domingo, dezembro 07, 2008

Brasília e Niemeyer

No próximo dia 15 de Dezembro, Óscar Niemeyer completará 101 anos. O nome dispensa mais comentários biográficos e a idade e vivacidade, que tem confirmado na televisão, deixam o viajante cheio de respeito e parado no terreno. Mora em Copacabana, em cujos morros, segundo o próprio, o arquitecto do mundo nascido no Brasil se inspirou para encontrar as linhas curvas intermináveis que marcam a generalidade das suas criações.

Quando o tema de conversa é a capital federal brasileira, mesmo o viajante mais desatento pensa logo no génio de Niemeyer. É universal a imagem de alguns dos mais emblemáticos edifícios de Brasília. É o caso do Palácio da Alvorada, construído entre 1956 e 1958 para ser residência oficial do presidente da República, um dos mais emblemáticos da cidade e da carreira de Niemeyer. Impressiona a sua simplicidade e discrição. Recorda bem o viajante os vários edifícios da Praça dos Três Poderes, desenhada por Lúcio Costa, logo na elaboração do plano piloto da cidade e cheia de simbolismo. Está delimitada por três edifícios desenhados por Óscar Niemeyer: o Palácio do Planalto, onde funciona a Presidência da República, poder executivo, o Congresso Nacional, sede do poder legislativo e o Supremo Tribunal Federal, emblema do poder judicial. O Congresso, um dos modernos emblemas de Brasília, é um só edifício, com duas torres paralelas e duas cúpulas, de sentido invertido, encimando uma delas o Senado e a outra a Câmara dos Deputados. O Palácio do Planalto e o Supremo Tribunal Federal partilham o estilo, de arcos investidos e larguíssimas coberturas.

Porém, o edifício que mais marcou o viajante na sua passagem na capital do planalto foi a Catedral Metropolitana Nossa Senhora da Aparecida, construída entre 1958 e 1971. A sua silhueta é ainda hoje motivo de especulação. Niemeyer é e era ateu, mas a igreja revela profunda compreensão da fé católica. Pretende quebrar com a tradicional traça das grandes catedrais, com escuras e compridas naves em frente de um altar. Pelo contrário, é vagamente arredondada e está inundada de luz, projectando-se para o céu. A entrada faz-se pela penumbra de um túnel, intimando à preparação para a meditação. Dentro, pendentes do tecto, estão os três arcanjos; antecedendo a entrada, no exterior, estão os quatro apóstolos evangelistas. Em poucas igrejas modernas encontrou o viajante tanta consonância entre a fé a sua representação. É notável, para uma igreja projectada por um comunista, numa cidade que pretendia servir ideais socialistas. Ficou o viajante com vontade de ver também a primeira grande obra de Niemeyer, curiosamente também um templo religioso: a Igreja São Francisco de Assis de Belo Horizonte, em Minas Gerais, também conhecida por Igrejinha da Pampulha, que pelas suas linhas não usuais ficou por muito tempo por benzer pela Igreja Católica.

sábado, dezembro 06, 2008

Igreja de Santo António de Pádua, Roma

É notícia destes dias a próxima inauguração, na Igreja de Santo António dos Portugueses, em Roma, de um novo órgão de tubos, que motivou referências da agência católica Ecclesia e da Radio Vaticana, por ser considerado um instrumento único na capital italiana. Para uma próxima ida a Roma, deixou o viajante a Chiesa di Sant’Antonio dei Portoghesi, templo barroco mas com origem no século XV (a construção ficou a dever-se a D. Antão Martins de Chaves, mas essa é outra história), que tem o estatuto de igreja da comunidade portuguesa que vive em Roma.
Mas passou e entrou o viajante na Chiesa Sant’Antonio da Padova, que fica próxima da Catedral de São João de Latrão, na zona oriental da cidade eterna.
Já antes, em Pádua, revelando mau feitio, o viajante tinha ficado incomodado com a facilidade com que o nosso popular santo de Lisboa foi adoptado pela gente daquelas paragens, como se fosse dali. E aqui, em Roma, a incomodidade repetiu-se. Concerteza que o mesmo teria acontecido em vários outros locais de Itália, se o acaso ali tivesse levado o viajante: há igrejas e basílicas evocativas de Santo António de Pádua em Milão, Bolonha e muitas cidades.


Ficou o viajante incomodado, mas sem razão. Deveria ter ficado feliz com a difusão do culto a Santo António, pelo que isso significa. Esta Igreja de Santo António de Pádua, em Roma, fica na Via Merulana, nº 21. É um templo de finais do século XIX, construído para ser a sede romana da Ordem dos Frades Menores de São Francisco. Tem uma escadaria dupla, que dá acesso a um majestoso pórtico, onde está uma estátua de Santo António, com o menino. Tem interior de três naves e uma capela lateral dedicada ao santo. Tudo visto, porém, em Roma, entre tantos e tão grandiosos templos, não fora a devoção lusitana e não seria este um local que chamasse a atenção.

terça-feira, dezembro 02, 2008

O outro Kremlin, Moscovo

Kremlin é um sinistro nome do tempo da guerra-fria, símbolo do mal e da intriga em todos os filmes do agente 007. Agora, que está parcialmente aberto ao público, a sua beleza e magnificência transformaram-no num marco incontornável quando se visita Moscovo, a capital da Federação Russa. As suas catedrais, tão inesperadas como surpreendentes, são jóias magníficas da arte religiosa russa. O actual formato da cidadela (cidadela é o significado, em russo, de ”kremlin”), vem do século XV, altura em que foram construídas as muralhas avermelhadas que a cercam. Aqui se instalou a corte russa e aqui ficou também a sede da Igreja Ortodoxa Russa. O Kremlin foi o coração do poderio dos csares, antes de ser a sede do império soviético. Sem dúvida, esteve à altura das suas funções.
Entrando no Kremlin, imediatamente o viajante respirou muito poder no ar. Não pode deixar de reparar no grande número de militares a patrulhar todo o sítio, ordenando as zonas de visita. Nem nos luxuosos veículos escuros que constantemente circulam a alta velocidade, não se sabe de onde nem para onde. Talvez de, ou para, algum dos enormíssimos edifícios não visitáveis, com gigantescas fachadas, com que se deparou em cada canto.

Só as igrejas estão todas visitáveis. A Catedral da Assunção (Uspensky Sobor), construída entre 1475 e 1479, destinou-se a ser a igreja privada dos grandes príncipes de Moscovo e dos Czares da Rússia. Na Catedral do Arcanjo (Arkhangelsky Sobor), do início do século XVIII, estão os restos mortais dos príncipes e dos Czares. Era, aliás aqui que costumavam fazer-se as cerimónias de casamento, coroação e funeral dos czares. Ambas as catedrais estão fantasticamente decoradas. Os topos estão revestidos de incunábulos, em madeira pintada, ornados de prata, como moldura. O resto, as paredes laterais e as altíssimas colunas, estão cobertas de frescos. Ainda é visitável a Catedral da Anunciação (Blagoveshchensky Sobor) e a pequena igreja de Nossa Senhora do Santo (Tserkov Risopolozheniya), destinada a ser a igreja privativa dos patriarcas da igreja ortodoxa.













A torre sineira de Ivan o Grande (Kolokolnya Ivana Velikogo), construída no século XVI, está encimada, como as catedrais, pelas tradicionais cúpulas douradas, em forma de cebola. É o edifício mais alto do Kremlin, mas apenas pode visitar-se a sala térrea. Nunca foi colocado no seu lugar o célebre sino do Czar (Tsar-kolokol), que foi deixado ao lado, no chão. É, diz-se, o maior sino do mundo, mas nunca chegou a tocar, porque se partiu ainda antes que isso tivesse acontecido. É um objecto monstruoso, construído em 1735. Mede mais de seis metros quer de altura, quer de largura. Pesará, julga-se, 200 toneladas. Não está longe outra peça construída para ser a maior do mundo no seu género: o canhão do Czar (Tsar-Pushka), que mede 5,34 metros de comprimento e pesará 40 toneladas. Também nunca disparou um tiro.

O Kremlin está aberto para visitas todos os dias, com excepção das quintas-feiras, das 10 às 17 horas. O bilhete custa 300 rublos (cerca de 8,5 euros, ao câmbio de Dezembro de 2008). Servem-no várias estações de metro, a melhor forma de transporte em Moscovo, e fica no centro do centro da capital russa.

segunda-feira, dezembro 01, 2008

Vale de Ventos, Parque Natural da Serra de Aire e Candeeiros

Já andou por aqui o viajante a pé, trilhando percursos marcados pelo PNSAC. Próximo da povoação de Vale de Ventos há uma antiga casa-abrigo do Parque Natural, agora abandonada, O que não está abandonado é o dito percurso pedestre, de dois quilómetros e meio de extensão, que se percorre em pouco mais de uma hora, que o viajante recomenda que se faça, sobretudo, no fim da primavera, quando as plantas aromáticas estão pujantes. Nessa altura correm pela serra, trazidos pelo vento, aromas dos sabores da cozinha mediterrânica, que não vêm enlatados nem liofilizados. Pelo chão encontram-se tufos de orégãos e largas extensões de alecrim. No fim do Outono, a zona é agreste. Fazendo justiça ao topónimo, há sempre ventania fria e desagradável. Havendo sol, mesmo assim, o passeio é muito agradável. Vale, nesse caso, a paisagem aberta, desde os limites do pinhal, para o interior, até ao mar, para oeste. Em dia claro, do alto da Serra, já viu o viajante, lá ao longe, a Berlenga!A ventania persistente foi concerteza a razão que levou à escolha da serra para instalação de um enorme parque eólico, com mais de 30 aerogeradores.
A serra de Candeeiros é encimada por uma crista regular, que pode percorrer-se no sentido sul/norte. Graças à necessidade de acesso aos locais de construção dos aerogeradores, foi construída uma estrada em terra, que atravessa toda a crista da serra, entre Vale de Ventos e o Alto da Serra. Esta última povoação, sobranceira a Rio Maior, fica na antiga Estrada Nacional nº 1, a partir da qual se acede à serra. A antiga Nacional 1 tem na actualidade ar abandonado, em particular ao fim-de-semana, altura em que quase não tem trânsito. De alguma forma, faz lembrar a mística Route 66, na versão “Cars”, em desenhos animados.
Os aerogeradores do alto da serra são torres com 110 metros de altura e 300 toneladas de peso. Cada um deles pode custar 2,5 milhões de euros e produz energia eléctrica suficiente para alimentar de electricidade 400 casas. As pás dos hélices têm 40 metros de comprimento e, com vento forte, vê-las passar, girando, na base da torre, é toda uma experiência.