quinta-feira, julho 05, 2012

Berat, Albânia

 Chegou o viajante a Berat com a expectativa com que chega sempre a um local declarado património da humanidade pela UNESCO (na Albânia apenas há dois sítios assim declarados; o outro é a cidade de Gjirokastra, no sul). É verdade que a visita a Berat foi interessante, mas também o é que não foi das mais empolgantes.
A Albânia não é um país turístico, mas Berat é sempre sublinhada quanto se pretende visitar o país. E, diga-se, merece-o, porque tanto quanto logrou perceber o viajante, é uma das cidades mais interessantes deste país balcânico. Para isso terá contribuído a circunstância de, a título excepcional, ter sido declarada há décadas, durante o regime comunista, como “cidade museu”. Por isso, salvou-se da destruição total a que foi submetido a herança histórica do país, durante o regime de Enver Hodxa, em nome da construção de uma nova e moderna Albânia.
 Berat é “vendida” aos escassos turistas que vão à Albânia como a cidade das mil janelas. De facto, é cortada ao meio por um rio (o Osum) e, do lado de lá, no bairro cristão de Gorica, aninhado na encosta, fica um fantástico bairro de casas com vários séculos, construída no período otomano, que parecem estar construídas umas em cima das outras, encaixadas como numa construção Lego. As duas características que marcam todas estas casas são a cor branca e o grande número de janelas, todas de grandes dimensões, que rasgam as fachadas. O efeito visual, visto este bairro do outro lado do rio, é muito bonito. Menos bonito é o rio, sempre de águas sujas e, como muitos dos rios do pais, cheio de sacos e de embalagens de plástico, a boiar ou encalhados nas margens. Mas não é só no bairro de Gorica que existem casas do período otomano: há-as também do lado muçulmano do rio, nas encostas da fortaleza e também dentro desta.
 A antiga fortaleza, do século XIV, domina a cidade. Está construída num morro elevado, sobranceiro ao rio. Só ela, faz valer a pena visitar Berat. É uma enorme cidadela, sobranceira à cidade moderna, onde ainda vive gente, em casas antigas e tradicionais, presentemente a serem recuperadas com ajuda financeira da União Europeia. Ao longe, vêm-se as altíssimas cadeias montanhosas que marcam a orografia do interior albanês. Reteve o viajante o ambiente bucólico, da velha fortificação e a harmonia clara, de branco baço, dos muros de calcário, ainda em processo de restauro. Sentiu-se transportado para um tempo em que estes monumentos antigos eram meras ruínas abandonadas, sem utilidade a não ser a de inspirarem histórias romanescas. Esta fortaleza fez-lhe lembrar o estado e a forma como se encontravam os castelos portugueses há trinta ou quarenta anos.
  No século III AC, o território daquilo que agora é a Albânia era ocupado e dominado pelos Ilírios, o povo indo-europeu que foi antepassado de Albaneses e Kosovares. Terão sido os primeiros a estabelecer-se aqui. Mais tarde, Berat fez parte do império romano do oriente e por isso esteve sob o domínio de Bizâncio a partir do século V da nossa era – nessa época, a cidade era de tal maneira importante que estava completamente rodeada de muralhas. Depois, Berat passou pelo domínio búlgaro e mais tarde sérvio, a partir do século XIV. Mas foi por pouco tempo, porque em meados do século XV veio a ser ocupada pelos turcos, que aqui ficaram até ao início do século XIX.
Esta passagem constante e sucessiva de diversos povos explica a variedade de construções da fortaleza de Berat, onde ainda existem ruínas de uma mesquita, uma igreja ortodoxa do século XIV e várias outras construções. Aliás, o mesmo acontece no resto da cidade.
 Na Albânia não são frequentes os circuitos turísticos organizados. Em geral, quem vem por cá, em viagem, está por sua conta. De Tirana, a capital do país, a Berat não chegam a ser 150 quilómetros. Mas levou o viajante, de carro, quase três horas. Fê-lo por estradas esburacadas, estreitas e mal (ou nada…) sinalizadas, mas com trânsito muito intenso. Há transportes públicos alternativos, que poderão fazer o mesmo percurso em cinco ou seis horas – circulam por aqui autocarros antigos, comprados na Europa ocidental em segunda mão.

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