domingo, novembro 18, 2007

Rio de Janeiro

É incontornável. É uma referência para todo o viajante. Da cidade, disse Le Corbusier que os morros, as praias e as baías e enseadas têm uma geografia tão perfeita que nunca será superada por nenhum arquitecto. Tinha o bem conhecido arquitecto suíço em mente, senão em vista, o morro da Urca, o Corcovado e o Pão de Açúcar, enquadrados por Ipanema e por Copacabana.
O nome Rio de Janeiro foi-lhe dado por Américo Vespúcio, o florentino piloto-mor de Gonçalo Coelho, comandante da esquadra portuguesa que aqui chegou a 1 de Janeiro de 1502. Ficou como Rio porque era uma foz aquilo que os navegadores julgavam ter encontrado ao chegar à entrada da baía da Guanabara.

Desde então, o Rio passou por tudo: foi abrigo de piratas, porto de escoamento do ouro e da chegada dos escravos, magnífica cidade imperial, onde a corte metropolitana haveria de exilar-se. Foi entretanto capital do Brasil, entre 1640 e 1960, data em que o presidente Juscelino Kubischek transferiu oficialmente a capital para Brasília. Já no século XX, entre artistas de todo o mundo tornou-se moda ir ao Rio. A cidade era exuberante e descontraída. Foi a descontracção que atraiu os foragidos da justiça que aqui acorreram, em busca de sol. Tornou-se muito conhecido o caso dos criminosos de guerra nazis. Porém, o mais romântico dos exilados que aqui acabou por ser encontrado foi Ronald Biggs, o famoso inglês que assaltou o comboio-correio de Glasgow.
Rio de Janeiro é também a cidade onde vivem os mais ricos brasileiros e é, talvez, também aquela onde vivem mais pobres – e os mais pobres. Para mal de todos, a cidade tornou-se símbolo da violência desumana e indiscriminada.

Com a mente a recordar as imagens de “A cidade de Deus”, chegou o viajante ao Rio vindo de outra cidade do Brasil e a leitura das primeiras páginas dos jornais do avião revelou-lhe que só no dia anterior tinha ocorrido na cidade maravilhosa um tiroteio entre a polícia e “bandidos” que tinham acabado de assaltar vários veículos automóveis numa via rápida, um assassinato a sangue frio de um vigilante de uma loja e um assalto a todos os passageiros de um “ônibus” a caminho de uma favela, os quais ficaram despojados de tudo com excepção, nalguns casos, da roupa interior – só nalguns casos; noutros nem esta sobrou. Passeou o viajante com algum medo a sua máquina fotográfica. Acabou por perceber que a violência é sobretudo uma realidade dos morros e das chamadas vias expressas, em particular em horas mais tardias. Percebeu nessa altura porque a auto-estrada que seguiu do aeroporto para o hotel tinha muitos carros patrulha da Polícia Militar estacionados nas bermas.

Mas não foi essa a imagem que ficou. Ficou antes a fotografia de corpos cuidados, a apanhar sol em Ipanema, ao som de músicos ambulantes, que prescindem da moeda com simpatia e saúdam se o viajante lhes disser que não dá nada porque a vida está difícil. Ficou o sabor da inigualável frescura da água de coco, sorvida do próprio fruto, acabado de abrir a golpe de facalhão, na beira da praia. Ficou também a descontracção e a simpatia dos cariocas, que facilmente conversam com o vizinho de corrida, ao longo do calçadão de Copacabana como se o conhecessem de toda a vida.

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