segunda-feira, maio 21, 2012

Stellenbosch, out of Africa

 Não queria o viajante dizê-lo – sente-se quase ofendido ao dizê-lo -, mas chocava-o o antigo regime sul-africano de apartheid. Fazia-lhe lembrar um ambiente feudal medieval, inumano e bruto. Foi felizmente banido na África do Sul, talvez com algum excesso de compensação posterior aos antigos descriminados.
Porém, não consegue o viajante deixar de anotar que, fruto do apartheid ou não, a África do Sul é um país diferente, no contexto africano. É um país organizado, educado e civilizado. É sintomático que, ao menos na Cidade do Cabo, os motoristas param os seus carros nas passadeiras, espontaneamente, para deixar passar os peões (o que além do mais, revela que há passadeiras…).

 Entretanto, os tempos estão a mudar. Sintomaticamente, perguntaram um dia ao presidente da República de Singapura (que governa aquela cidade estado asiática, de forma tranquila, desde os anos 60 e logrou transformar aquele esquecido porto de pescadores numa praça financeira) o que achava da África do Sul da era pós Mandela e ele terá respondido que era um país do primeiro mundo, que tem vindo a ser ocupado por uma working class do terceiro mundo. É uma boa alegoria, agora que as favelas que circundam as grandes cidades se expandem, com a chegada de milhares de trabalhadores pobres de muitos outros países africanos.
 A cerca de uma hora de carro da Cidade do Cabo, Stellenbosch, é um dos últimos refúgios da tal África do Sul de primeiro mundo, alheia aos modernos problemas nacionais, com a corrupção à cabeça – simbolicamente, diziam os jornais no início de 2012 que os administradores da simbólica Roben Island, a antiga ilha prisão onde viveu durante décadas Nelson Mandela (e um dos grandes atractivos turísticos da Cidade do Cabo) estão sob investigação policial, por desvio de fundos e corrupção. Como símbolo, não podia ser mais elucidativo.
 Conserva o seu ambiente de sempre: é uma pequena cidade de província, de ruas traçadas geometricamente, de casas baixas, metade das quais com mais de duzentos anos, construídas no chamado “estilo cabo holandês”: de matriz vitoriana mas com a adaptação necessária aos materiais locais. Pela cidade há lojas e boutiques, bares, restaurantes e esplanadas, onde é possível provar vinho a copo. É aliás aqui o epicentro da produção vinícola da África do Sul. Mas a cidade tem interesse em si própria, para além do vinho. Sentiu-se o viajante numa terra acolhedora, com perfil de aldeia inglesa, mas edificações em estilo mais holandês, com clima quente e descontracção africana. Bem se percebe por aqui a história, mas a dinâmica da terra é bem actual.
 Sentiu também aqui um ambiente tranquilo e ordeiro, de trabalho, indiferente a etnias. A cidade, a terceira mais antiga da África do Sul (a seguir à Cidade do Cabo e a Simonstown) foi assim baptizada em memória de Simon Van der Stel, o governador holandês da colónia, que a fundou no século XVII, filho de pai holandês e de mãe malaia. E se é verdade que Stellenbosch simboliza o esforço autonomista dos bóeres, que lutaram contra o imperialismo britânico, também é verdade que a homenagem a este venerado herói nacional veio a ser premonitória daquilo em que viria a converte-se este país arco-íris. Por sinal, percebeu com muito agrado o viajante que não há complexos na África do Sul a este propósito: a um branco chama-se “white”, a quem é de raça negra, “black”, a quem seja mestiço, “coloured” e a quem tem origem na índia, “indian”. Simples, sem complexos nem parvoíces bacocas.

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