quarta-feira, dezembro 28, 2011

Os portugueses no Luxemburgo

“Ó Horácio: há limas?” Foi isto que o viajante teve como resposta à pergunta que fez, depois de entrar no Hotel La Ville de Bruxelles, em Vianden, nos confins das Ardenas, no Luxemburgo. Logo ao passar a porta de entrada, tinha visto na parede um papel manuscrito onde se dizia “há caipirinha”. Em português, pediu uma. E o seu cálculo não foi errado, porque logo de seguida a empregada de mesa, com claro sotaque do nordeste transmontano, fez a pergunta ao rapaz moreno e baixo, de t-shirt de mangas cavas, que estava por detrás do balcão.
E sim, havia limas. “Sabe”, explicou a rapariga, “estive de congée e só voltei hoje e por isso não sabia se havia”. O que também havia era sopa de cenoura, abóbora e couve galega – aliás bastante melhor que a caipirinha. E só mais tarde o viajante reparou que na porta do bar estava pendurada uma bandeira portuguesa e que a ementa era bilingue: em português e francês. E também que a ementa era verdadeiramente de cozinha de fusão, com grande densidade de specialités portuguaises. Já depois de sair ficou com pena de não ter provado o croque monsieur de salpicão.

 Já ocorreram ao viajante várias outras histórias deste teor, quando tem passado pelo Luxemburgo. Foi o Café Chaves, na estrada de saída da cidade do Luxemburgo para o norte, ou o restaurante Bom Petisco II – Chez Cândido e Cristina, em Echternach. Ou ainda o anúncio que dizia haver “castanhas de Carrazedo de Montenegro” no Mini-Market de Bereldange. É bem sabido que neste pequeno país do centro da Europa, cerca de 100 mil dos 400 mil habitantes são portugueses ou descendentes de portugueses. Há muitas associações e colectividades lusas que, mais intensamente que em qualquer outro destino da diáspora, mantém vivos os laços a Portugal.
Mas nalguns casos vão mesmo mais longe: estão mesmo a mudar a face e a alma do Luxemburgo: não esquece o viajante Clervaux, no norte, encostada às Ardenas; nesta graciosa vilória, na tranquilidade de um domingo de manhã, ouviu o viajante o carrilhão da igreja a dar as horas e, não sem espanto, reconheceu a treze de Maio, na Cova da Iria...

terça-feira, dezembro 20, 2011

Nova Zelândia – os antípodas próximos

  Literalmente do outro lado do mundo, geográfica e fisicamente, a Nova Zelândia é o país que fica mais distante de Portugal. Não obstante, encontrou lá o viajante um familiar porto de abrigo, do lado de lá da imensidão das culturas asiáticas e oceânicas que têm que se atravessar até lá chegar.
Apesar do seu tamanho enorme – tem 270 mil quilómetros quadrados, o que equivale, mais ou menos, ao tamanho das ilhas britânicas –, a Nova Zelândia é um dos países mais isolados do globo. A próxima massa de terra (a Austrália) fica a 1600 km de distância de mar austral e navegação difícil. Além disso, geologicamente, as ilhas são novas: têm origem vulcânica e bem pode dizer-se que ainda estão em construção.
 Desta juventude geológica resultou que, verdadeiramente, fosse das últimas terra do mundo a ser ocupadas e colonizada por humanos. Sabe-se que os seus primeiros ocupantes (o povo maori, originário das ilhas polinésias de Tonga e Samoa), apenas chegaram aqui há cerca de 1000 anos. Os europeus, por seu lado, chegaram no século XVII – o holandês Abel Tasman passou por aqui em 1642, mas não chegou a desembarcar, porque alguns dos seus marinheiros, que o fizeram, logo foram mortos em confronto com maoris. E só 100 anos depois o lendário Capitão James Cook desembarcou e tomou posse das ilhas. Politicamente, o estatuto da Nova Zelândia ficou resolvido quando, em 1840, a Inglaterra celebrou com os chefes das tribos locais o tratado de Waitangi, hoje em dia considerado o documento fundador do país. Desde essa altura, chegaram às ilhas muitos colonos ingleses e escoceses, cujos descendentes, ainda actualmente, compõem a maior parte dos mais de 4 milhões de habitantes
  Este espírito britânico, com um toque mais solto e colonial, sente-se aliás na Nova Zelândia, que é um país muito civilizado, com grandes preocupações sociais. Aliás, foi o primeiro do mundo a, em 1893, permitir o voto universal às senhoras. Por outro lado, tem ensino primário obrigatório e gratuito desde 1877. Após 1939, passou a contar com um sistema de segurança social especialmente vocacionado para os cuidados de saúde e as pensões de reforma – foi também o primeiro país do mundo a tê-lo.
 Passou o viajante, em trânsito, pela ilha norte, que das duas maiores da Nova Zelândia é a mais povoada. Talvez por ser menos inóspita, dizem, porque a terra dos fiordes e das neves, dos vales selvagens e despovoados é a ilha sul. Portanto, não teve o viajante a visão de cliché do país, porque apenas apercebeu a parte “mais normal” e vulgar, menos exótica. Pelo contrário, viu muitas vacas e muitos carneiros. E também campos e quintas, muito arranjadas, à inglesa. E pequenas vilas, com uma rua central, com lojas, e igrejas de madeira e telhados pontiagudos
  Mas também se surpreendeu com campos termais, porque a Nova Zelândia é um país geologicamente activo e instável. Recorda o viajante Rotorua, a cidade termal, cujas dezenas de nascentes são enormes buracos onde fumega água borbulhante e sulfurosa. É também na ilha norte que fica Auckland, a cidade maior e mais cosmopolita do país, onde se fundem culturas. Aqui vivem um quarto dos habitantes da Nova Zelândia, que aqui se misturam com emigrados de todo o sudoeste asiático e do Pacífico.

segunda-feira, dezembro 12, 2011

El Calafate, Patagónia, Argentina

  Calhou ao viajante passar em El Calafate, a caminho para o glaciar Perito Moreno, no Parque Nacional de Los Glaciares, na Patagónia, no sul da Argentina. Esta desconhecida terriola, com apenas algumas dezenas de anos, surgida quando surgiu o interesse na visita aos glaciares, está em pujante expansão. Não há muito, era apenas um lugarejo – pouco mais que uma quinta, como outras quintas ganadeiras que há na região. Actualmente, há aqui hotéis para todos os gostos e preços, restaurantes, bares, agências de viagens, bancos e imensas lojas, sobretudo de equipamento de montanha e para caminhar.
  O nome da terra é o mesmo de um arbusto baixo e espinhoso que cresce em grande abundância pela estepe e nas encostas das faldas dos Andes. Este arbusto modesto dá flores amarelas na primavera, que depois se transformam em bagas que parecem uvas. Tão emblemático como o calafate, são as lengas, árvores enormes, com estrutura parecida às das faias, onde crescem folhas carnudas, de tonalidade verde clara. Povoam as encostas nevadas das zonas de mais altitude, tal como os nodos, outro arbusto, embora com mais envergadura que o calafate, que dá exuberantes flores vermelhas no fim da primavera.
  Ficou o viajante com a impressão de que o ambiente de El Calafate deverá ser parecido ao de uma antiga cidade do faroeste, que cresceu muito e depressa, sem grandes rasgos de ordenamento urbano – embora tenha uma estrutura viária moderna, geométrica. No centro, há muitas instalações comerciais, que vão desaparecendo quando se caminha para a periferia. É também na periferia que fica a maior parte dos hotéis. Apesar de a maior parte dos habitantes locais andar sempre de carro, é agradável passear por aqui, respirando o ar sempre fresco desta cidade quase no fim do mundo.
  Da cidade, não se pode dizer que tenha propriamente locais de interesse que mereçam visita. Mas há uma excepção: a cerca de dois quilómetros do centro, com acesso por caminhos de terra perfeitamente caminháveis, fica uma reserva municipal, na Laguna Nimez. É uma reserva natural próxima do Lago Argentino onde nidificam dezenas de espécies de aves. Esta foi, aliás, uma das surpresas do viajante em terras patagónicas: há um enorme número de aves por estas paragens, que vão e vêem, ao sabor das estações. Os flamingos, por exemplo. A entrada na reserva da Laguna Nimez é controlada na temporada alta. Mas o posto de orientação está fechado e a entrada é livre na temporada baixa (há uma placa que pede aos visitantes que tenham cuidado com as espécies nidificantes e recomenda alguns comportamentos).
  l Calafate tem aeroporto, a cerca de vinte quilómetros. É um aeroporto novo e moderno, onde chegam meia dúzia de aviões por dia, 3 a 4 dos quais de Buenos Aires – os restantes, ligam El Calafate a Rio Gallegos, capital da província. Por estrada, Buenos Aires dista 2800 quilómetros. Ouviu o viajante dizer que a viagem é penosa, por estradas nem sempre boas. Também por estrada se chega a Rio Gallegos, a 300 km. Tudo visto, na prática, a terra é apenas usada como base para a visita aos glaciares (em particular ao Perito Moreno) e o resto é acessório. Porém, partem daqui outras excursões muito interessantes, a outros glaciares (em particular ao glaciar Uppsala, o maior da América do Sul), a El Chaltén, a capital argentina do trekking (nas imediações do pico Fitz Roy) ou ainda ao parque chileno de Torres del Paine.

quinta-feira, dezembro 01, 2011

Florença, Itália


A subida para a cúpula da Catedral de Santa Maria dei Fiore faz-se por uma íngreme e escura escada em caracol. Ao longo dela, os tradicionais escribas destes sítios, herdeiros dos homens das cavernas, mantêm viva a arte rupestre, assim perpetuando as pegadas dos seus membros anteriores na pedra daquele monumento.
Pelos visto, já por lá passaram o Carlos e também a Cármen e o Agostinho, de “Ançã, Portugal”.