sexta-feira, agosto 27, 2010

O Egipto e os egípcios

Do Egipto tinha o viajante a imagem, das aulas de História, de um país de agricultores que viviam nas margens do Nilo, criando riqueza para que o faraó pudesse mandar construir templos e pirâmides onde vinha a ser venerado e sepultado. Verificou que ainda actualmente se trata de um país de agricultores, mas que uma boa parte destes, no decurso do século XX, descobriu a vida urbana e migrou, sobretudo para o Cairo, que se tornou uma megalópole, poluída e caótica, com perto de vinte milhões de habitantes.
Apesar disso, o riquíssimo vale do Nilo continua a ser cultivado, tal como o era há 50 séculos. Esta estreita faixa de terra das margens do grande rio, onde chegam as cheias que tornam a terra fértil (ou chegavam, já que actualmente o caudal está regularizado, precisamente para evitar cheias) é a única zona cultivável do país – todo o restante território é absolutamente desértico.

Os egípcios são muito conservadores. Teve o viajante oportunidade de observar como, num determinado serviço público, no Cairo, todos os funcionários eram homens. Apenas havia por ali meia dúzia de senhoras, com tarefas de secretariado e de relações públicas com o estrangeiro (porque falavam línguas estrangeiras…) e todas elas, sem excepção, usavam roupa larga (de modo a disfarçar-lhes as formas do corpo) e lenço na cabeça (o célebre hijáb). Talvez fosse, pensou o viajante, por causa dos ensinamentos oficiais que se aprendem nas madraças (o texto que segue pode ser consultado em http://ptislam.webnode.com, uma espécie de página não oficial da Comunidade Islâmica em Portugal) “é necessário que as mulheres se cubram, baixem os olhares e guardem a modéstia na sua interacção com os homens com os quais elas não tenham parentesco, de acordo com as normas islâmicas. A vestimenta da mulher deve cobrir todo o corpo, excepto a face, as mãos (palmas e dedos) e os pés. O cabelo não deve ser exposto, pois o Islão considera-o metade da beleza da mulher. (…). Se colocarmos carne fresca à disposição, sem qualquer cobertura, e os cães comerem-na, a culpa será dos animais ou da carne destapada? É óbvio que o problema estará na carne destapada, pois se a mesma estivesse constantemente tapada, nada disso teria acontecido. Da mesma forma, se a mulher cobrir convenientemente o seu corpo, assim como ditam as regras do Hijáb, e demonstrar a sua modéstia, muitos desastres e imoralidades poderão ser evitados”.
Embora o Egipto seja habitualmente considerado um país islâmico moderado e moderno, o Islão é, segundo a Constituição, a religião oficial do Estado – apesar de 10 por cento da população ser cristã copta. O Cairo é uma das tradicionais cidades das Mil e Uma Noites e é na cidade que fica a escola corânica da Mesquita de Al-Azhar, a mais antiga madraça de todas, criada em 970 d.C.. Al-Azhar é também a mais antiga universidade do mundo, sendo igualmente a mais respeitada pelos muçulmanos sunitas de todo o mundo.
Recordou o viajante por estas terras que Maomé, o Profeta da revelação islâmica, teve um número não determinado de esposas. Sabe-se que na última década da sua vida terá casado com pelo menos dez. É oficial a explicação islâmica de que foi ao casar-se com a última delas que o Profeta teve a revelação pela qual um homem não deve ter mais que quatro esposas, a menos que tenha posses para sustentar todas elas e os respectivos filhos. E a este propósito recordou também o viajante aquilo que foi uma verdadeira antecipação histórica deste postulado islâmico da nossa era, que terá sido feita por Ramsés II, talvez o mais poderoso faraó da história do Egipto, que reinou durante o Império Novo e ergueu templos e obeliscos por todo o reino. Este faraó, evidentemente muito rico, teve cerca de 200 filhos…

Em geral, os egípcios são muito simpáticos com estrangeiros. E ainda mais se tiverem a expectativa de virem a ganhar dinheiro com eles. Todos falam muito alto e têm profundas convicções. Evidentemente, todos os discursos e alocuções públicas, começam com a sacramental expressão “em nome de Alá”.
Curiosamente, se por um lado não têm como hábito lavar as mãos antes ou depois das refeições, por outro nunca deixam de fazer as abluções antes das orações: lavam a cara, as mãos e os braços até aos cotovelos, passam água no cabelo e, se usarem sapatos e peúgas, passam água nestas últimas, para simbolicamente ficarem purificados. Não consegue o viajante esquecer o sentimento estranho que sentiu quando, perguntando-se porque tinham, uma boa percentagem dos homens com quem se cruzou no Cairo, marcas negras na testa, realizou que essas marcas eram o resultado de pancadas no chão, durante as orações. Os egípcios são exuberantes e, no momento actual, é bem visto deixar claro que se é muçulmano bem convicto e praticante.

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