segunda-feira, fevereiro 28, 2011

Castelo de Monforte de Rio Livre, Chaves

Numa crista descampada, desolada e ventosa da serra do Brunheiro, sobranceira ao vale de Chaves, a 825 metros de altitude, ergue-se o castelo de Monforte de Rio Livre. A partir da Estrada Nacional 103, que faz a ligação de Chaves a Bragança, deriva-se em Águas Frias por um estrada de terra em bastante mau estado, com cerca de um quilómetro. O acesso é mau, sempre em terra batida, mas por vezes muito irregular.
O castelo e a vila de Monforte de Rio Livre foram um senhorio do príncipe D. Francisco, irmão do Rei D. João V. Antes disso, existiu aqui um concelho medieval, protegido por um castelo construído no tempo de D. Dinis. É ainda esse o conjunto edificado que resiste ao tempo, depois de ter sido abandonado progressivamente após a extinção do concelho, em 1853.
 Da grande vila restam ruínas, cobertas de matagais. Em volta, há ainda grandes panos de muralhas e vestígios das portas. O castelo propriamente dito, que constituía a alcáçova, todo construído em granito cinzento, é composto por uma torre de menagem e um recinto anexo. O estado de conservação desta alcáçova é sofrível, sendo ainda possível subir ao caminho de ronda e à torre, agora protegida por um telhado restaurado.
 Pode visitar-se o recinto amuralhado sem qualquer restrição. Já quanto à alcáçova, é aberta e encerrada, no verão, de Abril a Setembro, de acordo com um horário que ali está afixado. Mas este horário é meramente indicativo. Já calhou ter o viajante passado aqui em horas “de expediente” e a porta estar fechada. Em todo o caso, aqui fica: o castelo está aberto das 10:00 às 12:30 e das 14:00 às 18:00. Mas encerra às segundas-feiras, às terças durante a manhã e ainda no primeiro fim-de-semana de cada mês.

segunda-feira, fevereiro 14, 2011

Sakkara, Egipto

 Quando se pensa em pirâmides, pensa-se no Egipto e quando se pensa no Egipto, pensa-se em pirâmides. Normalmente, nas pirâmides de Gizé (a que no Egipto se chama Guiza).
Porém, as pirâmides de Gizé, tal como a enigmática esfinge, ao lado delas, são apenas algumas das que restam do conjunto de antigos monumentos funerários egípcios, sobretudo do período do Império Antigo (séculos 30 a séculos 21 a.C). Ficam mesmo no limite urbano do Cairo e por isso são facilmente acessíveis aos turistas. Além disso, estão bem conservadas, ao contrário do que acontece com muitas outras das que se encontram na região que as envolve.

 Porém, as pirâmides de Gizé não são as mais antigas que se conhecem. Em Sakkara, região que fica entre o limite do vale do Nilo e o deserto, a sul do Cairo, ainda é possível visitar aquela que foi a precursora de todas as pirâmides egípcias, construída para servir de sepultura ao faraó Djoser, da 3ª dinastia (portanto, entre 2700 e 2600 antes de Cristo).
Até esta altura, os faraós eram sepultados em profundas covas escavadas na rocha, sobre as quais depois era construída uma mastaba, completamente rasa, que cobria a sepultura. As mastabas eram feitas de tijolos de barro e não tinham câmara funerária no interior, ao contrário do que veio acontecer com as pirâmides. Apenas cobriam uma câmara funerária muito profunda, escavada na rocha. Todavia, Imhotep, talvez o primeiro de todos os arquitectos, em meados do século 27 a. C., optou por fazer uma mastaba de pedra, sobre a qual colocou outra mastaba, e outra, e outra, cada vez mais estreitas, em forma de pirâmide. E assim, esta mastaba convertida em pirâmide foi a precursora das todas as outras que ulteriormente vieram a ser construídas.

 A pirâmide de Sakkara foi construída em pedra, enquanto todas as mastabas que a antecederam foram construídas em tijolos de barro. Foi assim, provavelmente, o primeiro edifício do mundo a ser construído em pedra. É, em todo o caso, o mais antigo que se conhece.
Sakkara, onde foi construída a pirâmide, foi a necrópole real do período em que a capital do Egipto era em Mênfis, portanto no período do Império Antigo – de 3100 a 2200 aC.
Fica a cerca de 30 km do Cairo. A entrada no recinto custa 60 libras egípcias (um pouco menos que 8 €). A forma mais fácil de chegar aqui, a partir do Cairo, é de taxi.

quinta-feira, fevereiro 10, 2011

Recife Velho, Pernambuco, Brasil

 Modelou o viajante na sua memória as cidades do hemisfério sul, sobretudo do Novo Mundo, como imensos aglomerados de pessoas, algumas das quais trabalham em altíssimas torres de escritórios no centro e vivem em condomínios fechados, enquanto a esmagadora maioria da população vivem em bairros pobres e em favelas, que crescem nos morros próximos. Neste tipo de cidades, não tem o viajante encontrado propriamente um centro, no sentido europeu – costumam ter algumas ruas comerciais, com caríssimas lojas de marcas internacionais globalizadas, uma zona com altas torres de bancos e consultoras financeiras, por vezes, uma zona de hotéis e embaixadas. Tudo muito compartimentado e isolado, sem aparente ligação.
 Muito menos tem o viajante encontrado nestas cidades aquilo a que habitualmente se chama um centro histórico – aquela zona mais antiga e cuidada, onde terá estado a sua origem. Têm, é certo, zonas mais polarizadoras de interesse, que vão variando ao longo do tempo, com a construção de novos edifícios de escritórios, hotéis e restaurantes.
 Foi por isso uma surpresa verificar que em Recife, capital do brasileiro Estado de Pernambuco, a herança portuguesa (e - vá lá -, também alguma holandesa), deixaram na malha urbana um conjunto grande de quarteirões antigos, sucessivamente renovados e remodelados sem que ficasse prejudicada a sua traça e o ambiente de contexto. Na zona conhecida como Recife Antigo, zona mais interessante desta megacidade de 3 milhões de habitantes, implantada em ilhas que separam o mar da foz do rio Capibaribe, encontram-se edifícios dos séculos XVIII e XIX, igrejas barrocas e maneiristas e ainda fortes militares construídos para defender a cidade na época colonial.
 Merece particular visita o Forte das Cinco Pontas. A versão actual, após a reconstrução portuguesa, tem planta quadrangular e quatro bastiões em forma de ponta, mas quando os holandeses o edificaram, em 1630, durante a ocupação espanhola, teria de facto uma original forma, de estrela com cinco pontas. Foi construído para defender o Recife de ataques vindos do mar e para proteger o seu acesso ao Atlântico – começava na altura a exportação do açúcar, a grande riqueza da região.
 Algumas das suas ruas fizerem o viajante julgar estar num Portugal tropical. Foi o caso da muito fotografada Rua da Aurora ou da Rua do Bom Jesus, onde fica a antiga sinagoga Kahal Zur Israel, a primeira que foi construída na América do Sul, em 1642, período de alguma distensão e tolerância, sob domínio holandês. Não longe, fica a Igreja da Madre de Deus, construída no século XVII, em estilo por aqui conhecido como colonial e que se diria ser barroco. Ainda na zona, não pode o viajante deixar de visitar o Convento Franciscano de Santo António, que inclui a sua igreja, do século XIX e uma capela lateral, do século XVIII, conhecida como Capela Dourada (da qual já deu aqui o viajante conta), por ser folheada a ouro.
Este património religioso foi a resposta com que os portugueses do século XVII (conhecidos como Mascates) quiseram marcar a expulsão dos holandeses destas paragens, que ocorreu por essa altura.

sábado, fevereiro 05, 2011

Mechelen, Bélgica

 De vez em quando, inesperadas curvas da estrada revelam ao viajante pérolas escondidas. Assim aconteceu numa ocasional passagem em Malines (em francês), ou Mechelen (em flamengo), uma pequena cidade a meio caminho entre Bruxelas e Antuérpia. Esta pequena cidade, actualmente de província, já foi, em tempos, capital de todos os Países Baixos e é ainda a sede do arcebispado católico da Bélgica.
 Calhou o viajante chegar a Mechelen de comboio, vindo de Bruxelas (breve percurso de 20 minutos) e ficar desiludido com o aspecto vulgar da zona da gare, bem como com o perfil comum da zona pedonal onde passou a caminho do centro histórico. Mas ao chegar ao Grote Markt, a principal praça da cidade, reconciliou-se com a terra. O Grote Markt é uma praça de piso empedrado, bordejada de casas em estilo hanseático, bem conservadas, algumas das quais com origem no século XVI. Foi essa a altura em que Mechelen era a capital, no tempo da regente Margarida de Áustria, tia daquele que viria a ser o imperador Carlos V, que também aqui cresceu.
Num dos topos do Grote Markt fica a magnífica catedral de Sint Rumbold, com uma altíssima torre sineira e ricas pinturas dos séculos XVII e XVIII – uma das mais conhecidas é uma pintura de Anton Van Dijck, representando Cristo Crucificado, no altar de Santa Ana (óleo sobre tela de 1630). Ficou o viajante muito impressionado com a invulgar altivez da torre.
No outro topo, fica o fantástico palácio gótico tardio e renascença onde actualmente está instalada a sede do município local. A toda a volta da praça há cafés e cervejarias (a cidade tem a sua própria cerveja – a Gouden Carolus –, dita a preferida do imperador Carlos V).
Mechelen foi portanto uma interessante paragem. É uma típica cidade flamenga, muito mais tranquila que Bruges ou Gent e sem as hordas de turistas daquelas. É também muito mais modesta, mas valeu a pena fazer o desvio, pelo agrado do passeio pelas ruas pedonais e pelo conjunto de edifícios antigos, muito bem preservados. Valeu também pela evocação histórica: esta cidade que agora tem apenas cerca de 80 mil habitantes já foi um dos mais importantes centros da arte flamenga – em particular assim foi durante o período do renascimento.

Fica a meio caminho entre Bruxelas e Antuérpia, a uma curta distância de ambas. A viagem de comboio, desde Bruxelas, custa 4 € e há 2 a 3 comboios por hora.

terça-feira, fevereiro 01, 2011

Canary Wharf, Londres

 É engraçado perceber como cada específico local causar sensações únicas, por vezes difíceis de explicar a quem não esteve ali, ou impressões que vão muito para além daquilo que se vê. Não deixa o viajante de se impressionar com esta capacidade que os sítios têm de o impressionar, de uma forma ou outra.
Canary Wharf, nas docas do sueste londrino, construída a partir de destroços industriais, em décadas recentes, nas margens do Tamisa, é um desses locais de impressão muito clara. Essa impressão passa pelos figura dos majestáticos arranha-céus de vidro, sóbrios mas muito imponentes, a recortar o horizonte plano e a dar cor e luz à paisagem. Sentiu o viajante algo de futurismo, de desafio ao tempo que se vive. Mas também opressão pelos edifícios, e pela densidade deles. Nas esquinas das ruas, olhando para cima não se vê o céu: vê-se uma cruz azul, entre paredes espelhadas que sobem vertiginosamente na vertical.

Nesta zona empresarial de Londres há muita gente na rua, a circular ordenada mas apressadamente, sobretudo em horas de entrada ou saída do trabalho. Percebe-se bem que o tempo desta gente vale muito dinheiro.
Mas a opressão é também dos nomes: estão aqui instaladas as sedes dos mais poderosos bancos e outras instituições financeiras do mundo. Sente-se muito poder e grande, embora discretíssima, riqueza. Será talvez aqui que tem mais fiel recriação em versão moderna o já extinto ambiente dos gentlemen, de chapéu de coco, da antiga City. Não há chapéus, nem guarda chuvas, nem The Times, agora substituído pelos jornais gratuitos, distribuídos na entrada do metro.

Canary Wharf fica na parte oriental de Londres, na zona do East Ham. Tem estação de metro e por isso facilíssimo acesso. A visita vale pelo ambiente exterior do bairro. Pode ainda passear-se pelos antigos bairros das docas, em tempos ocupados por armazéns portuário, que agora foram adaptados a trendy casas de habitação.
A linha do skyline é também muito impressiva, sobretudo vista das antigas docas. Do outro lado do rio Tamisa, na margem sul, fica o antigo Millenium Dome, o pavilhão feito para comemorar o início do segundo milénio e que depois da passagem da sua época ficou como sala de concertos, agora com o nome de O2 Arena. Nada longe, para sul, fica Greenwich, a do meridiano e do tempo médio.