domingo, março 20, 2011

Glaciar Perito Moreno, Patagónia, Argentina

 Poucos fenómenos naturais impressionaram tanto o viajante como o glaciar Perito Moreno, na descida da cordilheira dos Andes para as estepes da Patagónia argentina. Ficou o viajante com a memória bem marcada pelas variações dos matizes azuis do gelo, mais ou menos intensos consoante o ângulo em que lhe dá a luz do sol. Mas também pela grandeza da mole gelada e pelo súbito ruído surdo, a esmagar o silêncio, dos pedaços de gelo que, de quando em quando, se vão destacando das paredes frontais do glaciar e mergulham nas águas geladas do Lago Argentino.
 Este glaciar integra o “Parque Nacional de los Glaciares”, classificado como património mundial da Unesco desde 1981. O parque tem este estatuto desde 1971, mas já era área protegida desde 1937. Integra 47 glaciares, numa enorme área de 7240 quilómetros quadrados (sensivelmente a mesma área do distrito de Évora, segundo maior distrito português, que tem 7393 quilómetros quadrados). Fica a três mil quilómetros a sul de Buenos Aires, na enorme província de Santa Cruz, um dos estados que integram a estrutura federal da República Argentina.
Reteve o viajante que os glaciares da região formam o chamado campo de gelo da Patagónia do Sul, que é considerada a terceira maior massa de gelo do globo, a seguir à Antárctida e à Groenlândia (os campos de gelo têm, no seu conjunto, 14 mil quilómetros quadrados). O glaciar Perito Moreno é o mais acessível. Próximo, ficam o glaciar Upsala e o glaciar Viedma, que são maiores mas mais longínquos. E também, dizem os locais, menos espectaculares. Além da mole de gelo branco azulado, o especial atractivo do Perito Moreno está na circunstância de atravessar um lago a meio, dando assim origem a dois quando o gelo avança até atingir a outra margem. Nessa altura, por efeito dos rios que alimentam o lago, as águas de um dos lados sobem bastante mais, exercendo pressão sobre o gelo, que acaba por ceder e rebentar, criando fendas no glaciar e formando rios subterrâneos que, pouco tempo depois, fazem despedaçar o glaciar. Este fenómeno tem ocorrido duas ou três vezes por década, consoante o rigor dos invernos e o calor do degelo, no verão austral.
 Todas estas águas alimentam o gélido lago Argentino, o maior do país. Ficou o viajante impressionado por ver ali a boiar pedaços de glaciar, verdadeiros icebergs, de cor azulada. Como os outros lagos da região, o Argentino é o resultado do degelo, no final das glaciações: os glaciares desceram da cordilheira dos Andes e escavaram os típicos vales em forma de U, deixando atrás deles fundas depressões, que se encheram de água formando inúmeros lagos, geralmente de forma alongada.
 O Glaciar Perito Moreno mede 31 quilómetros de comprimento, por 4 de largura – diz-se que forma uma área do tamanho da cidade de Buenos Aires. A forma mais fácil de o visitar é fazer o passeio de barco, que parte da chamada península de Magalhães, que fica na outra margem do lago, mesmo em frente. Há cinco a seis passeios por dia, que duram uma hora. O bilhete compra-se na entrada para o barco. Mas também há visitas a pé: há programas de um dia inteiro, de trekking sobre o próprio glaciar. Supõem sair de manhã cedo, apanhar um barquito para a base do glaciar e caminhar sobre o gelo um par de horas, antes de voltar. Para os mais comodistas, é sempre possível ver o glaciar de longe, percorrendo passadiços de madeira instalados em degraus no morro fronteiro ao glaciar, na península de Magalhães, mesmo em frente do Canal de Los Témpanos (nome local para iceberg).
 O glaciar fica a 80 quilómetros de El Calafate, em estrada boa, sempre asfaltada. Se se optar por não usar os autocarros de excursão, que saem de manhã cedo, pode sempre contratar-se transporte individual, de carro – neste caso, a viagem durará uma hora para cada lado, por paisagem fantástica, de estepe e montanhas geladas e custará 450 pesos argentinos (cerca de 80 euros). A entrada na zona do “Parque Nacional de los Glaciares” é paga (75 pesos, cerca de 14 euros).
El Calafate é a cidade mais importante da região. Pode chegar-se lá, desde Buenos Aires, por avião (há três voos diários para cada lado). O aeroporto dista 20 quilómetros da cidade e na terra há muitos hotéis e restaurantes.

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