sexta-feira, fevereiro 20, 2009

Neve em Andorra

As estâncias de férias de inverno sempre deram ao viajante a impressão de lugares tranquilos, mesmo sendo plenos de actividade. Mas além disso – e sobretudo -, a forte convicção de que são locais de charme, frequentados por gente sofisticada e endinheirada. Compreende por isso o viajante a expressão “país do ouro branco”, aplicada a regiões que exploram a neve e as actividades desportivas e de lazer a ela associadas. Será o caso de Andorra.

Porém, não encontrou o viajante em Andorra essa tal realidade charmosa e sofisticada. Este micro país, com o título de Principado, fica encravado entre Espanha e França, no coração dos Pirineos. No mapa, tem de largura máxima 29 quilómetros, de leste a oeste, e de altura máxima, de norte a sul, 25 quilómetros. Todo ele é alta montanha (os seus picos atingem 2946 metros e a altitude mínima, à saída para Espanha, é um pouco mais de 800 metros…) No entanto, não encontrou aqui o viajante nada que lhe recordasse aquela aura distinta das férias de Inverno. Há neve, é certo, e com ela há toda a mística poesia da brancura luminosa. Há também muitas e boas instalações e equipamentos para desportos de Inverno. Não faltam quilómetros e quilómetros de pistas, classificadas de todas as cores e graus de dificuldade. Há confortáveis equipamentos de apoio. Telecadeiras, telecabines, esplanadas e bares em altitude. Escolas de esqui e várias estâncias especialmente preparadas para debutantes e inexperientes nestas práticas.
Mas falta a Andorra o polimento. Falta-lhe charme e até mesmo compostura. As montanhas são bonitas. A neve também. Mas o urbanismo é caótico e a arquitectura dos lugares, em geral, é muito plebeia e pobre. Em concordância, nas estradas abundam carros “artilhados” (de tunning). Os milhares de portugueses que trabalham nos hotéis (há 9000 portugueses em Andorra, numa população total de 60000 mil habitantes) não estranharão o sempre presente cheiro a fritos no ar, a fazer recordar o ar do Albufeira. Aliás, ocorreu ao viajante que, de certa forma, Andorra está para as estâncias de inverno como o Algarve está para as estâncias balneares do mediterrâneo. Sem ofensa.

Este Principado de Andorra só tem nobreza no nome. Enquanto estado independente, chamar-lhe país de opereta é elevar demasiado elogiosamente o termo comparativo. Vale-lhe, claro, ficar a uma distância aceitável de Portugal e ter uma boa oferta hoteleira a preço abordáveis.
De Portugal a Andorra, dependendo do ponto de partida, a distância por estrada é de 1000 a 1200 quilómetros. Faz-se, embora não seja demasiado fácil, num dia de viagem, graças à rede de autovias espanholas. Será opção mais confortável e rápida a viagem de avião até Barcelona (a 220 quilómetros) ou Toulouse (a 190 quilómetros) – ambas as ligações, de carro, tomarão menos de três horas. Para Barcelona, há cerca de 10 voos por dia, a partir de Lisboa. Para Toulouse, apenas um.

sexta-feira, fevereiro 13, 2009

Em Paris com Eça

Apresentado por Eça de Queirós, conhece o viajante desde os bancos do Liceu (a que hoje se chama Escola Secundária), o palacete do nº 202 dos Campos Elíseos, em Paris. Sabe que se trata de um digno e velho palácio comprado pelo avô de Jacinto (A Cidade e as Serras) a um príncipe polaco que depois da tomada de Varsóvia se meteu a frade capucho. Em tal palácio se entra por uma “álea bem areada”, ladeada de “uma relva mais lisa e varrida que a lã de um tapete”. No interior, “ouro pesado nos seus estuques e ramalhudas sedas”. Das suas varandas, abertas sobre os lilases (que Charles Aznavour dizia terem acabado há vinte anos), vê-se a eternamente chic Avenue des Champs-Elysées.
Quis o destino que o viajante desaguasse na Place de L’Etoile, agora oficialmente Charles de Gaulle, no topo da elísia avenida. Por aqui, não faltam palacetes como o do 202: solenes, com dignas fachadas de pedra trabalhada e jardins pequenos mas altivos. Entre eles estaria, concerteza, o 202.
Em vão o viajante o procurou. Rapidamente verificou que, do lado dos números pares, a numeração da avenida termina no nº 156 que, por sinal, é a embaixada de um país do petróleo do golfo.
Teve assim que confiar na imaginação do grande Eça para descobrir o prodigioso 202. E o seu elevador, do rés-do-chão para o primeiro andar (“era espaçoso, tapetado e oferecia, para aquela jornada de sete segundos, confortos numerosos: um divã, uma pele de urso, um roteiro das ruas de Paris, prateleiras gradeadas com charutos e livros”)
Também só pela imaginação de Eça logrou o viajante visitar o ambiente do palácio, de “temperatura macia e tépida. Um criado, mais atento ao termómetro que um piloto à agulha, regulava destramente a boca dourada do calorífero. E perfumadores entre palmeiras, como num terraço santo de Benares, esparziam um vapor aromatizado e salutarmente humedecendo aquele ar delicado e superfino”.

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

O aeroporto de Paris encerrou

Calhou ao viajante, neste Inverno rigoroso, ficar impedido de voltar a casa e perder um voo, por os aeroportos de Paris terem sido encerrados, por causa do mau tempo, a 9 de Fevereiro de 2009.
Na ocasião, não deixou o viajante de recordar o mau tempo na epopeia, narrada por Eça de Queirós, da viagem de Jacinto e do seu amigo Zé Fernandes, de Paris para o Douro, de comboio, através de Espanha (A Cidade e as Serras). Recordou o viajante a terrível tempestade que se abateu sobre o percurso ferroviário e, em particular, sobre Medina del Campo, a qual atrasou o comboio de Paris e por pouco não fez perder aos nossos heróis o comboio de Portugal. Quem o perdeu foi o fiel e dedicado Grilo, criado de Jacinto, que com eles viajava, transportando todas as suas 23 malas.
Sem malas chegou Jacinto, o Príncipe da Grã-Ventura, à estação de Tormes, tendo como única bagagem uma bengala e um exemplar, já lido, do “Jornal do Comércio”.

Ainda a propósito, anotou o viajante o caótico balanço das viagens de Zé Fernandes: “viajei; trinta e quatro vezes, à pressa, desfiz e refiz a mala. Onze vezes passei o dia num vagão, envolto em poeirada e fumo, sufocado, a escorrer suor. Catorze vezes subi, derreadamente, a escadaria desconhecida de um hotel; e espalhei o olhar incerto por um quarto desconhecido; e estranhei uma cama desconhecida, donde me erguia, estremunhado, para pedir, em línguas desconhecidas, um café com leite que sabia a fava. Perdi uma chapeleira, quinze lenços, três ceroulas e duas botas, uma branca e outra envernizada, ambas do pé direito. Percorri, com pé respeitoso e abafado, vinte e nove catedrais. Trilhei molemente, com uma dor surda na nuca, em catorze museus, cento e quarenta salas…. Gastei seis mil francos. Tinha viajado!” (A Cidade e as Serras, Eça de Queirós, Ed. Livros do Brasil, página 102)

No episódio da segunda-feira passada, em Paris, a sorte do viajante foi melhor. Conseguiu voo para casa na tarde do dia seguinte, jantou tranquilamente um entrecôte numa brasserie de Saint Germain-des-Prés e a parte menos interessante foi ter que contentar-se com um hotelzito de esquina no Quartier Latin.