edificada por ordem do Sultão Süleyman I, o Magnífico. O seu desenhador foi um grande arquitecto otomano, Mimar Sinan e a construção decorreu entre 1550 e 1557. De alguma forma, parece que pretendeu ser uma espécie de réplica, em tamanho, à então igreja bizantina de Santa Sofia (que foi o maior edifício deixado pelos cristãos à cidade). Esta mesquita incluía, quando foi construída, uma madraça, banhos e um caravansarai (onde o alojamento e alimentação eram dados aos viajantes e seus animais).

Mas também impressionou bastante o viajante a Mesquita Sultan Ahmet, também conhecida pelos guias turísticos como Mesquita Azul, por ter o interior da sua cúpula revestida de azulejos otomanos predominantemente azuis. Diz-se que tem mais de vinte mil azulejos, de setenta padrões diferentes.
É uma mesquita imperial, construída entre 1609 e 1616 por ordem do Sultão Ahmet, que com ela pretendeu deixar para a história um edifício ainda maior e melhor que a Suleymanie. Também por essa razão decidiu que esta nova mesquita fosse construída mesmo em frente da Santa Sofia, uma vez mais para demonstrar a superioridade do Islão sobre a civilização bizantina.
A Santa Sofia, ou Ayasofya, foi originariamente uma igreja cristã – tê-lo-á sido desde o século V da nossa era. Porém, a construção que actualmente existe terá tido origem no século VI. Foi convertida em mesquita no século XV e é apenas um museu, dessacralizado, desde a década de 1930.
Qualquer destes três edifícios constitui um bom exemplar da arquitectura religiosa turca, com várias cúpulas abobadadas e minaretes muito afiados, em forma de lápis. Aliás, já noutras paragens, nos Balcãs, o viajante tinha sido surpreendido, por este chamado modelo turco de mesquita, sobretudo conhecido pela elegância dos seus minaretes.
No caso da Mesquita Süleymaniye e da Mesquita Sultan Ahmet, têm mesmo a particularidade de ostentarem seis minaretes. Esta última foi aliás a primeira do Islão a tê-lo, com excepção da grande mesquita de Meca.

sexta-feira, junho 24, 2011

Cidade do México

 A grande impressão que reteve o viajante, ao aterrar na capital deste país de mais de um milhão de quilómetros quadrados (doze vezes maior do que Portugal) e de 120 milhões de habitantes, foi a de um mar de luzinhas a piscar na noite. Na megalópole que é a cidade do México vivem 15 milhões de almas, mas se se contarem também os miseráveis que vivem em barracas, nos subúrbios, o número sobe para 25 milhões. Aliás, mesmo fora das favelas, a generalidade das pessoas vive em bairros pobres (a que chamam “barrios”), em casas térreas e de construção rudimentar. São estas construções que marcam a arquitectura geral da cidade, localizada num vale entre montanhas, cujas encostas, aliás, têm vindo gradualmente a ser cobertas por favelas de casas de tijolos, cinzentas, tristes e miseráveis.
  Mas nem toda a cidade é assim. O centro histórico, à volta do Zócalo, ou praça da Constituição, é vivo e colorido. Aqui se encontram muitos dos edifícios mais antigos ainda restantes da antiga capital da Nova Espanha, do período colonial. E em geral estão bem preservados. Por isso, esta zona foi declarada património Mundial, pela Unesco.
O Zócalo é o local onde tudo converge: está cá o palácio presidencial e a Catedral Metropolitana, como aqui esteve também, no seu tempo, o templo maior azteca.

 
Menos preservados, mas bem conservados na memória da maioria mestiça da população, estão os vestígios aztecas da antiga capital dos mexica. A cidade foi arrasada pelo conquistador Hernan Cortez, em Agosto de 1521. Mais ainda, por cima dos seus escombros, decidiu o explorador espanhol construir a nova capital da Nova Espanha. Esta decisão, que pretendeu ter o significado político de varrer do mapa tudo o que havia do tempo anterior, teve consequências ainda hoje sofridas: a antiga Tenochtitlan, a capital azteca, estava construída numa ilha, rodeada de canais, que tiveram que ser arrasados também, para se construir por cima deles. Na Catedral Metropolitana sente-se consequência disso: a antiga zona de canal abateu, o chão inclinou e o edifício ficou assimétrico e tem que ser vigiado.

  Mas há uma outra cidade do México, moderna e rica, que vibra ao ritmo do tempo presente. Centra-se no Paseo de la Reforma, enorme boulevard arborizado e ladeado de arranha-céus de vidro e aço, modernos e em estado impecável. Por aqui há lojas de marcas internacionais, centros comerciais, hotéis, cafés de cadeias internacionais. Sentiu o viajante que esta avenida podia estar em qualquer das mais modernas e trendy cidades dos Estados Unidos ou da Europa, a não ser pela dimensão, que é para bastante maior.
Aliás, na cidade do México tudo é grande: há avenidas de até 60 quilómetros, que se reclamam como as maiores do mundo.

Há ainda a cidade do México pitoresca, da zona Rosa, onde as lojas estão abertas 24 horas por dia e há bares e restaurantes especificamente para homossexuais. Ou a zona comercial, a sul do Zócalo e da zona histórica. Aqui, a marca é de América Latina profunda. Compra-se e vende-se na rua, na porta das lojas, com o ruído, o cor e o buliço do novo mundo.
Esta a cidade do México que inspirou Frida Khalo e Diego Rivera. É também a que venera a Virgem de Guadalupe, cujo santuário, no limite norte da cidade, é local de peregrinação para crentes de toda a América latina – talvez por ter sido aqui o local de aparição da Virgem a Diego, um nativo que viria a ser o primeiro santo canonizado originário das Américas.
  Esta é também a cidade dos táxis em velhos Volkswagen Carocha, pintados de bordeau e dourado, sem banco no lugar da frente, ao lado do condutor, para que os passageiros possam entrar. Estes, não experimentou o viajante, porque lhe recomendaram que o não fizesse: é que os “gringos” (que são todos os não latino-americanos, portanto europeus incluídos) correm o risco de serem sequestrados ou violentados e assaltados pelos próprios taxistas.

quarta-feira, junho 15, 2011

Zagreb, Croácia

Zagreb é uma velha gaiteira, que se converteu numa jovem capital moderna. Diz o viajante isto sem desprimor para a capital da Croácia, com a qual, aliás, simpatizou à primeira vista. Logo desde a chegada ao aeroporto, pequeno e caseiro, ficou com a impressão de uma terra ordenada e composta. Os bairros periféricos, modernos e em boa parte planeados no tempo dos socialistas, são arejados e atravessados por larguíssimas avenidas. As manifestações de modernidade nem sequer são de mau gosto, como é habitual em muitos dos países do antigo bloco do leste da Europa. Nem sequer se vêm a degradação e a aparência de pobreza de outras cidades das antigas repúblicas jugoslavas.
Em todo o caso, a capital croata não consegue descolar de algum provincianismo: não é que seja pequena (é verdade que não é grande), mas sobretudo falta-lhe a dimensão e a estrutura de uma verdadeira capital.
Claro que esta modéstia não é exclusiva de Zagreb e anotou-a já o viajante noutras capitais do centro europeu, cujo estatuto de capital nacional é recente: Bratislava ou Sarajevo são outros bons exemplos disso, como o são, por razões um pouco diferentes, Berna ou a cidade do Luxemburgo.
  Longe da sua modesta dimensão hodierna, quem visita a actual capital da Croácia percebe uma enorme dimensão noutros tempos: esta cidade passou por várias mãos ao longo da história. De todas elas, percebeu muito bem o viajante a grande marca do império austro-húngaro, do qual Zagreb foi uma importante cidade de província. Aliás, há zonas da cidade onde se nota predominância da arquitectura barroca, típica do período imperial dos Habsburgo. Esta marca barroca terá tido grande desenvolvimento depois de um tremor de terra que, no início do século XIX, destruiu bastante a cidade. Talvez seja por isso que a parte baixa da cidade (a Donji Grad) é muito harmoniosa.
  Quanto à cidade alta, ou antiga (ou Gornji Grad), é também harmoniosa – aqui, não foi um terramoto, mas um incêndio que, no século XII, destruiu toda a área, com excepção de um pequeno troço de muralha, onde estava e está uma imagem da Virgem Maria com o menino. A partir de então, esta imagem foi venerada e foi construída uma capela em seu redor: a capela da Virgem Maria da Porta de Pedra, eleita protectora de Zagreb.
Já nessa altura – idade média -, Zagreb era um importante pólo regional. Apesar de estar sujeita a dominação húngara, foi aqui que, a partir do século XVI, se baseou o vice-rei da Croácia, delegado do rei da Hungria, soberano do território. Desde então passou a existir um parlamento local (o Sabor, que ainda hoje existe, noutro formato, com sede na Gornji Grad).
 Trouxe o viajante na memória uma terra que não parece ter os 700 a 800 mil habitantes que tem, espalhada nas margens do rio Sava, com ambiente tranquilo e muitos espaços verdes. Como qualquer velha gaiteira, é amigável e está cheia de bares e esplanadas. Tem a vantagem adicional de ter voos directos, a partir de Lisboa, 4 ou 5 vezes por semana e de o aeroporto ser muito perto da cidade – e com fácil e bareto acesso à cidade, em autocarro, de meia em meia hora.

sexta-feira, junho 10, 2011

Ribatejo

  Não costuma o viajante “andar aos ninhos”, como dizia Torga, nem viaja nas terras do jardim, como faria nos dias de hoje Garrett. Mas não conseguiu evitar deixar nos cadernos nota do ninho de alvéola cinzenta que ali foi construído nesta primavera, logo no início de Abril.
A alvéola (em particular a branca, Motacilla Alba), é uma das espécies mais comuns em Portugal. Por toda a parte, no campo, em zonas verdes abertas e também em zonas húmidas, ocorre com frequência, mostrando exuberantemente o seu voo ondulante e os seus passos saltitantes, de cabeça no ar, deixando atrás de si a elegância da sua cauda.
  Nidifica onde calha – desta vez, foi num vaso de gerânios, num canto do jardim, mas podia ter sido mesmo no chão. Neste caso, surgiram ali 5 ovos (as alvéolas chegam a pôr seis) e, duas semanas depois, nasceram ali cinco crias, muito penugentas e medrosas, que quando não piavam, pedindo comida, dormiam. Não se pode dizer que fossem bonitas. Mas volvidas outras duas semanas já ali estavam uns belos passarinhos, que rapidamente voaram e fugiram do ninho.

quarta-feira, junho 08, 2011

Visitar a China

  Partiu o viajante para o extremo oriente com uma apreensão que já há muito deixou de ter nas vésperas de viajar: apreensão pelo desconhecido, pela dificuldade de lidar com a diferença, pelo bloqueio linguístico, pela distância, física e geográfica, cultural e civilizacional.
Porém, em geral, os mais básicos receios não se confirmaram. Aliás, já assim tinha sido na preparação da viagem: foi fácil e expedito obter o visto de entrada, na Embaixada da China em Lisboa (recorda bem o viajante o pesadelo que foi obter o da Rússia, ainda não há muito). Por outro lado, as marcações e reservas, à distância, mesmo sem apoio local, foram eficazes. Do lado de lá do mundo, por email, veio rapidamente sempre resposta tranquila para tudo.
  Ficam, porém, duas notas importantes: a primeira, quanto à dimensão do país e de tudo o que nele cabe; a segunda, para a diferença de conceitos e de referências.
Quanto à dimensão, é óbvio o tamanho gigantesco, quase fora da escala humana, do país mais povoado do mundo (e o terceiro em extensão geográfica, apenas menor que a Rússia e o Canadá).
Na China tudo é de enorme dimensão e em enorme quantidade. Há sempre muita gente em qualquer sítio e em qualquer ocasião. Até por isso, ficou clara no viajante a ideia de que para este país, cada pessoa, em si mesma, conta pouco mais do que um número, em mais de mil milhões deles.
  No que respeita às referências, em geral, os chineses têm as deles bem vincadas. A China esteve completamente fechada ao mundo ocidental (e não apenas ao mundo ocidental, mas mesmo ao mundo exterior à China, em geral), durante muitos séculos e apenas desde há três décadas foi permitido ao povo chinês começar, gradualmente e muito devagar, a perceber que há outras formas de viver e de ser.
  Os chineses chegam sempre antes da hora marcada e são disciplinados e obedientes. As hierarquias são um valor absoluto e incontestável. Por outro lado, embora se note um espírito afoito e despachado, de quem quer ser eficaz no seu trabalho, é bem evidente que não existe espírito crítico nem muito menos sentido de humor. Sobretudo esta falta absoluta de sentido de humor cria barreiras e produz choques.
  Os chineses não são hostis aos estrangeiros, mas são intransigentes com quem desrespeita as suas regras. Falam muito alto, para se fazerem impor e não hesitarão em insultar nem em descompor aqueles com quem têm divergências. Ficou, a esse propósito, o viajante, na memória, com as vozes estridentes muito marcadas dos discursos públicos.
Queria o viajante ter actualizado estes cadernos de viagem e não conseguiu: os blogs são proibidos na China, tal como o Facebook ou o Youtube: todas estas realidades internéticas estão tecnicamente inacessíveis, por meio de uma operação tecnológica que os informáticos já apelidam de “Great Firewall of China”.
Não tinha o viajante a noção de que em 2010 visitaram a China mais de 55 milhões de visitantes (sobretudo sul-coreanos, japoneses, russos e norte-americanos).

domingo, junho 05, 2011

Museu de Ramsés II, Mênfis, Egipto

 Ramsés II, talvez o mais poderoso faraó da história do Egipto e das suas 30 dinastias, que governaram o país durante quase 30 séculos, teve, no seu tempo, um templo em Mênfis. O local é hoje em dia uma modestíssima aldeia do vale do Nilo, a 27 quilómetros do Cairo, que já nem se chama como então (o seu actual nome é Mit Rahina). Aquele faraó foi um caso de rara longevidade: por um lado, foi o senhor dos reinos unificados do Baixo e do Alto Egipto durante um imenso período de 67 anos (entre 1279 e 1213 a.C.); por outro, a sua múmia - prosaicamente, o seu cadáver, embalsamenado -, ainda existe e está conservada no Museu do Cairo, na sala das múmias reais – está portanto conservada desde há mais de 3.200 anos!
 O poder faraónico foi fundado pelo rei Narmer, que cerca de 3100 a.C. unificou o Baixo e o Alto Egipto, dando assim origem a um longo período que os historiadores dividem em Império Antigo, Império Médio e Império Novo, além de outros períodos intermédios e do período dinástico tardio, já numa fase terminal da civilização egípcia. O Império Antigo (séculos 27 a 22 a.C.) foi aquele durante o qual terão sido construídas as grandes pirâmides que ainda hoje existem. O Império Novo (séculos 16 a 11 a.C.) correspondeu à época dourada dos faraós. Neste período viveram a maior parte dos grandes faraós que a história recorda como tal: entre outros, Tutankhamon, Akhenaton, a Rainha Hatsheput, Nefertiti e o próprio Ramsés II.
 Mênfis (nome grego da cidade a que os egípcios chamavam Mennefer) foi a primeira capital do Egipto unificado, desde o terceiro milénio antes de Cristo. Foi o viajante à procura dos vestígios de Mênfis, mas nada encontrou que mereça menção. Diz-se que por estar perto do Cairo foi mais facilmente saqueada por invasores – sobretudo pelos romanos. Se foi assim, facilmente seriam levados depois pelas cheias do Nilo os restantes vestígios da cidade, construída em tijolos de barro. Actualmente, já nada resta da Mênfis imperial. Desapareceu completamente, seja por ter sido gasta pelo tempo, seja pelo crescimento populacional desta zona, que é muito próxima do Cairo. A única visita interessante a fazer na localidade é a do Museu de Mit Rahina, onde repousa uma gigantesca estátua de Ramsés II.
Além da estátua, a visita ao museu apenas vale por duas ou três peças mais. Tudo o resto não merece referência especial. A estátua representado Ramsés II é enormíssima. Foi feita em calcário e está deitada no chão, desde logo porque já não tem pés. Por outro lado, porque tem mais de 10 metros de altura e pesará cerca de 100 toneladas. Fora do museu, no jardim, pode ver-se uma enorme esfinge de alabastro, que será a maior escultura neste material que se conhece.
A entrada no museu custa 35 libras egípcias (pouco mais de 4 €). Do Cairo, o acesso por estrada é bom e a melhor forma de chegar é de táxi.

quarta-feira, junho 01, 2011

Hotel Burj Al Arab, Dubai

 
A mística deste hotel é global: o seu estatuto e até mesmo a sua imagem granjearam-lhe fama à escala planetária. Diz-se ter 7 estrelas, classificação estranha, que “rebenta” a escala clássica e legal, de 5. A verdade é que este é um hotel classificado de cinco estrelas. E, oficialmente, nunca se referiu em lado nenhum - nem a direcção do hotel o assume -, que o hotel tem sete estrelas. Explorando o tema, facilmente veio o viajante a concluir que o estrelato exagerado é o resultado de uma bem montada estratégia de marketing.
A história é simples: a família do Emir do Dubai definiu há muito uma clara estratégia política e económica que tem em vista tornar aquele emirato árabe como um destino turístico de luxo. Foi feito investimento em hotéis, centros comerciais, infra estruturas urbanas, marinas, urbanizações e edifícios arrojados (a célebre torre mais alta do mundo e as duas célebres palmeiras “desenhadas” no mar), entre muitas outras iniciativas.
  A par disso, foi montada uma vasta campanha promocional, sendo convidados jornalistas de todo o mundo a visitar o Dubai. Um deles, francamente deslumbrado com o luxo desmedido do Burj-al-Arab, publicou, em clara e assumida hipérbole, que este hotel merecia muito mais que as cinco estrelas: valia pelo menos sete estrelas. O mote estava dado. Ao marketing do Emir, que tem evidentemente interesses financeiros no hotel, interessava cavalgar a onda e a chalaça nunca foi desmentida. E para a voz corrente as cinco estrelas transformaram-se em sete.

O Hotel Burj al Arab (Torre dos Árabes) foi construído entre 1994 e 1999, numa pequena ilha artificial junto à praia de Jumeirah, na costa do emirado do Dubai - a 280 metros da costa. Tem uma bem conhecida estrutura em forma de vela, para imitar um dhow, os tradicionais barcos de pesca do golfo arábico. A “vela” terá 321 metros de altura (é mais alta que a torre Eiffel!). O hotel tem 202 suites – não tem quartos simples. A suite real tem 670 metros quadrados e inclui recepção com água de rosas, toalhas refrescantes aquecidas e bebidas (não alcoólicas,claro…) Isto, depois de um transfer em Rolls Royce a partir do aeroporto. Em suma, um disparate que custa mais de 3000 euros por noite. Não custou, claro, ao viajante, cuja passagem por estas terras, durante quase uma semana, custou muito menos que isso… 

O resto da história, retirou-a o viajante das revistas: o átrio é forrado a folhas de ouro, há colunas douradas e uma cascata no hall. O seu heliporto, no topo, já serviu para que Roger Federer e André Agassi trocarem bolas de ténis – claro está que no dia seguinte surgiram nos jornais de todo o mundo as fotografias. A praia é privativa e está fechada ao acesso do público. Como aliás acontece com todo o hotel e com uma enorme área de jardim e praia em volta: apenas se pode entrar se se tiver efectuado uma reserva.
Não. Claro que o viajante não efectuou qualquer reserva, nem visitou o interior.

terça-feira, maio 31, 2011

Praia de Copacabana, Rio de Janeiro


Atenção: NO STRESS”, diz a placa à entrada da praia. Para que não haja dúvida - e como se fosse necessário…

sábado, maio 28, 2011

Centro Memorial do Holocausto dos Judeus da Macedónia, Skopje

 
A palavra “macedónia” é usada em francês e em espanhol para designar aquilo que em português chamamos salada de frutas ou, também, salada russa – no fundo, uma desorganização harmoniosa de pequenos pedaços de alimentos de vários tipos, que em conjunto formam um prato. A parábola é excelente. Na verdade, o povo que ocupa o país dos Balcãs que hoje em dia conhecemos como Macedónia é o resultado da fusão de uma grande sucessão de povos que, ao longo de vários milénios de história, desde o tempo em que o rei Filipe, pai de Alexandre, que veio a ser O Grande, consolidou aqui um reino independente da restante Grécia. Neste território passaram assim gentes de todos os quadrantes, etnias e crenças que se foram fixando. Actualmente, por imposição da diplomacia grega, que reclama para uma parte do seu território esta histórica denominação oficial, nas instâncias internacionais o nome do país é FYROM – acrónimo em inglês de Antiga República Jugoslava da Macedónia.

 
Talvez tenha sido este ambiente de descontraída fusão que atraiu para aqui, após o fim da idade média (por obra de D. Manuel em Portugal e dos reis católicos, em Espanha, em 1492) o fluxo migratório de judeus sefarditas, que foram expulsos da Península Ibérica e que tiveram que procurar outras paragens para se estabelecer. É bem conhecida a migração judaica portuguesa para a Holanda. Menos conhecida mas não menos importante, foi esta deslocação para os Balcãs. A partir do século XVI formou-se na Macedónia uma grande comunidade judaica, toda ela com origem nas populações expulsas da Península Ibérica.
  Esta comunidade floresceu e foi muito importante no contexto da região. E foi sempre bem tolerada pelos vários impérios dominantes. Em particular, foi bem aceite pelo império turco otomano, que sempre conviveu bem com outras religiões – anotou o viajante que em Skopje, capital da Macedónia, coexistem mesquitas e igrejas, todas elas do tempo da ocupação turca. Ambas as crenças vivam em paz com a outra se nenhuma igreja fosse mais alta que qualquer mesquita (essa é a razão pela qual algumas igrejas foram construídas um pouco enterradas no chão).
 
Bem sentiu o viajante esta “macedónia” de povos pelas ruas de Skopje, vendo passar gente alta e baixa, morena e mais clara, oriental e ocidental. Mas o local que mais lhe revelou este cadinho de culturas foi o Centro Memorial do Holocausto do Judeus da Macedónia. Não esperava o viajante encontrar, na pequena capital de um país com 2 milhões de habitantes, uma exposição permanente tão interessante e incisiva sobre a diáspora dos sefarditas peninsulares, desde que saíram da Península até ao quase extermínio pelos nazis, durante a Segunda Guerra Mundial. Tocou-o toda esta história, de vários séculos, de tolerância com os judeus da diáspora – ainda mais, tendo esta comunidade tido origem em sefarditas expulsos da Península Ibérica.
O que, talvez, impressionou mais o viajante foi a preservação que estas gentes fizeram da cultura peninsular: mantiveram usos e costumes ibéricos e mantiveram, entre si, o ladino, a língua que usavam entre nós até ao século XVI.

 O “Sentro Memorial del Holocausto de los Djudios de la Makedonia” foi criado em 2005, mas o seu edifício apenas ficou concluído e abriu ao público em 2011. Fica num edifício modernaço, de vidro e pedra (não se poderá dizer que seja de muito bom gosto…), entre o centro histórico de Skopje e o rio Vardar, próximo da célebre Ponte de Pedra (Kameni Most). Tem entrada livre

domingo, maio 22, 2011

Jardim Botânico de Pamplemousse, Ilha Maurício

 Próximo de Port Louis, a capital da ilha Maurício, fica um jardim botânico cuja origem remonta ao século XVIII. De carro, a partir da cidade, não se demorará mais que 15 minutos a chegar.
O nome oficial do lugar é Jardim Botânico Sir Seewoosagur Ramgoolam, em homenagem ao primeiro dirigente político da Maurício após a independência, em 1968.
Porém, a criação do jardim é muito anterior: teve origem durante o domínio francês da ilha, ao que se diz, tendo em visto reproduzir nesta terra fértil as sementes de especiarias que na época se cultivavam nas colónias e, em particular, no extremo oriente. Tais sementes eram eram aqui facilmente reproduzidas, em excelentes condições climatéricas e de solo. E muito mais perto de França, onde iriam ser vendidas. Durante o século XVIII foram daqui exportados para a Europa essências e especiarias (canela, pimenta, entre outras).

 No entanto, após 1775, o jardim deixou de privilegiar essa vertente e passou a plantar-se aqui o maior número possível de plantas, sobretudo aquelas que se afiguravam mais raras. E é disso que beneficiam os visitantes de hoje. Podem ver-se no jardim variadíssimas espécies de palmeiras, por exemplo Mas também a árvore de cânfora. Ou araucárias de diversíssimos tipos.
Mas a estrela da visita é o tanque dos enormes nenúfares da Amazónia, os “victoria regia”, tão grandes que chegam a pesar 45 quilos e a medir um metro de diâmetro. Diz-se que podem suportar, sem se afundarem, um bebé pequeno. Ao lado, está um outro lago de nenúfares e flores de lótus, as flores sagradas dos hindus.

 Este é daqueles locais onde o viajante achou efectiva vantagem em fazer uma visita guiada, acompanhado por um guia, portanto. O parque tem 90 hectares e visita-se bem no espaço de uma hora. A entrada é paga. É uma visita imperdível.

quinta-feira, maio 19, 2011

Casa Chimera, Kiev, Ucrânia

 Caminhando pelas ruas de Kiev foi o viajante surpreendido por uma casa em “estilo gaudi”, com as suas fachadas profusamente decoradas com esculturas e gárgulas em cimento, representado fantasmagóricos animais e outros seres. De tudo viu por aqui: rinocernontes, elefantes, e até algumas formas diferentes de representação humana. Em geral, o ambiente é de caça, uma das paixões do seu desenhador. Veio o viajante a saber que foi construída pelo arquitecto Vladislav Gorodetski para habitação da sua família, no início do século XX (entre 1901 e 1902). Diz-se que os animais da fachada são uma evocação da caça, principal ocupação dos tempos livres do arquitecto.
No seu tempo, foi um edifício arrojado, não apenas na estética, mas também nas funcionalidades que integrava: tinha um compartimento gelado (nada difícil, na Ucrânia) para conservar alimentos, adega, lavandaria, celeiro, para alojar carruagens e animais e, na cave, previu um compartimento especial para alojar uma vaca, para que houvesse leite fresco para todos os dias.
Este edifício fica na Rua Bankova, 20, próximo da central Rua Khrechatyla, esmo em frente do imponente edifício da Presidência da República da Ucrânia. Desde 2005 que o edifício, que é propriedade do Estado ucraniano, é utilizado como residência presidencial, para alojar convidados estrangeiros.