sábado, janeiro 29, 2011

Catedral de Siena, Itália

Siena, a segunda cidade da Toscana, a 90 quilómetros de Florença, vive ofuscada pela cidade dos Medici. Tem muito menos turistas que aquela e o seu núcleo antigo é bem menos exuberante. Não obstante, são ainda assim milhares os turistas que todos os anos visitam Siena. E vêm atraídos por dois motivos principais: por um lado, o célebre Il Campo, uma das praças góticas mais famosas do mundo, onde anualmente se realiza o Palio, uma das festas tradicionais mais conhecidas de Itália; por outro, a catedral de Siena, o Duomo, que foi um dos edifícios mais marcantes da arquitectura da sua época.
 Tem o viajante que confessar que o Duomo de Siena foi uma grande surpresa. Já tinha lido que era um edifício majestoso. Mas na verdade achou que é muito mais que isso. A torre sineira é o edifício mais alto da harmoniosa cidade, ainda mais alta que a torre do palácio municipal, no Campo. Quer a torre, quer a abóbada da catedral, ao lado, estão revestidas de mármore preto e branco, formando um conjunto de uma elegância fantástica.
Quanto à fachada do Duomo, é exuberantemente rendilhada, no mais exuberante gótico italiano, de mármore branco, muito bem recuperado, aqui e ali marcado pelo mármore rosa – todo o resto do edifício é também de mármore, por vezes matizado de preto, outras vezes de verde-escuro.

 A entrada no interior do Duomo é paga (6€). Mas vale bem a pena, sobretudo pelo magnífico piso de composição em ladrilhos, que nem sempre está aberto para visita - esteve-o no verão de 2009, altura em que o viajante por ali passou.
Os mosaicos do piso representam sobretudo histórias bíblicas (uma magnífica representação do sacrifício dos inocentes, painéis sobre a história de Jesus, ou de Moisés, ou o sacrifício de Isaac) mas também de outros motivos – por exemplo, há uma roda da fortuna com nomes de filósofos gregos. Por toda a catedral há imensa estatuária e altares, mas toda a sua riqueza é ofuscada pela exuberância do piso.

 Ao lado, fica a biblioteca da catedral, a Libreria Piccolomina, compartimento especialmente construído para ser biblioteca, profusamente decorado no tecto e nas paredes, com cenas da época e da vida do próprio abade construtor. Em armários laterais podem ver-se imensos livros de salmos, com riquíssimas iluminuras. Achou o viajante que a riqueza da decoração desta sala, só por si, valeu a visita à catedral.

domingo, janeiro 23, 2011

Maurício, a ilha de todas as cores

 Como ideia geral, a ilha Maurício causou no viajante a impressão de ser uma espécie de antecipação histórica da aldeia global, aglomerada nesta isolada paragem do Índico ainda antes do sociólogo canadiano Marshall McLuhan ter criado o conceito. Na verdade, vários povos ocuparam, apenas desde há cerca de 5 séculos, uma ilha paradisíaca onde antes não vivia ninguém. E desde então, todos têm vivido ali em conjunto. São de diferentes etnias, oriundos de diferentes continentes, professando diversas religiões, mas dão-se bem entre eles.
De facto, na ilha Maurício, indianos (hindus e tamiles), crioulos e brancos (católicos) e paquistaneses (muçulmanos) partilham uma ilha superpovoada, mas onde vai havendo riqueza para todos.

 Claro que, pelo caminho, quase desapareceu a vegetação endémica da ilha, para ser plantada no seu lugar, de forma intensiva, cana-de-açúcar, o sustento económico tradicional e histórico de quase toda a população. Por outro lado, depois do dodó (o castiço passaruço que foi sendo caçado até ser dado como extinto, a bem dos estômagos dos marinheiros holandeses que aqui aportaram no século XVIII) há hoje em dia outras espécies, sobretudo marinhas ameaçadas pelo incessante crescimento do turismo, que já ultrapassou em muito o açúcar como fonte de receitas da ilha.
Apesar disso, os maurícios são gente alegre e simpática. Claro que já descobriram que os turistas podem dar-lhes dinheiro a ganhar. Têm por isso razões para os tratar bem. Mas, ao contrário de outros povos que o viajante tem conhecido (por exemplo o italiano ou o egípcio), não deixam de ser simpáticos quando percebem que não vão fazer negócio. Pelo contrário: em geral esforçam-se mesmo por agradar e fazem-no de uma forma genuína.



 Não deixou o viajante de pensar, quando passou pela ilha, que nesta hospitalidade sincera estava a marca genética dos portugueses, que foram os primeiros humanos (que se saiba) que pisaram a ilha. O navegador português Pedro de Mascarenhas terá chegado à ilha entre 1503 e 1507. Aliás, o arquipélago de que a Maurício faz parte, conjuntamente com a vizinha Reunião e com a longínqua Rodrigues, ficou desde então baptizado como “Arquipélago das Mascarenhas”. Quanto à ilha propriamente dita, deram-lhe os portugueses o nome de ilha do Cisne, com o qual terão achado parecido o agora extreminado dodó.
Porém, este baptismo lusitano rapidamente foi substituído. Metade de um século depois os holandeses vieram ocupá-la a ilha e, em homenagem ao seu regente, Maurício de Nassau, passaram a chamá-la Ilha Maurício.

 Além de comerem os dodós todos, os holandeses trouxeram também a cana-de-açúcar. E com ela tiveram que vir os escravos africanos, para trabalhar na sua plantação, na colheita e nos engenhos. Depois da abolição da escravatura na Europa, os donos das plantações da ilha, entretanto ocupada pelos ingleses, viraram-se para a Índia e passaram a recrutar trabalhadores livres, que aqui acorreram com as suas famílias.
E assim se povoou, com população colorida, esta ilha antes deserta, onde agora vive mais de um milhão e duzentos mil habitantes, numa pequena área de apenas 1.800 quilómetros quadrados.
Além do colorido das gentes, das suas religiões e roupas, a Ilha Maurício é também uma ilha colorida pela sua natureza. Surgem flores por todo o lado, durante todo o ano, sobretudo amarelas e vermelhas. Além das flores comuns, há árvores muito floridas – é o caso da flamboyant, a exuberante árvores de flores vermelhas, típica da ilha.

Mas, a Maurício é ainda colorida nas línguas que fala. Todos aqui falam crioulo, derivado do francês. Falam crioulo entre eles, em casa, entre amigos, independentemente da sua etnia ou religião. Mas se a conversa envolver um desconhecido, ou se for formal, ou profissional, então será em francês. Não será assim se o contacto for escrito (num email, por exemplo, ou num requerimento a uma entidade pública). Nesse caso usado o inglês, a única das três que é qualificada como língua oficial. Da mesma forma, na estrada, os sinais de trânsito têm texto em inglês, mas os nomes das localidades são franceses, tal como estão escritos em francês os anúncios comerciais, na beira da estrada. Apesar disso, a circulação faz-se à inglesa, pela esquerda. Mas as informações diárias sobre o estado do trânsito são transmitidas na rádio em crioulo. Tudo com muita tranquilidade…
A Ilha Maurício fica no Oceano Índico, a 3000 quilómetros de Moçambique. É pequena (de norte a sul a distância máxima é de 63 quilómetros e de leste a oeste é de 47 quilómetros). Tem voos a partir de Paris (diários) e de Londres (4 vezes por semana) que normalmente fazem o percurso para lá durante a noite e regressam logo de manhã, chegando à Europa ao fim do dia (o voo durará 11 a 12 horas). É um destino turístico muito procurado pelas suas praias de águas coralinas, verde-esmeralda e pelo seu interior, com natureza pouco explorada. O clima é bom, com tempo agradável durante todo o ano, mas em Janeiro e Fevereiro chove muito.

sábado, janeiro 01, 2011

As igrejas românicas de Andorra

 A Andorra vai-se às compras ou para o esqui. Em ambos os casos, na versão low cost. Nas compras, porque os impostos são muito reduzidos e os modelos de fim de linha, já ultrapassados, de roupa, sapatos, máquinas fotográficas e outras tecnologias se vendem baratos. No esqui, porque a oferta de hotéis é simpática e, por preços mais modestos, prestam serviços parecidos com os dos Pirenéus de Espanha ou França. Além disso, há portugueses em todos os lados, quer como clientes quer, sobretudo, como empregados da hotelaria.
O viajante tem um fraquinho pelo românico. Já aqui deixou nota da passagem pelo vale de Boí, ao lado, na Catalunha, onde as igrejas românicas são de facto um fenómeno notável, a justificar a viagem. Não poderá dizer o mesmo das igrejas românicas de Andorra. Também elas são uma versão mais simples, menos sofisticadas e ricas que as do outro lado da montanha. Mas apesar disso valem o desvio no regresso do esqui.
São em geral igrejas de estilo lombardo, que bem revelam a importância da religião e da religiosidade no período medieval, quando foram construídas. Vem dessa altura a instituição do co-principado de Andorra, em que um dos co-príncipes é o bispo católico de la Seu d’ Urgell, na província espanhola de Lleida. Esta importância justificará a grande densidade de igrejas românicas no pequeno principado pirenaico: em Andorra ainda subsistem 44 destes templos católicos, num território de apenas 468 quilómetros quadrados. Este conjunto de edifícios religiosos constitui, aliás, o património cultural e arquitectónico mais valioso do país.
 Em geral são edifícios pequenos e simples, muito sóbrios, com interior de uma única nave, coberta com telhado de madeira. No topo costumam ter uma abside redonda, semicircular. Algumas delas conservam frescos, mas a maior parte deles foi retirada e está em museus fora de Andorra – em particular assim acontece com o Museu Nacional de Arte da Catalunha, em Barcelona.
As autoridades do turismo de Andorra criaram uma rota do românico, que começa em Canillo e acaba em Grau Roig. Ninguém o percorre todo. Alguns visitantes fogem ao esqui e procuram Santa Coloma, próxima de Andorra la Vella, uma das mais representativas, que figura em todos os guias. Outros, Sant Climent, na zona de La Massana.
Achou o viajante que bastaria ficar pelo mais fácil, visitando a igreja de Sant Joan de Caselles, em Canillo, na beira da estrada e com facilíssimo acesso para quem pretenda cruzar o principado pela estrada principal, de sul para norte. É um edifício dos séculos XI e XII, ligeiramente alterado nos séculos XV e XVI. Notou de especial um campanário externo, unido à nave principal por um alpendre que os paroquianos usavam como sala de reunião comunal.