terça-feira, fevereiro 09, 2010

Port Louis, Ilha Maurício

A cidade nem é grande nem pequena: é uma capital com cerca de 170 mil habitantes. Tem estrutura europeia, com igreja e edifícios públicos, no centro. Tem também alguma influência do Novo Mundo: tem um bairro com grandes prédios, onde se instalaram os bancos e outras sociedades financeiras. Mas na verdade, tem alma crioula. Apesar disso, metade dos seus habitantes são de origem indiana e há uma boa comunidade chinesa, que controla o comércio.
Este cliché define Port Louis, a capital da Ilha Maurício: é uma cidade multicultural, multiétnica e multirreligiosa. A sua malha urbana denota a sua origem francesa (foram os franceses que a desenvolveram, no século XVIII, apesar de o local ter sido povoado por holandeses desde cem anos antes). Porém, a sua estrutura de cidade colonial não consegue esconder a sua alma de pequeno povoado crioulo. Predominam as casas baixas, de traça tropical. Os poucos palacetes que sobram, de outras eras, são modestos e albergam, todos eles, hoje em dia, as instituições políticas da nação. Assim acontece, por exemplo, com o antigo palácio do governador (actualmente palácio do Governo), em cuja entrada pode ainda ver-se uma imponente estátua da Rainha Vitória. Ao lado, o palácio do Primeiro-ministro é uma mansão colonial, que passa despercebida. Há ainda o teatro municipal, discreto, numa esquina. E pronto, quanto a edifícios antigos fica a terra por aqui.
De resto, a visita que o viajante achou mais interessante foi a do mercado municipal, num antigo edifício, do século XIX, renovado há meia dúzia de anos. Se o visitante conseguir esquecer o lixo e o cheiro, encontrará aqui um animado espectáculo colorido e inesquecível. Nas bancas vendem-se legumes, especiarias, pimentos e malaguetas, peixe fumado e muitas outras coisas (made in china). Os compradores são sobretudo habitantes locais e, por isso, os vendedores ainda não estão viciados em turistas. O ambiente é portanto genuíno.
Não conseguiu, no entanto, o viajante deixar de passar pela Caudan Water Front, a nova zona marítima. Estruturalmente, é um centro comercial junto do mar, construído em antigas instalações portuárias. É ali que se localizam as lojas modernas da cidade (as outras são mais tradicionais e antigas), os bares e restaurantes modernos (os da cidade velha não inspiram confiança, sobretudo no que respeita à higiene…) e as diversões para turistas. O local poderia fazer recordar qualquer marina algarvia, sem barcos e com algumas moscas mais. Mas é o orgulho dos locais.

terça-feira, fevereiro 02, 2010

Os céus da África Oriental

Por vezes, sem contar, tem o viajante anotado do melhor que tem vivido por esse mundo fora.
Já tem o viajante umas horitas de voo na sua conta. Mais do que quereria, mas menos do que gostava. Nesta presunção (da tal que se toma como água benta), vai afirmar que fez uma das mais fantásticas viagens de avião que poderão fazer-se. Calhou ter que voar, quase um dia inteiro, através do leste do continente africano, num percurso que ligava a Ilha Maurício a Londres. Ao contrário do que é usual neste tipo de voos, foi diurno e por isso propiciou uma fantástica visita aérea ao Quénia, à Etiópia, ao Sudão e à Líbia.
Depois das águas verde-esmeralda que rodeiam a Ilha Maurício e dos territórios secos, de vegetação rasteira, do norte de Madagáscar, pode o viajante avistar as ilhas costeiras próximas a Mombaça. Zanzibar está mais ao sul, mas Pemba é bem visível desde o ar, com a sua barreira de coral e praias de areia branca. Mombaça é o centro de um enorme estuário, de águas escuras. É impossível, a este propósito, esquecer Vasco da Gama, que aqui passou em 1498, na rota para Calecut. De Mombaça era o piloto árabe que o guiou à Índia.
Seguiu-se território queniano, de estepe massai – terra vermelha fogo, pontilhada pelos arbustos da savana. Aqui não se avistam traços de povoação e os únicos sinais dissonantes da desolação são as manchas verdes dos córregos que levam água na estação das chuvas.
Pouco depois, aguardava o viajante, lá ao longe, nos limites do Quénia e da Tanzânia, a cereja no cimo do bolo de África: embora enevoado, o Kilimanjaro deixava-se ver, com o topo muito menos nevado do que é habitual ver-se nas fotografias.
As proximidades de Nairobi revelam povoação. Em regra, pequenos povoados e aldeias pobres, de casas com telhados de folhas de zinco. Nairobi, por seu lado, vista do ar, revela-se uma cidade muito dispersa, com subúrbios imensos e espalhados pelo campo.
A norte, avista-se uma das pontas da enorme depressão do Rift, por aqui menos rica em achados que mais a sul, na Tanzânia, mas ainda assim impressionante. Lá para trás ficou já o Lago Vitória, pouco mais que uma miragem no fundo do horizonte. Rumo ao Mediterrâneo, vai escasseando a povoação.
Depois, desaparecem de todo os vestígios de povoados e passam a dominar o relevo as montanhas da Etiópia, que se compreende ser uma nação de pastores. São montanhas escarpadas e florestadas, sem pinta de presença humana. Mas, pouco depois, a rota passa às planuras do sul do Sudão. Por aqui, no primeiro troço do Nilo, a terra começa a ficar mais seca. Ainda é possível ver aldeias de palhotas. Muitas aldeias de palhotas, agrupadas de forma desorganizada mas coesa, na planura seca e quente. Delas partem caminhos em todas as direcções, embora por todo o lado haja secura. E piora com o avanço para norte. No vale do Nilo Superior não há árvores e, consoante se avança, deixa gradualmente de ver-se tanto mato rasteiro, que acaba por desaparecer de todo. Nas planuras entre Cartum e as montanhas de Darfur avista-se finalmente o deserto.
No início, este deserto manifesta-se pela terra nua e pelas pedras. Depois, chegam mesmo as dunas, a anunciar o Deserto da Líbia. Do terreno vem a cor quente da areia, por vezes ocre, noutros casos mais escura. Sensação de imenso calor. Lá em baixo, como nos filmes, a magia das dunas. E montanhas isoladas, rodeadas de deserto. E ainda, de vez em quando, uma daquelas obras megalómanas que o regime de Khadafi construía no deserto, há 20 anos: plantações agrícolas nas areias, com água trazida à distância.
No deserto, o ar não é límpido e isso prejudica a vista. E assim será até ao Mediterrâneo, onde termina, no golfo de Bengazi.

segunda-feira, fevereiro 01, 2010

Siena, Toscana, Itália

Conhecia, há muito, o viajante a fama do Palio de Siena, esse festival anual que se realiza em Maio, talvez a manifestação pública mais famosa de Itália. Chama a Siena milhares de pessoas que vêm ver uma corrida de cavalos que dura apenas meia dúzia de minutos. Essa corrida de cavalos, em que compete um cavaleiro por cada uma das nove paróquias de Siena, realiza-se anualmente na praça de Il Campo, no centro da cidade. É bem esclarecedor, quanto à sua dimensão planetária, o pormenor de ter já surgido como pano de fundo em parte de um dos filmes da série 007.
Não foi o viajante a Siena durante o Palio, altura em que esgotam os hotéis e as ruas pedonais do centro se tornam intransitáveis. Mas mesmo em época baixa, sentiu a grande pressão das hordas de turistas anglo americanos e japoneses que, ruidosamente uns e ordeiramente, em grupos, os outros, enchem cada rua e cada praça e cada palácio e cada igreja da cidade. Nessa medida, tal como Florença ou Veneza, Siena tornou-se um enorme parque temático, para turistas, com gigantescos parques de autocarros fora de portas e uma complexa rede de ruas fechadas ao trânsito, cheias de lojas que vendem coisas supostamente típicas da cidade.
Esta última vertente permitiu à população local soltar a sua iniciativa e criatividade, reinventado o “típico”. Há lojas especializadas em quase todos os ícones do “típico” italiano: lojas em que se vendem azeites com aromas, lojas de “pastas” eróticas e afrodisíacas, lojas de roupa muito específica. Passou o viajante por um “cravattificio” (seja lá o que isso for) que, pelo insólito, lhe ficou na memória… Neste contexto de centro comercial especializado, é difícil encontrar na cidade recantos tranquilos onde se respire o verdadeiro ambiente local.
Não obstante, não deixou o viajante de se deslumbrar com a finura do “Duomo”, a catedral gótica profusamente e exuberantemente decorada. Nem de apreciar Il Campo, com a sua arquitectura que constitui um dos melhores exemplos de gótico civil na Europa, dizem os guias. Ou ainda de ficar impressionadíssimo com os inúmeros e enormes palácios medievais, fortes e altos, com grossíssimas paredes e vários andares, a tornarem as estreitas ruas muito escuras.
Ao contrário de Florença, que evoluiu após a Idade Média, Siena parou no século XIV, altura em que se estima que tivesse cerca de cem mil habitantes. Nessa altura, a sua economia estava estruturada no comércio e na actividade financeira. Porém, esta economia não sobreviveu à grave crise provocada pela peste negra, que a partir de 1348 dizimou 7 de cada 10 habitantes de Siena. Pouco sobrou das várias estirpes de banqueiros, de ganadeiros e de ricos comerciantes e artesãos.
Não deixa de ser interessante anotar, no início de 2010, quase na ressaca de uma gravíssima crise financeira, com origem social, tal como aquela que abalou Siena no fim da Idade Média, que foi neste último período que teve origem o Banco Monte dei Paschi di Sienna, que desde o século XIV tem sede na cidade, nos palacetes da Piazza Salimberi (nome da família de banqueiros e negociantes de seda e cereais que lhe deu origem). Este banco, um dos mais antigos de Itália e da Europa, ainda existentes, foi originariamente fundado em 1472 como instituição de beneficência, emprestando dinheiro aos carenciados.
Siena, a segunda cidade da Toscana, fica a 90 quilómetros de Florença. A partir da a capital da região tem acesso por estrada e por comboio (regional, que demora cerca de uma hora).