domingo, abril 05, 2009

A Suíça e os suíços

Desde há muito que o viajante se vem deslumbrando com a Suíça, a sua organização e arrumação, a sua disciplina e limpeza. Além disso, é uma constatação objectiva a de que o país é fantástico: é bem evidente a generosidade do Criador com este povo, ao escolher para ele as paisagens que aqui colocou. Sendo organizado e economicamente muito sólido, o país também tem das mais bonitas paisagens do mundo. Porém, não há bela sem senão. E a simpatia que o viajante sente pela Suíça só tem igual na antipatia que sente pelos suíços. É verdade que tem sido sempre tratado com muita educação sempre que calha passar por território helvético. No entanto, vem sempre o viajante com a impressão de que os suíços são gente fechada, opaca e muito cinzenta.

Gente muito cinzenta, de rosto inexpressivo e incaracterístico, que mesmo noutras paragens pode o viajante reconhecer. Os suíços são cinzentos no corpo e na alma. Não exteriorizam, em geral, as suas emoções ou sentimentos. Talvez sejam assim porque o seu país é tão perfeito e compostinho. Porque nele tudo funciona bem e é para ser o que é. Ocorre citar, a este propósito o Grande Eça, descrevendo a idílica ilha da deusa Calipso, onde se perdeu Ulisses: “o problema é que tudo é perfeito”, “o irreparável e supremo mal está na perfeição” (“Ulisses”, in Contos de Eça de Queirós).
Como consolação, evoca o viajante os incontornáveis símbolos helvéticos, encabeçados pelo Matterhorn, ou Monte Cervino, nas imediações de Zermatt. Esta esbelta montanha, inspiradora do Toblerone, cuja imagem se reproduz nas caixas dos lápis de cor Caran d’Ache e também da imagem genérica dos filmes da Paramount Pictures, emparelha em importância iconográfica com a igualmente célebre edelweiss (Leontopodium Alpinum), a carnuda e nobre florzinha branca dos Alpes, imortalizada por Julie Andrews em “Música no Coração” e descrita mais tarde por Goscinny e Uderzo, em “Asterix na Helvetia”.Ainda como consolação, tem o viajante verificado que os aviões suíços são os únicos de cujas janelas se podem tirar fotografias: estão limpas.

1 comentário:

Luís Maria Barroso disse...

"No entanto, vem sempre o viajante com a impressão de que os suíços são gente fechada, opaca e muito cinzenta." Não podia estar mais de acordo... através dos vários contactos que tive. Mas não há regra sem excepção!!!