domingo, janeiro 15, 2012

Rotorua, Nova Zelândia

  Tem o viajante alguma curiosidade por cidades termais, que tem visitado aqui e ali. Mas poucas o surpreenderam tanto como Rotorua, cidade que se arroga o título de capital termal da Nova Zelândia. Fica na Ilha Norte, a maior e mais povoada das ilhas do país dos kiwis, a um pouco mais de 200 quilómetros de Auckland.
Surpreendeu o viajante a quantidade de nascentes termais. Na verdade, a cidade está construída na beira de um lago (o Lago de Rotorua), que mais não é do que a cratera extinta de um antigo vulcão. Por isso, em qualquer lugar em que se abra um buraco no chão, nasce água quente, borbulhante. Aliás, espontaneamente, todos os dias nascem novas fontes de água quente, com grandes teores de bicarbonato e de sílica.
  Há nascentes termais por toda a cidade, mas na zona conhecida como campo termal (o Kuirau Park) há dúzias delas! Na prática, são buracos no chão – alguns deles, com dezenas de metros de diâmetro, que formam fumarolas e piscinas naturais de água borbulhante. Chegou o viajante a Rotorua numa manhã fresca de inverno e o espectáculo foi impressionante: o vapor da água quente que se formava no ar frio dava à terra – em particular às nascentes –, um ar místico, de outro mundo.
  Há outras nascentes termais, nas redondezas, estão em geral associadas a géisers. Próximo, fica o parque termal de Whakarewarewa, onde é possível ver um temperamental géiser, cuja erupção acontece 10 a 25 vezes por dia. Muito mais certinho é um famoso, na zona, Geyser Lady Knox, um pouco mais distante da cidade, cujo jorro chega a 20 metros de altura e cuja erupção acontece todos os dias às 10:15 minutos. Em ponto!
  A zona tornou-se um destino termal a partir do fim do século XIX, acompanhando e copiado o modelo termal da Europa na época. Foi para o efeito construída uma casa para banhos, promenades, um coreto, uma casa de chá e as fontes termais foram rodeadas de jardins. Já em 1908 foi construída um enorme palacete, para casa de banhos, nos Government Gardens. Esse palacete eduardiano ainda existe, mas está agora remodelado como museu. Mais tarde, em 1931, foi aberto um novo complexo de banhos, com piscinas. Este complexo (o Blue Baths Complex) tinha não apenas em vista permitir o uso da água termal como tratamento, mas sobretudo possibilitar banhos de laser. O edifício está também remodelado e funciona com a sua missão original, como piscina de charme.
  Sentiu o viajante que Rotorua é um bom destino de férias de verão, já que podem desenvolver-se aqui imensas actividades de ar livre, de montanha e de lago. Mas é também conhecida por ser uma das regiões da Nova Zelândia onde melhor sobrevive a cultura maori. Um terço dos habitantes da região são de origem maori  - em toda a Nova Zelândia não são mais de 15 por cento. Viu o viajante algumas casas comunais maori, de reunião dos chefes de família, embora lhe parecessem muito modernas. São edifícios simples, que parecem tendas canadianas. Os seus elementos decorativos principais são as esculturas em madeira, que em geral representam os símbolos dos antepassados da tribo a que pertencem os ramos da família dona da casa.
De tudo ficou a impressão de uma Nova Zelândia profunda, alheia aos clichés dos fiordes e das montanhas nevadas, mas muito autêntica, na assunção da herança da colonização britânica, mas também na recuperação da quase extinta cultura dos maori, o primeiro povo que chegou às ilhas.

quarta-feira, janeiro 04, 2012

Varsóvia

É uma cidade de contrastes: convivem o antigo e o moderno, o muito comum e profundo sentimento religioso com as manifestações mais fúteis e materialistas do mundo actual, a herança comunista com os modernos edifícios de hotéis e bancos internacionais. Porém, são contrastes pacíficos, que coexistem tranquilamente, enquanto o país progride e se desenvolve a uma enorme velocidade. Bom exemplo é o antigo edifício do Partido Comunista polaco, no Rondo De Gaulle’a (cruzamento da Nowy Swiat com a avenida Jerozolimskie: depois da queda do regime comunista, o edifício ficou abandonado; veio a ser utilizado para sede da Bolsa de Valores (vade retro comunismo…) e depois passou a edifício de escritórios, ocupado com bancos e sociedades financeiras; no rés do chão abriram entretanto lojas de artigos de luxo (o stand Ferrari, por exemplo).
  O contraste é também grande entre as largas avenidas, ladeadas ainda em muito grande número por velhos e degradados prédios em estilo estalinista (cada vez mais substituídos por edifícios modernos, em vidro e aço) e as ruas mais estreitas da zona antiga, onde se sucedem os palacetes, palácios, edifícios nobres e igrejas. Nas zonas modernas, do centro, as distâncias são muito grandes e, mesmo sendo o viajante convicto caminhante, tornou-se necessário andar de transportes públicos. Pelo contrário, na cidade antiga, as distâncias são curtas, há zonas pedonais e é muito agradável passear.
  Calhou o viajante passar em Varsóvia com sol e a cidade revelou cores lindíssimas, nas fachadas maioritariamente barrocas dos bairros antigos. Trouxe na memória os magníficos palácios reconstruídos na segunda metade do século XX. Diz-se que 80 a 90 por cento de Varsóvia foi destruída no decurso da Segunda Guerra Mundial, sendo o núcleo antigo do centro reconstruído com o auxílio de pinturas e gravuras antigas. Viu o viajante na rua, em zonas mais turísticas, reproduções de detalhados óleo de Canaletto (Giovanni Canal, o pintor veneziano do século XVIII que se tornou famoso pelos pinturas representando Veneza).
  Não obstante, Varsóvia é actualmente uma cidade moderna, que vive menos do passado do que para o futuro. No presente, prepara-se o campeonato Europeu de futebol, do verão de 2012. Não obstante, sentiu o viajante que o Solidariedade (“Solidarnosc”), o antigo sindicato que, a partir de 1980 inspirou as movimentações sociais que culminariam com a queda do regime comunista, ainda está na memória de todos. Aliás, o seu logótipo inspirou directamente o símbolo da presidência polaca da União Europeia, que agora terminou.