quarta-feira, setembro 05, 2012

As "winelands" da África do Sul

 Há muito que o viajante se habituou a ver vinhos sul-africanos nas prateleiras dos supermercados. E, além disso, quando em viagem, a prová-los, porque são dos mais expandidos por todo o mundo – e, quanto ao preço, dos mais abordáveis, também.
Calhou entretanto passar pela Província do Cabo, na África do Sul e visitar Stellenbosch, o coração da produção vinícola daquele país austral. Foi aí que provou os vinhos feitos de pinotage, uma especificidade sul-africana. Esta casta, que não se produz em mais local nenhum do mundo, foi “inventada” na década de 1920, pelo professor de agronomia Abraham Perold, professor na Universidade Africânder de Stellenbosch, por via do cruzamento de pinot noir e de cinsault (que nesta e noutras latitudes é também chamada hermitage). O vinho que produz é quente e envolvente, mas de efeito curto, porque em geral se esvai rapidamente. Apesar disso, em geral os vinhos de pinotage são picantes e adstringentes, a dar algum corpo a um travo apimentado, a fazer lembrar terra vermelha.
De certa forma, o pinotage tornou-se um símbolo da viticultura sul-africana – todos os anos se realiza um concurso nacional para apurar o melhor de entre eles. Mas os vinhos sul-africanos não se limitam ao pinotage: produzem-se também brancos, em geral ligeiros e vinhos de sobremesa – uma espécie de clones de vinho do Porto. Mas, em tinto, produz-se sobretudo vinho de shiraz e cabernet sauvignon. Quanto a este último, vem sobretudo de Stellenbosch, onde se planta há 350 anos.
Na região há muitas adegas (calcula-se haver cerca de 300 produtores), a maior parte das quais preparadas para receber visitas, recebendo sempre com simpatia quem passa. Prova-se vinho e pode comprar-se também. Em geral, quando são visitados por estrangeiros, oferecem-se para mandar entregar o vinho em casa, pelo correio. Estas visitas são, para quem vai da Europa, uma experiência engraçada, porque as estações do ano estão viradas do avesso: a vindima faz-se em Fevereiro ou Março e o vinho está pronto para provas no nosso Outono. 

sábado, setembro 01, 2012

Kruja, Albânia

 Fez o viajante uma breve romagem a Kruja, a cerca de 30 quilómetros a norte de Tirana, capital da Albânia, com o intuito de descobrir a verdadeira essência deste país, noutros tempos chamado das águias. Pelo caminho, dizia-lhe o motorista que o conduzia, que o clube de futebol local, o Kruja FC (ou equivalente, em albanês…), era muito forte na sua “casa”, um estádio minúsculo, encaixado na encosta, que de estádio só tem o nome – é certo que é um campo relvado e cercado até, com algumas bancadas em cimento. E o Kruja joga na primeira liga albanesa.
 De Kruja, sabia o viajante que é uma pequena cidade encavalitada nas montanhas e que foi escolhida por Skanderbeg (George Kastrioti, que viveu entre 1405 e 1468), o herói nacional albanês, para aqui se instalar e construir o seu castelo. Foi em Kruja que se declarou a independência da Albânia (na época dominada pelos turcos), pela mão de Skanderbeg e foi este príncipe guerreiro que comandou os independentistas na defesa contra três invasões do exército turco. Os otomanos pretendiam reconquistar a Albânia e cercaram, por três vezes a cidade, sem sucesso. Um quarto cerco, após a morte do príncipe albanês, acabou por ditar a derrota dos nacionalistas e a submissão da Albânia, de novo, ao império turco. Mas a semente da independência estava lançada e veio a germinar séculos depois.
A terra é dos últimos locais da Albânia onde ainda se encontram vestígios do que pode ter sido o antigo bazar turco (no tempo do domínio dos otomanos todas as cidades teriam um, mas a política do regime comunista, ferozmente contrária ao cultivo da história, levou à destruição de todos os vestígios do passado).
A viagem, partindo de carro de Tirana, demora quase uma hora. As estradas são más, por vezes esburacadas e estreitas. A partir de certa altura, o percurso é muito sinuoso. Kruja fica a meio da encosta da montanha, próximo do Parque Nacional Monte Dajti, num cenário que fez o viajante recordar os livros do Tintim nos Balcãs: morros escarpados, de pedras calcárias, muito brancas, bordadas de verde da vegetação rasteira. Por aqui não abundam as árvores. O que já não evoca o bucolismo dos livros de Hergé é o ambiente suburbano da cidade moderna. Como toda a Albânia, Kruja está atascada de prédios quase arruinados, construídos no tempo do regime comunista. São edifícios todos iguais e parecem estar todos deploravelmente degradados, com varandas a cair e fachadas com os tijolos à mostra. 
 Ultrapassada esta primeira impressão, encontrou o viajante um pequeno núcleo histórico, muito pouco frequentado, no antigo bazar turco que, em rampa, dá acesso à zona da fortaleza de Skanderbeg. Neste bazar vendem-se quinquilharias, latoarias, artesanato em madeira de oliveira e memorabilia do antigo regime albanês. Na verdade, nada que mereça comprar-se.
Também o castelo causa alguma desilusão. Está num morro rodeado de muralhas, razoavelmente reconstruídas. Dentro delas, uma torre solitária evoca a memória do lutador pela independência e identidade albanesa. Um pouco abaixo, na encosta, um museu etnográfico, instalado numa antiga casa de família rica, com aspecto de não ter sofrido grandes alterações nos últimos 50 anos.
No meio, um monólito meio modernaço, meio tradicional, aqui esparramado em meados do século XX, para homenagear Skanderbeg – no seu interior fica o seu museu. O projecto, revivalista, é da autoria da filha do ditador comunista Enver Hodxa.

Além da evocação histórica, a visita valeu também pela paisagem: de um lado, as escarpadas montanhas cársicas, mais ou menos virgens e preservadas; lá no fundo, como que visto de uma varanda elevada, o mar Adriático. Mais a sul, na neblina, o grande núcleo urbano de Tirana.