quarta-feira, agosto 24, 2011

Porta de Pedra, Zagreb, Croácia

  De breve passagem por Zagreb, reteve o viajante um impressivo local de culto católico, na chamada Porta de Pedra, ou Kamenita Vrata. É uma antiga porta da muralha medieval, actualmente convertida em capela.
Em Zagreb os turistas procuram muito a cidade antiga, de traços barrocos, localizada na parte mais alta da capital croata, onde em tempos existiu uma fortaleza. Dela se avista, nada longe, a cidade baixa, cheia de cafés e esplanadas, que dão enorme vida às ruas. Entre ambas ficam o mercado de Dolac, onde os camponeses dos subúrbios ainda vêm vender os produtos que colhem e a catedral de Santo Estêvão (Sveti Stjepana), dois dos ícones da terra.
  Mas, já o disse o viajante, nesta cidade caseira, aquilo que mais o impressionou foi a Porta de Pedra, uma antiga entrada na cidade antiga que actualmente é local de oração. Esta porta é a única que sobra da muralha da antiga cidadela, construída no século XII. Sabe-se que durante a Idade Média um incêndio destruiu toda cidade alta, dentro dos muros, bem como a própria muralha. Apenas restou dela uma zona construída em pedra, onde existia uma imagem da virgem Maria, com o menino. A partir de então, essa imagem passou a ser venerada, vindo a ser feita uma pequena capela em seu redor.
 Ainda hoje existe a Capela da Virgem Maria da Porta de Pedra, protectora de Zagreb. Fica dentro da porta de entrada na antiga zona de muralhas e reteve o viajante que os habitantes locais, quando aqui passam, param para rezar e acender uma vela. Outros, vêm aqui de propósito com essa finalidade. E não menos impressionou uma imagem aqui colocada, de Santo António de Lisboa, a que esta gente chama Sveti Antunu, igualmente muito venerado

sábado, agosto 20, 2011

Grande Muralha, China

  Não pode o viajante dizer que tenha sido desilusão. Talvez por estar mais vocacionado para visitar sítios com histórias e significado do que para coleccionar cromos turísticos, a Grande Muralha, o grande emblema da antiga civilização chinesa, cuja construção começou há mais de 25 séculos, não o deslumbrou.
Num mundo ideal, a forma certa de visitar este enorme conjunto de panos de muralha seria percorrê-los, ao longo dos seus 6430 quilómetros, desde o Mar Amarelo até às planuras do Deserto de Gobi. Talvez assim fosse possível aperceber a sua colossal dimensão - física e histórica - e compreender a função que teve, de defesa do império chinês, face aos invasores do norte, da Manchúria e da Mongólia. Mas esta visita não é possível. Por um lado, porque há troços (muitos troços), muito danificados; metade do percurso da muralha está mesmo destruída. Aliás, pelo contrário, há pouco troços minimamente conservados ou reconstruídos e por isso visitáveis. Por outro lado, a estrutura organizativa da China não facilita essa visita. Não há, fora das grandes cidades, apoio de hotéis, restaurantes ou bombas de gasolina. Esta realidade é agravada pela impossibilidade de comunicar noutra língua para além da local – o mandarim, ou variantes.
  Neste contexto, não sendo hoje em dia possíveis as viagens de descoberta marcopolianas, optou o viajante por visitar apenas um troço da Grande Muralha, próximo de Pequim, como aliás faz a generalidade dos turistas, mesmo os chineses. Optou pelo troço de Mutianyu, a norte de Pequim, no distrito de Huai Rou, próximo do povoado com o mesmo nome. É um troço originariamente construído no século VI, restaurado e em muito bom estado, com acesso fácil desde a capital. Fica, a cerca de 90 quilómetros de Pequim, por estradas asfaltadas, a maior parte delas em bom estado. No entanto, não havendo mapas de estradas detalhados disponíveis, será muito difícil a quem não fale chinês orientar-se por aqui.
  Próximo de Pequim é ainda possível visitar a muralha em Badaling, uma zona de muito fácil acesso e por isso muito popular – leia-se que tem muitos turistas e muitos vendedores de bugigangas e tee-shirts. Recomendam ainda os guias a visita a Jinshanling (a cerca de 100 km de Pequim – este troço tem o atractivo de ser permitido acampar na muralha) e a Simatai (que tem um troço de muralha muito mais destruída, em muito mau estado, mas também por isso muito menos turística e mais autêntica).
  Em Mutianyu há um teleférico que sobe a montanha, para permitir uma visita confortável à muralha. Percorrendo a muralha, em boa parte, as cristas das montanhas, nem sempre é fácil chegar aos troços sem ter que escalar até ao topo, duas ou três horas, por caminhos nem sempre fáceis.
A entrada do recinto de acesso à muralha é paga e o teleférico, evidentemente, também. Mas em qualquer dos casos, vale a pena. É um troço de muralha restaurado, de cerca de um quilómetro e meio, cuja origem remonta ao século XIV.
A muralha, em si mesma, é uma rude construção militar, similar às que na Europa se foram desenvolvendo desde o tempo dos romanos até ao fim da Idade Média. O aspecto particular desta muralha chinesa é o da sua dimensão (como tudo na China…). É ainda a circunstância de coroar montes e vales e montanhas, sempre pelas suas cotas mais elevadas.
  A Grande Muralha foi sendo construída ao longo de muitos séculos, em troços, durante o domínio de diversas dinastias que governaram o império. As partes mais antigas datam do século VI A.C., mas a sua dimensão colossal só foi atingida no século III A.C., no tempo do imperador Qin Shihuang (também conhecido pelo exército de soldados de terracota que o acompanharam no seu mausoléu). Em todo o caso, apenas houve verdadeiramente uma muralha, como a conhecemos hoje, no período da dinastia Ming (séculos XIV a XVI da nossa era).

  Entretanto, a muralha sofreu ao longo do tempo sérios danos: na década de 1950, durante o reinado de Mao Tse Tung, o governo exortava a população a “fazer o passado servir o presente” e incitava os camponeses a demolir a muralha e a reutilizar a pedra e os tijolos nela usados nas suas casas (foi aliás nesse tempo que o governo chinês ordenou a destruição das muralhas de Pequim, para edificar fábricas do Estado). Felizmente que o sítio é agora património protegido pela Unesco, desde 1987.
Durante muito tempo, a Grande Muralha foi tida como a única edificação humana visível deste a Lua. A história ficou a dever-se ao astronauta americano William Pogue, que disse tê-la visto desde o laboratório espacial Skylab – mais tarde, veio a concluir-se, afinal, que aquilo que se avistava era o Grande Canal, próximo de Pequim.

segunda-feira, agosto 08, 2011

As praias da Ilha Maurício

  Não foi o viajante à Maurício em lua-de-mel nem para férias na praia, ao contrário do que acontece com a generalidade dos turistas que integram o milhão de visitantes anuais da ilha.
Não obstante, estando-se ali é incontornável ir à praia. Primeiro, pelo clima: há calor e muito sol durante todo o ano (embora em Janeiro e Fevereiro chova muito e possa haver ciclones). Depois, a água do mar está sempre quente. Mas quente mesmo. Por último, o litoral da Ilha Maurício, muito recortado, está cheio de enseadas e baías de areia branca, muito convidativas.
  Em volta da ilha há uma barreira de recifes de coral. Embora seja irregular, em volta da ilha, em geral forma uma laguna entre a praia e o mar aberto. Nesta laguna, as águas são muito tranquilas e têm uma exuberante cor verde-esmeralda.
  A maior parte das praias não tem palmeiras, contrariando os clichés. Boa parte delas é bordejada por casuarinas, árvores de grande porte, dando muita sombra e com capacidade para sobreviver na areia salgada da praia.
Encontrou o viajante, na praia, muitas famílias a fazer piqueniques, sobretudo ao fim de semana. E nem a ocasional chuva de Janeiro os desanimava.
  Tudo visto, mesmo não tendo ido à Maurício para ir à praia, não a conseguiu evitar o viajante. E por isso, sempre pode recomendar uma ou outra. Para tomar banho, a praia de Grand Baie, na costa norte, onde ficam muitos dos hotéis e resorts de férias. Ou então, próximo desta, Mont Choisy, onde quase só vão os locais. O mesmo pode dizer-se de Flic-en-flac, na costa oeste. Todas estas praias têm estacionamento, estruturas de apoio na praia e restaurantes próximos.
  Porém, aquelas que o viajante achou mais bonitas, mesmo sendo piores para banhos, foram a Pointe aux Biches, a norte de Port Louis, a capital da ilha e a Baie aux Tortues, muito próxima desta. Ambas escapam ao estereótipo clássico, de palmeiras e areia branca. Talvez por isso, vêm aqui menos turistas. Têm, embora de outro tipo, vegetação igualmente luxuriante e areia mais grossa, misturada com pedaços inertes de coral, que se confundem com pedrinhas e, aqui e ali, blocos de negra rocha vulcânica. Nenhuma delas tem habitualmente banhistas. Pelo contrário, será provável encontrar famílias hindus a deixar, em rochedos dentro de água ou em plataformas de cana, fruta e flores, como oferendas a Shiva.

domingo, agosto 07, 2011

Ushuaia, Terra do Fogo

  O nome e o lugar são míticos para qualquer viajante. Conhece-se como uma referência de sempre e sonha-se com a jornada até lá. Fica na extremidade sul do continente americano e tem-se promovido por isso mesmo: assume o título de fim do mundo, de limite último para todas as viagens. Para lá de Ushuaia não há mais estradas que possam percorrer-se, nem aviões ou aeroportos, nem cidades. Por isso, esta cidade argentina da Terra do Fogo arroga-se o título de cidade mais austral do mundo.
  Aqui chega ao mar, finalmente, a longuíssima cordilheira dos Andes, que vem lá de longe, de ainda mais longe que o equador. Geográfica e geologicamente, a Terra do Fogo é um arquipélago, separado do resto da América do Sul pelo Estreito de Magalhães – Fernão de Magalhães, o português nascido em Sabrosa, Trás-os-Montes, descobriu esta passagem do Atlântico para o Pacífico em 1520, evitando assim passar pelas águas revoltosas e perigosíssimas do Cabo Horn. Terá sido o próprio Magalhães a baptizar estas ilhas e diz-se que lhe chamou Terra do Fogo por ter avistado muitas fogueiras ao longo da costa. Julga-se que seriam fogueiras acesas por tribos indígenas, para comunicar. A sul do estreito, separadas pelo Canal Beagle, ficam as outras ilhas do arquipélago, mais pequenas. Apenas 1000 quilómetros ao sul, fica a Antárctida.
  Ushuaia é a maior povoação da Terra do Fogo (terá cerca de 60 mil habitantes). É também a capital da parte argentina da ilha principal (que está dividida ao meio, entre o Chile, que ficou com a parte oeste e a Argentina, que domina o leste). No idioma yámana, usado pelos nativos, actualmente extintos, “us” significava ao fundo e “uaia” baía. Ushuaia fica de facto no fundo de uma baía.
O seu isolamento levou a que fossem para aqui foram trazidos, durante o século XIX, os prisioneiros mais indesejáveis do governo de Buenos Aires -  a origem da cidade foi uma colónia penal, fundada em 1884, cuja criação se destinou a impulsionar o povoamento desta parte argentina da Terra do Fogo. Existiu mesmo aqui uma prisão, entre 1902 e 1947, destinada a reclusos perigosos.
  Chegou o viajante a Ushuaia de avião. A descida para o aeroporto é das mais espectaculares que tem vivido, acompanhando de muito perto a descida da ponta final dos Andes, que aqui morrem no mar. Recordou então o viajante St-Exupery, que bem conheceu estas “arestas verticais, que as asas roçam a seis mil metros de altitude, e mantos de pedra, cortados a pique, e uma extraordinária e imensa tranquilidade”.
  Em frente a Ushuaia fica o Canal Beagle. É um estreito, que deve o nome a um navio de exploração britânico que por aqui navegou no século XIX (o HMS Beagle, comandado pelo inglês Robert Fitz Roy - a bordo, vinha também o então jovem de 23 anos Charles Darwin). Tem 250 km de comprimento e 5 de largura, na zona mais estreita.
Da cidade, que apenas tocou de passagem, guarda precisamente o viajante na memória a intensidade e a cor do pôr-do-sol no Canal Beagle. Aqui, o sol não parece pôr-se: desaparece mesmo, lá para o sudoeste, nas águas geladas do fim do mundo.