segunda-feira, setembro 12, 2011

Samoa

 
A 3000 mil quilómetros da Nova Zelândia, no Pacífico Sul, as ilhas Samoa são muito isoladas. Por isso, não estão vocacionadas para o moderno turismo de massas. As viagens para aqui são muito caras e longas. Mas nem por isso o país deixa de ter interesse. Nele encontrou o viajante uma das suas melhores e mais profundas experiências. Desde logo, pelo exotismo da paisagem. Apesar de Samoa ter muito menos turistas que outras ilhas do Pacífico, também aqui se repetem abundantemente os clichés habituais, de praias de coqueiros, com areias brancas e águas turquesa.
  Mas esse não foi o único interesse que viu nas ilhas. Surpreendeu o viajante que ainda actualmente a maioria da população viva em aldeias e, dentro delas, em comunidades familiares, de família alargada. Muitas destas famílias vivem ainda em casas tradicionais (a que chamam “fale”), feitas de postes de madeira, com planta oval e cobertas de folhas de coqueiro. Ainda actualmente a maior parte das casas de aldeia não tem paredes (o clima permite-o) e a vida é feita no seu interior, à vista de todos. À noite, ou se fizer muito vento, podem baixar-se cortinas de folhas de coqueiro…
Esta forma de vida é simples, mas muito alegre. Todos os automóveis têm música no máximo, deixando atrás de si uma batida constante. E o mesmo se passa com os alegres autocarros tradicionais, de corres berrantes, de bancos de madeira e sem janelas, que são o transporte público único da ilha.
  Ápia, a capital de Samoa, é uma cidade no campo. Diz-se ter cerca de 30 mil habitantes, que de forma alguma se notam. O ambiente (a origem provinciana do viajante permite-lhe dizer isso) é o de uma relaxada pequena  vila de província. A praça principal, onde até há uma rotunda, é dominada por uma pequenas torre de relógio, onde se ouve a todas as horas a clássica melodia do Big Ben de Londres. Não obstante este toque britânico, a verdade é que a grande marca colonial que Samoa  herdou foi a do curto período em que constituiu um protectorado alemão: sobrevivem ainda muitos edifícios públicos construídos em madeira nessa época.
Da cidade, não se pode dizer ser bonita. Mas é o melhor local das ilhas para observar o castiço da população local – e para esse efeito, o ponto privilegiado é o Maketi Fou, mercado diário de legumes.
  Por aqui passou – e aqui morreu –, Robert Stevenson, o escocês autor de “A ilha do Tesouro”, que veio à procura de bom clima que lhe curasse a tuberculose. A sua fantástica casa, talvez o edifício mais interessante das ilhas, fica a meia dúzia de quilómetros de Ápia e alberga actualmente a sua casa museu. É uma enorme casa colonial, em madeira, construída em 1890, com grandes varandas e jardins impecavelmente tratados.
  Além desta casa museu, a ilha de Upolu, onde fica Ápia, suscita interesse pelas cascatas naturais que vai tendo aqui e ali, sobretudo na época das chuvas, que corresponde ao inverno no hemisfério norte. De resto, o viajante gostou muito das praias. Sobretudo as do leste da ilha de Upolo, onde fica a capital. São soberbas as praias da zona de Aleipata – em particular as praias de Lalumanu e de Saleapaga. Ambas são aldeias pequenas e as suas praias parecem esquecidas. Correspondem ao protótipo da praia deserta – o viajante esteve lá sem que estivesse mais ninguém. Não havia hotéis nem qualquer outra estrutura de apoio. Aliás, em geral, a população local não vai à praia, apesar do fantástico clima – a temperatura do ar nunca baixa de 22 graus (é a mínima, durante a noite…) e raramente sobe dos 36, ao longo de todo o ano.
  No norte da ilha de Upolu há menos praias, embora o mar seja muito tranquilo. Mas desde o tsunami de 2009 que todas elas têm sido guarnecidas com barreiras de pedra, de protecção. O mesmo se passa com uma boa parte da costa de Savaii, a outra ilha de Samoa, que é a maior delas. Apesar destas barreiras, na costa oriental de Savaii, uma que outra das praias ainda têm areia e permite banho.
  Em Savaii, além de cascatas como em Upolu, há outros pontos interessantes de visita. Os locais conduziram o viajante para dois, em particular. Por um lado, para um fantástico campo de lava, que chega a ter 100 metros de espessura e fica em Saleaula, no norte da ilha. Foi o resultado de erupções do vulcão do Monte Matavanu, entre 1905 e 1911, que arrasaram uma boa parte da povoação. Por outro, para umas curiosas furnas, na falésia vulcânica da costa sul, perto de Taga a que chamam “blowholes”. É um fenómeno natural provocado pelo rebentamento das ondas, que entra em buracos no interior da falésia, onde existem galerias verticais. Quando o mar está forte, o rebentamento faz subir por estes algares a água da rebentação que, projectada, chega a atingir 30 metros! É um fenómeno curioso.
  A viagem de Portugal a Samoa é longa e cara. A melhor opção é chegar por via de Auckland, na Nova Zelândia, que por sua vez pode ser atingida em voos directos a partir de Londres. Contanto com as ligações, partindo de Lisboa, não será fácil fazer esta viagem em menos de dois dias.

quinta-feira, setembro 08, 2011

Museu de Auckland, Nova Zelândia

  Tem o viajante visitado vários museus muito interessantes. Talvez por estar num país do novo mundo e este museu pretender cobrir a história nacional, achou a este especial graça. O Museu de Auckland está construído num edifício majestoso, de fachada neoclássica, à imagem dos templos gregos. Pretendeu ser marcante, porque o seu propósito inicial foi guardar o espólio e evocar os mortos neozelandeses na Iª Guerra mundial – morreram quase 17 mil soldados da Nova Zelândia, em combate, entre 1914 e 1918.
  Porém, no formato actual, depois de sucessivos melhoramentos, este é um museu moderno e integral, que cobre toda a história da Nova Zelândia, passando também pela participação militar nos conflitos mundiais. Essa, porém, nem sequer é a parte mais interessante do museu. Aquelas que prenderam mais a atenção do viajante e que dificilmente serão melhores nalgum ouro museu do mundo, foram a secção dedicada à cultura maori e a secção dedicada às culturas dos povos do Pacífico. Ambas se relacionam, uma vez que a cultura maori teve origem na civilização polinésia, centrada em Tonga e em Samoa, que cerca de mil anos antes de Cristo se expandiu para todo o Pacífico, incluindo a Nova Zelândia.
  Nota-se neste museu o intuito de ser o repositório, para o futuro, daquilo que foi possível recuperar, quer das culturas do Pacífico, quer da cultura maori, que daquela derivou. E assim, recolhe-se uma impressionante colecção de artefactos, do dia-a-dia, da guerra, de decoração e ornamentação. Além disso, esta colecção é interpretada no contexto da expansão da cultura polinésia. Exibem-se também no museu barcos polinésios, em particular as frágeis canoas duplas, que permitiram aos polinésios empreender as viagens oceânicas de milhares de quilómetros e as canoas de competição, de 45 remadores, que ainda hoje são as embarcações usadas na competição marítima mais popular do Pacífico.
 É também explorada a história natural da Nova Zelândia. Viu o viajante com imenso espanto o esqueleto (e a reconstituição moderna) de uma moa, que antes de extinta foi a maior ave existente sobre a terra – e também a única que até agora se conhece sem asas. E impressionou-o a galeria dedicada ao vulcanismo, onde foi instalada uma sala onde se podem experimentar os efeitos de uma erupção vulcânica, seguida de um tremor de terra e de um tsunami.
  Por último, assistiu o viajante com muito agrado àquilo que o museu chama uma “performance” maori. É, na prática, uma breve exibição – breve, mas vibrante e entretida –, de música e dança, e uma demonstração de jogos tradicionais maoris. Esta “performance”maori repete-se ao longo do dia.
O Museu de Auckland é uma referência essencial na cidade, fácil de encontrar, no meio do parque conhecido como Auckland Domain. Apesar de fácil, está longe do centro da cidade – a pé pode distar perto de uma hora. Está aberto todos os dias das 10 às 17 horas e as “performances” maori ocorrem às 11, às 12 e 13h30m

terça-feira, setembro 06, 2011

Atlântico Norte

  Já tinha calhado ao viajante sobrevoar os desertos do nordeste de África, do Sudão e da Líbia, que o deslumbraram pela imensidão. E também, mesmo apercebendo-os desde cima, pela agressividade do seu calor, que se notava nas cores vivas (do ocre ao avermelhado) e na textura vincada dos terrenos. Calhou, desta vez, sobrevoar com céu limpo a imensidão do Atlântico Norte, próxima do Árctico, na rota que cruza a Gronelândia de sueste a noroeste.
  A visão desta gigantesca ilha – apenas ultrapassada em tamanho pela Austrália – deixou-lhe o sentimento de uma imensidão ainda mais esmagadora e ameaçadora. A abordagem é, desde logo muito agressiva: a costa leste da Gronelândia é escarpada e abrupta. Caem dramaticamente no mar negras falésias, a que se seguem montanhas muito escuras, sem qualquer tipo de vegetação. Aliás, a negridão da rocha das escarpas e dos picos montanhosos é apenas quebrada pelos campos de neve, que por completo preenchem os vales e as encostas mais suaves. São neves eternas, que formam um manto muito regular e aplanam o terreno, revestindo-o e quase o uniformizando.
  Nalguns vales mais profundos e íngremes, desde o ar são bem visíveis glaciares que imovelmente descem para o mar. Em geral, ramificam-se em vários braços e espraiam-se por muitos quilómetros, subindo a montanha. No lado oposto, debruçam-se sobre o mar, desfazendo-se em pedaços, dando origem a icebergs.
Os fiordes a que estes glaciares em seu tempo terão dado origem, que se adivinham fundos e de águas gélidas, estão polvilhados por estes blocos de gelo glaciar. Nalguns pontos, concerteza de águas mais tranquilas, chega até a formar-se uma película gelada que cobre por completo a superfície marinha.
  Em volta da ilha, todo o mar está pontilhado de pedaços de gelo que, à deriva, vão vogando ao sabor das correntes. Este é, aliás, um dos grandes viveiros dos terríveis icebergs que aterrorizam os navegadores do Atlântico Norte. Olhando para eles, de cima, questionou-se o viajante sobre se não teria saído daqui aquele que afundou o Titanic.
  Mas a dimensão da Gronelândia não fica apenas nas costas escarpadas, nos fiordes, nos glaciares e nos icebergs: aquilo que mais impressionou o viajante foi o seu interior gelado. Consoante foi avançando para o interior, claramente percebeu que o relevo se ia esbatendo. Pode ter acontecido que as montanhas cedessem à pressão de milénios, feita por gelos eternos. Mas pode também ter acontecido, pura e simplesmente, que a neve e os ventos, de milénios sucessivos de invernos, se tenham encarregado de preencher de branco todas as irregularidades do terreno. A verdade é que, consoante se sobe, para norte e para o interior, a Gronelândia vai-se mostrando mais regular: no início, as montanhas parecem mais baixas e os vales menos escavados; depois, todas as irregularidades se arredondam e pintam de branco. Mais a norte, é a imensidão gelada: o interior da ilha é uma gigantesca planura uniforme de neve imaculada.

quinta-feira, setembro 01, 2011

Trás-os-Montes

Portas avariadas...

quarta-feira, agosto 24, 2011

Porta de Pedra, Zagreb, Croácia

  De breve passagem por Zagreb, reteve o viajante um impressivo local de culto católico, na chamada Porta de Pedra, ou Kamenita Vrata. É uma antiga porta da muralha medieval, actualmente convertida em capela.
Em Zagreb os turistas procuram muito a cidade antiga, de traços barrocos, localizada na parte mais alta da capital croata, onde em tempos existiu uma fortaleza. Dela se avista, nada longe, a cidade baixa, cheia de cafés e esplanadas, que dão enorme vida às ruas. Entre ambas ficam o mercado de Dolac, onde os camponeses dos subúrbios ainda vêm vender os produtos que colhem e a catedral de Santo Estêvão (Sveti Stjepana), dois dos ícones da terra.
  Mas, já o disse o viajante, nesta cidade caseira, aquilo que mais o impressionou foi a Porta de Pedra, uma antiga entrada na cidade antiga que actualmente é local de oração. Esta porta é a única que sobra da muralha da antiga cidadela, construída no século XII. Sabe-se que durante a Idade Média um incêndio destruiu toda cidade alta, dentro dos muros, bem como a própria muralha. Apenas restou dela uma zona construída em pedra, onde existia uma imagem da virgem Maria, com o menino. A partir de então, essa imagem passou a ser venerada, vindo a ser feita uma pequena capela em seu redor.
 Ainda hoje existe a Capela da Virgem Maria da Porta de Pedra, protectora de Zagreb. Fica dentro da porta de entrada na antiga zona de muralhas e reteve o viajante que os habitantes locais, quando aqui passam, param para rezar e acender uma vela. Outros, vêm aqui de propósito com essa finalidade. E não menos impressionou uma imagem aqui colocada, de Santo António de Lisboa, a que esta gente chama Sveti Antunu, igualmente muito venerado

sábado, agosto 20, 2011

Grande Muralha, China

  Não pode o viajante dizer que tenha sido desilusão. Talvez por estar mais vocacionado para visitar sítios com histórias e significado do que para coleccionar cromos turísticos, a Grande Muralha, o grande emblema da antiga civilização chinesa, cuja construção começou há mais de 25 séculos, não o deslumbrou.
Num mundo ideal, a forma certa de visitar este enorme conjunto de panos de muralha seria percorrê-los, ao longo dos seus 6430 quilómetros, desde o Mar Amarelo até às planuras do Deserto de Gobi. Talvez assim fosse possível aperceber a sua colossal dimensão - física e histórica - e compreender a função que teve, de defesa do império chinês, face aos invasores do norte, da Manchúria e da Mongólia. Mas esta visita não é possível. Por um lado, porque há troços (muitos troços), muito danificados; metade do percurso da muralha está mesmo destruída. Aliás, pelo contrário, há pouco troços minimamente conservados ou reconstruídos e por isso visitáveis. Por outro lado, a estrutura organizativa da China não facilita essa visita. Não há, fora das grandes cidades, apoio de hotéis, restaurantes ou bombas de gasolina. Esta realidade é agravada pela impossibilidade de comunicar noutra língua para além da local – o mandarim, ou variantes.
  Neste contexto, não sendo hoje em dia possíveis as viagens de descoberta marcopolianas, optou o viajante por visitar apenas um troço da Grande Muralha, próximo de Pequim, como aliás faz a generalidade dos turistas, mesmo os chineses. Optou pelo troço de Mutianyu, a norte de Pequim, no distrito de Huai Rou, próximo do povoado com o mesmo nome. É um troço originariamente construído no século VI, restaurado e em muito bom estado, com acesso fácil desde a capital. Fica, a cerca de 90 quilómetros de Pequim, por estradas asfaltadas, a maior parte delas em bom estado. No entanto, não havendo mapas de estradas detalhados disponíveis, será muito difícil a quem não fale chinês orientar-se por aqui.
  Próximo de Pequim é ainda possível visitar a muralha em Badaling, uma zona de muito fácil acesso e por isso muito popular – leia-se que tem muitos turistas e muitos vendedores de bugigangas e tee-shirts. Recomendam ainda os guias a visita a Jinshanling (a cerca de 100 km de Pequim – este troço tem o atractivo de ser permitido acampar na muralha) e a Simatai (que tem um troço de muralha muito mais destruída, em muito mau estado, mas também por isso muito menos turística e mais autêntica).
  Em Mutianyu há um teleférico que sobe a montanha, para permitir uma visita confortável à muralha. Percorrendo a muralha, em boa parte, as cristas das montanhas, nem sempre é fácil chegar aos troços sem ter que escalar até ao topo, duas ou três horas, por caminhos nem sempre fáceis.
A entrada do recinto de acesso à muralha é paga e o teleférico, evidentemente, também. Mas em qualquer dos casos, vale a pena. É um troço de muralha restaurado, de cerca de um quilómetro e meio, cuja origem remonta ao século XIV.
A muralha, em si mesma, é uma rude construção militar, similar às que na Europa se foram desenvolvendo desde o tempo dos romanos até ao fim da Idade Média. O aspecto particular desta muralha chinesa é o da sua dimensão (como tudo na China…). É ainda a circunstância de coroar montes e vales e montanhas, sempre pelas suas cotas mais elevadas.
  A Grande Muralha foi sendo construída ao longo de muitos séculos, em troços, durante o domínio de diversas dinastias que governaram o império. As partes mais antigas datam do século VI A.C., mas a sua dimensão colossal só foi atingida no século III A.C., no tempo do imperador Qin Shihuang (também conhecido pelo exército de soldados de terracota que o acompanharam no seu mausoléu). Em todo o caso, apenas houve verdadeiramente uma muralha, como a conhecemos hoje, no período da dinastia Ming (séculos XIV a XVI da nossa era).

  Entretanto, a muralha sofreu ao longo do tempo sérios danos: na década de 1950, durante o reinado de Mao Tse Tung, o governo exortava a população a “fazer o passado servir o presente” e incitava os camponeses a demolir a muralha e a reutilizar a pedra e os tijolos nela usados nas suas casas (foi aliás nesse tempo que o governo chinês ordenou a destruição das muralhas de Pequim, para edificar fábricas do Estado). Felizmente que o sítio é agora património protegido pela Unesco, desde 1987.
Durante muito tempo, a Grande Muralha foi tida como a única edificação humana visível deste a Lua. A história ficou a dever-se ao astronauta americano William Pogue, que disse tê-la visto desde o laboratório espacial Skylab – mais tarde, veio a concluir-se, afinal, que aquilo que se avistava era o Grande Canal, próximo de Pequim.

segunda-feira, agosto 08, 2011

As praias da Ilha Maurício

  Não foi o viajante à Maurício em lua-de-mel nem para férias na praia, ao contrário do que acontece com a generalidade dos turistas que integram o milhão de visitantes anuais da ilha.
Não obstante, estando-se ali é incontornável ir à praia. Primeiro, pelo clima: há calor e muito sol durante todo o ano (embora em Janeiro e Fevereiro chova muito e possa haver ciclones). Depois, a água do mar está sempre quente. Mas quente mesmo. Por último, o litoral da Ilha Maurício, muito recortado, está cheio de enseadas e baías de areia branca, muito convidativas.
  Em volta da ilha há uma barreira de recifes de coral. Embora seja irregular, em volta da ilha, em geral forma uma laguna entre a praia e o mar aberto. Nesta laguna, as águas são muito tranquilas e têm uma exuberante cor verde-esmeralda.
  A maior parte das praias não tem palmeiras, contrariando os clichés. Boa parte delas é bordejada por casuarinas, árvores de grande porte, dando muita sombra e com capacidade para sobreviver na areia salgada da praia.
Encontrou o viajante, na praia, muitas famílias a fazer piqueniques, sobretudo ao fim de semana. E nem a ocasional chuva de Janeiro os desanimava.
  Tudo visto, mesmo não tendo ido à Maurício para ir à praia, não a conseguiu evitar o viajante. E por isso, sempre pode recomendar uma ou outra. Para tomar banho, a praia de Grand Baie, na costa norte, onde ficam muitos dos hotéis e resorts de férias. Ou então, próximo desta, Mont Choisy, onde quase só vão os locais. O mesmo pode dizer-se de Flic-en-flac, na costa oeste. Todas estas praias têm estacionamento, estruturas de apoio na praia e restaurantes próximos.
  Porém, aquelas que o viajante achou mais bonitas, mesmo sendo piores para banhos, foram a Pointe aux Biches, a norte de Port Louis, a capital da ilha e a Baie aux Tortues, muito próxima desta. Ambas escapam ao estereótipo clássico, de palmeiras e areia branca. Talvez por isso, vêm aqui menos turistas. Têm, embora de outro tipo, vegetação igualmente luxuriante e areia mais grossa, misturada com pedaços inertes de coral, que se confundem com pedrinhas e, aqui e ali, blocos de negra rocha vulcânica. Nenhuma delas tem habitualmente banhistas. Pelo contrário, será provável encontrar famílias hindus a deixar, em rochedos dentro de água ou em plataformas de cana, fruta e flores, como oferendas a Shiva.

domingo, agosto 07, 2011

Ushuaia, Terra do Fogo

  O nome e o lugar são míticos para qualquer viajante. Conhece-se como uma referência de sempre e sonha-se com a jornada até lá. Fica na extremidade sul do continente americano e tem-se promovido por isso mesmo: assume o título de fim do mundo, de limite último para todas as viagens. Para lá de Ushuaia não há mais estradas que possam percorrer-se, nem aviões ou aeroportos, nem cidades. Por isso, esta cidade argentina da Terra do Fogo arroga-se o título de cidade mais austral do mundo.
  Aqui chega ao mar, finalmente, a longuíssima cordilheira dos Andes, que vem lá de longe, de ainda mais longe que o equador. Geográfica e geologicamente, a Terra do Fogo é um arquipélago, separado do resto da América do Sul pelo Estreito de Magalhães – Fernão de Magalhães, o português nascido em Sabrosa, Trás-os-Montes, descobriu esta passagem do Atlântico para o Pacífico em 1520, evitando assim passar pelas águas revoltosas e perigosíssimas do Cabo Horn. Terá sido o próprio Magalhães a baptizar estas ilhas e diz-se que lhe chamou Terra do Fogo por ter avistado muitas fogueiras ao longo da costa. Julga-se que seriam fogueiras acesas por tribos indígenas, para comunicar. A sul do estreito, separadas pelo Canal Beagle, ficam as outras ilhas do arquipélago, mais pequenas. Apenas 1000 quilómetros ao sul, fica a Antárctida.
  Ushuaia é a maior povoação da Terra do Fogo (terá cerca de 60 mil habitantes). É também a capital da parte argentina da ilha principal (que está dividida ao meio, entre o Chile, que ficou com a parte oeste e a Argentina, que domina o leste). No idioma yámana, usado pelos nativos, actualmente extintos, “us” significava ao fundo e “uaia” baía. Ushuaia fica de facto no fundo de uma baía.
O seu isolamento levou a que fossem para aqui foram trazidos, durante o século XIX, os prisioneiros mais indesejáveis do governo de Buenos Aires -  a origem da cidade foi uma colónia penal, fundada em 1884, cuja criação se destinou a impulsionar o povoamento desta parte argentina da Terra do Fogo. Existiu mesmo aqui uma prisão, entre 1902 e 1947, destinada a reclusos perigosos.
  Chegou o viajante a Ushuaia de avião. A descida para o aeroporto é das mais espectaculares que tem vivido, acompanhando de muito perto a descida da ponta final dos Andes, que aqui morrem no mar. Recordou então o viajante St-Exupery, que bem conheceu estas “arestas verticais, que as asas roçam a seis mil metros de altitude, e mantos de pedra, cortados a pique, e uma extraordinária e imensa tranquilidade”.
  Em frente a Ushuaia fica o Canal Beagle. É um estreito, que deve o nome a um navio de exploração britânico que por aqui navegou no século XIX (o HMS Beagle, comandado pelo inglês Robert Fitz Roy - a bordo, vinha também o então jovem de 23 anos Charles Darwin). Tem 250 km de comprimento e 5 de largura, na zona mais estreita.
Da cidade, que apenas tocou de passagem, guarda precisamente o viajante na memória a intensidade e a cor do pôr-do-sol no Canal Beagle. Aqui, o sol não parece pôr-se: desaparece mesmo, lá para o sudoeste, nas águas geladas do fim do mundo.

sexta-feira, julho 15, 2011

Feira de Novembro, Golegã, Ribatejo


Especialidades “scalabitanas”: farturas (estas, não há português que não as conheça) … e o resto lê-se na fotografia.

domingo, julho 10, 2011

Ohrid, Macedónia

  Em habitantes, Ohrid é a quinta ou sexta cidade da Macedónia, país onde vivem 2 milhões de almas, em cuja capital e maior cidade, Skopje, vivem um pouco menos que 500 mil pessoas.
Visitando Ohrid, julgou o viajante estar a sentir o mesmo que sentiam os queirosianos turistas do fim do século XIX que, com o intuito de cultivar o prazer de viajar e descobrir o mundo, acabavam por se deparar com preciosidades desconhecidas e insuspeitadas, em cantos ignorados e fora das rotas já exploradas. Em tais locais, só muito tarde vieram a surgir instalações hoteleiras e similares, assim se tornando possível o turismo moderno.
  O caso é que esta antiga cidade, no sudoeste da Macedónia, reserva muitas e interessantes surpresas a quem a visita. Mas o estádio de desenvolvimento das estruturas locais de apoio, para os parâmetros modernos, é ainda muito incipiente, para não dizer rudimentar. Por isso, Ohrid tem ainda muito poucos turistas estrangeiros.
Não obstante, por entre casas pobres e degradadas, foi o viajante surpreendido pelas ruínas daquilo que foi um fantástico teatro romano, de origem grega, em razoável estado de conservação (onde aliás se realiza um festival de música, no verão). Além disso, impressionou-o o vestígio da fortaleza e das muralhas, medievais
  E não deixa de impressionar o percurso milenar da terra, que tem origem pré-histórica, apesar de os macedónios, povo eslavo, se terem fixado aqui apenas lá para o século VII da nossa era. Pouco depois, no século IX, passou por aqui São Clemente de Ohirid, que veio instalar-se no mosteiro de São Pantelemon, na zona oeste da cidade. Aliás, São Clemente foi sepultado no local da actual igreja. Este mosteiro foi fundado por São Cirilo, de que São Clemente era discípulo e seguidor. E sob a inspiração de São Cirilo e São Metódio, o mosteiro veio a tornar-se num importante centro cultural e difusor da fé - viria mais tarde a ser a mais antiga universidade eslava.
Mas Ohrid foi também capital do fugaz império de um autoproclamado Czar Samuel, um efémero estado independente, na dobra do século X, para o XI. Esta herança levou a que se desenvolvesse aqui, durante toda a idade média, aquilo que veio a consubstanciar a moderna cultura macedónia, que atravessou o longo e poderoso império otomano e chegou aos impérios modernos. Desta época sobraram as igrejas arruinadas de Plaosnik
  No limite da cidade, apenas acessível a pé ou de barco, fica a Igreja de São João Kaneo, um dos maiores ícones da arquitectura medieval macedónia. Esta pequena igreja, construída no século XIII, com traços claramente paleocristãos, encabeça um pequeno promontório, muito escarpado, que cai sobre o Lago de Ohrid. Para lá chegar há que subir à fortaleza e depois descer um estreito carreiro, entre bosques espessos. Ou então, partindo da cidade, percorrer a costa escarpada, caminhando pela beira de pequenas enseadas rochosas, de praias de calhaus e depois escalar o penhasco. Nenhuma das modalidades é difícil, mas desde Ohrid demora bem meia hora. É um local místico, que deve visitar-se ao pôr-do-sol. Foi, talvez, o lugar mais bonito por onde o viajante passou, na República da Macedónia.
  Ohrid fica a 170 quilómetros de Skopje, capital da Macedónia, onde fica o único aeroporto com ligações internacionais. Da capital, o percurso rodoviário não é fácil: são 50 quilómetros de auto-estrada paga e o resto é uma estrada nacional sofrível, com alguns troços de montanha aborrecidos e demorados. Em Ohrid e, sobretudo, ao longo do lago que lhe fica em frente, há alguns hotéis, de nível mais sofrível que o habitual, mesmo para os Balcãs. Há restaurantes e bares, perfeitamente aptos para quem não for muito exigente.
De resto, visitar Ohrid é como visitar Boticas: não há outros turistas na rua, muito menos estrangeiros e cada um fica por sua conta. Mas tem a vantagem da genuinidade.