quarta-feira, setembro 10, 2014

Pristina, Kosovo

 
O Kosovo não é, certamente, um destino turístico preferencial. Os viajantes que aqui passam, se vêm para visitar o país, é porque gostam, com certeza, de fugir dos trilhos habituais. Porém, apesar de não passarem por aqui muitos turistas, circulam pelo país muitos estrangeiros, das mais diversas origem: militares de todo o mundo, integrantes da força militar da ONU (os capacetes azuis da KFOR) e funcionários de agências internacionais, que aqui se instalaram para apoiar a reconstrução do Kosovo, após a guerra de 1999.

 
Os estrangeiros são agora menos do que eram em 2006, quando por aqui passou o viajante pela primeira vez. Nessa altura, sentia-se uma num país saído de um conflito militar, a limpar os escombros das bombas e à procura de ar fresco para respirar, entre a pressão das agências que administravam a ajuda internacional, omnipresentes, e as forças coercivas internacionais, igualmente omnipresentes.

 
Sentiu-se o viajante numa colónia, onde os colonos, que falavam estrangeiro e tinham muito dinheiro, criavam à população local a necessidade de responder a solicitações, ao mesmo tempo que criavam a oportunidade de negócio que essas solicitações representavam. Mais recentemente, encontrou o viajante um país maior, já emancipado. As oportunidades foram aproveitadas e já não se percebe tanta fragilidade no tecido económico do país. Pristina é uma cidade ativa, apesar do seu ar provinciano. Circulam pela cidade muitos camponeses e habitantes de pequenas cidades dos arredores, que aqui vêm vender coisas.

 
Dos escombros da guerra, os habitantes locais têm procurado reconstruir um país, copiando e cultivando o aspeto “ocidentalizado” e internacional. Assim acontece quanto à forma como se comportam e com a sua roupa, com o aspeto dos edifícios ou das lojas, que alinham pelos parâmetros globais, de coca-cola e macdonals (por sinal, o Kosovo foi daqueles poucos raros locais onde o viajante não encontrou McDonald’s – na vizinha Macedónia havia um, mas falso, contrafeito).

 
Um dos ícones mais fotografados da nova capital deste país que unilateralmente se declarou independente é um \enorme conjunto de letras, em frente do Palácio dos Desportos construído no tempo da Jugoslávia, a formar a palavra “NEWBORN”. Foram aqui colocadas aquando da independência, para celebrar o nascimento do Kosovo independente e sublinhar a sua identidade nacional, que aliás se vê reafirmada em muitos outros sítios. No entanto, é curioso que em muitas casas e pequenas oficinas ainda predomina a bandeira albanesa, como acontecia no passado.

 
Mas Pristina é também uma cidade agitada. Como em qualquer outra paragem do sul da Europa, ao fim da tarde, as ruas mais centrais enchem-se de miudagem animada que volta das escolas e de gente adulta que volta do trabalho. Na avenida Madre Teresa, que em parte é pedonal, há muitas lojas e quiosques. Sinal dos tempos, viu o viajante numa banca de livros uma compilação, em albanês, de anedotas sobre o antigo presidente e ditador Josip Tito. Percebe-se que, em geral, quem anda pelas ruas está muito preocupado com o seu aspeto. Mas respira-se ambiente de bairro de subúrbio, sem sofisticação. Abundam os automóveis alterados, de escapes ruidosos e pinturas originais, circulando com a música muito alta.

 
A capital do Kosovo, com os seus 200 mil habitantes, não é propriamente uma cidade turística: tem duas ou três referências nos guias: algumas mesquitas antigas, uma ou duas igrejas ortodoxas (estava em construção uma nova catedral católica), um pequeno museu sobre a história local e dois ou três edifícios do tempo do regime jugoslavo socialista (em particular o estranho edifício de cobertura de redes metálicas da Biblioteca da Universidade). É daqueles sítios que não se visitaria se não houvesse uma outra razão, que não a visita à cidade, para o fazer. Além disso, fica fora de mão e é servida por muito poucas companhias de aviação.


quarta-feira, agosto 13, 2014

Liubliana, Eslovénia

Chegou o viajante a Liubliana com uma grande expetativa, criada pelas múltiplas chamadas de atenção que os media têm feitos para esta cidade dos Alpes do sul, a caminho do Adriático. Não é que tenha regressado desapontado, mas também não trouxe da pequena capital eslovena a excitação que encontrou noutros lugares.
Esta novel capital é, talvez, em todo o caso, a mais bonita de todas as que emergiram no universo da antiga Jugoslávia – Belgrado será um caso à parte. É uma cidade aconchegada, percorrível a pé, com uma zona antiga, de raiz medieval, separada pelo pequeno rio Ljubljanica da zona mais moderna de traça urbana germânica.
A capital da Eslovénia é uma cidade pequena e caseira, com a qual rapidamente nos sentimos familiares. Aterrou o viajante no aeroporto da capital, encaixado no verde e branco das montanhas calcárias, a fazer lembrar os aeródromos dos livros do Tintim. Não tinha plano de transfer para a cidade e já era noite. Mesmo sendo fim-de-semana, não foi difícil arranjar boleia num dos autocarritos que fazem o percurso de cerca de meia hora. O que não sabia nessa altura, era que estes minibuses fazem o percurso a pedido, pelas casas de quem faz reserva: até chegar ao hotel teve o viajante oportunidade de visitar vários bairros periféricos da cidade.
Quanto a visitas, os guias acabam por ser redundantes: há muito que ver, mas há sobretudo dois locais imprescindíveis: o castelo e a Praça Preseren.
O castelo de Liubliana fica num morro sobranceiro à cidade. Sobe-se bem a pé, por caminhos florestados. Ou então, pelo funicular moderno, envidraçado, que parte da base, em plena zona histórica (próximo da Praça Vodnikov). O funicular é a melhor opção para subir: galgam-se os 70 metros de pendente em escassos minutos; a melhor opção para descer é vir a pé (pode levar 15 a 20 minutos), por entre veredas verdes.
Lá em cima, além da fortaleza, ela mesma, e das lojas e restaurantes, vale a pena a vista, sobre a cidade.
Porém, mais que do castelo, gostou o viajante de deambular pelas ruas de calçada antiga, na base do morro da fortaleza, naquela que será, porventura, a zona mais antiga da cidade. Nestas ruas e praças, casas com mais que dois séculos alojam restaurantes e lojas gourmets, lojas alternativas ou de design, que se enquadram no ambiente. Deste conjunto fazem parte três ruas, embora com nome oficial de praças: a Mestni, a Ciril – Metodov e a Vodnikov. Por sua vez, a rua Stritarjeva desemboca na Praça Preseren (que tem o nome do mais renomeado poeta nacional France Prešeren). É aqui que fica a conhecida ponte tripla, o coração da cidade, para onde tudo flui e donde tudo parte. A praça é marcada por um dos ícones fotográficos de Liubliana: a fachada cor de salmão da Igreja da Anunciação, mas também por outros diversos edifícios do século XIX. O ambiente, por sua vez, é animado pelos muitos bares e restaurantes, sobretudo aqueles que se estendem ao longo do rio Ljubljanica.
Liubliana é uma cidade interessante que, embora capital, tem ambiente provinciano, mas claramente aberto para a modernidade.

sábado, julho 13, 2013

Castelo de Noudar, Barrancos, Portugal

  Já há poucos paraísos destes em Portugal. Noudar é daqueles sítios onde o viajante sentiu estar num lugar distante, sem stress nem poluição, onde ainda é possível gozar de alguma quietude, na serenidade campestre. O castelo fica longe e o acesso é difícil. A distância têm-no preservado das hordas de turistas e outros visitantes domingueiros que vão invadindo os highlights do Alentejo, como que colecionando cromos.
Barrancos, em si mesmo, é já um enclave, encaixado dentro da linha de fronteira com Espanha. Aliás, os seus ícones locais são meio-andaluzes: touradas de morte e produtos derivados do porco preto. É também o município com menos população em Portugal (apenas 1800 habitantes), se não se considerar o município do Corvo, nos Açores (que tem somente 430 habitantes).
Chegar ao castelo de Noudar, a partir de Barrancos, ainda supõe percorrer cerca de mais 10 quilómetros de estrada rural, nem sempre pavimentada, atravessando montados de azinheiras e um que outro sobreiro ou carrasco. Pelo caminho (e em toda a zona), teve o viajante a ventura de encontrar passarada e pequenos carnívoros. Mencionam os guias saca-rabos, doninhas, javalis, veados, gatos-bravos, lontras, texugos, coelhos bravos e lebres. Contentou-se o viajante com uma raposita e deixou os linces para quem sabe. Passarada, essa sim: muita e variada.
  O castelo, propriamente, fica num morro alto e escarpado, numa zona isolada, muito longe da próxima povoação. Lá no fundo da ravina, caudaloso no inverno e quase seco no verão, corre o rio Ardila, separando Portugal de Espanha. Em cima da escarpa, dominando o horizonte, fica o antigo castelo, bastante arruinado (em virtude deste estado de ruina está oficialmente fechado, mas é possível visitá-lo pela porta das traseiras, que foi vandalizada). São poucas as fontes de informação sobre este monumento. Mas não será difícil reconstruir aqui uma história de castelo de fronteira, com origem no fossado, contra os mouros. E depois, ao longo da Idade Média, um bastião de defesa da fronteira nacional, para fazer face à ameaça espanhola. O resto intui-se: os castelos medievais sucumbiram com o advento da artilharia e da guerra moderna. E ficaram abandonados quando o país pacificou e passou a ganhar a vida de outra forma. 
  A fortaleza fica integrada no chamado Parque de Natureza de Noudar, onde fica também o Monte da Coitadinha, um hotel rural muito simpático e confortável, embora a puxar para o carote. Será, talvez, dos locais de pernoita mais isolados e remotos do país, no meio do montado. À noite, a ausência de povoados e iluminação pública nas redondezas propiciou um céu estrelado lindo.
De Lisboa a Noudar são cerca de 250 quilómetros. Até Évora, o percurso é fácil e conhecido. Depois, é necessário prosseguir para Reguengos de Monsaraz e Mourão, na direção de Amareleja. Nesta típica terra alentejana, que detém vários records de temperatura máxima registada em Portugal, deriva-se para Barrancos, em cuja entrada se vira, por sua vez, para Noudar. A estrada é fraca, mas está sempre bem sinalizada.

quarta-feira, julho 10, 2013

Da Casa Branca a Cuba, de comboio

  Calhou ao viajante ter que ir, num destes tórridos dias de Julho, a Beja. Na previsão do tempo, viu estarem anunciados 38 graus, mas depois os termómetros acabaram por atingir 41. Coisa normal para o verão em Beja. Mas não é este o tema desta crónica. É que decidiu o viajante ir de comboio, que os tempos estão de crise e os combustíveis e portagens a preços incomportáveis.
E teve boas e más surpresas: boas, porque os comboios funcionam bem, a horas (apesar de haver poucos), sem congestionamento. Más, porque esses mesmos comboios são pouco amigáveis e dão pouca atenção a quem os usa.
Comboios sem bar ou, sequer, uma mísera máquina para comprar água. Estações desertas e sem serviço algum. Ficou o viajante com a memória na estação da Casa Branca, onde é necessário fazer o transbordo, deixando o confortável Intercidades de Évora para passar ao regional de Beja. Deserta, tórrida (e há-se ser gélida no inverno). Nem uma sombra, nem um bar onde beber algo fresco.
  E também ficou na memória com a arqueológica estação de Beja, velha e degradada, com todas as portas fechadas e um velho bar deserto, de luzes apagadas e janelas fechadas, para não entrar o calor.
Quanto aos comboios, são em geral confortáveis e a viagem faz-se bem. Cuba, é a última estação antes de Beja. Achou o viajante piada à associação com a Casa Branca.  

segunda-feira, julho 08, 2013

Monsaraz, Alentejo

Será o responsável por esta placa, porventura, admirador de automóveis? Na dúvida, não avançou o viajante, porque a sua viatura, nem de perto nem de longe, se pode apelidar de “bela máquina”.

domingo, junho 23, 2013

Lisboa, 23 de Junho de 2013

  Os jornais falavam de um interessante fenómeno astronómico, que apenas voltará a ocorrer dentro de 18 anos. Como o sabes, leitor, continua o viajante a emocionar-se com estes pequenos nadas; por isso, passou boa tarde do serão a viajar até à lua, sem sair da sua varanda citadina. Mas valeu a pena: a lua nasceu enorme e brilhante, como nos filmes de vampiros. Primeiro, apareceu baça, rechonchuda e alaranjada como um gigantesco queijo holandês; depois, tornou-se prateada e luminosa, subindo no céu e espalhando um intenso jorro de luz.
  O fenómeno é simples de explicar: por um lado, foi noite de lua cheia no dia do calendário a que corresponde menor período noturno. Ou dito de outra forma, a lua cheia ocorreu na noite mais curta do ano. Mas isso não é tudo nem o principal. É que a Lua descreve, em volta da Terra, uma rota elíptica, afastando-se e aproximando-se no nosso planeta. E esta lua cheia de 23 de Junho ocorreu num momento em que a Lua, por efeito da sua rota, atingiu o seu ponto mais próximo da Terra – cerca de 360 mil quilómetros.
Desta forma, diziam os astrónomos, a forma como se viu a Lua dava-lhe aparência de ter mais 14% do seu tamanho e de ter 30% mais brilho que quando está no ponto oposto (mais distante da Terra, a cerca de 405 mil quilómetros). Valeu a pena a observação – até porque, como explicaram também os astrónomos, por efeito de refração da atmosfera da Terra, quando se levanta na horizonte, a Lua parece muito maior do que quando está na vertical.

terça-feira, junho 18, 2013

Klingenthal, Alsácia, França

  A primeira impressão revelou uma pequena e pacata aldeia, na beira de uma estrada secundária, a caminho da montanha. Congratulou-se o viajante por ter trazido, para este recanto dos Vosges, a meia hora de Estrasburgo, com que se entreter. Alguma leitura depois, percebeu o viajante ter encontrado mais um daqueles sítios que foram importantíssimos num certo período histórico, mas já não o são, porque a razão específica daquele protagonismo deixou de existir.
Klingenthal é hoje em dia uma terreola pequena, de talvez uma ou duas centenas de habitantes. Apenas um ou dois dos seus edifícios se destacam, apesar de o conjunto da terra ter o charme habitual dos pequenos povoados franceses: entorno de arvoredo frondoso, ruas muito bem pavimentadas e arranjadas, casas antigas, mas em regra cuidadas. E vasos de flores por todo o lado.
Olhando o viajante com mais cuidado, conseguiu descobrir as memórias do tempo em que neste lugarejo existia uma enorme indústria de produção de armas brancas. O nome Klingenthal significa em alemão “o vale das lâminas” (e, recorde-se, a Alsácia saltitou, durante a história, entre a França e a Alemanha, guardando ainda muita herança das várias dominações germânicas). Este núcleo industrial, que floresceu durante os séculos XVIII e XIX, incluiu a Fábrica Real de Armas Brancas da Alsácia, também conhecida por Fábrica de Klingenthal. Aqui se implementou a produção em grande escala de armas, que desde o início do século XVIII abasteceu muitos dos exércitos europeus da época – incluindo, naturalmente, o Exército Real Francês.
O local foi escolhido por ficar num vale estreito, atravessado por um rio de abundante água, que garantia a energia para fazer funcionar os engenhos; por outro lado, as densas florestas das redondezas garantiam madeira para as casas e, sobretudo, para fabricar o carvão necessário às forjas. Além disso, Estrasburgo e o Reno não ficam longe e era portanto fácil criar canais de escoamento das armas.
  Esta fábrica foi criada em resultado das políticas de expansão industrial de Colbert, que instaurou várias Fábricas Reais que, além do título, tinham alguns privilégios. Também por isso, acabou por cair em declínio, quando as políticas mudaram - sobretudo, com o fim da monarquia, na Revolução. Em meados do século XIX deixou de ser Real e passou a ser propriedade privada. Deixou de fabricar espadas e sabres e passou a produzir utensílios agrícolas (sobretudo foices). Mais de um século depois, em 1962, as oficinas fecharam as portas.
Não se emocionou o viajante com o que descobriu destes tempos dourados de Klingenthal. Mas sempre foi tomando nota de algumas das antigas instalações. E ainda do pequeno museu local, que reúne um espólio especificamente dedicado ao passado industrial, exposto na Maison de la Manfacture, que fica no centro da aldeia.
De resto, valeu a pena a tranquilidade do lugar. No sopé das encostas verdejantes dos Vosges, propiciou agradáveis passeios pelos bosques e tempo descansado. Klingenthal tem uma pequena brasserie e um restaurante. Além disso, tem um típico hotel (Hotel des Vosges), modesto e familiar, mas confortável. A aldeia fica no coração da Alsácia. Vindo de carro, demora-se cerca de meia a partir de Estrasburgo. Ruma-se ao sul e deixa-se a auto-estrada na direcção de Obernai – daqui a Klingenthal são 5 quilómetros de estrada rural muito bonita.

terça-feira, junho 11, 2013

Braga, Portugal

Tem o viajante alguma dificuldade em sentir empatia com Braga. A cidade é bonita e a sua gente simpática e acolhedora. A riqueza monumental impressiona. Mas falta-lhe um num sei quê para a tornar atraente. Parece faltar um pouco de charme à sua malha urbana – talvez algo que desse mais harmonia ao enorme conjunto, um pouco desconexo, dos monumentos do centro urbano. A verdade é que alguns destes monumentais edifícios, sobretudo os religiosos, são deslumbrantes, mas o contexto nem sempre afina pela mesma nota.
Quanto à sua gente, é muito calorosa e acolhedora. Revela logo, ao primeiro contacto, uma extroversão descomplexadamente provinciana. Os bracarenses circulam pela sua cidade descontraídos e descuidados; ou então, atarefados, a trabalhar ou a comprar coisas nas lojas tradicionais da Rua do Souto.
Ao contrário do que dizia o chavão do Estado Novo, a Braga moderna já não reza, enquanto Coimbra estuda e Lisboa manda. Tal como o Porto, a Braga do século XXI trabalha. E foi o trabalho que transformou esta histórica cidade sueva, de rico passado, mas que se foi degradando com a emergência das cidades do litoral, de novo numa grande urbe, pujante e dinâmica.
 Braga tem origem romana – no tempo do império era a importante cidade de Bracara Augusta. Com a chegada dos bárbaros, foi ocupada pelos Suevos que, no século V, fizeram da cidade a capital do seu reino. Depois, vieram os visigodos e, de seguida, os ocupantes muçulmanos. O resto da sua história acompanha a história-pátria. 
Para lá das ruínas desses tempos, o que de mais visível a história deu a Braga vem do período barroco: a cidade foi muito próspera entre os séculos XVI a XVIII e foram construídas nesse período muitas igrejas barrocas. Esta presença religiosa é uma constante nas ruas da terra – diz-se que Braga tem uma igreja para cada dia do ano.
 
Desde a época da Reconquista cristã que aqui tem sede um Arcebispado.
É na Sé, com origem nesse tempo, que mais sente o viajante o carácter da cidade. Nem é tanto pelos ícones históricos e artísticos – vem a memória, a propósito, a imagem da Senhora do Leite, nas traseiras da cabeceira da Sé, que se julga ter sido escupida por Nicolau Chanterene. É que esta antiga Sé é uma igreja que evoluiu e soube chegar, com vida, ao presente.
Braga é, para o viajante, uma cidade de sempre: não recorda na infância a primeira visita e, com toda a certeza, voltará com frequência. E se te incomoda, leitor, o viajante, com este prescindível detalhe pessoal, é para que compreendas porque não consegue sentir empatia com uma terra pela qual sente tanta simpatia. A velha Bracara Augusta é uma cidade que rebenta pelas costuras da zona velha. Cresceu imenso e organizou-se modernamente a partir da velha Rodovia, que ainda há pouco era moderna. Como se fosse uma daquelas explosivas metrópoles do sudoeste asiático, a cidade transformou bairros que o viajante viu surgir, em zonas antigas. Pulverizou velhas quintas, dos arredores, transformando-as em urbanizações. Inventou, finalmente, a Universidade, nos campos de Gualtar, dando desta forma o toque final na transformação da velha cidade de província, onde se andava a pé e se ia ao café para encontrar os amigos e conhecidos. No lugar dela renasceu uma cidade vibrante, que surge frequentemente nos media europeus, por via do seu clube de futebol. E de todo o lado chegaram estudantes, que procuram marcar o passo com o resto do mundo.

quarta-feira, setembro 05, 2012

As "winelands" da África do Sul

 Há muito que o viajante se habituou a ver vinhos sul-africanos nas prateleiras dos supermercados. E, além disso, quando em viagem, a prová-los, porque são dos mais expandidos por todo o mundo – e, quanto ao preço, dos mais abordáveis, também.
Calhou entretanto passar pela Província do Cabo, na África do Sul e visitar Stellenbosch, o coração da produção vinícola daquele país austral. Foi aí que provou os vinhos feitos de pinotage, uma especificidade sul-africana. Esta casta, que não se produz em mais local nenhum do mundo, foi “inventada” na década de 1920, pelo professor de agronomia Abraham Perold, professor na Universidade Africânder de Stellenbosch, por via do cruzamento de pinot noir e de cinsault (que nesta e noutras latitudes é também chamada hermitage). O vinho que produz é quente e envolvente, mas de efeito curto, porque em geral se esvai rapidamente. Apesar disso, em geral os vinhos de pinotage são picantes e adstringentes, a dar algum corpo a um travo apimentado, a fazer lembrar terra vermelha.
De certa forma, o pinotage tornou-se um símbolo da viticultura sul-africana – todos os anos se realiza um concurso nacional para apurar o melhor de entre eles. Mas os vinhos sul-africanos não se limitam ao pinotage: produzem-se também brancos, em geral ligeiros e vinhos de sobremesa – uma espécie de clones de vinho do Porto. Mas, em tinto, produz-se sobretudo vinho de shiraz e cabernet sauvignon. Quanto a este último, vem sobretudo de Stellenbosch, onde se planta há 350 anos.
Na região há muitas adegas (calcula-se haver cerca de 300 produtores), a maior parte das quais preparadas para receber visitas, recebendo sempre com simpatia quem passa. Prova-se vinho e pode comprar-se também. Em geral, quando são visitados por estrangeiros, oferecem-se para mandar entregar o vinho em casa, pelo correio. Estas visitas são, para quem vai da Europa, uma experiência engraçada, porque as estações do ano estão viradas do avesso: a vindima faz-se em Fevereiro ou Março e o vinho está pronto para provas no nosso Outono. 

sábado, setembro 01, 2012

Kruja, Albânia

 Fez o viajante uma breve romagem a Kruja, a cerca de 30 quilómetros a norte de Tirana, capital da Albânia, com o intuito de descobrir a verdadeira essência deste país, noutros tempos chamado das águias. Pelo caminho, dizia-lhe o motorista que o conduzia, que o clube de futebol local, o Kruja FC (ou equivalente, em albanês…), era muito forte na sua “casa”, um estádio minúsculo, encaixado na encosta, que de estádio só tem o nome – é certo que é um campo relvado e cercado até, com algumas bancadas em cimento. E o Kruja joga na primeira liga albanesa.
 De Kruja, sabia o viajante que é uma pequena cidade encavalitada nas montanhas e que foi escolhida por Skanderbeg (George Kastrioti, que viveu entre 1405 e 1468), o herói nacional albanês, para aqui se instalar e construir o seu castelo. Foi em Kruja que se declarou a independência da Albânia (na época dominada pelos turcos), pela mão de Skanderbeg e foi este príncipe guerreiro que comandou os independentistas na defesa contra três invasões do exército turco. Os otomanos pretendiam reconquistar a Albânia e cercaram, por três vezes a cidade, sem sucesso. Um quarto cerco, após a morte do príncipe albanês, acabou por ditar a derrota dos nacionalistas e a submissão da Albânia, de novo, ao império turco. Mas a semente da independência estava lançada e veio a germinar séculos depois.
A terra é dos últimos locais da Albânia onde ainda se encontram vestígios do que pode ter sido o antigo bazar turco (no tempo do domínio dos otomanos todas as cidades teriam um, mas a política do regime comunista, ferozmente contrária ao cultivo da história, levou à destruição de todos os vestígios do passado).
A viagem, partindo de carro de Tirana, demora quase uma hora. As estradas são más, por vezes esburacadas e estreitas. A partir de certa altura, o percurso é muito sinuoso. Kruja fica a meio da encosta da montanha, próximo do Parque Nacional Monte Dajti, num cenário que fez o viajante recordar os livros do Tintim nos Balcãs: morros escarpados, de pedras calcárias, muito brancas, bordadas de verde da vegetação rasteira. Por aqui não abundam as árvores. O que já não evoca o bucolismo dos livros de Hergé é o ambiente suburbano da cidade moderna. Como toda a Albânia, Kruja está atascada de prédios quase arruinados, construídos no tempo do regime comunista. São edifícios todos iguais e parecem estar todos deploravelmente degradados, com varandas a cair e fachadas com os tijolos à mostra. 
 Ultrapassada esta primeira impressão, encontrou o viajante um pequeno núcleo histórico, muito pouco frequentado, no antigo bazar turco que, em rampa, dá acesso à zona da fortaleza de Skanderbeg. Neste bazar vendem-se quinquilharias, latoarias, artesanato em madeira de oliveira e memorabilia do antigo regime albanês. Na verdade, nada que mereça comprar-se.
Também o castelo causa alguma desilusão. Está num morro rodeado de muralhas, razoavelmente reconstruídas. Dentro delas, uma torre solitária evoca a memória do lutador pela independência e identidade albanesa. Um pouco abaixo, na encosta, um museu etnográfico, instalado numa antiga casa de família rica, com aspecto de não ter sofrido grandes alterações nos últimos 50 anos.
No meio, um monólito meio modernaço, meio tradicional, aqui esparramado em meados do século XX, para homenagear Skanderbeg – no seu interior fica o seu museu. O projecto, revivalista, é da autoria da filha do ditador comunista Enver Hodxa.

Além da evocação histórica, a visita valeu também pela paisagem: de um lado, as escarpadas montanhas cársicas, mais ou menos virgens e preservadas; lá no fundo, como que visto de uma varanda elevada, o mar Adriático. Mais a sul, na neblina, o grande núcleo urbano de Tirana. 

quinta-feira, julho 05, 2012

Berat, Albânia

 Chegou o viajante a Berat com a expectativa com que chega sempre a um local declarado património da humanidade pela UNESCO (na Albânia apenas há dois sítios assim declarados; o outro é a cidade de Gjirokastra, no sul). É verdade que a visita a Berat foi interessante, mas também o é que não foi das mais empolgantes.
A Albânia não é um país turístico, mas Berat é sempre sublinhada quanto se pretende visitar o país. E, diga-se, merece-o, porque tanto quanto logrou perceber o viajante, é uma das cidades mais interessantes deste país balcânico. Para isso terá contribuído a circunstância de, a título excepcional, ter sido declarada há décadas, durante o regime comunista, como “cidade museu”. Por isso, salvou-se da destruição total a que foi submetido a herança histórica do país, durante o regime de Enver Hodxa, em nome da construção de uma nova e moderna Albânia.
 Berat é “vendida” aos escassos turistas que vão à Albânia como a cidade das mil janelas. De facto, é cortada ao meio por um rio (o Osum) e, do lado de lá, no bairro cristão de Gorica, aninhado na encosta, fica um fantástico bairro de casas com vários séculos, construída no período otomano, que parecem estar construídas umas em cima das outras, encaixadas como numa construção Lego. As duas características que marcam todas estas casas são a cor branca e o grande número de janelas, todas de grandes dimensões, que rasgam as fachadas. O efeito visual, visto este bairro do outro lado do rio, é muito bonito. Menos bonito é o rio, sempre de águas sujas e, como muitos dos rios do pais, cheio de sacos e de embalagens de plástico, a boiar ou encalhados nas margens. Mas não é só no bairro de Gorica que existem casas do período otomano: há-as também do lado muçulmano do rio, nas encostas da fortaleza e também dentro desta.
 A antiga fortaleza, do século XIV, domina a cidade. Está construída num morro elevado, sobranceiro ao rio. Só ela, faz valer a pena visitar Berat. É uma enorme cidadela, sobranceira à cidade moderna, onde ainda vive gente, em casas antigas e tradicionais, presentemente a serem recuperadas com ajuda financeira da União Europeia. Ao longe, vêm-se as altíssimas cadeias montanhosas que marcam a orografia do interior albanês. Reteve o viajante o ambiente bucólico, da velha fortificação e a harmonia clara, de branco baço, dos muros de calcário, ainda em processo de restauro. Sentiu-se transportado para um tempo em que estes monumentos antigos eram meras ruínas abandonadas, sem utilidade a não ser a de inspirarem histórias romanescas. Esta fortaleza fez-lhe lembrar o estado e a forma como se encontravam os castelos portugueses há trinta ou quarenta anos.
  No século III AC, o território daquilo que agora é a Albânia era ocupado e dominado pelos Ilírios, o povo indo-europeu que foi antepassado de Albaneses e Kosovares. Terão sido os primeiros a estabelecer-se aqui. Mais tarde, Berat fez parte do império romano do oriente e por isso esteve sob o domínio de Bizâncio a partir do século V da nossa era – nessa época, a cidade era de tal maneira importante que estava completamente rodeada de muralhas. Depois, Berat passou pelo domínio búlgaro e mais tarde sérvio, a partir do século XIV. Mas foi por pouco tempo, porque em meados do século XV veio a ser ocupada pelos turcos, que aqui ficaram até ao início do século XIX.
Esta passagem constante e sucessiva de diversos povos explica a variedade de construções da fortaleza de Berat, onde ainda existem ruínas de uma mesquita, uma igreja ortodoxa do século XIV e várias outras construções. Aliás, o mesmo acontece no resto da cidade.
 Na Albânia não são frequentes os circuitos turísticos organizados. Em geral, quem vem por cá, em viagem, está por sua conta. De Tirana, a capital do país, a Berat não chegam a ser 150 quilómetros. Mas levou o viajante, de carro, quase três horas. Fê-lo por estradas esburacadas, estreitas e mal (ou nada…) sinalizadas, mas com trânsito muito intenso. Há transportes públicos alternativos, que poderão fazer o mesmo percurso em cinco ou seis horas – circulam por aqui autocarros antigos, comprados na Europa ocidental em segunda mão.