terça-feira, novembro 18, 2008

Areópago, Atenas

O viajante - sabe-lo bem, leitor -, tem levado os seus cadernos mais por caminhos que por estradas e mais por estradas que auto-estradas. Nas cidades, tem relatado mais o que descobriu nos capítulos finais dos guias turísticos e menos o que vem nas capas. Tem o viajante cá as suas coisas.
Talvez tenha sido essa a razão que, em Atenas, o levou a abandonar a fila imensa, de centenas de pessoas, que pretendiam comprar o bilhete de entrada na Acrópole. Optou o viajante por descer a colina, não mais que cem metros, até à rocha do Areópago. É um morro calcário, de dimensão modesta. Sobe-se a ele por uma escada gasta e polida, podendo também usar-se uma escada metálica, colocada para turistas que optem pela segurança. Lá em cima, não há nada. Apenas a vista (fantástica, aliás) sobre Atenas, com os seus cinco milhões de habitantes. E mais de vinte e cinco séculos de história.

O Areópago era na antiga Atenas, no tempo de Sólon, na génese da democracia (século VI AC) o local de reunião da assembleia dos aristocratas, que democraticamente comandava os destinos da cidade. Com o tempo, as funções desta assembleia passaram a ser, sobretudo, de tribunal. A tragédia grega diz que foram aqui julgados os dramáticos assassinatos da mitologia e do teatro, das histórias de mortes de filhos por pais, ou de mães por filhos. O Areópago foi, portanto, a sede do mais antigo tribunal criminal do mundo antigo de que hoje se tem notícia. Dele, no topo da rocha, nada resta, além destes mais de vinte e cinco séculos de história.

Com muita pena, teve o viajante alguma dificuldade em captar esta atmosfera no local, enxameado de turistas orientais e de adolescentes do norte da Europa em viagens de finalistas, os primeiros muito ocupados com a captação de instantâneos, os segundos concentrados nas músicas dos seus leitores de MP3.
Na base do rochedo, uma placa de bronze anota outro marco importante: reproduz o livro dos Actos dos Apóstolos (capítulo 17,versículos 22 a 32), na parte em que nele se descreve o discurso de São Paulo aos atenienses: “levaram-no até ao Areópago e disseram-lhe: «podemos saber que nova doutrina é essa que ensinas? O que nos dizes é muito estranho e gostaríamos de saber o que isso quer dizer».Ora, tanto os atenienses como os estrangeiros residentes em Atenas não passavam o tempo noutra coisa senão a dizer ou a escutar as últimas novidades”. Paulo passou em Atenas, no ano 51 depois de Cristo, no percurso de Tessalónica para Corinto.

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