quarta-feira, fevereiro 11, 2009

O aeroporto de Paris encerrou

Calhou ao viajante, neste Inverno rigoroso, ficar impedido de voltar a casa e perder um voo, por os aeroportos de Paris terem sido encerrados, por causa do mau tempo, a 9 de Fevereiro de 2009.
Na ocasião, não deixou o viajante de recordar o mau tempo na epopeia, narrada por Eça de Queirós, da viagem de Jacinto e do seu amigo Zé Fernandes, de Paris para o Douro, de comboio, através de Espanha (A Cidade e as Serras). Recordou o viajante a terrível tempestade que se abateu sobre o percurso ferroviário e, em particular, sobre Medina del Campo, a qual atrasou o comboio de Paris e por pouco não fez perder aos nossos heróis o comboio de Portugal. Quem o perdeu foi o fiel e dedicado Grilo, criado de Jacinto, que com eles viajava, transportando todas as suas 23 malas.
Sem malas chegou Jacinto, o Príncipe da Grã-Ventura, à estação de Tormes, tendo como única bagagem uma bengala e um exemplar, já lido, do “Jornal do Comércio”.

Ainda a propósito, anotou o viajante o caótico balanço das viagens de Zé Fernandes: “viajei; trinta e quatro vezes, à pressa, desfiz e refiz a mala. Onze vezes passei o dia num vagão, envolto em poeirada e fumo, sufocado, a escorrer suor. Catorze vezes subi, derreadamente, a escadaria desconhecida de um hotel; e espalhei o olhar incerto por um quarto desconhecido; e estranhei uma cama desconhecida, donde me erguia, estremunhado, para pedir, em línguas desconhecidas, um café com leite que sabia a fava. Perdi uma chapeleira, quinze lenços, três ceroulas e duas botas, uma branca e outra envernizada, ambas do pé direito. Percorri, com pé respeitoso e abafado, vinte e nove catedrais. Trilhei molemente, com uma dor surda na nuca, em catorze museus, cento e quarenta salas…. Gastei seis mil francos. Tinha viajado!” (A Cidade e as Serras, Eça de Queirós, Ed. Livros do Brasil, página 102)

No episódio da segunda-feira passada, em Paris, a sorte do viajante foi melhor. Conseguiu voo para casa na tarde do dia seguinte, jantou tranquilamente um entrecôte numa brasserie de Saint Germain-des-Prés e a parte menos interessante foi ter que contentar-se com um hotelzito de esquina no Quartier Latin.

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