sábado, agosto 20, 2011

Grande Muralha, China

  Não pode o viajante dizer que tenha sido desilusão. Talvez por estar mais vocacionado para visitar sítios com histórias e significado do que para coleccionar cromos turísticos, a Grande Muralha, o grande emblema da antiga civilização chinesa, cuja construção começou há mais de 25 séculos, não o deslumbrou.
Num mundo ideal, a forma certa de visitar este enorme conjunto de panos de muralha seria percorrê-los, ao longo dos seus 6430 quilómetros, desde o Mar Amarelo até às planuras do Deserto de Gobi. Talvez assim fosse possível aperceber a sua colossal dimensão - física e histórica - e compreender a função que teve, de defesa do império chinês, face aos invasores do norte, da Manchúria e da Mongólia. Mas esta visita não é possível. Por um lado, porque há troços (muitos troços), muito danificados; metade do percurso da muralha está mesmo destruída. Aliás, pelo contrário, há pouco troços minimamente conservados ou reconstruídos e por isso visitáveis. Por outro lado, a estrutura organizativa da China não facilita essa visita. Não há, fora das grandes cidades, apoio de hotéis, restaurantes ou bombas de gasolina. Esta realidade é agravada pela impossibilidade de comunicar noutra língua para além da local – o mandarim, ou variantes.
  Neste contexto, não sendo hoje em dia possíveis as viagens de descoberta marcopolianas, optou o viajante por visitar apenas um troço da Grande Muralha, próximo de Pequim, como aliás faz a generalidade dos turistas, mesmo os chineses. Optou pelo troço de Mutianyu, a norte de Pequim, no distrito de Huai Rou, próximo do povoado com o mesmo nome. É um troço originariamente construído no século VI, restaurado e em muito bom estado, com acesso fácil desde a capital. Fica, a cerca de 90 quilómetros de Pequim, por estradas asfaltadas, a maior parte delas em bom estado. No entanto, não havendo mapas de estradas detalhados disponíveis, será muito difícil a quem não fale chinês orientar-se por aqui.
  Próximo de Pequim é ainda possível visitar a muralha em Badaling, uma zona de muito fácil acesso e por isso muito popular – leia-se que tem muitos turistas e muitos vendedores de bugigangas e tee-shirts. Recomendam ainda os guias a visita a Jinshanling (a cerca de 100 km de Pequim – este troço tem o atractivo de ser permitido acampar na muralha) e a Simatai (que tem um troço de muralha muito mais destruída, em muito mau estado, mas também por isso muito menos turística e mais autêntica).
  Em Mutianyu há um teleférico que sobe a montanha, para permitir uma visita confortável à muralha. Percorrendo a muralha, em boa parte, as cristas das montanhas, nem sempre é fácil chegar aos troços sem ter que escalar até ao topo, duas ou três horas, por caminhos nem sempre fáceis.
A entrada do recinto de acesso à muralha é paga e o teleférico, evidentemente, também. Mas em qualquer dos casos, vale a pena. É um troço de muralha restaurado, de cerca de um quilómetro e meio, cuja origem remonta ao século XIV.
A muralha, em si mesma, é uma rude construção militar, similar às que na Europa se foram desenvolvendo desde o tempo dos romanos até ao fim da Idade Média. O aspecto particular desta muralha chinesa é o da sua dimensão (como tudo na China…). É ainda a circunstância de coroar montes e vales e montanhas, sempre pelas suas cotas mais elevadas.
  A Grande Muralha foi sendo construída ao longo de muitos séculos, em troços, durante o domínio de diversas dinastias que governaram o império. As partes mais antigas datam do século VI A.C., mas a sua dimensão colossal só foi atingida no século III A.C., no tempo do imperador Qin Shihuang (também conhecido pelo exército de soldados de terracota que o acompanharam no seu mausoléu). Em todo o caso, apenas houve verdadeiramente uma muralha, como a conhecemos hoje, no período da dinastia Ming (séculos XIV a XVI da nossa era).

  Entretanto, a muralha sofreu ao longo do tempo sérios danos: na década de 1950, durante o reinado de Mao Tse Tung, o governo exortava a população a “fazer o passado servir o presente” e incitava os camponeses a demolir a muralha e a reutilizar a pedra e os tijolos nela usados nas suas casas (foi aliás nesse tempo que o governo chinês ordenou a destruição das muralhas de Pequim, para edificar fábricas do Estado). Felizmente que o sítio é agora património protegido pela Unesco, desde 1987.
Durante muito tempo, a Grande Muralha foi tida como a única edificação humana visível deste a Lua. A história ficou a dever-se ao astronauta americano William Pogue, que disse tê-la visto desde o laboratório espacial Skylab – mais tarde, veio a concluir-se, afinal, que aquilo que se avistava era o Grande Canal, próximo de Pequim.

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