sexta-feira, fevereiro 03, 2012

Argentina

O viajante já não é pessoa para se aborrecer com as contrariedades da jornada. Mas confessa que, se há coisas que o tiram do sério, são cartas de vinhos como esta, de um restaurante muito fancy em El Calafate, Patagónia.

domingo, janeiro 15, 2012

Rotorua, Nova Zelândia

  Tem o viajante alguma curiosidade por cidades termais, que tem visitado aqui e ali. Mas poucas o surpreenderam tanto como Rotorua, cidade que se arroga o título de capital termal da Nova Zelândia. Fica na Ilha Norte, a maior e mais povoada das ilhas do país dos kiwis, a um pouco mais de 200 quilómetros de Auckland.
Surpreendeu o viajante a quantidade de nascentes termais. Na verdade, a cidade está construída na beira de um lago (o Lago de Rotorua), que mais não é do que a cratera extinta de um antigo vulcão. Por isso, em qualquer lugar em que se abra um buraco no chão, nasce água quente, borbulhante. Aliás, espontaneamente, todos os dias nascem novas fontes de água quente, com grandes teores de bicarbonato e de sílica.
  Há nascentes termais por toda a cidade, mas na zona conhecida como campo termal (o Kuirau Park) há dúzias delas! Na prática, são buracos no chão – alguns deles, com dezenas de metros de diâmetro, que formam fumarolas e piscinas naturais de água borbulhante. Chegou o viajante a Rotorua numa manhã fresca de inverno e o espectáculo foi impressionante: o vapor da água quente que se formava no ar frio dava à terra – em particular às nascentes –, um ar místico, de outro mundo.
  Há outras nascentes termais, nas redondezas, estão em geral associadas a géisers. Próximo, fica o parque termal de Whakarewarewa, onde é possível ver um temperamental géiser, cuja erupção acontece 10 a 25 vezes por dia. Muito mais certinho é um famoso, na zona, Geyser Lady Knox, um pouco mais distante da cidade, cujo jorro chega a 20 metros de altura e cuja erupção acontece todos os dias às 10:15 minutos. Em ponto!
  A zona tornou-se um destino termal a partir do fim do século XIX, acompanhando e copiado o modelo termal da Europa na época. Foi para o efeito construída uma casa para banhos, promenades, um coreto, uma casa de chá e as fontes termais foram rodeadas de jardins. Já em 1908 foi construída um enorme palacete, para casa de banhos, nos Government Gardens. Esse palacete eduardiano ainda existe, mas está agora remodelado como museu. Mais tarde, em 1931, foi aberto um novo complexo de banhos, com piscinas. Este complexo (o Blue Baths Complex) tinha não apenas em vista permitir o uso da água termal como tratamento, mas sobretudo possibilitar banhos de laser. O edifício está também remodelado e funciona com a sua missão original, como piscina de charme.
  Sentiu o viajante que Rotorua é um bom destino de férias de verão, já que podem desenvolver-se aqui imensas actividades de ar livre, de montanha e de lago. Mas é também conhecida por ser uma das regiões da Nova Zelândia onde melhor sobrevive a cultura maori. Um terço dos habitantes da região são de origem maori  - em toda a Nova Zelândia não são mais de 15 por cento. Viu o viajante algumas casas comunais maori, de reunião dos chefes de família, embora lhe parecessem muito modernas. São edifícios simples, que parecem tendas canadianas. Os seus elementos decorativos principais são as esculturas em madeira, que em geral representam os símbolos dos antepassados da tribo a que pertencem os ramos da família dona da casa.
De tudo ficou a impressão de uma Nova Zelândia profunda, alheia aos clichés dos fiordes e das montanhas nevadas, mas muito autêntica, na assunção da herança da colonização britânica, mas também na recuperação da quase extinta cultura dos maori, o primeiro povo que chegou às ilhas.

quarta-feira, janeiro 04, 2012

Varsóvia

É uma cidade de contrastes: convivem o antigo e o moderno, o muito comum e profundo sentimento religioso com as manifestações mais fúteis e materialistas do mundo actual, a herança comunista com os modernos edifícios de hotéis e bancos internacionais. Porém, são contrastes pacíficos, que coexistem tranquilamente, enquanto o país progride e se desenvolve a uma enorme velocidade. Bom exemplo é o antigo edifício do Partido Comunista polaco, no Rondo De Gaulle’a (cruzamento da Nowy Swiat com a avenida Jerozolimskie: depois da queda do regime comunista, o edifício ficou abandonado; veio a ser utilizado para sede da Bolsa de Valores (vade retro comunismo…) e depois passou a edifício de escritórios, ocupado com bancos e sociedades financeiras; no rés do chão abriram entretanto lojas de artigos de luxo (o stand Ferrari, por exemplo).
  O contraste é também grande entre as largas avenidas, ladeadas ainda em muito grande número por velhos e degradados prédios em estilo estalinista (cada vez mais substituídos por edifícios modernos, em vidro e aço) e as ruas mais estreitas da zona antiga, onde se sucedem os palacetes, palácios, edifícios nobres e igrejas. Nas zonas modernas, do centro, as distâncias são muito grandes e, mesmo sendo o viajante convicto caminhante, tornou-se necessário andar de transportes públicos. Pelo contrário, na cidade antiga, as distâncias são curtas, há zonas pedonais e é muito agradável passear.
  Calhou o viajante passar em Varsóvia com sol e a cidade revelou cores lindíssimas, nas fachadas maioritariamente barrocas dos bairros antigos. Trouxe na memória os magníficos palácios reconstruídos na segunda metade do século XX. Diz-se que 80 a 90 por cento de Varsóvia foi destruída no decurso da Segunda Guerra Mundial, sendo o núcleo antigo do centro reconstruído com o auxílio de pinturas e gravuras antigas. Viu o viajante na rua, em zonas mais turísticas, reproduções de detalhados óleo de Canaletto (Giovanni Canal, o pintor veneziano do século XVIII que se tornou famoso pelos pinturas representando Veneza).
  Não obstante, Varsóvia é actualmente uma cidade moderna, que vive menos do passado do que para o futuro. No presente, prepara-se o campeonato Europeu de futebol, do verão de 2012. Não obstante, sentiu o viajante que o Solidariedade (“Solidarnosc”), o antigo sindicato que, a partir de 1980 inspirou as movimentações sociais que culminariam com a queda do regime comunista, ainda está na memória de todos. Aliás, o seu logótipo inspirou directamente o símbolo da presidência polaca da União Europeia, que agora terminou.

quarta-feira, dezembro 28, 2011

Os portugueses no Luxemburgo

“Ó Horácio: há limas?” Foi isto que o viajante teve como resposta à pergunta que fez, depois de entrar no Hotel La Ville de Bruxelles, em Vianden, nos confins das Ardenas, no Luxemburgo. Logo ao passar a porta de entrada, tinha visto na parede um papel manuscrito onde se dizia “há caipirinha”. Em português, pediu uma. E o seu cálculo não foi errado, porque logo de seguida a empregada de mesa, com claro sotaque do nordeste transmontano, fez a pergunta ao rapaz moreno e baixo, de t-shirt de mangas cavas, que estava por detrás do balcão.
E sim, havia limas. “Sabe”, explicou a rapariga, “estive de congée e só voltei hoje e por isso não sabia se havia”. O que também havia era sopa de cenoura, abóbora e couve galega – aliás bastante melhor que a caipirinha. E só mais tarde o viajante reparou que na porta do bar estava pendurada uma bandeira portuguesa e que a ementa era bilingue: em português e francês. E também que a ementa era verdadeiramente de cozinha de fusão, com grande densidade de specialités portuguaises. Já depois de sair ficou com pena de não ter provado o croque monsieur de salpicão.

 Já ocorreram ao viajante várias outras histórias deste teor, quando tem passado pelo Luxemburgo. Foi o Café Chaves, na estrada de saída da cidade do Luxemburgo para o norte, ou o restaurante Bom Petisco II – Chez Cândido e Cristina, em Echternach. Ou ainda o anúncio que dizia haver “castanhas de Carrazedo de Montenegro” no Mini-Market de Bereldange. É bem sabido que neste pequeno país do centro da Europa, cerca de 100 mil dos 400 mil habitantes são portugueses ou descendentes de portugueses. Há muitas associações e colectividades lusas que, mais intensamente que em qualquer outro destino da diáspora, mantém vivos os laços a Portugal.
Mas nalguns casos vão mesmo mais longe: estão mesmo a mudar a face e a alma do Luxemburgo: não esquece o viajante Clervaux, no norte, encostada às Ardenas; nesta graciosa vilória, na tranquilidade de um domingo de manhã, ouviu o viajante o carrilhão da igreja a dar as horas e, não sem espanto, reconheceu a treze de Maio, na Cova da Iria...

terça-feira, dezembro 20, 2011

Nova Zelândia – os antípodas próximos

  Literalmente do outro lado do mundo, geográfica e fisicamente, a Nova Zelândia é o país que fica mais distante de Portugal. Não obstante, encontrou lá o viajante um familiar porto de abrigo, do lado de lá da imensidão das culturas asiáticas e oceânicas que têm que se atravessar até lá chegar.
Apesar do seu tamanho enorme – tem 270 mil quilómetros quadrados, o que equivale, mais ou menos, ao tamanho das ilhas britânicas –, a Nova Zelândia é um dos países mais isolados do globo. A próxima massa de terra (a Austrália) fica a 1600 km de distância de mar austral e navegação difícil. Além disso, geologicamente, as ilhas são novas: têm origem vulcânica e bem pode dizer-se que ainda estão em construção.
 Desta juventude geológica resultou que, verdadeiramente, fosse das últimas terra do mundo a ser ocupadas e colonizada por humanos. Sabe-se que os seus primeiros ocupantes (o povo maori, originário das ilhas polinésias de Tonga e Samoa), apenas chegaram aqui há cerca de 1000 anos. Os europeus, por seu lado, chegaram no século XVII – o holandês Abel Tasman passou por aqui em 1642, mas não chegou a desembarcar, porque alguns dos seus marinheiros, que o fizeram, logo foram mortos em confronto com maoris. E só 100 anos depois o lendário Capitão James Cook desembarcou e tomou posse das ilhas. Politicamente, o estatuto da Nova Zelândia ficou resolvido quando, em 1840, a Inglaterra celebrou com os chefes das tribos locais o tratado de Waitangi, hoje em dia considerado o documento fundador do país. Desde essa altura, chegaram às ilhas muitos colonos ingleses e escoceses, cujos descendentes, ainda actualmente, compõem a maior parte dos mais de 4 milhões de habitantes
  Este espírito britânico, com um toque mais solto e colonial, sente-se aliás na Nova Zelândia, que é um país muito civilizado, com grandes preocupações sociais. Aliás, foi o primeiro do mundo a, em 1893, permitir o voto universal às senhoras. Por outro lado, tem ensino primário obrigatório e gratuito desde 1877. Após 1939, passou a contar com um sistema de segurança social especialmente vocacionado para os cuidados de saúde e as pensões de reforma – foi também o primeiro país do mundo a tê-lo.
 Passou o viajante, em trânsito, pela ilha norte, que das duas maiores da Nova Zelândia é a mais povoada. Talvez por ser menos inóspita, dizem, porque a terra dos fiordes e das neves, dos vales selvagens e despovoados é a ilha sul. Portanto, não teve o viajante a visão de cliché do país, porque apenas apercebeu a parte “mais normal” e vulgar, menos exótica. Pelo contrário, viu muitas vacas e muitos carneiros. E também campos e quintas, muito arranjadas, à inglesa. E pequenas vilas, com uma rua central, com lojas, e igrejas de madeira e telhados pontiagudos
  Mas também se surpreendeu com campos termais, porque a Nova Zelândia é um país geologicamente activo e instável. Recorda o viajante Rotorua, a cidade termal, cujas dezenas de nascentes são enormes buracos onde fumega água borbulhante e sulfurosa. É também na ilha norte que fica Auckland, a cidade maior e mais cosmopolita do país, onde se fundem culturas. Aqui vivem um quarto dos habitantes da Nova Zelândia, que aqui se misturam com emigrados de todo o sudoeste asiático e do Pacífico.

segunda-feira, dezembro 12, 2011

El Calafate, Patagónia, Argentina

  Calhou ao viajante passar em El Calafate, a caminho para o glaciar Perito Moreno, no Parque Nacional de Los Glaciares, na Patagónia, no sul da Argentina. Esta desconhecida terriola, com apenas algumas dezenas de anos, surgida quando surgiu o interesse na visita aos glaciares, está em pujante expansão. Não há muito, era apenas um lugarejo – pouco mais que uma quinta, como outras quintas ganadeiras que há na região. Actualmente, há aqui hotéis para todos os gostos e preços, restaurantes, bares, agências de viagens, bancos e imensas lojas, sobretudo de equipamento de montanha e para caminhar.
  O nome da terra é o mesmo de um arbusto baixo e espinhoso que cresce em grande abundância pela estepe e nas encostas das faldas dos Andes. Este arbusto modesto dá flores amarelas na primavera, que depois se transformam em bagas que parecem uvas. Tão emblemático como o calafate, são as lengas, árvores enormes, com estrutura parecida às das faias, onde crescem folhas carnudas, de tonalidade verde clara. Povoam as encostas nevadas das zonas de mais altitude, tal como os nodos, outro arbusto, embora com mais envergadura que o calafate, que dá exuberantes flores vermelhas no fim da primavera.
  Ficou o viajante com a impressão de que o ambiente de El Calafate deverá ser parecido ao de uma antiga cidade do faroeste, que cresceu muito e depressa, sem grandes rasgos de ordenamento urbano – embora tenha uma estrutura viária moderna, geométrica. No centro, há muitas instalações comerciais, que vão desaparecendo quando se caminha para a periferia. É também na periferia que fica a maior parte dos hotéis. Apesar de a maior parte dos habitantes locais andar sempre de carro, é agradável passear por aqui, respirando o ar sempre fresco desta cidade quase no fim do mundo.
  Da cidade, não se pode dizer que tenha propriamente locais de interesse que mereçam visita. Mas há uma excepção: a cerca de dois quilómetros do centro, com acesso por caminhos de terra perfeitamente caminháveis, fica uma reserva municipal, na Laguna Nimez. É uma reserva natural próxima do Lago Argentino onde nidificam dezenas de espécies de aves. Esta foi, aliás, uma das surpresas do viajante em terras patagónicas: há um enorme número de aves por estas paragens, que vão e vêem, ao sabor das estações. Os flamingos, por exemplo. A entrada na reserva da Laguna Nimez é controlada na temporada alta. Mas o posto de orientação está fechado e a entrada é livre na temporada baixa (há uma placa que pede aos visitantes que tenham cuidado com as espécies nidificantes e recomenda alguns comportamentos).
  l Calafate tem aeroporto, a cerca de vinte quilómetros. É um aeroporto novo e moderno, onde chegam meia dúzia de aviões por dia, 3 a 4 dos quais de Buenos Aires – os restantes, ligam El Calafate a Rio Gallegos, capital da província. Por estrada, Buenos Aires dista 2800 quilómetros. Ouviu o viajante dizer que a viagem é penosa, por estradas nem sempre boas. Também por estrada se chega a Rio Gallegos, a 300 km. Tudo visto, na prática, a terra é apenas usada como base para a visita aos glaciares (em particular ao Perito Moreno) e o resto é acessório. Porém, partem daqui outras excursões muito interessantes, a outros glaciares (em particular ao glaciar Uppsala, o maior da América do Sul), a El Chaltén, a capital argentina do trekking (nas imediações do pico Fitz Roy) ou ainda ao parque chileno de Torres del Paine.

quinta-feira, dezembro 01, 2011

Florença, Itália


A subida para a cúpula da Catedral de Santa Maria dei Fiore faz-se por uma íngreme e escura escada em caracol. Ao longo dela, os tradicionais escribas destes sítios, herdeiros dos homens das cavernas, mantêm viva a arte rupestre, assim perpetuando as pegadas dos seus membros anteriores na pedra daquele monumento.
Pelos visto, já por lá passaram o Carlos e também a Cármen e o Agostinho, de “Ançã, Portugal”.

segunda-feira, novembro 28, 2011

Casa-Museu Madre Teresa, Skopje, Macedónia

 Ficou conhecida como Madre Teresa de Calcutá e teve, a partir do meio da sua vida, cidadania indiana (e também cidadania honorária norte-americana). Mas nasceu em Skopje, filha de pais albaneses e chamava-se Agnes Gonxha Bojaxhiu. A sua Memorial House (http://www.memorialhouseofmotherteresa.org) fica na principal avenida da capital – a Rua Macedónia, em tempos Rua Tito, uma artéria pedonal, no centro comercial da cidade. Está aberta das 9:00 às 20:00 (ao fim-de-semana fecha às 14:00). Nalguns dias da semana tem serviço religioso, na capela. Tudo é de entrada livre.
Curiosamente, mas não por acaso, a localização do edifício é a mesma onde em tempos existiu uma velha igreja católica, dedicada ao Sagrado Coração de Jesus, onde Agnes Gonxha foi baptizada, um dia depois de ter nascido, a 27 de Agosto de 1910. Também era esta a igreja onde vinha regularmente, na sua prática católica, enquanto viveu na Macedónia.
É interessante perceber que um museu dedicado a Madre Teresa, católica, tenha tanta popularidade num país meio ortodoxo, meio muçulmano. Aliás, foi criado com fundos públicos e no primeiro ano após a sua abertura, em 2009, registou 80 mil visitantes.
  Da visita, a impressão com que ficou o viajante foi a de que a figura de Madre Teresa de Calcutá, galardoada com o prémio Nobel da Paz em 1979, é a mais considerada cidadã de Skopje, apesar de ter saído da cidade para Dublin com apenas 18 anos, para se juntar às Irmãs do Loreto, uma congregação de religiosas irlandesas. Depois de deixar Skopje, Agnes Gonxha Bojaxhiu adoptou o nome de Teresa, em homenagem a Santa Teresa de Lisieux, padroeiras de missionárias. Em 1928 foi para a Índia, onde viria a fundar a Congregação das Missionárias da Caridade, actualmente com mais de 5000 membros em 130 países.
E nunca mais voltou a viver na Macedónia, que apenas voltou a visitar em 1970, na sequência do horrível tremor de terra que arrasou a cidade, em 1978, em 1980, altura em que foi declarada cidadã honorária da cidade (ainda no tempo de domínio dos comunistas jugoslavos) e em 1986, quando já sopravam os ventos da Perestroika e lhe foi permitido lançar as bases de instalação, aqui, de um delegação das Missionárias da Caridade.
O edifício da Memorial House integra um espaço museológico, reproduzindo uma casa macedónia do início do século XX. Além disso, uma pequena capela, de paredes de vidros quebrados. Nela, simbolicamente – assim o assumiu o viajante -, uma imagem de Nossa Senhora de Fátima.

sexta-feira, novembro 25, 2011

A aventura do açúcar na ilha Maurício

  Quando os holandeses ocuparam a ilha Maurício, no fim do século XVI (quase um século depois de a ilha ter sido descoberta pelos portugueses), introduziram o cultivo da cana do açúcar. A cana encontrou aqui um clima óptimo e os solos vulcânicos, nunca antes agricultados, eram riquíssimos.
  Pouco depois, as plantações de cana do açúcar estendiam-se a toda a ilha, multiplicando-se as unidades de extracção (a que os portugueses do Brasil colonial chamavam “engenhos”).
  Em breve toda a economia da Maurício dependia deste produto.
Nos tempos mais recentemente, a queda dos preços nos mercados internacionais fragilizou o sector, que tem vindo a reconverter-se, sob pena de ter que cessar a actividade.
Há já muitas fábricas fechadas, sendo a sua antiga produção canalizada para outras, que ainda vão sobrevivendo.
  Vem isto a propósito de uma visita turística (na ilha, turístico, mais turístico, não há…) que o viajante fez à velha fábrica de açúcar Beau Plan, agora convertida em museu de açúcar e centro de interpretação da actividade. Embora esta experiência (www.aventuredusucre.com) seja tipicamente (exclusivamente…) para turistas, foi muito interessante, dando a conhecer ao viajante a história do cultivo da cana, relacionando-a com a história da Maurício, bem como todo o processo, desde o cultivo da cana até ao açúcar final. Sem esquecer, claro, o rum, o mais famoso produto secundário da cana. Achou o viajante interessante provar diferentes tipos de açúcar, de entre os 15 que actualmente se fabricam.
  A fábrica Beau Plan, onde fica a Aventure du Sucre, fica a 15 quilómetros a norte de Port Louis, capital da Maurício, tendo acesso directo por estrada. Está aberta todos os dias, das 9 às 17 horas. Nas instalações há restaurante, onde se pode almoçar.

quarta-feira, novembro 16, 2011

Auckland, Nova Zelândia

  Visitar grandes cidades do hemisfério sul supõe um espírito diferente. Assim é, por exemplo, porque são cidades que nem sempre têm um centro e muito menos um centro histórico, já que a generalidade delas se localiza em países com uma muito recente história. Por outro lado, são normalmente terras onde os visitantes e turistas são mais seduzidos pelo que podem fazer do que pelo que podem ver: isto é, as actividades de laser são mais atractivas do que os locais a visitar.
Também acontece assim com Auckland, a maior cidade da Nova Zelândia, onde as duas coisas mais interessantes sugeridas aos turistas são os passeios marítimos em super lanchas rápidas, nas baías da zona e subir à torre das telecomunicações, para saltar de lá para baixo, com a técnica do bungy jumping.
  Apesar desse espírito – e de não lhe apetecerem emoções fortes –, dispôs-se o viajante a desfrutar da maior e mais importante cidade da ilha norte da Nova Zelândia. Auckland tem 1 milhão e duzentos mil habitantes, que são um quarto da população de todo país. Além disso, é também porto de abrigo para uma multidão de imigrantes de todo o sudoeste asiático e do Pacífico. Aliás, tem tanta população de nativos das ilhas do Pacífico que se diz que é a maior cidade polinésia do mundo! Esta diversidade populacional dá-lhe uma enorme diversidade cultural – tem uma enorme densidade de restaurantes étnicos e, pelas ruas, é bem visível este cadinho de culturas.
  Achou o viajante que Auckland é uma cidade enorme, muito espalhada no terreno, que apenas tem uma grande densidade de ocupação do território na downtown, em particular na zona do chamado Water Front. Esta antiga zona portuária, onde ficam a meia dúzia de edifícios históricos da cidade, foi recuperada recentemente e constitui agora o centro de todo o núcleo urbano. Por aqui há lojas, restaurantes e bares para todos os gostos. É também local de passeio, se estiver bom tempo. E muito agradável, por sinal.
É aqui que fica o edifício da antiga estação do ferry, construído em 1912, em estilo eduardiano, em tijolos, pedra de calcário e granito local. Em frente, começa a agitada Queen’s Street, coração comercial da cidade. Ao lado, o Museu Marítimo, em frente do qual está exposto o veleiro neozelandês que ganhou a America’s Cup.
  Fica também próximo, a quinze minutos de caminhada (mas a subir muito, porque esta cidade tem uma geografia muitíssimo irregular), a Sky Tower. É um edifício original, em forma de torre de comunicações e que, efectivamente, tem como objectivo principal servir de suporte a telecomunicações. Tem 328 metros de altura e dizem ser o edifício mais alto do hemisfério sul. Abriu ao público em 1997, porque nos andares superiores tem varandas de observação e restaurantes. É aqui que se desenvolvem algumas das actividades radicais – pode saltar-se daqui em salto controlado.
 
Porém, dois locais, em particular, ficaram na memória do viajante: um deles, foi o Museu de Auckland, inesperado na sua modernidade e riqueza. O outro, foi o igualmente inesperado Albert Park, um perfeito jardim inglês, apesar de ficar numa cidade do novo mundo e do hemisfério sul. Fica numa colina alta da cidade, de onde se pode perceber a skyline da zona baixa e não falta aqui, até, uma estátua da Rainha Vitória.
Auckland fica a uma enorme distância de Portugal. A melhor forma de voar para aqui é via Londres, com a Air New Zealand e, dependendo da escala (que pode ser Los Angeles ou Hong Kong), o tempo de voo variará entre 21 e 26 horas.

sexta-feira, novembro 11, 2011

Samoa, o Pacífico diferente

  No coração da Polinésia, as ilhas Samoa gostam de ostentar uma história que dizem ter 3 mil anos. Diz-se que, juntamente com Tonga, o país insular mais próximo, é aqui que está a origem de toda a civilização polinésia: foi aqui que se estabeleceram os povos pré-históricos que criaram a cultura polinésia e daqui se expandiram para todo o Pacífico: entre outros, para o Havai e para a Nova Zelândia (a cultura maori teve origem aqui).
  Esta cultura sedimentou-se muito, porque os europeus chegaram cá muito tarde: os primeiros, terão sido navegadores holandeses, que vinham à procura de baleias e que aportaram Samoa em 1722. Cem anos depois chegaram os primeiros missionários cristãos, que pouco tempo depois tinham evangelizado completamente as ilhas. Em termos políticos, Samoa foi governada pelos seus chefes tradicionais até 1899. Nessa data passou a ser um protectorado alemão e assim se manteve até à Iª Guerra, no decurso da qual passou para o domínio da Nova Zelândia, que governou as ilhas até à independência em 1962 – Samoa foi a primeira das modernas nações do Pacífico a conquistar a independência, no século XX.
  É um país fora de rota, muito longe da Europa, onde por isso é difícil ir (sem se perder pelo caminho, o viajante demorou 52 horas a chegar). Fica a 3000 mil quilómetros da Nova Zelândia, a sua antiga potência colonial e ainda hoje o seu grande parceiro externo, na política e nos negócios. Este isolamento tem dificultado movimentos migratórios para as ilhas – ao contrário, muitos samoanos procuram trabalho fora, sobretudo na Nova Zelândia. Por isso, ainda hoje a maioria da população é autóctone.
  Chegou o viajante às ilhas sem ter ainda a clara noção com que depois ficou de que a distância e o isolamento impediram a chagada a Samoa de muitas das comodidades do turismo moderno. Na verdade, este destino não é para aqueles para quem Pacífico Sul significa um hotel de 5 estrelas, com piscina em cima da praia, onde se servem bebidas com uma espécie de guarda-chuva dentro. Pelo contrário, em Samoa há muito poucos hotéis e todos eles de perfil modesto. Mesmo os melhores hotéis das ilhas não ombreiam com os padrões internacionais. Sentiu o viajante também falta de outras estruturas, para quem não for backpacker.
  Esta modéstia do país corresponde ao perfil da população. Muito poucos deixam de seguir os hábitos e as rotinas locais: a vida é muito descontraída, sem pressa e simples. Toda a gente usa roupa muito leve e havaianas. Mesmo! Até em ambiente de trabalho. Além disso, quase todos usam aquela espécie de saia, a meio caminho do pareo brasileiro, a que chamam lava-lava. Nota-se que gostam deste trajo insular e até fazem questão de o usar. E isso (notou-o bem o viajante), é transversal a toda a sociedade. Aliás, a sociedade é verdadeiramente uma sociedade sem classes e sem grandes fossos económicos, também.
Os samoanos são muito amigáveis. Percebe o viajante a sedução que terão sentido os marinheiros europeus do século XIX que andaram pelos mares do sul: as raparigas polinésias, apesar de não serem das mais graciosas nem das mais elegantes, são muito simpáticas. Na rua, ao cruzarem-se com estrangeiros, cumprimentam sempre e de muito boa vontade estabelecem diálogo.
 
Não obstante, esta sociedade isolada do Pacífico tem uma estrutura muito fortemente aldeã. Vive ainda hoje numa estrutura social e desenvolve um efectivo modo de vida muito tradicional. O governo diário destas comunidades é também feito da forma tradicional, que só é possível por o país ter apenas 180 mil habitantes. A base estrutural da vida é a família alargada, que se pretende que seja o maior possível, para ser mais poderosa no contexto da aldeia. Em Samoa há 362 aldeias e 18000 chefes de família alargada (aos quais cabe a tarefa de representar a família no conselho da aldeia que, por sua vez, gere esta). Note-se que há apenas uma década que os membros do parlamento deixaram de ser designados por estes conselhos de aldeia, para serem eleitos por sufrágio universal.
 Por outro lado, mais de 80 por cento dos samoanos são cristãos praticantes. Em cada aldeia há uma ou mais igrejas onde todos, sem excepção, vão à missa ao domingo de manhã. Observou o viajante que este ritual se cumpre com muito rigor, até na forma muito aperaltada como todos se vestem. E depois, é também tradicional haver um almoço familiar, rico e com muita comida – nessas alturas come-se taro, um vegetal que cozido parece batata, fruta-pão, outro vegetal que se come grelhado nas brasas, mas também pode ser cozido ou frito em rodelas, como se fossem batatas fritas e muitos pratos preparados com coco – reteve o viajante um atum fresco e cru, marinado em leite de coco, sumo de limão, pimentos e cebola