quarta-feira, maio 28, 2008

Sarajevo, (ainda) cidade ferida

Teve o viajante dificuldade em recuperar da sua memória uma cidade com um percurso tão difícil como o de Sarajevo. Desde a antiguidade, a zona da capital da Bósnia foi zona de conflitos: por aqui passou a fronteira que dividiu os impérios romanos do Oriente e do Ocidente. Este detalhe veio a definir, quando o Império do Oriente foi ocupado pelos turcos, o limite máximo da expansão do islamismo na Europa. Esta expansão foi, talvez, a maior marca de fricção que a história deixou para as gerações modernas. Ainda hoje passa por aqui o conflito religioso mais aceso da Europa.
Mais tarde, após a passagem por aqui dos turcos, em 1908 o império austro-húngaro ocupou a Bósnia-Herzegovina. Pouco depois, em 28 de Junho de 1914, um bósnio de etnia sérvia, de Sarajevo, assassinou, a tiro, o Arquiduque Francisco Fernando, herdeiro dos Haugsburgos, imperadores austríacos. Este foi o motivo imediato invocado pela Áustria para declarar guerra á Sérvia e, com isto, despoletar a Grande Guerra, mais tarde conhecida por Iª Guerra Mundial. Desde esse tiro, na entrada para a rude Ponte Latina, nas margens do rio Miljacka, não mais a Bósnia teve paz e liberdade, em simultâneo, até á fase de tranquila tensa que vive hoje.

O território passou a ser uma das repúblicas da federação da Jugoslávia, após a II Guerra Mundial. Quando a Jugoslávia se desmantelou, no início da década de 1990, houve por aqui eleições livres – as primeiras – em Novembro de 1990. Logo então a parte sérvia da população se manifestou contra as partes croata e muçulmana (estas últimas queriam que o país se tornasse independente, como uma nação multiétnica). A independência foi declarada em 15 de Outubro de 1991. Apesar disso, o partido sérvio decidiu formar o seu próprio governo em Pale, a 20km de Sarajevo. Mais tarde, transferiu-se para Banja Luka, onde ainda agora funciona a governo da República Sérvia, uma das duas entidades que compõe a moderna Federação da Bósnia-Herzegovina (a outra é o Distrito Bósnio).

Duas marcas reteve o viajante da sua chegada a Sarajevo. Uma, muito intensa, ficou logo na chegada ao hotel. Abrindo a porta da varanda, foi surpreendido pelos orifícios de dois balásios, que atravessaram o gradeamento. Mais tarde, percorrendo a cidade, viu o viajante muitos outros vestígios dramáticos de guerra urbana. Chamaram-lhe particularmente a atenção os buracos de balas na torre da velha igreja ortodoxa. A outra marca foi a da omnipresença que sentiu de templos e sinais religiosos. Em cada esquina se encontra uma igreja católica, ou uma igreja ortodoxa, ou até mesmo uma sinagoga. Em todo o lado se avistam as torres esguias e elegantes das mesquitas, aqui construídas “à turca”. As religiões, marcas distintivas e agregadora de cada uma das comunidades locais, parecem ter sido ao longo da história desviadas para motivo de conflito entre essas comunidades. Mas este tema fica para outro registo.

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