sábado, abril 28, 2012

Apollonia, Albânia

Da Albânia trouxe o viajante a impressão de ser o canto mais escondido e esquecido do Mediterrâneo. O país ainda não recuperou dos quarenta e cinco anos de isolamento forçado, imposto pelo regime comunista radical, que fechou as fronteiras e proibia os contactos com o exterior. Apesar disso, desde os anos noventa que a Albânia desperta dessa letargia, abrindo as portas ao mundo e recuperando a sua história. Ela mesma, a história, foi também banida pelo regime comunista de Enver Hodxa, em nome da construção de um país novo, livre de classes e dos espartilhos do passado feudal e religioso. Em nome disso foram arrasadas igrejas, mesquitas e outros edifícios de interesse histórico.
Não obstante, desde há muito que, em vários pontos do território albanês, são conhecidos vestígios da antiguidade e, em particular, da antiguidade clássica – o mar Adriático, que banha as costas do sul da Albânia, foi intensamente colonizado por gregos e romanos, que aqui construíram portos comerciais e cidades.
Foi o caso de Apollonia, a primeira cidade do mundo antigo a ser baptizado com o nome de Apolo: esta colónia grega, fundada por emigrantes de Corinto, durante o século VII AC naquela que então era a Ilíria, chegou a ter 60 mil habitantes. Nesse tempo era inteiramente cercada por muralhas, que teriam quatro quilómetros de perímetro. No início do primeiro milénio foi um grande centro da cultura romana – tornou-se conhecida pela sua escola de filosofia. Aliás, por ela passou, no ano 45 AC, como estudante, Octávio, o imperador que mais tarde ficou conhecido como César Augusto.
Porém, a cidade veio a sofrer vários terramotos, que a destruíram. Além disso, o assoreamento do rio Vjosa, que antes disso lhe dava acesso ao mar, isolou-a e a cidade acabou por declinar. Perdeu-se no tempo até vir a ser descoberta, no início do século XX pelo arqueólogo francês Leon Rey, que realizou aqui escavações durante várias décadas (foi impedido de continuar pelo regime comunista).
Na actualidade, Apollonia é a maior estação arqueológica da Albânia. Dizem os guias que é um dos locais mais interessantes para visitar, neste país que não é conhecido pelo seu interesse turístico. De facto, achou o viajante muito interessante a visita a esta estância arqueológica. Fez-lhe recordar imagens de locais históricos em filmes italianos dos anos 50: nas ruínas, muitas pedras, concerteza interessantes, mas nada organizadas nem identificadas; famílias faziam piqueniques nas ruínas, como fariam num qualquer parque; um ou dois vendedores vendiam produtos locais (mel, artesanato de madeira de oliveira), expostos em caixas de fruta, à entrada, um funcionário de barba por fazer, bastante mal vestido, sem uniforme nem qualquer elemento identificador, vendia bilhetes, que trazia no bolso das calças, ao mesmo tempo que segurava um cigarro no canto da boca – a princípio, até julgou o viajante tratar-se de uma qualquer vigaricezita
Ultrapassada esta primeira impressão, desfrutou o viajante da passagem por aqui. Impressionou-o o Odeon, um pequeno teatro, originariamente grego, mas romanizado, com capacidade para 300 pessoas, que está bem recuperado. Mas também o impressionou a fachada principal (a única sobrevivente) do Bouleuterion – a sede do Boulea, o antigo Conselho Municipal de Apollonia. Julga-se que ambos os monumentos terão sido construídos no século II. Ambos foram restaurados na última década. No recinto, fica ainda o Museu de Apollonia, instalado num mosteiro ortodoxo, bizantino, do século XI, que foi recuperado para o efeito.
O Parque Arqueológico de Apollonia fica a cerca de 12 km de Fieri, 120 km a sul de Tirana, no centro da Albânia. Cobre uma área de 750 hectares e foi criado em 2005. Está aberto todos os dias, da 9 às 17 horas (nos meses de verão abre às 8 e encerra às 20 horas. (www.apollonia.al). O bilhete para todo o recinto, incluído o museu, custa 300 lek albaneses – pouco mais de 2 euros. O acesso não é fácil: não há transportes públicos e as estradas, desde Fieri, são estreitas e esburacadas, por entre aldeias pobres e degradadas. Tal como em toda a Albânia, as placas sinalizadoras escasseiam e torna-se necessário perguntar o caminho. Em albanês, claro…

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