segunda-feira, março 28, 2011

As Igrejas de Kiev, Ucrânia

 Antes de a conhecer, Kiev, capital da Ucrânia, era para o viajante um destino enevoado, de onde se sabia virem futebolistas (da escola do Dínamo) e qualificadíssimos profissionais de variadíssimos ramos, destinados em Portugal a trabalhar na construção civil. Descobriu, porém, o viajante, que este pobre cliché é imerecido e injusto. Entre vários outros interesses, Kiev vale a pena pelas igrejas. Na cidade encontram-se inúmeras igrejas ortodoxas, de cúpulas douradas e aspecto místico.
De entre elas merecem destaque as do Mosteiro de Pechersk-Lavra só por si justificativas de uma viagem à capital da Ucrânia. Mas além dele, pareceu ao viajante que, claramente, merecem visita a igreja do Mosteiro de São Miguel e o conjunto de Santa Sofia.
Quanto ao Mosteiro de São Miguel, é uma igreja nova, em estilo antigo, que foi destruída durante o regime comunista soviético e veio a ser reconstruída após a respectiva queda e a recuperação da independência da Ucrânia. Quando o viajante visitou o recinto do mosteiro, pareceu-lhe respirar um ambiente espiritual pouco usual numa cidade desta dimensão. Esta igreja e mosteiro ficam no centro da cidade, no parque ajardinado sobranceiro ao rio.
 A Catedral de Santa Sofia, igualmente no centro da cidade, é um dos pontos altos e incontornáveis na visita à cidade. Tanto, que mereceu da Unesco a classificação como património da humanidade, em 1990. É a mais antiga igreja da cidade. Foi fundada em 1037, para comemorar a vitória do reino de Kyivan Rus, antecessora da Ucrânia moderna, sobre tribos nómadas asiáticas e para assim glorificar a cristandade. Copiou o nome (Santa Sofia, ou Santa Sabedoria), da catedral homónima em Istambul.
O que actualmente pode visitar-se é um santuário de 13 cúpulas, resultando da evolução da antiga igreja, e que veio a tornar-se um local de oração especial para os kievitas, bem como local de cultura e o centro político da cidade. Aqui foi instalada a primeira escola e a primeira biblioteca de Kiev. O interior é rico em frescos e mosaicos. Domina o conjunto uma fantástica torre sineira de mais de 70 metros de altura, erigida no século XVIII, em estilo barroco.
As entradas no recinto, na igreja e no museu anexo são pagas. O museu está aberto diariamente, das 9 às 19 horas. A igreja pode visitar-se das 10 às 17:30.

domingo, março 20, 2011

Glaciar Perito Moreno, Patagónia, Argentina

 Poucos fenómenos naturais impressionaram tanto o viajante como o glaciar Perito Moreno, na descida da cordilheira dos Andes para as estepes da Patagónia argentina. Ficou o viajante com a memória bem marcada pelas variações dos matizes azuis do gelo, mais ou menos intensos consoante o ângulo em que lhe dá a luz do sol. Mas também pela grandeza da mole gelada e pelo súbito ruído surdo, a esmagar o silêncio, dos pedaços de gelo que, de quando em quando, se vão destacando das paredes frontais do glaciar e mergulham nas águas geladas do Lago Argentino.
 Este glaciar integra o “Parque Nacional de los Glaciares”, classificado como património mundial da Unesco desde 1981. O parque tem este estatuto desde 1971, mas já era área protegida desde 1937. Integra 47 glaciares, numa enorme área de 7240 quilómetros quadrados (sensivelmente a mesma área do distrito de Évora, segundo maior distrito português, que tem 7393 quilómetros quadrados). Fica a três mil quilómetros a sul de Buenos Aires, na enorme província de Santa Cruz, um dos estados que integram a estrutura federal da República Argentina.
Reteve o viajante que os glaciares da região formam o chamado campo de gelo da Patagónia do Sul, que é considerada a terceira maior massa de gelo do globo, a seguir à Antárctida e à Groenlândia (os campos de gelo têm, no seu conjunto, 14 mil quilómetros quadrados). O glaciar Perito Moreno é o mais acessível. Próximo, ficam o glaciar Upsala e o glaciar Viedma, que são maiores mas mais longínquos. E também, dizem os locais, menos espectaculares. Além da mole de gelo branco azulado, o especial atractivo do Perito Moreno está na circunstância de atravessar um lago a meio, dando assim origem a dois quando o gelo avança até atingir a outra margem. Nessa altura, por efeito dos rios que alimentam o lago, as águas de um dos lados sobem bastante mais, exercendo pressão sobre o gelo, que acaba por ceder e rebentar, criando fendas no glaciar e formando rios subterrâneos que, pouco tempo depois, fazem despedaçar o glaciar. Este fenómeno tem ocorrido duas ou três vezes por década, consoante o rigor dos invernos e o calor do degelo, no verão austral.
 Todas estas águas alimentam o gélido lago Argentino, o maior do país. Ficou o viajante impressionado por ver ali a boiar pedaços de glaciar, verdadeiros icebergs, de cor azulada. Como os outros lagos da região, o Argentino é o resultado do degelo, no final das glaciações: os glaciares desceram da cordilheira dos Andes e escavaram os típicos vales em forma de U, deixando atrás deles fundas depressões, que se encheram de água formando inúmeros lagos, geralmente de forma alongada.
 O Glaciar Perito Moreno mede 31 quilómetros de comprimento, por 4 de largura – diz-se que forma uma área do tamanho da cidade de Buenos Aires. A forma mais fácil de o visitar é fazer o passeio de barco, que parte da chamada península de Magalhães, que fica na outra margem do lago, mesmo em frente. Há cinco a seis passeios por dia, que duram uma hora. O bilhete compra-se na entrada para o barco. Mas também há visitas a pé: há programas de um dia inteiro, de trekking sobre o próprio glaciar. Supõem sair de manhã cedo, apanhar um barquito para a base do glaciar e caminhar sobre o gelo um par de horas, antes de voltar. Para os mais comodistas, é sempre possível ver o glaciar de longe, percorrendo passadiços de madeira instalados em degraus no morro fronteiro ao glaciar, na península de Magalhães, mesmo em frente do Canal de Los Témpanos (nome local para iceberg).
 O glaciar fica a 80 quilómetros de El Calafate, em estrada boa, sempre asfaltada. Se se optar por não usar os autocarros de excursão, que saem de manhã cedo, pode sempre contratar-se transporte individual, de carro – neste caso, a viagem durará uma hora para cada lado, por paisagem fantástica, de estepe e montanhas geladas e custará 450 pesos argentinos (cerca de 80 euros). A entrada na zona do “Parque Nacional de los Glaciares” é paga (75 pesos, cerca de 14 euros).
El Calafate é a cidade mais importante da região. Pode chegar-se lá, desde Buenos Aires, por avião (há três voos diários para cada lado). O aeroporto dista 20 quilómetros da cidade e na terra há muitos hotéis e restaurantes.

terça-feira, março 15, 2011

Istambul, Turquia

Será um chavão dizer que Istambul é uma cidade europeia com um pé na Ásia. Ou então, talvez, que é uma cidade asiática que se instalou na pontinha oriental da Europa. Ou então, ainda, que é verdadeiramente o resultado de uma diluição centenária de culturas, umas nas outras. Para além dos clichés, dela ficou o viajante com a impressão de ser uma cidade única, com estrutura claramente europeia mas alma oriental: é uma metrópole de grandes avenidas e organização pensada, mas a sua imagem dominante – aquela que fica na retina e nas objectivas das máquinas fotográficas -, é a das lojas e bazares coloridos.
Com este cadinho de histórias e civilizações, não consegue o viajante esclarecer no seu espírito qual é o sentimento essencial que lhe deixa Istambul. Recorda os palácios monumentais, em pedra bem trabalhada, sobretudo no bairro dito novo, construído a partir do século XIX na antiga colónia genovesa, em volta da Torre de Gálata. Mas também não esquece as vielas do bairro de Tahtakale, próximo de Eminonu e do Bazar Egípcio, em piso tosco, por onde ao fim do dia escorre a água das lojas que são lavadas à mangueirada.
A enorme e moderna Praça Taksim poderia facilmente confundir-se com qualquer praça de qualquer país do sul ou do leste da Europa. Tem um ambiente desordenadamente cosmopolita, multicolor, com o ar cheio dos pregões dos vendedores ambulantes, de flores e castanhas assadas, sobretudo. Os transeuntes passam por aqui apressados, em direcção à Istiklal Caddesi, uma rua pedonal muito comercial, por onde circula um típico eléctrico, como os de Lisboa, sempre apinhado de gente. Este é o bairro de Beyoglu, onde ainda há imensas reminiscências do tempo em que Istambul era a capital da Turquia – aqui ficam ainda algumas antigas representações europeias (consulados antigos, ainda em funcionamento) e igrejas cristãs, de comunidades estrangeiras. É bem conhecido e representativo deste ambiente europeizado o Palácio Dolmabahçe, construído por ordem do sultão Abdul Mecit, em meados de mil e oitocentos. A obra foi tão cara e o resultado tão sumptuoso que quase levou o país à falência – e terá até precipitado os movimentos republicanos, que vieram a culminar com a instauração da república laica, nas primeiras décadas do século XX.
Na zona mais turística – o eixo que une os iconográficos monumentos conhecidos em todo o mundo (o Palácio Topkapi, a Mesquita Azul e a Santa Sofia) com o Grande Bazar, há mais turistas que turcos. Há restaurantes de néones coloridos, como no Algarve, na costa grega ou no sul de Espanha. Talvez sejam um pouco mais genuínos e talvez tenham um pouco mais de cor local.
Já no bairro que envolve a Mesquita de Süleymaniye, na descida para a Praça de Emïnonü e a Ponte de Gálata, o ambiente é asiático profundo, com estreitas vielas cheias de lojas para habitantes locais. Nesta zona onde não circulam estrangeiros, o ambiente parece o de uma aldeia grande – por vezes, a rua chega mesmo a ser de terra batida.

quinta-feira, março 10, 2011

Museu Nacional de Antropologia, Cidade do México

 Poucas vezes um museu tem impressionado tanto o viajante, como o impressionou este maior museu da capital federal mexicana. Antes de mais, o edifício é grandioso, embora plano. Tem grandes espaços e grandes soluções de arquitectura. Admirou o viajante o grande pilar esculpido que serve de base de sustentação à fonte de água, em forma de guarda-chuva, que decora o pátio e suporta a pala central.
 Porém, o que mais justifica a visita são as colecções. Não se conseguem ver todas de seguida, nem de uma única vez, porque o museu é enorme e as peças imensas. Para verdadeiramente apreciar o extensíssimo acervo do museu, devem seleccionar-se aquelas, de entre as 22 salas de exposição, que pretendem visitar-se. Numa visita rápida, de uma tarde, apenas teve o viajante oportunidade de passar pela sala de Teotihuacan, pela sala azteca ou mexica e ainda pela sala maia.
Na sala de Teotihuacan, estão dispostas peças originais retiradas daquela cidade e reproduções de frescos que ainda ali se encontram, bem como modelos que reproduzem a cidade.

 Na sala dedicada ao povo dos mexica, também designados por aztecas, encontram-se imensas peças, a generalidade das quais encontradas no sub-solo da própria cidade do México, na zona do chamado Templo Maior. Recordou o viajante que o conquistador espanhol Hernán Cortez, ao deparar-se neste local com a capital azteca (de que deu conta à Coroa Espanhola como sendo uma cidade maior que qualquer cidade de Espanha) ordenou a sua destruição e sobre os seus escombros erigiu aquela que viria ser a capital da Nova Espanha. A estatuária é particularmente expressiva, nesta sala azteca. É imperdível a chamada pedra do sol, erradamente tida como sendo um calendário, durante décadas, mas hoje em dia pacificamente tida apenas como uma escultura destinada a homenagear o sol e, porventura, a nela serem feitos sacrifícios.
 É igualmente impressionante, embora talvez menos, a estatuária da sala maia, onde anotou o viajante haver um dos raríssimos exemplares de escritos maias que ainda existem. De facto, logo após a conquista espanhola, os invasores destruíram todos os documentos escritos que encontraram, para assim poderem mais facilmente impor a sua cultura e a sua religião.
O Museu Nacional de Antropologia fica no centro da cidade do México, no interior do Parque de Chapultepec. Está aberto de terça-feira a domingo, das 9 às 19 horas. Habitualmente tem muitos visitantes. A entrada é paga, a não ser aos domingos.