sexta-feira, novembro 25, 2011

A aventura do açúcar na ilha Maurício

  Quando os holandeses ocuparam a ilha Maurício, no fim do século XVI (quase um século depois de a ilha ter sido descoberta pelos portugueses), introduziram o cultivo da cana do açúcar. A cana encontrou aqui um clima óptimo e os solos vulcânicos, nunca antes agricultados, eram riquíssimos.
  Pouco depois, as plantações de cana do açúcar estendiam-se a toda a ilha, multiplicando-se as unidades de extracção (a que os portugueses do Brasil colonial chamavam “engenhos”).
  Em breve toda a economia da Maurício dependia deste produto.
Nos tempos mais recentemente, a queda dos preços nos mercados internacionais fragilizou o sector, que tem vindo a reconverter-se, sob pena de ter que cessar a actividade.
Há já muitas fábricas fechadas, sendo a sua antiga produção canalizada para outras, que ainda vão sobrevivendo.
  Vem isto a propósito de uma visita turística (na ilha, turístico, mais turístico, não há…) que o viajante fez à velha fábrica de açúcar Beau Plan, agora convertida em museu de açúcar e centro de interpretação da actividade. Embora esta experiência (www.aventuredusucre.com) seja tipicamente (exclusivamente…) para turistas, foi muito interessante, dando a conhecer ao viajante a história do cultivo da cana, relacionando-a com a história da Maurício, bem como todo o processo, desde o cultivo da cana até ao açúcar final. Sem esquecer, claro, o rum, o mais famoso produto secundário da cana. Achou o viajante interessante provar diferentes tipos de açúcar, de entre os 15 que actualmente se fabricam.
  A fábrica Beau Plan, onde fica a Aventure du Sucre, fica a 15 quilómetros a norte de Port Louis, capital da Maurício, tendo acesso directo por estrada. Está aberta todos os dias, das 9 às 17 horas. Nas instalações há restaurante, onde se pode almoçar.

quarta-feira, novembro 16, 2011

Auckland, Nova Zelândia

  Visitar grandes cidades do hemisfério sul supõe um espírito diferente. Assim é, por exemplo, porque são cidades que nem sempre têm um centro e muito menos um centro histórico, já que a generalidade delas se localiza em países com uma muito recente história. Por outro lado, são normalmente terras onde os visitantes e turistas são mais seduzidos pelo que podem fazer do que pelo que podem ver: isto é, as actividades de laser são mais atractivas do que os locais a visitar.
Também acontece assim com Auckland, a maior cidade da Nova Zelândia, onde as duas coisas mais interessantes sugeridas aos turistas são os passeios marítimos em super lanchas rápidas, nas baías da zona e subir à torre das telecomunicações, para saltar de lá para baixo, com a técnica do bungy jumping.
  Apesar desse espírito – e de não lhe apetecerem emoções fortes –, dispôs-se o viajante a desfrutar da maior e mais importante cidade da ilha norte da Nova Zelândia. Auckland tem 1 milhão e duzentos mil habitantes, que são um quarto da população de todo país. Além disso, é também porto de abrigo para uma multidão de imigrantes de todo o sudoeste asiático e do Pacífico. Aliás, tem tanta população de nativos das ilhas do Pacífico que se diz que é a maior cidade polinésia do mundo! Esta diversidade populacional dá-lhe uma enorme diversidade cultural – tem uma enorme densidade de restaurantes étnicos e, pelas ruas, é bem visível este cadinho de culturas.
  Achou o viajante que Auckland é uma cidade enorme, muito espalhada no terreno, que apenas tem uma grande densidade de ocupação do território na downtown, em particular na zona do chamado Water Front. Esta antiga zona portuária, onde ficam a meia dúzia de edifícios históricos da cidade, foi recuperada recentemente e constitui agora o centro de todo o núcleo urbano. Por aqui há lojas, restaurantes e bares para todos os gostos. É também local de passeio, se estiver bom tempo. E muito agradável, por sinal.
É aqui que fica o edifício da antiga estação do ferry, construído em 1912, em estilo eduardiano, em tijolos, pedra de calcário e granito local. Em frente, começa a agitada Queen’s Street, coração comercial da cidade. Ao lado, o Museu Marítimo, em frente do qual está exposto o veleiro neozelandês que ganhou a America’s Cup.
  Fica também próximo, a quinze minutos de caminhada (mas a subir muito, porque esta cidade tem uma geografia muitíssimo irregular), a Sky Tower. É um edifício original, em forma de torre de comunicações e que, efectivamente, tem como objectivo principal servir de suporte a telecomunicações. Tem 328 metros de altura e dizem ser o edifício mais alto do hemisfério sul. Abriu ao público em 1997, porque nos andares superiores tem varandas de observação e restaurantes. É aqui que se desenvolvem algumas das actividades radicais – pode saltar-se daqui em salto controlado.
 
Porém, dois locais, em particular, ficaram na memória do viajante: um deles, foi o Museu de Auckland, inesperado na sua modernidade e riqueza. O outro, foi o igualmente inesperado Albert Park, um perfeito jardim inglês, apesar de ficar numa cidade do novo mundo e do hemisfério sul. Fica numa colina alta da cidade, de onde se pode perceber a skyline da zona baixa e não falta aqui, até, uma estátua da Rainha Vitória.
Auckland fica a uma enorme distância de Portugal. A melhor forma de voar para aqui é via Londres, com a Air New Zealand e, dependendo da escala (que pode ser Los Angeles ou Hong Kong), o tempo de voo variará entre 21 e 26 horas.

sexta-feira, novembro 11, 2011

Samoa, o Pacífico diferente

  No coração da Polinésia, as ilhas Samoa gostam de ostentar uma história que dizem ter 3 mil anos. Diz-se que, juntamente com Tonga, o país insular mais próximo, é aqui que está a origem de toda a civilização polinésia: foi aqui que se estabeleceram os povos pré-históricos que criaram a cultura polinésia e daqui se expandiram para todo o Pacífico: entre outros, para o Havai e para a Nova Zelândia (a cultura maori teve origem aqui).
  Esta cultura sedimentou-se muito, porque os europeus chegaram cá muito tarde: os primeiros, terão sido navegadores holandeses, que vinham à procura de baleias e que aportaram Samoa em 1722. Cem anos depois chegaram os primeiros missionários cristãos, que pouco tempo depois tinham evangelizado completamente as ilhas. Em termos políticos, Samoa foi governada pelos seus chefes tradicionais até 1899. Nessa data passou a ser um protectorado alemão e assim se manteve até à Iª Guerra, no decurso da qual passou para o domínio da Nova Zelândia, que governou as ilhas até à independência em 1962 – Samoa foi a primeira das modernas nações do Pacífico a conquistar a independência, no século XX.
  É um país fora de rota, muito longe da Europa, onde por isso é difícil ir (sem se perder pelo caminho, o viajante demorou 52 horas a chegar). Fica a 3000 mil quilómetros da Nova Zelândia, a sua antiga potência colonial e ainda hoje o seu grande parceiro externo, na política e nos negócios. Este isolamento tem dificultado movimentos migratórios para as ilhas – ao contrário, muitos samoanos procuram trabalho fora, sobretudo na Nova Zelândia. Por isso, ainda hoje a maioria da população é autóctone.
  Chegou o viajante às ilhas sem ter ainda a clara noção com que depois ficou de que a distância e o isolamento impediram a chagada a Samoa de muitas das comodidades do turismo moderno. Na verdade, este destino não é para aqueles para quem Pacífico Sul significa um hotel de 5 estrelas, com piscina em cima da praia, onde se servem bebidas com uma espécie de guarda-chuva dentro. Pelo contrário, em Samoa há muito poucos hotéis e todos eles de perfil modesto. Mesmo os melhores hotéis das ilhas não ombreiam com os padrões internacionais. Sentiu o viajante também falta de outras estruturas, para quem não for backpacker.
  Esta modéstia do país corresponde ao perfil da população. Muito poucos deixam de seguir os hábitos e as rotinas locais: a vida é muito descontraída, sem pressa e simples. Toda a gente usa roupa muito leve e havaianas. Mesmo! Até em ambiente de trabalho. Além disso, quase todos usam aquela espécie de saia, a meio caminho do pareo brasileiro, a que chamam lava-lava. Nota-se que gostam deste trajo insular e até fazem questão de o usar. E isso (notou-o bem o viajante), é transversal a toda a sociedade. Aliás, a sociedade é verdadeiramente uma sociedade sem classes e sem grandes fossos económicos, também.
Os samoanos são muito amigáveis. Percebe o viajante a sedução que terão sentido os marinheiros europeus do século XIX que andaram pelos mares do sul: as raparigas polinésias, apesar de não serem das mais graciosas nem das mais elegantes, são muito simpáticas. Na rua, ao cruzarem-se com estrangeiros, cumprimentam sempre e de muito boa vontade estabelecem diálogo.
 
Não obstante, esta sociedade isolada do Pacífico tem uma estrutura muito fortemente aldeã. Vive ainda hoje numa estrutura social e desenvolve um efectivo modo de vida muito tradicional. O governo diário destas comunidades é também feito da forma tradicional, que só é possível por o país ter apenas 180 mil habitantes. A base estrutural da vida é a família alargada, que se pretende que seja o maior possível, para ser mais poderosa no contexto da aldeia. Em Samoa há 362 aldeias e 18000 chefes de família alargada (aos quais cabe a tarefa de representar a família no conselho da aldeia que, por sua vez, gere esta). Note-se que há apenas uma década que os membros do parlamento deixaram de ser designados por estes conselhos de aldeia, para serem eleitos por sufrágio universal.
 Por outro lado, mais de 80 por cento dos samoanos são cristãos praticantes. Em cada aldeia há uma ou mais igrejas onde todos, sem excepção, vão à missa ao domingo de manhã. Observou o viajante que este ritual se cumpre com muito rigor, até na forma muito aperaltada como todos se vestem. E depois, é também tradicional haver um almoço familiar, rico e com muita comida – nessas alturas come-se taro, um vegetal que cozido parece batata, fruta-pão, outro vegetal que se come grelhado nas brasas, mas também pode ser cozido ou frito em rodelas, como se fossem batatas fritas e muitos pratos preparados com coco – reteve o viajante um atum fresco e cru, marinado em leite de coco, sumo de limão, pimentos e cebola

segunda-feira, novembro 07, 2011

As “moules” de Bruxelas

  Juntamente com a cerveja e os chocolates, as “moules frites”, ou mexilhões com batatas fritas, são um dos ícones mais presentes na memória do viajante, quando a referência é Bruxelas. Tal como os chocos fritos de Setúbal, são um pitéu barato, pouco exigente, de preparação simples. Os dois fritos partilham ainda a origem muito recente. Como todos os turistas que passam por Bruxelas, já calhou ao viajante jantar no Chez Léon, uma “fritaria”, na Rue des Bouchers, nas traseiras da Grand-Place. É uma casa de pasto muito antiga, com origem em 1893, na altura com o estatuto de pequena tasca, onde se serviam mexilhões e batatas fritas. O seu dono era Léon Vanlancker. Décadas depois, no decurso da exposição de 1958 (a World Expo 1958, cujo emblema principal veio a ser o Atomium), o Chez Léon instalou-se no recinto da Expo e serviu “moules frites” aos numerosos visitantes internacionais.
 
Desde então, Bruxelas transformou-se na capital do mexilhão e deu à Bélgica, país de história curta e sem grandes tradições específicas, um dos seus ícones. Fica por dizer que, desde então, o Chez Léon se desmultiplicou e abriu muitos outros restaurantes em Bruxelas e também em França. Infelizmente, perdeu a genuinidade e transformou-se numa cadeia de restaurantes temáticos.
A tradição belga diz que devem comer-se mexilhões apenas em meses cujo nome contenha a letra R, o que acontece a partir do mês de Outubro e termina em Abril. No ínterim, os mexilhões são pequenos e menos saborosos; como as lusitanas sardinhas assadas, mas ao contrário. Porém, com a intensificação da aquacultura, também aqui a tradição já não é o que era: em Bruxelas comem-se excelentes “moules” durante todo o ano.
  Curiosamente, tem o viajante verificado que os restaurantes de Bruxelas fazem questão de salientar que os seus mexilhões vêm da Holanda – não são uns quaisquer… A verdade é que a Bélgica também produz mexilhões, em viveiros no Mar do Norte, mas a costa belga não tem rias ou mares de águas calmas onde possam instalar-se as gaiolas para criação. As instalações que existem estão muito expostas às correntes e intempéries. A produção belga acaba por ser muito reduzida, sendo necessário comprar matéria prima a França (aos viveiros da Bretanha ou da Normandia) e, sobretudo, à Holanda. Na região holandesa da Zelândia, a aquacultura do mexilhão é uma importante actividade económica, sendo o produto quase todo destinado à venda para a Bélgica.
Em Bruxelas, os mexilhões fazem-se cozidos em vapor, na sua própria humidade, sem qualquer condimento – apenas com a excepção do funcho, da cebola e do aipo que os acompanham na panela. Para turistas, há coloridas variantes exóticas, por exemplo a cozedura em vinho ou cerveja. Em todo o caso, são um bom e saudável alimento. Ao contrário da voz corrente, não elevam o colesterol, porque têm pouca gordura. São ricos em proteínas e sais minerais.
E já agora, outra dica de viajante: dizem os chefs belgas (sim, há efectiva e verdadeiramente chefs na Bélgica, embora qualquer viajante que tenha cruzado aquele país fique seguramente com a impressão de que essa é uma mera hipótese académica), os chefs, portanto, dizem que não há problema nenhum com os mexilhões que depois de cozidos continuam fechados – não estão estragados: apenas têm os músculos da concha mais fortes.

sexta-feira, novembro 04, 2011

Cracóvia, Polónia

Passou o viajante pela antiga e histórica capital da Polónia num mês de Abril frio e gelado. Tanto, que as fotográficas que tirou, ficaram ainda mais fracas do que o habitual. Mas apesar disso, conseguiu aperceber a enorme alma desta cidade, que durante vários séculos (do século XI ao século XVI) foi capital e residência de reis e por isso centro importante de artes e ciências.
O seu centro histórico foi declarado património da Humanidade em 1978 – foi a primeira lista de locais outorgada pela Unesco e Cracóvia fez parte deste reduzida lista de lugares. Recorda, em particular, o viajante, a Praça Rynek Glowny, um enorme espaço quadrado de 200 metros de lado, do qual se diz ser a maior praça medieval da Europa. No meio, está o antigo mercado dos panos, um edifício do século XIII (embora tenha sido ampliado com elementos góticos e renascentistas), desde sempre dedicado ao comércio, actualmente repleto de lojas de artesanato. Mas impressionou-o também a cidadela de Wawel, nas margens do Vístula, encimada pelo castelo de Cracóvia, que durante séculos foi ocupado pelos reis da Polónia – é um edifício de origem medieval, mas modernizado no início do século XVII, em estilo renascentista. É visitável. No mesmo recinto fica também a catedral, em cujo interior ficam os túmulos reais. Aqui eram tradicionalmente coroados os reis polacos – e aqui eram enterrados também.

quinta-feira, novembro 03, 2011

Lisboa, Avenida Fontes Pereira de Melo

Por vezes, no seu país, o viajante fica sem palavras. Perante esta imagem, confessa não saber o que dizer: será esta uma consequência do acordo ortográfico? Ou será apenas um subtil detalhe de uma acção de marketing, demasiado elaborada para o modesto nível de exigência do viajante?

terça-feira, novembro 01, 2011

Neues Museum, Berlim


Visitou, há anos, o viajante, um espaço nos arredores de Berlim que se chamava Ägyptischesmuseum e ficava na zona de Charlottenburg. Dele reteve, em particular, o esfíngico busto da egípcia Nefertiti, que foi a rainha do faraó Akhenatom e é uma das poucas esposas de faraó que ficaram para a história. Como personagem, é discreta na história do Egipto, mas a sua serena beleza impressionou muito o viajante. Aliás, recordava bem esta icónica imagem dos livros de História do ensino secundário.
Neste Museu Egípcio reunia-se uma enorme colecção de objectos levados do Egipto para Berlim por arqueólogos alemães, ao longo dos séculos XIX e XX. Muitos deles têm sido reclamados, sem sucesso, pelas autoridades egípcias.

Entretanto, em 2005, o museu fechou e a sua colecção foi transferida para o Neues Museum. Na altura, este museu estava fechado, desde 1945, mas estavam em curso obras para o reabrir. E assim veio a acontecer, em Outubro de 2009: desde então, o mais famoso busto da antiguidade e toda a restante colecção egípcia estão no Neues Museum, na Ilha dos Museus. Nesta ilha, a meio do rio Spree, no bairro de Mitte, estão instalados cinco museus de história e arte: o Altes Mueum (dedicado à antiguidade clássica), o Neues Museum, a Alte National Galerie (arte do século XIX), o Pergamom Museum (de que já se deixou nota aqui e o Bodemuseum (escultura, numismática, pintura e arte bizantina). Esta ilha foi já classificada património da Humanidade, pela UNESCO, em função da densidade de museus que ali estão instalados.

sexta-feira, outubro 28, 2011

Praça de Tianamen, Pequim

  O nome Tianamen ou, em português, “paz celestial”, faz despertar no viajante a memória de um fleumático manifestante que, sozinho, com um saco de compras na mão, enfrentou um carro de combate e desta forma o exército e o poder político chinês. A história bem conhecida dos protestos a favor da democracia, esmagados pela força militar em Junho de 1989, não conseguiu esbater-se da mente do viajante, quando passou por aquela que é a maior praça do mundo, no coração de Pequim. Mas além desta revolta, a praça foi palco de outros “incidentes” de idêntica natureza, na delicada terminologia chinesa.
  É certo que o local, de passagem obrigatória para quem visita a cidade, está cheiro de pacíficos turistas equipados com máquinas fotográficas e também de vendedores ambulantes. Mas nota-se bem a densidade de agentes policiais fardados. E nestes, apesar de não reagirem quando se lhes tiram fotografias, evidencia-se alguma tensão. Há óbvio receio de novas manifestações: aliás, na entrada da praça o viajante foi revistado e a viu a mochila ter que passar por um túnel de raio-x, como se estivesse num aeroporto. A entrada na zona central da praça é particularmente vigiada e fecha a partir do entardecer, por razões de segurança. Por todo o lado, as câmaras de vigilância e o dispositivo policial não deixam dúvidas sobre o estrito controlo a que o local está sujeito.
  À margem destas tensões, Tianamen é o coração de Pequim. De aqui se medem todas as distâncias a outras cidades – é aqui o quilómetro 0. É gigantesca: tem mais de 800 metros de comprimento e 400 metros de largura e na sua vastíssima calçada cabem milhares de pessoas. Diz-se que no tempo da Revolução Cultural chegaram a realizar-se aqui desfiles com mais de um milhão de pessoas.
No seu topo, a norte, fica a entrada para a cidade proibida (a entrada da Porta do Céu, que dá o nome à praça), onde foi pendurado o mais fotografado retrato de Mao Tsé-Tung. Do outro lado, a sul, fica o mausoléu de Mao, onde está o seu corpo embalsamado. Nas faces laterais ficam dois edifícios mastodônticos, de construção revolucionária, onde não se esconde a clara inspiração soviética: o Museu Nacional de História e da Revolução e do outro a Assembleia Nacional.
  Embora a praça seja muito antiga, o formato que actualmente tem foi concepção do Grande Timoneiro, que queria que este fosse o espelho onde se revia a grandeza e a glória da China e do Partido Comunista. E de certa foram, conseguiu-o: Tianamen é um local de peregrinação de todos os chineses, mais que vigiado e completamente controlado por câmaras de televisão e agentes policiais.

sábado, outubro 22, 2011

Salvador da Bahia, Brasil

  Não costuma o viajante optar por clichés, mas desta vez sentiu algum apelo quando teve oportunidade de visitar Salvador. Bem sabia que esta cidade, de talvez três milhões de almas é, actualmente, um dos principais destinos turísticos do Brasil. As vagas de turistas vêm, antes de mais, à procura das excelentes praias (vem logo à memória Itapuã, que inspirou Vinicius e foi cantada por Toquinho e Djavan). Mas também dos monumentos históricos interessantíssimos e das manifestações culturais variadas. E depois, claro, para compor o cliché, das figuras típicas das enormes e pesadas bahianas, cuja imagem decorava os pacotes de uma marca qualquer de café, daquelas que já não há.
Para lá dos clichés, encontrou o viajante em Salvador a cidade de um povo alegre, que organiza um carnaval rival do carioca. E criativo, também. Por aqui, na enormíssima tradição musical da Bahia, passam as raízes da música popular brasileira, entre muitas outras sub-culturas do Brasil moderno. Aqui nasceram Caetano Veloso, Maria Bethania e Gilberto Gil. Mas esta é também a pátria das religiões mistas, como por exemplo o condomblé, de contornos iconográficos cristãos mas de raiz africana, que fez dos orixás a sua divindade.
  Percebe-se bem, na rua, este caldo de cultura, produto da miscigenação de raças, entre os portugueses colonizadores, os escravos africanos, chegados a partir de meados do século XVI e os nativos brasileiros. Quando Pedro Alvares Cabral, em 1500, descobriu o Brasil, aportou na costa da Bahia (em Porto Seguro, a sul de Salvador). Mas a baía de Todos os Santos, onde fica Salvador, foi descoberta por Américo Vespúcio, em 1501. A cidade viria a ser fundada em 1549, na altura com o nome de São Salvador da Baía. Foi capital do Brasil até 1763, altura em que a capital foi transferida para o Rio de Janeiro. Jorge Amado dizia que aqui está a origem do Brasil, porque tudo começou na Bahia: ”foi aqui que as raças se encontraram e se misturaram. Depois, esta mesma receita estendeu-se a todo o país”. E acrescenta que “foi aqui que começou a alegria brasileira, porque África salvou os brasileiros da tristeza do fado”. Do fado português, anota o viajante.
  O fado português é, porém, para orgulho do viajante, a grande marca do bairro mais emblemático de Salvador. O Pelourinho, zona alta, na colina sobranceira à baía (que deu o nome à Bahia), de construção antiga e edifícios bem recuperados, é o centro da cidade – foi aqui que teve origem, como mercado de escravos. É património mundial, decretado pela UNESCO em 1984. Hoje em dia, os edifícios, iguais aos que poderia haver em Portugal, são ocupados por hotéis, lojas de artesanato ou de artigos de design e ainda por associações culturais. É por aqui que ensaiam as bandas tradicionais bahianas (entre elas, o Olodum). Também foi aqui que nasceu a capoeira, no século XVI, desenvolvida por escravos negros.
Esta zona urbana de casas baixas, com fachadas de cores pastel, em ruas de empedrado grosso, que do lado de cá do mar se chama calçada portuguesa, inclui muitas casas senhoriais dos séculos XVII e XVIII, tempo de domínio português. É igualmente desse tempo a Basílica da Sé, construída à portuguesa, em mármore branco e a magnífica igreja barroca do convento de São Francisco, com rico interior, profusamente decorado com azulejos e talha dourada. Diz-se que foram usados mais de mil quilos de ouro para a revestir. Esta igreja é considerada o expoente máximo do barroco brasileiro.
Com o devido respeito por Amado, poderá ter-se finado por aqui o fado, mas se finou o orgulho do viajante, ao ver o destaque que merecem estas imensas obras lusitanas, tão longe de casa.

terça-feira, outubro 18, 2011

Museu Thyssen-Bornemisza, Madrid

  Madrid é uma cidade de referência para quem gosta de visitar museus: alguns dos melhores museus de arte do mundo ficam aqui e nem é necessário referi-los para que de imediato assaltem a mente do leitor. É o que se passa com o Museu Thyssen, que deixou no viajante uma excelente impressão. Tem muito que ver e é entretido, mas sem ser excessivo. É um programa para um par de horas agradáveis. Fica, como é bem sabido, no centro de Madrid, a dois passos do celebérrimo Museu do Prado.
  O Museu Thyssen-Bornemisza reúne uma impressionante colecção de arte, que abarca sobretudo pintura ocidental, desde a Idade Média aos pintores vanguardistas do início do século XX. A visita está organizada num percurso historicamente orientado, que vai percorrendo toda a colecção. Este acervo foi originariamente reunido pela família Thyssen-Bornemisza e acabou por ser comprada pelo Estado Espanhol em 1993. Além da colecção principal, está também disponível para os visitantes a chamada Colecção Cármen Thyssen-Bornemisza – é a colecção privada da baronesa que dá o nome ao museu. Foi instalada nas chamadas novas alas, por serem mais recentes e estarem num novo bloco, extensão do antigo e originário edifício. Esta colecção foi iniciada em meados da década de 1980, pela própria baronesa Thyssen-Bornemisza, que assim pretendia corresponder ao entusiasmo coleccionista do seu marido, o Barão Hans Heirich Thyssen-Bornemisza. No seu conjunto esta parte da pintura exposta é uma continuação natural da outra, que já está aqui instalada desde 1982.
  Na visita, podem ver-se exemplares de escultura e pintura da idade média final, mas também pintura alemã, italiana, flamenga e holandesa do século XVII. Seguem-se exemplares de várias proveniências de pintura dos séculos XVIII e XIX, com destaque para a pintura norte americana do século XIX e dentro desta, do impressionismo americano. Aliás, há vastos e múltiplos representantes do impressonismo e do post impressionismo, bem como do expressionismo alemão, tal como do fauvismo. A visita termina com diversas tendências do século XX.
O Museu Thyssen-Bornemisza está instalado no Palácio de Villahermosa, no Paseo del Prado. É um edifício com origem no século XIX, que veio a ser recuperado pelo arquitecto espanhol, de Navarra, Rafael Moneo, vindo a ser reinaugurado, como museu, em 1992. Está aberto de terça a domingo, das 10 às19 horas. A entrada custa 8 euros (na modalidade reduzida, 5 euros). Tem loja muito interessante e cafetaria, sempre cheia. É claro que o Museu do Prado é muito mais rico que o Thyssen e é também claro que o Reina Sofia é bastante maior. Mas se tivesse o viajante que eleger apenas um dos três para visitar, não hesitava em escolher o Thyssen, pela riqueza, diversidade e conveniência da dimensão, perfeitamente à escala humana e agradavelmente visitável, de seguida, de ponta a ponta, ao contrário dos outros dois. Pena é que seja proibido tirar fotografias.

domingo, outubro 16, 2011

Nando’s Chicken

 
Já tem calhado o viajante cruzar-se com restaurantes de comida rápida da cadeia “Nando’s” em várias paragens. E já se tem intrigado sobre se existe alguma competição quanto à originalidade fácil dos respectivos anúncios.
Na sucursal de Covent Garden, em Londres, uma placa do tipo daquelas que nas estradas anunciando obras, dizia “men eating chicken”. No mesmo local, outro anúncio, evocando o frango picante, dizia “Peri-Peri: so good that named it twice”. Ainda assim, o prémio do viajante vai para a sucursal de Nicósia, em Chipre que, ao lado do nome do restaurante, adiantava: “oral satisfaction”.

quarta-feira, outubro 12, 2011

Pousada da Ria, Beira Litoral, Portugal

  Não é o viajante um cliente habitual das Pousadas de Portugal, embora goste de muitas delas. A razão é simples: são normalmente sítios muito confortáveis e distintos, mas é uma extravagância que custa muito dinheiro. Vem esta confissão despropositada a propósito de uma breve estadia na Pousada da Ria, uma das mais antigas Pousadas – e também, historicamente, talvez, das mais emblemáticas.
Visitar a Pousada da Ria é um pouco como regressar ao antigo regime, anterior a 1974: a arquitectura é antiga e fora de moda; os móveis e a decoração do edifício são desactualizados e, em boa parte, já tiveram melhores dias; o próprio jardim, que não está maltratado, parece um antigo recinto de seminário, com relva e meia dúzia de arbustos decorativos, dispostos sem alegria nem criatividade. Não destoa a piscina, que apesar de tudo é muito agradável, mesmo ao lado das águas calmíssimas da ria. Durante a passagem por aqui, esteve sempre o viajante à espera de ver algum surgir um daqueles personagens que os brasileiros chamam de “filme de época”, com chapéu e fato escuro, de camisa branca e gravatinha fina, com sapatos de verniz e bigodinho, a sair de um Carocha cinzento.
  Porém, ultrapassado o choque inicial, da viagem ao passado, na Pousada da Ria descobriu o viajante um local mais do que tranquilo (é caso para dizer verdadeiramente com o tempo parado – embora não seja despropositado, pelo que ficou dito, dizer também que está parado no tempo). E também um hotel confortável e muito caseiro, onde o pessoal (que não é nem é necessário que seja muito), é delicado, simpático e eficaz. É certo que, por exemplo, sentiu o viajante falta de um bar na piscina. Mas isso supriu-se porque espontaneamente o rapaz do salão de bar se ofereceu para levar lá uma caipirinha.
A verdade é que à Pousada não lhe faltam os confortos modernos. E, quem sabe, talvez venha um dia mesmo a ter os mais modernos, por exemplo Internet wi-fi. Mas estes últimos também não fazem falta, se o objectivo for repousar. E foi repouso que o viajante trouxe na memória. E trouxe ainda mais marcadas fantásticas imagens da sua varanda sobre a ria, quer ao nascer, quer ao pôr-do-sol. Ao dealbar da manhã, a ria ganha cores de fogo e energia forte, com o sol nascente, por detrás das serranias do Caramulo; ao fim do dia, o sol não se vê, porque se deita nas costas, para o lado do mar, por detrás do cordão dunar da Reserva Natural das Dunas de São Jacinto, mas sente-se no ar e na pintura rosa arroxeada que fica nas nuvens.
  A Pousada da Ria fica próximo de Aveiro, no concelho da Murtosa, na estrada que liga esta vila a São Jacinto, um pouco depois da praia da Torreira, no lugar conhecido com Bico do Muranzel. Demora-se um pouco a chegar, porque tem que contornar-se todo o norte da ria de Aveiro. O edifício está construído mesmo em cima da ria - as varandas dos quartos dão para a ria. Nas suas costas, fica a Reserva Natural das Dunas de São Jacinto, uma grande extensão costeira de dunas, com areais, bosques e lagoas, separando a ria do Atlântico.

quarta-feira, outubro 05, 2011

Nossa Senhora de Fátima, Ilha Maurício

  As imagens que acompanham estas notas do caderno de viagem, foram tiradas na Ilha Maurício, próximo do mar, na zona de Petite Riviére Noire.
Depois de uma curva da estrada, por entre mangueiras carregadas de mangas, deparou-se o viajante com uma tosca casa, com uma cruz alta ao lado. Na cruz, uma placa denotando francês (a língua mais falada na ilha, a seguir ao crioulo) dizia “N.D. de FATIMA”.
  Não sem surpresa parou o viajante e pode concluir que esta pequena e tosca igreja da beira da estrada, construída em madeira e coberta com folhas de cana secas era efectivamente dedicada à Virgem de Fátima. Mais que um edifício, a igreja é um telheiro, aberto de um dos lados. Os bancos onde os fiéis se sentam já ficam fora desta espécie de cabana. Na extremidade da espécie de adro da igreja, num nicho, há uma imagem de Nossa Senhora de Fátima.
  Segui o viajante a sua jornada sem que tenha conseguido, nas redondezas, encontrar quem explicasse a razão de ser desta igreja. Na ilha Maurício, no Oceano Índico, um terço da população é católica. Partilha a ilha com hindus, tamiles e muçulmanos. Os católicos encontram-se predominantemente entre os crioulos.