quinta-feira, fevereiro 10, 2011

Recife Velho, Pernambuco, Brasil

 Modelou o viajante na sua memória as cidades do hemisfério sul, sobretudo do Novo Mundo, como imensos aglomerados de pessoas, algumas das quais trabalham em altíssimas torres de escritórios no centro e vivem em condomínios fechados, enquanto a esmagadora maioria da população vivem em bairros pobres e em favelas, que crescem nos morros próximos. Neste tipo de cidades, não tem o viajante encontrado propriamente um centro, no sentido europeu – costumam ter algumas ruas comerciais, com caríssimas lojas de marcas internacionais globalizadas, uma zona com altas torres de bancos e consultoras financeiras, por vezes, uma zona de hotéis e embaixadas. Tudo muito compartimentado e isolado, sem aparente ligação.
 Muito menos tem o viajante encontrado nestas cidades aquilo a que habitualmente se chama um centro histórico – aquela zona mais antiga e cuidada, onde terá estado a sua origem. Têm, é certo, zonas mais polarizadoras de interesse, que vão variando ao longo do tempo, com a construção de novos edifícios de escritórios, hotéis e restaurantes.
 Foi por isso uma surpresa verificar que em Recife, capital do brasileiro Estado de Pernambuco, a herança portuguesa (e - vá lá -, também alguma holandesa), deixaram na malha urbana um conjunto grande de quarteirões antigos, sucessivamente renovados e remodelados sem que ficasse prejudicada a sua traça e o ambiente de contexto. Na zona conhecida como Recife Antigo, zona mais interessante desta megacidade de 3 milhões de habitantes, implantada em ilhas que separam o mar da foz do rio Capibaribe, encontram-se edifícios dos séculos XVIII e XIX, igrejas barrocas e maneiristas e ainda fortes militares construídos para defender a cidade na época colonial.
 Merece particular visita o Forte das Cinco Pontas. A versão actual, após a reconstrução portuguesa, tem planta quadrangular e quatro bastiões em forma de ponta, mas quando os holandeses o edificaram, em 1630, durante a ocupação espanhola, teria de facto uma original forma, de estrela com cinco pontas. Foi construído para defender o Recife de ataques vindos do mar e para proteger o seu acesso ao Atlântico – começava na altura a exportação do açúcar, a grande riqueza da região.
 Algumas das suas ruas fizerem o viajante julgar estar num Portugal tropical. Foi o caso da muito fotografada Rua da Aurora ou da Rua do Bom Jesus, onde fica a antiga sinagoga Kahal Zur Israel, a primeira que foi construída na América do Sul, em 1642, período de alguma distensão e tolerância, sob domínio holandês. Não longe, fica a Igreja da Madre de Deus, construída no século XVII, em estilo por aqui conhecido como colonial e que se diria ser barroco. Ainda na zona, não pode o viajante deixar de visitar o Convento Franciscano de Santo António, que inclui a sua igreja, do século XIX e uma capela lateral, do século XVIII, conhecida como Capela Dourada (da qual já deu aqui o viajante conta), por ser folheada a ouro.
Este património religioso foi a resposta com que os portugueses do século XVII (conhecidos como Mascates) quiseram marcar a expulsão dos holandeses destas paragens, que ocorreu por essa altura.

2 comentários:

Edilson Palhares disse...

Obrigado por ter gostado de nossa Recife. No entanto, gostaria de ressaltar que seu comentário "enquanto a esmagadora maioria da população vivem em bairros pobres e em favelas, que crescem nos morros próximos" não deve ser aplicado ao Brasil. Sim, temos população vivendo nessas condições, uma condição social que herdamos principalmente da época da escravatura. No entanto, a esmagadora maioria de nossa população vive acima da linha da pobreza. Nossos centros urbanos são sim congestionados e demograficamente mal distribuídos. Mas somos uma nação com aproximadamente 200 milhões de habitantes. A maioria desta população pertence à níveis da classe média (usando ainda este tipo de medição que sociologicamente já se considera ultrapassado). Infelizmente, como acontece também no Velho Mundo, temos uma classe alta, que usa helicópteros e barcos, mas isto não significa que um taxista não possa fazer um cruzeiro marítimo de vez em quando ou que, com uma certa economia, possamos passear na Europa. Quando voltar aqui, procure conhecer as cidades do interior, não necessariamente as turísticas. Garanto-lhe que será uma experiência agradabilíssima. Até porque os brasileiros costumam ser bastante xenófilos!
Abraços!
Edilson
Araxá - MG - Brasil

pv disse...

Muito obrigado pela sua visita e pelo seu comentário.
O Brasil é um país fantástico, que visito sempre com muito agrado e do qual escrevo sempre com muito gosto.
Volte sempre.
PV