sábado, abril 11, 2009

Pedro e Inês em Alcobaça

A história não é a mais velha do mundo, mas é das mais belas do mundo: amor secreto, casamento proibido e sanção capital. É a história do Infante Pedro, filho do Rei D. Afonso IV e de Inês, a Castro, galega de origem, coroada rainha de Portugal depois de morta. O maior vestígio desta trágica história medieval portuguesa é o mosteiro de Alcobaça, que o infante, já depois de coroado rei D. Pedro I, escolheu para sepulcro de ambos. Ela tinha morrido às mãos dos esbirros do pai do seu amado. Ele, após a morte dela, coroou-a rainha e mandou que os seus restos fossem trasladados para Alcobaça.
Nos monumentais túmulos, mandados construir pelo rei, góticos exuberantes, sem perder a dimensão humana, encontrou o viajante gratificação para este desvio por terras do Oeste de Portugal.
Mas outras encontrou também. Este Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça está entre os maiores monumentos religiosos portugueses e é, porventura, o mais simbolicamente associado à história nacional. O rival Mosteiro da Batalha ficou umbilicalmente ligado à dinastia de Avis e o Convento de Mafra foi um produto do século dourado, pago com o ouro brasileiro. O Mosteiro de Alcobaça, pelo contrário, ficou ligado a toda a história nacional. Foi construído durante a primeira dinastia, por impulso dos reis Sancho II e Afonso III, em terrenos doados à Ordem Beneditina de Cister pelo rei D.Afonso Henriques (que tentou por esta via, como tentou por várias outras, convencer o papado a reconhecer o reino de Portugal). Depois, D.Dinis pagou a construção do claustro monumental que ainda tem o seu nome. É o chamado claustro do silêncio, que aliás impressionou o viajante, pela sua perfeição: gótico austero, do início, sem a exuberância do flamejante. No seu tempo, por aqui deambulavam os beneditinos tonsurados, em oração silenciosa. Estavam proibidos de qualquer palavra, pelo voto de silêncio. Menos silêncio tem o lugar hoje. Em tempo de Semana Santa, encontrou o viajante o mosteiro muito frequentado por turistas e outros visitantes, sobretudo os ruidosos vizinhos espanhóis, sempre muito abundantes nesta época festiva.
Mas muito depois de D.Dinis, o mosteiro manteve grandes ligações com a Casa Real. No tempo de D. Manuel os seus filhos chegaram a ser Abades do Mosteiro (primeiro D. Afonso, depois D. Henrique, o que mais tarde foi Cardeal Rei). Mais de dois séculos depois, D, Maria I inaugurou o Panteão Real, onde ainda hoje estão as sepulturas de alguns membros da Casa Real da Iª Dinastia. Um pouco por todo o lado é possível ver ícones da casa real. Este é, aliás, o único panteão real que o viajante conhece, para além do modesto e sombrio panteão real, escondido no mosteiro de São Vicente de Fora.
No resto do conjunto, apreciou o viajante o austero gótico e, nalguns casos, a evolução mais recente para o manuelino. Não ficou indiferente à solene sala do capítulo (assim chamada por aqui ouvirem, os monges, todos os dias, uma leitura de um capítulo da vida de São Bento), ou à magnífica cozinha, ou ao dormitório dos monges.Mas o viajante também recolheu boa impressão da sóbriíssima igreja do mosteiro. Irrepreensível gótico do inicial. Altas colunas e perfeitos arcos quebrados, suportando abóbadas altivas. Três naves, cortadas por um transepto em cruz, encimado por um pequeno deambulatório, de capelas hoje vazias, depois da desgraça do Matafrades. Diz-se que esta é a maior igreja de Portugal.
E no meio da cruz gótica, ladeando o altar mor, os ditos túmulos, de Pedro e Inês – ou deveria dizer-se de Inês e Pedro -, um em frente do outro, para que possam encontrar-se logo, no primeiro momento que se seguir ao juízo final, quando ambos ressuscitaram dos mortos para a vida eterna.

domingo, abril 05, 2009

A Suíça e os suíços

Desde há muito que o viajante se vem deslumbrando com a Suíça, a sua organização e arrumação, a sua disciplina e limpeza. Além disso, é uma constatação objectiva a de que o país é fantástico: é bem evidente a generosidade do Criador com este povo, ao escolher para ele as paisagens que aqui colocou. Sendo organizado e economicamente muito sólido, o país também tem das mais bonitas paisagens do mundo. Porém, não há bela sem senão. E a simpatia que o viajante sente pela Suíça só tem igual na antipatia que sente pelos suíços. É verdade que tem sido sempre tratado com muita educação sempre que calha passar por território helvético. No entanto, vem sempre o viajante com a impressão de que os suíços são gente fechada, opaca e muito cinzenta.

Gente muito cinzenta, de rosto inexpressivo e incaracterístico, que mesmo noutras paragens pode o viajante reconhecer. Os suíços são cinzentos no corpo e na alma. Não exteriorizam, em geral, as suas emoções ou sentimentos. Talvez sejam assim porque o seu país é tão perfeito e compostinho. Porque nele tudo funciona bem e é para ser o que é. Ocorre citar, a este propósito o Grande Eça, descrevendo a idílica ilha da deusa Calipso, onde se perdeu Ulisses: “o problema é que tudo é perfeito”, “o irreparável e supremo mal está na perfeição” (“Ulisses”, in Contos de Eça de Queirós).
Como consolação, evoca o viajante os incontornáveis símbolos helvéticos, encabeçados pelo Matterhorn, ou Monte Cervino, nas imediações de Zermatt. Esta esbelta montanha, inspiradora do Toblerone, cuja imagem se reproduz nas caixas dos lápis de cor Caran d’Ache e também da imagem genérica dos filmes da Paramount Pictures, emparelha em importância iconográfica com a igualmente célebre edelweiss (Leontopodium Alpinum), a carnuda e nobre florzinha branca dos Alpes, imortalizada por Julie Andrews em “Música no Coração” e descrita mais tarde por Goscinny e Uderzo, em “Asterix na Helvetia”.Ainda como consolação, tem o viajante verificado que os aviões suíços são os únicos de cujas janelas se podem tirar fotografias: estão limpas.

quarta-feira, abril 01, 2009

Sagrada Família, Barcelona

A ideia de erigir o Templo Expiatório da Sagrada Família, aquele que é hoje o ícone maior de Barcelona, teve origem em 1874, embora as suas obras tenham começado somente em 1882. Neste ano, a Associação de Devotos de São José, entidade promotora do templo, começou a construir a cripta. Decidiu ainda contratar o arquitecto Antoni Gaudí para que redesenhasse um velho projecto que existia para a construção. Este, assim fez. Afastou por completo o projecto que existia, em estilo neogótico e reformulou a própria orientação geral da obra. Deste plano original, manteve apenas a planta gótica, em cruz latina. Sobre ela, o arquitecto modernista catalão aplicou a sua criatividade e o seu estilo, dominado pelos elementos geométricos e naturalistas. Gaudí trabalhou na construção do templo até 1926, ano da sua morte, deixando nesta data desenhadas plantas das partes ainda por construir.

Começou o viajante a sua visita à Sagrada Família na entrada nascente e terminou-a a poente, na chamada Fachada da Paixão. Impressionaram ambas as fachadas – a primeira, exuberantíssima, cheia de detalhes e recortes naturalistas, a outra mais minimalista e sóbria, mas esmagadora,. É tema de ambas o tempo evangélico. Percorreu ainda o viajante a nave principal, já coberta mas inacabada. Faz claramente parecer estar-se num bosque fantasmagórico. Ao que parece, era esse o objectivo de Gaudí. A visita às torres é difícil, por ser imensamente concorrida, mesmo em épocas fora das férias de verão (tem o custo adicional de 2,5 €). Estão já construídas 12 das 18 torres previstas no projecto (todas elas votivas: 12 dedicadas aos apóstolos – são as já prontas -, outras 4 aos evangelistas, uma ainda, maior que as anteriores (125 metros), dedicada à Virgem e a mais alta delas dedicada a Jesus Cristo. Com 170 metros de altura, esta última, ainda por erguer, em forma de cúpula maior, fará da Sagrada Família a mais alta catedral europeia – mais alta que os 69 metros da Notre dame de Paris, ou os 110 metros de St. Paul de Londres, ou os 137 metros de São Pedro de Roma. Será também das maiores. Quando estiver pronta, os seus 4.500 metros quadrados albergarão14 mil pessoas.É natural esta perspectiva altiva, de construção em grande altura. Gaudí privilegiou a elevação, tal como sabia acontecer com as catedrais góticas medievais. O propósito era que o edifício se elevasse na direcção dos Céus, em louvor a Deus.

Pagou o viajante a entrada nesta igreja ainda por acabar (11 €) com a satisfação de saber que o seu contributo vai financiar o que falta por construir. Sendo concebida desde a sua origem como um templo expiatório, toda a construção tem sido erigida com o produto das contribuições e esmolas que para o efeito vão sendo deixadas (entre elas, a da compra de bilhetes) pelos visitantes, fiéis ou admiradores da obra. Já agendou o viajante nova visita a Barcelona para 2035, altura em que espera, mantendo-se ao ritmo actual, que a igreja esteja concluída.A igreja está aberta a visitas das 9 às 18 horas (de Abril a Setembro, até às 20 horas). Fecha a 25 e 26 de Dezembro e a 1 e 6 de Janeiro. As entradas ficam entre os Carrers de Provença e de Mallorca, e os de Sardenya e Marina, na zona oriental do Eixample, um pouco a norte da Avinguda Diagonal. É servida pelo metro (linhas 2 e 5).