sexta-feira, outubro 28, 2011

Praça de Tianamen, Pequim

  O nome Tianamen ou, em português, “paz celestial”, faz despertar no viajante a memória de um fleumático manifestante que, sozinho, com um saco de compras na mão, enfrentou um carro de combate e desta forma o exército e o poder político chinês. A história bem conhecida dos protestos a favor da democracia, esmagados pela força militar em Junho de 1989, não conseguiu esbater-se da mente do viajante, quando passou por aquela que é a maior praça do mundo, no coração de Pequim. Mas além desta revolta, a praça foi palco de outros “incidentes” de idêntica natureza, na delicada terminologia chinesa.
  É certo que o local, de passagem obrigatória para quem visita a cidade, está cheiro de pacíficos turistas equipados com máquinas fotográficas e também de vendedores ambulantes. Mas nota-se bem a densidade de agentes policiais fardados. E nestes, apesar de não reagirem quando se lhes tiram fotografias, evidencia-se alguma tensão. Há óbvio receio de novas manifestações: aliás, na entrada da praça o viajante foi revistado e a viu a mochila ter que passar por um túnel de raio-x, como se estivesse num aeroporto. A entrada na zona central da praça é particularmente vigiada e fecha a partir do entardecer, por razões de segurança. Por todo o lado, as câmaras de vigilância e o dispositivo policial não deixam dúvidas sobre o estrito controlo a que o local está sujeito.
  À margem destas tensões, Tianamen é o coração de Pequim. De aqui se medem todas as distâncias a outras cidades – é aqui o quilómetro 0. É gigantesca: tem mais de 800 metros de comprimento e 400 metros de largura e na sua vastíssima calçada cabem milhares de pessoas. Diz-se que no tempo da Revolução Cultural chegaram a realizar-se aqui desfiles com mais de um milhão de pessoas.
No seu topo, a norte, fica a entrada para a cidade proibida (a entrada da Porta do Céu, que dá o nome à praça), onde foi pendurado o mais fotografado retrato de Mao Tsé-Tung. Do outro lado, a sul, fica o mausoléu de Mao, onde está o seu corpo embalsamado. Nas faces laterais ficam dois edifícios mastodônticos, de construção revolucionária, onde não se esconde a clara inspiração soviética: o Museu Nacional de História e da Revolução e do outro a Assembleia Nacional.
  Embora a praça seja muito antiga, o formato que actualmente tem foi concepção do Grande Timoneiro, que queria que este fosse o espelho onde se revia a grandeza e a glória da China e do Partido Comunista. E de certa foram, conseguiu-o: Tianamen é um local de peregrinação de todos os chineses, mais que vigiado e completamente controlado por câmaras de televisão e agentes policiais.

sábado, outubro 22, 2011

Salvador da Bahia, Brasil

  Não costuma o viajante optar por clichés, mas desta vez sentiu algum apelo quando teve oportunidade de visitar Salvador. Bem sabia que esta cidade, de talvez três milhões de almas é, actualmente, um dos principais destinos turísticos do Brasil. As vagas de turistas vêm, antes de mais, à procura das excelentes praias (vem logo à memória Itapuã, que inspirou Vinicius e foi cantada por Toquinho e Djavan). Mas também dos monumentos históricos interessantíssimos e das manifestações culturais variadas. E depois, claro, para compor o cliché, das figuras típicas das enormes e pesadas bahianas, cuja imagem decorava os pacotes de uma marca qualquer de café, daquelas que já não há.
Para lá dos clichés, encontrou o viajante em Salvador a cidade de um povo alegre, que organiza um carnaval rival do carioca. E criativo, também. Por aqui, na enormíssima tradição musical da Bahia, passam as raízes da música popular brasileira, entre muitas outras sub-culturas do Brasil moderno. Aqui nasceram Caetano Veloso, Maria Bethania e Gilberto Gil. Mas esta é também a pátria das religiões mistas, como por exemplo o condomblé, de contornos iconográficos cristãos mas de raiz africana, que fez dos orixás a sua divindade.
  Percebe-se bem, na rua, este caldo de cultura, produto da miscigenação de raças, entre os portugueses colonizadores, os escravos africanos, chegados a partir de meados do século XVI e os nativos brasileiros. Quando Pedro Alvares Cabral, em 1500, descobriu o Brasil, aportou na costa da Bahia (em Porto Seguro, a sul de Salvador). Mas a baía de Todos os Santos, onde fica Salvador, foi descoberta por Américo Vespúcio, em 1501. A cidade viria a ser fundada em 1549, na altura com o nome de São Salvador da Baía. Foi capital do Brasil até 1763, altura em que a capital foi transferida para o Rio de Janeiro. Jorge Amado dizia que aqui está a origem do Brasil, porque tudo começou na Bahia: ”foi aqui que as raças se encontraram e se misturaram. Depois, esta mesma receita estendeu-se a todo o país”. E acrescenta que “foi aqui que começou a alegria brasileira, porque África salvou os brasileiros da tristeza do fado”. Do fado português, anota o viajante.
  O fado português é, porém, para orgulho do viajante, a grande marca do bairro mais emblemático de Salvador. O Pelourinho, zona alta, na colina sobranceira à baía (que deu o nome à Bahia), de construção antiga e edifícios bem recuperados, é o centro da cidade – foi aqui que teve origem, como mercado de escravos. É património mundial, decretado pela UNESCO em 1984. Hoje em dia, os edifícios, iguais aos que poderia haver em Portugal, são ocupados por hotéis, lojas de artesanato ou de artigos de design e ainda por associações culturais. É por aqui que ensaiam as bandas tradicionais bahianas (entre elas, o Olodum). Também foi aqui que nasceu a capoeira, no século XVI, desenvolvida por escravos negros.
Esta zona urbana de casas baixas, com fachadas de cores pastel, em ruas de empedrado grosso, que do lado de cá do mar se chama calçada portuguesa, inclui muitas casas senhoriais dos séculos XVII e XVIII, tempo de domínio português. É igualmente desse tempo a Basílica da Sé, construída à portuguesa, em mármore branco e a magnífica igreja barroca do convento de São Francisco, com rico interior, profusamente decorado com azulejos e talha dourada. Diz-se que foram usados mais de mil quilos de ouro para a revestir. Esta igreja é considerada o expoente máximo do barroco brasileiro.
Com o devido respeito por Amado, poderá ter-se finado por aqui o fado, mas se finou o orgulho do viajante, ao ver o destaque que merecem estas imensas obras lusitanas, tão longe de casa.

terça-feira, outubro 18, 2011

Museu Thyssen-Bornemisza, Madrid

  Madrid é uma cidade de referência para quem gosta de visitar museus: alguns dos melhores museus de arte do mundo ficam aqui e nem é necessário referi-los para que de imediato assaltem a mente do leitor. É o que se passa com o Museu Thyssen, que deixou no viajante uma excelente impressão. Tem muito que ver e é entretido, mas sem ser excessivo. É um programa para um par de horas agradáveis. Fica, como é bem sabido, no centro de Madrid, a dois passos do celebérrimo Museu do Prado.
  O Museu Thyssen-Bornemisza reúne uma impressionante colecção de arte, que abarca sobretudo pintura ocidental, desde a Idade Média aos pintores vanguardistas do início do século XX. A visita está organizada num percurso historicamente orientado, que vai percorrendo toda a colecção. Este acervo foi originariamente reunido pela família Thyssen-Bornemisza e acabou por ser comprada pelo Estado Espanhol em 1993. Além da colecção principal, está também disponível para os visitantes a chamada Colecção Cármen Thyssen-Bornemisza – é a colecção privada da baronesa que dá o nome ao museu. Foi instalada nas chamadas novas alas, por serem mais recentes e estarem num novo bloco, extensão do antigo e originário edifício. Esta colecção foi iniciada em meados da década de 1980, pela própria baronesa Thyssen-Bornemisza, que assim pretendia corresponder ao entusiasmo coleccionista do seu marido, o Barão Hans Heirich Thyssen-Bornemisza. No seu conjunto esta parte da pintura exposta é uma continuação natural da outra, que já está aqui instalada desde 1982.
  Na visita, podem ver-se exemplares de escultura e pintura da idade média final, mas também pintura alemã, italiana, flamenga e holandesa do século XVII. Seguem-se exemplares de várias proveniências de pintura dos séculos XVIII e XIX, com destaque para a pintura norte americana do século XIX e dentro desta, do impressionismo americano. Aliás, há vastos e múltiplos representantes do impressonismo e do post impressionismo, bem como do expressionismo alemão, tal como do fauvismo. A visita termina com diversas tendências do século XX.
O Museu Thyssen-Bornemisza está instalado no Palácio de Villahermosa, no Paseo del Prado. É um edifício com origem no século XIX, que veio a ser recuperado pelo arquitecto espanhol, de Navarra, Rafael Moneo, vindo a ser reinaugurado, como museu, em 1992. Está aberto de terça a domingo, das 10 às19 horas. A entrada custa 8 euros (na modalidade reduzida, 5 euros). Tem loja muito interessante e cafetaria, sempre cheia. É claro que o Museu do Prado é muito mais rico que o Thyssen e é também claro que o Reina Sofia é bastante maior. Mas se tivesse o viajante que eleger apenas um dos três para visitar, não hesitava em escolher o Thyssen, pela riqueza, diversidade e conveniência da dimensão, perfeitamente à escala humana e agradavelmente visitável, de seguida, de ponta a ponta, ao contrário dos outros dois. Pena é que seja proibido tirar fotografias.

domingo, outubro 16, 2011

Nando’s Chicken

 
Já tem calhado o viajante cruzar-se com restaurantes de comida rápida da cadeia “Nando’s” em várias paragens. E já se tem intrigado sobre se existe alguma competição quanto à originalidade fácil dos respectivos anúncios.
Na sucursal de Covent Garden, em Londres, uma placa do tipo daquelas que nas estradas anunciando obras, dizia “men eating chicken”. No mesmo local, outro anúncio, evocando o frango picante, dizia “Peri-Peri: so good that named it twice”. Ainda assim, o prémio do viajante vai para a sucursal de Nicósia, em Chipre que, ao lado do nome do restaurante, adiantava: “oral satisfaction”.

quarta-feira, outubro 12, 2011

Pousada da Ria, Beira Litoral, Portugal

  Não é o viajante um cliente habitual das Pousadas de Portugal, embora goste de muitas delas. A razão é simples: são normalmente sítios muito confortáveis e distintos, mas é uma extravagância que custa muito dinheiro. Vem esta confissão despropositada a propósito de uma breve estadia na Pousada da Ria, uma das mais antigas Pousadas – e também, historicamente, talvez, das mais emblemáticas.
Visitar a Pousada da Ria é um pouco como regressar ao antigo regime, anterior a 1974: a arquitectura é antiga e fora de moda; os móveis e a decoração do edifício são desactualizados e, em boa parte, já tiveram melhores dias; o próprio jardim, que não está maltratado, parece um antigo recinto de seminário, com relva e meia dúzia de arbustos decorativos, dispostos sem alegria nem criatividade. Não destoa a piscina, que apesar de tudo é muito agradável, mesmo ao lado das águas calmíssimas da ria. Durante a passagem por aqui, esteve sempre o viajante à espera de ver algum surgir um daqueles personagens que os brasileiros chamam de “filme de época”, com chapéu e fato escuro, de camisa branca e gravatinha fina, com sapatos de verniz e bigodinho, a sair de um Carocha cinzento.
  Porém, ultrapassado o choque inicial, da viagem ao passado, na Pousada da Ria descobriu o viajante um local mais do que tranquilo (é caso para dizer verdadeiramente com o tempo parado – embora não seja despropositado, pelo que ficou dito, dizer também que está parado no tempo). E também um hotel confortável e muito caseiro, onde o pessoal (que não é nem é necessário que seja muito), é delicado, simpático e eficaz. É certo que, por exemplo, sentiu o viajante falta de um bar na piscina. Mas isso supriu-se porque espontaneamente o rapaz do salão de bar se ofereceu para levar lá uma caipirinha.
A verdade é que à Pousada não lhe faltam os confortos modernos. E, quem sabe, talvez venha um dia mesmo a ter os mais modernos, por exemplo Internet wi-fi. Mas estes últimos também não fazem falta, se o objectivo for repousar. E foi repouso que o viajante trouxe na memória. E trouxe ainda mais marcadas fantásticas imagens da sua varanda sobre a ria, quer ao nascer, quer ao pôr-do-sol. Ao dealbar da manhã, a ria ganha cores de fogo e energia forte, com o sol nascente, por detrás das serranias do Caramulo; ao fim do dia, o sol não se vê, porque se deita nas costas, para o lado do mar, por detrás do cordão dunar da Reserva Natural das Dunas de São Jacinto, mas sente-se no ar e na pintura rosa arroxeada que fica nas nuvens.
  A Pousada da Ria fica próximo de Aveiro, no concelho da Murtosa, na estrada que liga esta vila a São Jacinto, um pouco depois da praia da Torreira, no lugar conhecido com Bico do Muranzel. Demora-se um pouco a chegar, porque tem que contornar-se todo o norte da ria de Aveiro. O edifício está construído mesmo em cima da ria - as varandas dos quartos dão para a ria. Nas suas costas, fica a Reserva Natural das Dunas de São Jacinto, uma grande extensão costeira de dunas, com areais, bosques e lagoas, separando a ria do Atlântico.

quarta-feira, outubro 05, 2011

Nossa Senhora de Fátima, Ilha Maurício

  As imagens que acompanham estas notas do caderno de viagem, foram tiradas na Ilha Maurício, próximo do mar, na zona de Petite Riviére Noire.
Depois de uma curva da estrada, por entre mangueiras carregadas de mangas, deparou-se o viajante com uma tosca casa, com uma cruz alta ao lado. Na cruz, uma placa denotando francês (a língua mais falada na ilha, a seguir ao crioulo) dizia “N.D. de FATIMA”.
  Não sem surpresa parou o viajante e pode concluir que esta pequena e tosca igreja da beira da estrada, construída em madeira e coberta com folhas de cana secas era efectivamente dedicada à Virgem de Fátima. Mais que um edifício, a igreja é um telheiro, aberto de um dos lados. Os bancos onde os fiéis se sentam já ficam fora desta espécie de cabana. Na extremidade da espécie de adro da igreja, num nicho, há uma imagem de Nossa Senhora de Fátima.
  Segui o viajante a sua jornada sem que tenha conseguido, nas redondezas, encontrar quem explicasse a razão de ser desta igreja. Na ilha Maurício, no Oceano Índico, um terço da população é católica. Partilha a ilha com hindus, tamiles e muçulmanos. Os católicos encontram-se predominantemente entre os crioulos.

sexta-feira, setembro 30, 2011

Javardair

  Podendo, evita o viajante a Ibéria. Com esta companhia já lhe aconteceu de tudo: aviões velhíssimos, cadeiras avariadas ou partidas, atrasos de muitas horas nunca explicados aos passageiros, overbooking (esta é frequente), perdas de ligações...
Mesmo quando tudo corre bem, o serviço é mau: em geral, as hospedeiras da Ibéria são deselegantes e muito (por vezes mesmo muito) antipáticas. Sobretudo nos voos intercontinentais, para as Américas.

A fotografia seguinte foi tirada no aeroporto de Madrid. Estava calor e o piloto decidiu tapar os vidros do cockpit com jornais, para que o sol não lhe batesse. Poderia ser na Javardair, mas desta nem os rapazes do Gato Fedorento se lembraram
E fica ainda a seguinte história, recente, do verão de 2011: no voo matinal de Lisboa para Madrid, o avião saiu atrasado porque tinha um pneu furado. Mesmo! E no regresso, porque o aeroporto de Lisboa estava congestionado, como o avião da Ibéria não tinha gasolina para fazer um pouco de espera no ar, foi desviado para Badajoz, porque estava a acabar-se-lhe a gasolina. Na mesma jornada, um pneu furado e uma aterragem forçada por falta de gasolina. Se não o tivesse vivido, não acreditaria o viajante.

domingo, setembro 25, 2011

Lago de Ohrid, Macedónia

  A República da Macedónia é um dos sete estados independentes em que se decompôs a antiga Jugoslávia. Nos documentos das instâncias internacionais tem a denominação oficial de FYROM – acrónimo em inglês de Antiga República Jugoslava da Macedónia, já que a Grécia reclama a histórica denominação da Macedónia para uma parte do seu território, no norte – parte essa, aliás, duas vezes maior que a FYROM. Além disso, o reino grego da Macedónia é muito mais antigo que a tradição independentista dos macedónios modernos, eslavos que aqui chegaram, com uma língua e uma cultura diferente, mas apenas no século VII da nossa era – portanto, mais de mil anos depois da morte de Alexandre Magno e do desmembramento o seu reino.
  Esta pequena dimensão da Macedónia e a insipiência da sua economia não têm contribuído para abrir o país ao exterior. Além disso, por exemplo ao contrário do que sucede com a Croácia, ou o pequeno vizinho Montenegro, esta república de apenas 2 milhões de habitantes não tem grandes motivos turísticos que possam atrair massas: não tem costa marítima, a sua capital foi destruída por um sismo, em meados do século XX e as suas montanhas, embora muito selvagens e de rica natureza, não têm estruturas de apoio aos viajantes.
  Nestas condições, o Lago de Ohrid assume o papel “do” local turístico do pais, por excelência e quase em exclusivo. Junto das suas margens há hotéis de perfil internacional, com praias de apoio. Para aqui vêm veranear muitos dos macedónios, durante a temporada de férias estivais. É mesmo o maior destino de férias e de fim de semana da população local: para aqui vêm as famílias, para a praia (de água doce) e para aqui vem a juventude do país, em férias autónomas dos pais, em busca de diversão nocturna.
  A tradição é de tal maneira arreigada que, na década de 1960, o marechal Tito, então presidente da então República Federativa Socialista da Jugoslávia, decidiu mandar construir aqui a casa oficial de férias do Presidente da República. Esta casa, a Villa Biljana, ainda actualmente existe, mas agora é a residência oficial de férias do Presidente da República da Macedónia. Fica na margem do lago, num pequeno promontório que lhe fica sobranceiro, lindíssimo, cerca de dois quilómetros a sul de Ohrid.
Ao lado, na mesma época, foi construído um hotel para funcionários do regime, que ainda agora existe, embora remodelado. Em volta, foi plantado um parque florestal, bordejando o lago, aberto a quem queira por aqui vir. Dele tem o viajante memória por ter aqui dado um passeio a pé de fim de tarde, tão pacífico como já não tem memória, por um caminho estreito e deserto, sobranceiro ao lago, ouvindo a passarada.
  O lago é geologicamente muito antigo. Dizem os locais ter milhões de anos e apenas ser comparável ao lago Baikal, na Sibéria e ao lago Titicaca, nos Andes. Além disso, tem águas muito profundas. Estas características conferiram-lhe grande riqueza de flora e fauna, sendo notável a dimensão e a diversidade das espécies endémicas. A célebre e endémica truta de Ohrid (salmo letnica typicus) é hoje em dia uma espécie protegida, mas bastantes vezes foi o viajante presenteado, por aqui, com truta assada.
  O lago de Ohrid, ao lado da cidade com o mesmo nome, dista 170 quilómetros de Skopje, capital do país e sua porta de entrada (embora Ohrid tenha também um aeroporto, praticamente não tem voos). O percurso desde Skopje leva bem duas horas e meia, por estradas nem sempre confortáveis, atravessando zonas muito montanhosas. A própria Macedónia é difícil de atingir – de Lisboa, há que fazer, pelo menos uma, mas frequentemente duas ligações aéreas, o que demora todo um dia. Se esquecer esta dificuldade de acesso, não hesita o viajante em afirmar que o lago de Ohrid é dos mais tranquilos e interessantes destinos de férias repousadas que tem encontrado.

terça-feira, setembro 20, 2011

Buenos Aires

  Dizem os guias que Buenos Aires é a mais europeia cidade da América do Sul: tem uma geometria urbana estudada e cuidada, monumentos e ostenta uma herança patrimonial consistente. No fundo, cultiva o seu aspecto elegante, quase de parisiense do sul, com glamour, livrarias e muitas salas de espectáculos. E não é por acaso, já que com este propósito foi remodelada a partir do final do século XIX.
Além dos clichés, das avenidas traçadas à imagem dos boulevards parisienses, dos cafés nas esquinas, hoje em dia remoçados e convertidos em modernos lounge bar, achou também o viajante graça às pequenas lojas de bairro de nova geração, de design, de vinhos ou de antiguidades. Nessa medida, Buenos Aires é uma cidade muito interessante.
Porém, apesar desta estrutura física europeia, a verdade é que a sua alma é bem latina e do sul: nas ruas circulam autocarros coloridos exuberantes, cada um de sua cor; em geral, as lojas são abertas para a rua. Os argentinos – e em particular os porteños, habitantes de Buenos Aires -, gostam de se arranjar bem e andam impecavelmente vestidos. São exuberantes e comunicativos e gostam de almoçar fora e de beber copos em locais distintos. E essa imagem dos seus habitantes (até quase um pouco presunçosa) marca muito a cidade.
 Mafalda, a menininha inteligente criada por Quino, paira por aqui, muito preocupada e até mesmo um pouco deprimida. Com o seu espírito crítico, bem pode estar a participar numa das várias manifestações que ocorrem diariamente. Na verdade, a consciência cívica dos porteños, gente informada e inconformada, tornou as manifestações políticas em episódios do quotidiano: podem ser motivadas por questões particulares, como pensões de reforma, ou mais gerais, como o estatuto político das ilhas Malvinas, ou ainda por motivos globais, como a situação na Palestina. Mafalda encarna bem o espírito argentino em geral, de sentimentalismo polémico, vocacionado para o protesto vivo e apaixonado. Talvez por isso a cidade lhe deixou uma pequena estátua, na modesta esquina das ruas Defensa e Chile, no bairro de San Telmo
  Bem se percebe que, neste contexto de espírito empolgado e apaixonado, por aqui tenha nascido o tango, na década de 1930. Ou talvez um pouco antes. Também este tema é polémico: os bairros de San Telmo e de La Boca reclamam ambos ser o berço desta selvagem dança sensual, que deixou há muito de pertencer à cidade e escalou o planeta.
Foi também de La Boca que partiu para o mundo El Pibe, o fabuloso Diego Armando Maradona, o menino pobre e prodígio, que deu origem a uma das muitas quedas de anjos de que a história argentina é rica.
A origem de Maradona, o bairro de La Boca, é uma antiga zona portuária, onde tradicionalmente vivem muitos emigrantes e descendentes de emigrantes, sobretudo italianos (genoveses, em particular). Nos dias de hoje continua a ser um bairro pobre e degradado. É excepção a zona conhecida como El Caminito, que explora-se essa vertente, de bairro marginal e viu instalar lojas de artesanato e restaurantes para turistas, que podem até incluir animação por pares a dançar tango.
São em geral casas de madeira e de chapa ondulada – é portanto verdadeiramente um bairro de lata. Desde o início do século XX estas casas passaram a ser pintadas de cores muito garridas, em pequenas parcelas, misturadas. A ideia veio de alguns moradores, que pediam aos pintores dos barcos que aqui aportavam os restos das tintas com que pintavam os ditos.
Do bairro, ficou na mente do viajante uma sensação mista e confusa, que oscila entre a genuinidade do espírito dos habitantes com o kitsch da montagem urbana para turistas. Nessa medida, foi até um pouco desilusão.
  Conceptualmente no hemisfério oposto, fica Puerto Madero, o mais recente bairro de Buenos Aires, que é também o mais cosmopolita e opulento. Foi construído desde há duas décadas e pretende ser um modelo de modernidade, com poucos carros a circular, sem poluição ou ruído, planificação rigorosa, de modo a assegurar harmonia, conforto e funcionalidade. Este bairro é o renascimento das cinzas de um outro, com origem no século XIX, altura em que Eduardo Madero projectou um caríssimo porto marítimo, que demorou mais de 20 anos a construir – de tal forma que quando ficou pronto, já era obsoleto. Apesar disso, chegou a ser o porto mais importante da Argentina, mas acabou por cair em desuso, por ficar antiquando. Foi abandonado e degradou-se.
Na recuperação empreendida a partir da década de 1990 mantiveram-se muitos dos edifícios antigos, em particular os antigos armazéns, agora ocupados por lofts, escritórios ou restaurantes. Puerto Madero é, talvez, a zona mais chique da cidade para jantar. A mais cara é, concerteza.
  Foi aqui construída, segundo desenho de Santiago Calatrava, a pedido de um empresário local, que a doou à cidade, uma moderna ponte, a que foi dado o nome de Puente de la Mujer. Este moderno símbolo de Buenos Aires é uma ponte pedonal, que atravessa a doca – é também giratória, de forma a permitir a passagem de embarcações grandes. O seu nome resultou da zona onde foi construída, já que a todas as ruas desta parte do bairro foram dados nomes de grandes senhoras da história argentina.
  Mas Buenos Aires é também a cidade de Jorge Luís Borges, que aqui nasceu em 1899 e cujo espírito se sente no ar – e em particular no ambiente de alguns cafés mais clássicos. Sentiu-o bem o viajante no ambiente de espelhos e colunas douradas do Café Tortoni, na Avenida de Mayo, que já comemorou 150 anos. Mas é também uma megalópole de mais de 13 milhões de habitantes – a grande Buenos Aires, porque o centro não tem mais que 3 milhões e é uma cidade muito amigável.

segunda-feira, setembro 12, 2011

Samoa

 
A 3000 mil quilómetros da Nova Zelândia, no Pacífico Sul, as ilhas Samoa são muito isoladas. Por isso, não estão vocacionadas para o moderno turismo de massas. As viagens para aqui são muito caras e longas. Mas nem por isso o país deixa de ter interesse. Nele encontrou o viajante uma das suas melhores e mais profundas experiências. Desde logo, pelo exotismo da paisagem. Apesar de Samoa ter muito menos turistas que outras ilhas do Pacífico, também aqui se repetem abundantemente os clichés habituais, de praias de coqueiros, com areias brancas e águas turquesa.
  Mas esse não foi o único interesse que viu nas ilhas. Surpreendeu o viajante que ainda actualmente a maioria da população viva em aldeias e, dentro delas, em comunidades familiares, de família alargada. Muitas destas famílias vivem ainda em casas tradicionais (a que chamam “fale”), feitas de postes de madeira, com planta oval e cobertas de folhas de coqueiro. Ainda actualmente a maior parte das casas de aldeia não tem paredes (o clima permite-o) e a vida é feita no seu interior, à vista de todos. À noite, ou se fizer muito vento, podem baixar-se cortinas de folhas de coqueiro…
Esta forma de vida é simples, mas muito alegre. Todos os automóveis têm música no máximo, deixando atrás de si uma batida constante. E o mesmo se passa com os alegres autocarros tradicionais, de corres berrantes, de bancos de madeira e sem janelas, que são o transporte público único da ilha.
  Ápia, a capital de Samoa, é uma cidade no campo. Diz-se ter cerca de 30 mil habitantes, que de forma alguma se notam. O ambiente (a origem provinciana do viajante permite-lhe dizer isso) é o de uma relaxada pequena  vila de província. A praça principal, onde até há uma rotunda, é dominada por uma pequenas torre de relógio, onde se ouve a todas as horas a clássica melodia do Big Ben de Londres. Não obstante este toque britânico, a verdade é que a grande marca colonial que Samoa  herdou foi a do curto período em que constituiu um protectorado alemão: sobrevivem ainda muitos edifícios públicos construídos em madeira nessa época.
Da cidade, não se pode dizer ser bonita. Mas é o melhor local das ilhas para observar o castiço da população local – e para esse efeito, o ponto privilegiado é o Maketi Fou, mercado diário de legumes.
  Por aqui passou – e aqui morreu –, Robert Stevenson, o escocês autor de “A ilha do Tesouro”, que veio à procura de bom clima que lhe curasse a tuberculose. A sua fantástica casa, talvez o edifício mais interessante das ilhas, fica a meia dúzia de quilómetros de Ápia e alberga actualmente a sua casa museu. É uma enorme casa colonial, em madeira, construída em 1890, com grandes varandas e jardins impecavelmente tratados.
  Além desta casa museu, a ilha de Upolu, onde fica Ápia, suscita interesse pelas cascatas naturais que vai tendo aqui e ali, sobretudo na época das chuvas, que corresponde ao inverno no hemisfério norte. De resto, o viajante gostou muito das praias. Sobretudo as do leste da ilha de Upolo, onde fica a capital. São soberbas as praias da zona de Aleipata – em particular as praias de Lalumanu e de Saleapaga. Ambas são aldeias pequenas e as suas praias parecem esquecidas. Correspondem ao protótipo da praia deserta – o viajante esteve lá sem que estivesse mais ninguém. Não havia hotéis nem qualquer outra estrutura de apoio. Aliás, em geral, a população local não vai à praia, apesar do fantástico clima – a temperatura do ar nunca baixa de 22 graus (é a mínima, durante a noite…) e raramente sobe dos 36, ao longo de todo o ano.
  No norte da ilha de Upolu há menos praias, embora o mar seja muito tranquilo. Mas desde o tsunami de 2009 que todas elas têm sido guarnecidas com barreiras de pedra, de protecção. O mesmo se passa com uma boa parte da costa de Savaii, a outra ilha de Samoa, que é a maior delas. Apesar destas barreiras, na costa oriental de Savaii, uma que outra das praias ainda têm areia e permite banho.
  Em Savaii, além de cascatas como em Upolu, há outros pontos interessantes de visita. Os locais conduziram o viajante para dois, em particular. Por um lado, para um fantástico campo de lava, que chega a ter 100 metros de espessura e fica em Saleaula, no norte da ilha. Foi o resultado de erupções do vulcão do Monte Matavanu, entre 1905 e 1911, que arrasaram uma boa parte da povoação. Por outro, para umas curiosas furnas, na falésia vulcânica da costa sul, perto de Taga a que chamam “blowholes”. É um fenómeno natural provocado pelo rebentamento das ondas, que entra em buracos no interior da falésia, onde existem galerias verticais. Quando o mar está forte, o rebentamento faz subir por estes algares a água da rebentação que, projectada, chega a atingir 30 metros! É um fenómeno curioso.
  A viagem de Portugal a Samoa é longa e cara. A melhor opção é chegar por via de Auckland, na Nova Zelândia, que por sua vez pode ser atingida em voos directos a partir de Londres. Contanto com as ligações, partindo de Lisboa, não será fácil fazer esta viagem em menos de dois dias.