quinta-feira, dezembro 31, 2009

Mosteiro de Kyiv-Pechersk Lavra, Kiev, Ucrânia

O leste da Europa – e em particular o território anteriormente correspondente à União Soviética -, tem-se revelado ao viajante como uma caixa de surpresas. No passado, o acesso turístico a estas terras estava vedado. Desde logo, porque era impossível ir lá. Mas sobretudo porque sobre elas pairava um véu místico, de medo do KGB, do controlo militar e da asfixia exercida pela estrutura do partido comunista. Kiev, capital da Ucrânia, foi a terceira da União Soviética. Foi uma das suas cidades emblemáticas – foi até uma cidade modelo socialista.

Porém, já muito antes disso, a Ucrânia tinha sido um dos centros mais importantes da igreja ortodoxa aquando do grande cisma do ocidente. Foi da Ucrânia que a religião se expandiu para a própria Rússia. E, na Ucrânia, o coração da Igreja Ortodoxa foi o Mosteiro de Kyiv-Pechersk Lavra, actualmente no limite urbano de Kiev, a sul da cidade. O mosteiro foi fundado no século XI e é ainda hoje em dia um dos lugares mais santos da igreja ortodoxa. É mesmo o maior lugar de culto e peregrinação da Ucrânia. Terá sido fundado no ano de 1051, por monges que já aqui viviam, em grutas. Estas grutas ainda hoje em dia guardam as sepulturas, que são visitáveis, de monges.

Teve o viajante oportunidade de visitar um mosteiro restaurado, reluzente nas suas cúpulas, pintado e lavado. Porém, o mosteiro teve ao longo da história muitas vicissitudes, sendo por diversas vezes destruído. A versão actual é sobretudo resultado de obras do século XVII e de obras de reconstrução, após a segunda guerra mundial, na segunda metade do século XX. Durante o estalinismo o mosteiro foi gerido pelo Estado e só após a queda do comunismo e a declaração da independência de Ucrânia voltou a ter monges e a presença da Igreja Ortodoxa. Actualmente, funciona aqui um seminário e aqui reside o chefe máximo da Igreja Ortodoxa da Ucrânia.

O mosteiro é também património da Unesco e, achou o viajante, só ele já justifica uma visita a Kiev. A visita faz-se sobretudo às várias igrejas. Nelas, impressionaram o viajante as cúpulas douradas, em forma de cebola, que as coroam. Bem se vê que são recentes, muito polidas e brilhantes, mas nem por isso deixam de deslumbrar. De entre as igrejas sobressai a rica catedral da “Dormition” e a respectiva fachada decorada, restaurada recentemente, após muitos séculos de sucessivas destruições. É actualmente um panteão de ilustres ucranianos. Ao lado, merece visita o edifício do antigo refeitório dos monges, com igreja anexa. Também magnífica, achou o viajante, é a torre do campanário, com mais de 96 metros de altura e extensamente decorada. Quanto às outras igrejas, a de Todos os Santos, do século XVII, é das mais originais. E ainda se podem visitar a Igreja da Natividade e a Igreja da Exultação da Cruz.

O espaço é vedado e a entrada, com horário, é paga. Foi o viajante auxiliado na compra do bilhete pelo seu intérprete que talvez o tenha igualmente ludibriado na conversão para a moeda local. Normal… Evidentemente, nesta terra de escassíssimos turistas (e muito menos estrangeiros), o preço apenas está afixado em ucraniano (em caracteres cirílicos). E raras são aqueles que falam língua estrangeiras. Em todo o caso, há outras entradas, para além da principal, por onde entram os locais. Por aqui não se cobram bilhetes nem se limitam as visitas à entrada até às 5 da tarde. Além do bilhete é importantíssimo comprar também um guia com mapa, porque o recinto do mosteiro é grande e não há indicações para visitantes. O Mosteiro de Kyiv-Pechersk Lavra fica a cerca de 3 quilómetros do centro de Kiev. O acesso por táxi será fácil e não será caro. Também será fácil chegar em autocarro e há uma estação de metro a menos de um quilómetro. A pé, chega-se do centro em 40 minutos e o passeio é agradável, pelos jardins sobranceiros ao rio Dniepr.

quarta-feira, dezembro 30, 2009

São Pedro do Sul, Beira Alta, Portugal

Pelos vistos, a fama do local e do poder curativo das águas de São Pedro do Sul já vem do tempo da ocupação romana da Península Ibérica. Esta constatação não foi novidade ou surpresa para o viajante: a generalidade das actuais termas portuguesas foi “descoberta” e explorada pelos romanos, que nelas buscavam a tal SPA, ou salute per aquam.
Aquilo que o viajante encontrou em São Pedro do Sul, em visita invernal, foi uma pequena terra de província, calma e adormecida. Talvez no verão o sítio seja mais animado.
Encontrou uma bonita zona fluvial, muito bem arranjada. E o resto do centro da terra igualmente cuidado. Quanto às águas, muito quentes, não as experimentou o viajante, mas soube de quem o fez que fazem bem ao aparelho digestivo e ao reumatismo.
No antigo regime, São Pedro do Sul era local de férias familiares de reformados e pensionistas, que aqui passavam temporadas em tratamentos, em ambiente modesto e português suave, com recato, sobriedade e frugalidade. Este estereotipo caiu em desuso e já não se adequa às exigências modernas. Por exemplo, ao antigo Grande Hotel, não bastava ter no seu currículo festas no salão e a aura de hotel de época: por isso se renovou.
Calhou ficar o viajante no Hotel Inatel Palace, uma versão melhorada do antigo Grande Hotel de São Pedro do Sul. Este hotel clássico foi inaugurado em 1930 e, na altura, tornou-se conhecido por ter mais de 100 quartos e pelo seu enorme salão, onde se realizaram imensas festas e bailes que ficaram célebres. Veio a ser propriedade da FNAT, instituição antiga, antecessora do INATEL, que comprou o hotel em 1959, altura em que estava já em decadência. Foi renovado e agora passou a ter apenas 77 quartos, melhores que os antigos. Mantém o magnífico salão, agora como restaurante. Esta versão moderna passou a ser menos pretensiosa. Continua a ter peneiras e a ser provinciana, mas está muito mais agradável. As instalações são confortáveis e a decoração foi cuidada. Sem luxo (diárias a rondar os 30 ou 40 €) propicia estadias tranquilas. Talvez falhe um pouco no serviço de restaurante.
São Pedro do Sul fica a 28 quilómetros de Viseu, com acesso a partir da A25, antigo IP5. O percurso demora meia hora, por estradas sinuosas, embora em geral em bom estado. O Inatel Palace fica muito próximo das termas. Mais informações podem ser obtidas em www.inatel.pt, embora o site seja muito fraco e de difícil consulta.

terça-feira, dezembro 29, 2009

Pristina, Kosovo, Setembro de 2006

Não estranhou o viajante que esta loja afixasse, junto com o horário, a informação de que era proibido fumar. Mais inusitada achou a informação, bem sublinhada – até em inglês, de que se proibia igualmente a entrada a pessoas portadoras de armas de fogo.

terça-feira, dezembro 08, 2009

Cairo, Egipto

Sabia o viajante que a capital do Egipto (e também a maior cidade de África, o mais importante centro islâmico do mundo e a sede da Liga Árabe) é uma megalópole imensamente poluída com perto de vinte milhões de habitantes. Como bem refere algum dos guias da cidade, o Cairo é uma cidade inacabada e inacabável. É inacabada porque, tendo origem no primeiro milénio da nossa era, o que hoje se visita é produto de muitas e diversificadas épocas históricas, que deram à cidade um estatuto de permanente evolução, saltitando entre dominador e dominador. É inacabável porque o êxodo do mundo rural para o centro urbano a tornou imensa e descontrolada. Boa parte da cidade é feita de edifícios construídos com tijolos ainda não revestidos – as construções estão ainda por acabar e nunca acabarão de ser construídas. E são às centenas de milhares os edifícios assim.
Nas zonas que o urbanismo ainda conseguiu gerir as avenidas são larguíssimas e compridíssimas, percorrendo bairros e bairros, que ultrapassam por via de viadutos urbanos, debaixo dos quais se organizam paragens de autocarros, mercados ou apenas parques de estacionamento. Na zona da mesquita e madraça de Al-Azahar e do célebre mercado Khan Al-Khalili, há uma avenida elevada por cima de outra. Numa e noutra o trânsito é caótico. As habituais linhas pintadas no chão, para delimitar as faixas de rodagem, são meramente indicativas, referências opcionais. Formam-se habitualmente muito mais filas de trânsito do que as faixas previstas. A condução é alucinada e arriscada – recorda em particular o viajante uma corrida de táxi, que mais pareceu um jogo de playstation: ultrapassagens, curvas, guinadas, golpes de volante e outras peripécias. É verdade que nas ruas do Cairo haverá, talvez, pelo menos meia dúzia de semáforos. Porém, embora funcionem, ninguém os respeita: têm que ser os polícias de trânsito a regular o fluxo do tráfego. Também não há passadeiras para peões. Atravessar uma avenida larga é sempre uma aventura arriscada e arrojada. Incrivelmente, há poucos acidentes.
Uma das memórias mais fortes que o viajante guarda desta cidade é a do som dos altifalantes dos muezzin, no topo dos minaretes das mesquitas, chamando para a oração por várias vezes ao dia. À hora da prece, das centenas de mesquitas do centro do Cairo sentem-se chamadas, que se sobrepõem uma às outras, atropelando-se e confundindo-se, numa desordenada sinfonia de vozes que ecoam, vindas de todos os quadrantes. Outra das incontornáveis memórias sonoras do Cairo é a do incansável e infindável som de bep-bep, das buzinas de todos os automóveis que circulam. Para os motoristas do Cairo, conduzir significa abrir caminho numa enchente de automóveis, a toques de buzina. Não são toques prolongados e mal dispostos de protestos, como se ouvem noutros países mediterrânicos: são antes pequenos e infindáveis toques repetidos de buzina, para alertar os restantes condutores.
Mesmo pertencendo a África, o Cairo não esconde a sua preferida vertente mediterrânica. Aliás, sofreu ao longo da história invasões de povos de todo o Mediterrâneo e também do Próximo Oriente. Ainda agora sofre pequenas invasões de turistas, em muito menor número do que noutros tempos, pelo receio das ameaças terroristas que vão pairando sobre um país muçulmano moderado, que não acolhe nem apoia extremistas. Para além dos turistas, o país e, em particular a capital, são o destino do mais variado tipo de pessoas: para aqui convergem muçulmanos de todo o mundo, mas também cristãos, da comunidade copta, que congrega um décimo da população do país. A predominância muçulmana não esconde a variedade de culturas que, como sempre aconteceu na história do Egipto, ainda actualmente por aqui se cruzam.
Há visitas imprescindíveis na cidade. O melhor panorama que sobre ela se obtém é o da Cidadela. A Cidadela é um recinto amuralhado, onde foram construídas várias mesquitas. Além disso, alberga quatro pequenos museus. Vale mais a paisagem do que a evocação histórica, nesta fortificação construída pelo mítico general sírio Salah ad-Din al-Ayyubi, conhecido na margem norte do Mediterrâneo como Saladino e famoso por ter derrotado os Cruzados, expulsando-os de Jerusalém, no século XII. A Cidadela é uma visita incontornável, sobretudo ao cair da tarde. Mais tarde, ainda, é a altura certa para visitar o bazar Khan Al-Khalili, com as suas ruas estreitas cheias de vendedores que insistem em chamar os turistas. Não menos turistas se encontram no Museu Egípcio do Cairo, um outro dos locais mais interessantes: nele se podem ver peças que se conhecem desde os livros da escola secundária. Por último, feita a ronda das mesquitas, quanto a património, está o Cairo visto na sua essência.

terça-feira, dezembro 01, 2009

A cerveja checa

O povo checo é o maior consumidor de cerveja do mundo. Cada um dos checos bebe, em média, 155 litros de cerveja por ano, o que dá uma média de meio litro por dia! Os checos consomem ainda mais cerveja que os campeões alemães e os super campeões irlandeses

Em plena Boémia, na sua zona mais ocidental, fica Plzen, onde foi inventada a primeira cerveja do tipo Pilsen, ou pilsener. A origem desta produção tradicional está na Idade Média, quando o rei checo Venceslau II outorgou a um conjunto de famílias da cidade o direito exclusivo de fabricar cerveja, usando os métodos tradicionais, ao estilo de Plzen, portanto. Mais tarde, no século XIX, os descendentes destas linhagens, todos pequenos produtores, acabaram por criar uma empresa de dimensão municipal, a que chamaram Plzensky Prazdroj, onde viria a nascer uma mítica cerveja de cor âmbar claro, que agora se vende em mais de 50 países diferentes: a Pilsner Urquell.

Não muito distante, a poucas dezenas de quilómetros, fica Ceske Budejovice, igualmente um antigo centro cervejeiro, tal como o de Plzen, com origem no século XIII. Aqui se produz a mundialmente famosa Budweiser Budvar, que há alguns anos intentou um processo em tribunal contra o seu representante no mercado norte-americano. Em causa estava o direito sobre o nome da marca. Por esta razão, desde então, nos Estados Unidos esta cerveja é produzida com o petit nom de Bud, ficando o original para a casa checa. Será, talvez, a cerveja mais difundida por todo o mundo.

Um pouco mais a sul fica Cesky Krumlov, uma fantástica vila medieval, classificada como Património da Humanidade pela UNESCO e rodeada pelo rio Vltava. Aqui, as tradições cervejeiras são igualmente medievais mas, ao contrário das de Ceske Budejovice e das de Plzen, a industrialização foi muito mais limitada e a Eggenberg, a cerveja local, não alcançou a dimensão das outras marcas cervejeiras. Talvez por isso, em Cesky Krumlov predominam ainda as pequenas cervejarias, que vendem o seu próprio produto, normalmente muito cerealado e espesso, de cor escuríssima e travo agridoce.

De fora, deixou o viajante até agora outras marcas, como a Gambrinus ou a Staropramen (que se produz no centro de Praga, podendo visitar-se e até almoçar na cervejaria), com igual e merecido prestígio mas sem a mesma marca local e histórica.