segunda-feira, outubro 25, 2010

Patagónia, Argentina

Voando da Patagónia para Buenos Aires, durante a noite,  o viajante recordouSaint-Exupéry, que em Voo Nocturno descrevia os medos e apreensões daqueles que, em 1931, data da publicação daquele livro, cruzavam pelo ar o deserto da Patagónia, na escuridão.
Tal como o principezinho, viu o viajante, de longe em longe, muito de longe em longe, um ou outro pontinho de luz a quebrar a noite. Claro que em 2010, a viagem faz-se confortavelmente, sentado num moderno voo comercial, pilotado por profissionais e monitorizado por atentíssimos computadores.
Mas ainda agora, "após cem quilómetros de charnecas mais despovoadas do que o mar, se cruzava com uma herdade perdida”. Assim é boa parte do percurso, de dois mil quilómetros, do Estreito de Magalhães até Buenos Aires.


A Patagónia impressionou o viajante pela permanente cor castanha carregada do deserto estéril. Ainda no relato de Saint-Exupéry, campos “luminosos, duma luminosidade perene: naquela região, os campos não cessam de espalhar o seu ouro, assim como no inverno não findam a sua apoteose de neve”. Além da cor quente, encontrou o viajante vento fortíssimo e persistente. Este vento dificulta o crescimento de árvores e plantas. Árvores, só as há nas raras povoações e foram plantadas por mão humana. Outras plantas, são todas elas muito baixas e até rastejantes, sem grandes ramos nem folhagens, para sobreviver à ventania: são em geral arbustos de muito pequeno porte, espinhosos e de folhas duras. A Patagónia é deserta e não chove quase nunca, apesar de a região contar com inúmeros lagos de águas muito azuis, vindas dos glaciares dos Andes. No fundo, esta é uma terra desgraçada, onde a vida é penosa e a sobrevivência muito difícil.
É difícil perceber a atracção que este pedaço de terra exerce sobre viajantes de todos os quadrantes, tal como exerceu no passado sobre pioneiros e aventureiros. A sua costa é recortada e inóspita. Talvez por isso – e por ter pouquíssima população -, ainda vivem nesta costa muitos leões-marinhos que, de vez em quando, servem de almoço a orcas. Assim é, em particular, na Península Valdez, aliás o único lugar do mundo onde foram vistas orcas a atacar leões-marinhos nas praias, para se alimentarem.

O primeiro europeu a chegar a esta terra foi Fernão de Magalhães, em 1520, mas esta vastíssimo território continuou por explorar até ao século XIX, altura em que a Argentina independente levou a cabo, simultaneamente, uma campanha de povoamento do interior e uma guerra contra os indígenas Mapuches e Tehuelche (estes últimos foram mesmo inteiramente exterminados).

Calhou o viajante parar em El Calafate, uma terra com menos de um século, construída nas margens do Lago Argentino, o maior do país. Mas não foi o lago que fez aqui ocorrer povoadores: antes foi a proximidade do Parque Nacional dos Glaciares, onde se integra o mundialmente famoso Glaciar Perito Moreno. Mesmo sendo primavera, encontrou o viajante uma terra ainda com neve e baixas temperaturas, embora durante o dia e com sol aberto tivesse registado 15 graus. Nada, claro, que se comparasse com as nevadas e as noites geladas do inverno, altura em que chegam a atingir-se 20 graus abaixo de zero! E, anote-se, El Calafate é considerada, no contexto do grande sul, uma estância com temperaturas moderadas! O pior, na primavera e no verão, é mesmo o vento, vindo da cordilheira, em regra gelado, mas sempre muito forte.

domingo, outubro 24, 2010

Teotihuican, México


Das aulas de história, na escola secundária, não recorda o viajante qualquer referência às civilizações centro-americanas anteriores à chegada de Cristóvão Colombo à América. Sentiu pois alguma dificuldade em localizar a cultura olmeca, que terá surgido um milénio antes do início da era de Cristo (e se desenvolveu na actual zona de Tabasco e de Vera Cruz, nas costas do golfo do México). Ou a cultura azteca, que ocupou o mesmo espaço daquela, um milénio depois. Ou ainda a civilização maia, que surgiu na península do Iucatão e na Guatemala, na segunda parte do primeiro milénio da nossa era. Custou-lhe algo distinguir e individualizar estas civilizações e etnias, que foram tão diferentes entre elas como o terão sido na Europa a fenícia, da grega ou esta da romana.

Porém, mesmo depois de assimilar todas estas nuances, ainda sentiu perplexidade ao procurar saber o contexto em que surgiu e se desenvolveu a cidade de Teotihuican, que ficou a 45 quilómetros da actual cidade do México. Aliás, a origem da cidade é pouco ou nada conhecida. Terá surgido pelo menos um século antes de Cristo e chegou a atingir os 200 mil habitantes, tendo nessa época palácios, pirâmides e templos. Mas sem se saber porquê, colapsou lá para o século VIII depois de Cristo, altura em que chegaram a estas terras os aztecas.
O nome originário da cidade é também desconhecido, já que aquele que se conhece lhe foi dado pelos aztecas e quererá dizer “lugar onde os deuses são feitos”, por julgarem que foi aqui que os deuses criaram o universo. É talvez isso que explica que os dois mais importantes edifícios da cidade, tal como ela subsiste, sejam as pirâmides do Sol e da Lua. Nas civilizações do México central, ao contrário do que acontecia com a egípcia, as pirâmides não tinham funções tumulares, sendo apenas templos nomeadamente destinados a ritos sacrificiais.
A pirâmide do Sol impressionou o viajante, pela sua gigantesca dimensão. Diz-se ser a terceira maior pirâmide do mundo (sendo a maior a de Quéops, no Egipto e a segunda maior a de Cholula, próximo de Puebla, igualmente no México Central).
A sua base tem 220 metros e atinge 62 metros de altura (o que equivale a um prédio de 22 andares). Na sua construção foram usados três milhões de toneladas de pedras empilhadas, sem uso de ferramentas metálicas ou animais de carga, que por aqui, na época, não se conheciam, sendo certo que também ainda não tinha chegado aqui a invenção da roda.
Subiu o viajante ao topo, não sem algum esforço, mas valeu a pena. Após 248 degraus, chegou à antiga plataforma onde ficava o templo. Daqui avista-se todo o conjunto das ruínas da cidade: a pirâmide da Lua, a norte e o antigo palácio de Quetzalcoatl (que quer dizer, literalmente, serpente emplumada). A uni-los, a calçada dos mortos, ladeada de templos e de palácios, nalguns dos quais ainda é possível ver frescos.
Quanto ao Palácio de Quetzalcoatl, o seu recinto é igualmente visitável e a visita vale a pena, porque ainda se podem ver, numa das suas fachadas, enormes esculturas, em particular de cabeças de serpentes e de jaguares. Este palácio é identificado como sendo a residência do mais importante sacerdote da cidade.

A entrada no recinto das ruínas é paga e a visita supõe andar bastante a pé. Da cidade do México pode vir-se de autocarro. Ou então, com mais conforto, em visitas organizadas (poderão custar 30 €) ou ainda, em alternativa, individualmente, de táxi, que esperará que se faça a visita (poderá custar 100 €).