quarta-feira, novembro 26, 2008

Lisboa, 29 de Janeiro de 2006

Os invernos de antigamente traziam chuva e frio a Lisboa. Agora, parece que o aquecimento global desceu ao contexto local e amenizou o inverno da capital. Não é vulgar viver-se em Lisboa um Outono tão pouco frio e molhado como tem sido o deste fim de Novembro.
Esta constatação fez recordar ao viajante uma data de há quase três anos, quando cumprindo um ciclo de 50 anos, nevou em Lisboa, como não nevava havia meio século. Era domingo e o dia estava escuro e frio. Os poucos bravos que se atreveram a procurar almoço de fim-de-semana fora de casa rapidamente perceberam que tinham que sair agasalhados. A meio do dia, parecia que a noite chegava.

Sem o esperar, os corajosos que saíram à rua foram brindados, pouco depois das 3 da tarde, por generosos flocos de neve, frios e húmidos, que afagaram risonhas faces domingueiras e rapidamente encharcaram o chão. Ao pousar, desfaziam-se em água, mas na queda suave deixavam no ar a mágica poesia de um fenómeno raro nestas paragens.
Aos mais afoitos ainda ocorreu, aproveitando ser tarde de domingo, sair da cidade e procurar lugares altos, nos arredores, onde a neve pousasse e fizesse cama. Ganharam com isso o prazer de pisar a fofa manta branca, que aos poucos lhes humedeceu os sapatos urbanos.
Meia hora depois tudo tinha passado e as histórias desta tarde de domingo ingressaram no baú das memórias, de onde irão sair, provavelmente, na próxima nevada na capital, lá para 2050
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domingo, novembro 23, 2008

Deutsches Eck, Koblenz, Alemanha

Chegou o viajante ao Deutsches Eck sem saber muito bem ao que ia. Koblenz nas margens do Reno (a que, em português, tradicionalmente chamávamos Coblença), é um dos ícones do romantismo alemão. A paisagem é vinhateira e isso agradou ao viajante, que aqui passou num Outono seco e dourado pelo sol. É nesta cidade que se encontram os dois mais românticos rios do mundo: o Reno e o Mosela. No encontro de ambos, forma-se um canto de terra, onde na idade média os cavaleiros teutónicos tiveram instalações. Ao que parece, desde essa altura o local passou a ser o “Canto da Alemanha”, ou Deutsches Eck.
Os nacionalistas germânicos do século XIX embarcaram na mística e erigiram aqui um monumento à grandeza e unidade alemã, simbolizando também a refundação, por essa altura, do império germânico. Na altura, a ideia era projectar a unificação de todas as regiões germano-falantes. A ideia permaneceu até ao século XX. Soube o viajante que ainda no início da década de 1980 a TV alemã encerrava as emissões, ao fim da noite, com imagens do Deutsches Eck, enquanto tocava o hino nacional.

O que sobra, hoje em dia, é um monumental memorial ao Imperador Guilherme I, representado em estátua equestre, de 14 metros de altura, o qual é visitado anualmente por dois milhões de turistas. Vale a pena pelo pitoresco e pela paisagem, sobre os rios Reno e Mosela.
Koblenz fica no vale do Reno, a 80 quilómetros a sul de Colónia e outro tanto a norte de Frankfurt (ou se preferires, leitor, de Francoforte…)

terça-feira, novembro 18, 2008

Areópago, Atenas

O viajante - sabe-lo bem, leitor -, tem levado os seus cadernos mais por caminhos que por estradas e mais por estradas que auto-estradas. Nas cidades, tem relatado mais o que descobriu nos capítulos finais dos guias turísticos e menos o que vem nas capas. Tem o viajante cá as suas coisas.
Talvez tenha sido essa a razão que, em Atenas, o levou a abandonar a fila imensa, de centenas de pessoas, que pretendiam comprar o bilhete de entrada na Acrópole. Optou o viajante por descer a colina, não mais que cem metros, até à rocha do Areópago. É um morro calcário, de dimensão modesta. Sobe-se a ele por uma escada gasta e polida, podendo também usar-se uma escada metálica, colocada para turistas que optem pela segurança. Lá em cima, não há nada. Apenas a vista (fantástica, aliás) sobre Atenas, com os seus cinco milhões de habitantes. E mais de vinte e cinco séculos de história.

O Areópago era na antiga Atenas, no tempo de Sólon, na génese da democracia (século VI AC) o local de reunião da assembleia dos aristocratas, que democraticamente comandava os destinos da cidade. Com o tempo, as funções desta assembleia passaram a ser, sobretudo, de tribunal. A tragédia grega diz que foram aqui julgados os dramáticos assassinatos da mitologia e do teatro, das histórias de mortes de filhos por pais, ou de mães por filhos. O Areópago foi, portanto, a sede do mais antigo tribunal criminal do mundo antigo de que hoje se tem notícia. Dele, no topo da rocha, nada resta, além destes mais de vinte e cinco séculos de história.

Com muita pena, teve o viajante alguma dificuldade em captar esta atmosfera no local, enxameado de turistas orientais e de adolescentes do norte da Europa em viagens de finalistas, os primeiros muito ocupados com a captação de instantâneos, os segundos concentrados nas músicas dos seus leitores de MP3.
Na base do rochedo, uma placa de bronze anota outro marco importante: reproduz o livro dos Actos dos Apóstolos (capítulo 17,versículos 22 a 32), na parte em que nele se descreve o discurso de São Paulo aos atenienses: “levaram-no até ao Areópago e disseram-lhe: «podemos saber que nova doutrina é essa que ensinas? O que nos dizes é muito estranho e gostaríamos de saber o que isso quer dizer».Ora, tanto os atenienses como os estrangeiros residentes em Atenas não passavam o tempo noutra coisa senão a dizer ou a escutar as últimas novidades”. Paulo passou em Atenas, no ano 51 depois de Cristo, no percurso de Tessalónica para Corinto.

segunda-feira, novembro 17, 2008

São Martinho de Anta, Trás-os-Montes

A escola onde fiz os meus primeiros exames”, dizia dela Miguel Torga. Veio aqui o viajante em romagem, um ano após as comemorações da data do centenário do nascimento de Adolfo Correia da Rocha, neste cruzamento transmontano onde acaba o Doiro e começa a Montanha.

A escola onde fiz os meus primeiros exames, e um rancho de crianças à porta, à espera de fazer os seus. Pacoviozitos, como eu fui, que desceram da serra e vieram pagar o seu ingénuo tributo à cultura. Alguns, viram hoje estradas e automóveis pela primeira vez(…). E pus-me a pensar na barbaridade que vai abandonar aqueles espíritos à pedagogia das pedras. Dos meus companheiros de classe, alguns finos como corais, poucos assinam hoje o nome. A mão amoldou-se de tal maneira ao cabo da enxada, foi tanta a negrura e a fome que os rodeou, que esqueceram de todo que havia letras e pensamento” – Miguel Torga, Diário.

Na escola de São Martinho de Anta, em Setembro de 2008 um anúncio avisava que as aulas começariam, após as férias do verão, a 12. Informava também dos manuais escolares. Como no resto do país. Com excepção de uma deslocada placa, mandada colocar por saudosistas de Coimbra, nada mais a distinguia de outras escolas, por aí fora.
A visita foi para o viajante o cumprimento de um tributo torguiano, com devoção mas sem conseguir ter emoção. Torga construiu um universo interior de enorme dimensão, estruturando-o de forma muito composta. Dotou-o de tantos detalhes tão ricos e delicados. Porém, as referências terrenas deste universo esfumaram-se logo que os dias do médico-escritor terminaram. O mundo virtual de Miguel Torga já não existe em lado nenhum. Se calhar, já não existia quando foi criado e foi apenas um fantástico exercício de memória analítica.
São Martinho de Anta fica no concelho de Sabrosa, a 20 quilómetros de Vila Real, por estradas sofríveis. A Vila Real chega-se, por vias rápidas, em três horas e meia desde Lisboa e em pouco mais de uma hora a partir do Porto. Quanto á escola, fica logo á entrada da povoação, antes do casario, quando se chega vindo de Vila Real.

domingo, novembro 16, 2008

Parque da Pena, Sintra

Não se cansa nunca o viajante deste local, declarado Paisagem Cultural Património da Humanidade, pela UNESCO em 1995.
Noutros tempos, a Serra de Sintra estava isolada da civilização e apenas foi conhecido por monges e reis: os monges, procuravam aqui recolhimento, na natureza exuberante; os reis de tempos antigos da nacionalidade, a quem não faltava tempo para caçadas demoradas em zonas distantes da capital, souberam apreciar a beleza da zona e o seu clima suave.
No lugar que hoje é o Palácio da Pena, talvez logo no século XII, altura em que a região foi pacificamente reconquistada aos Mouros, surgiu um pequeno edifício religioso. No seu lugar veio a ser construído um mosteiro, três séculos mais tarde, que no século XIX, com a extinção das ordens religiosas, passou para o Estado. Foi nessa altura, 1838, comprado por D. Fernando II, o príncipe consorte que veio a construir aqui, a partir da década seguinte, o magnífico palácio romântico.

A par do palácio, quis também D. Fernando construir um parque botânico, onde fosse possível encontrar árvores e outras espécies vegetais de todo o planeta. Este parque acolhe sempre tranquilamente o viajante, a quem de todas as vezes conta novos segredos, revelando recantos desconhecidos e árvores de que não sabia.
Gosta o viajante de passar na Fonte dos Passarinhos (pavilhão de estilo árabe, que fica na transição da encosta para a zona baixa do parque) e emociona-o subir à Cruz Alta, colocada no local mais alto da Serra de Sintra, a 529 metros de altitude. Daqui se vê a Estátua do Guerreiro, esculpida em bronze, a dominar a serra e o parque, da qual se diz-se ter sido mandada fazer pelo próprio D. Fernando II como representação dele próprio, a velar pela sua obra.
Mas, já ficou dito, o que mais impressiona no interior do parque, é a abundância e exuberância de espécies arbóreas raras em Portugal. Aqui viu o viajante sequóias, originárias da América do Norte, algumas das quais com perto de cem metros de altitude, ou Gingko Biloba, árvores antiquíssimas, trazidas da China, talvez as últimas representantes da flora anterior às glaciações, ou fetos arbóreos, vindos da Nova Zelândia, que diferem dos comuns por terem porte de árvore e chegarem a atingir 10 metros de altura (é notável o lugar conhecido como “feteira da rainha”). Impressionam qualquer um as túias, (thuja plicata), também oriundas da América do Norte, cujos ramos baixos são curvos, em forma de J ou as magnólias.

O Parque da Pena tem uma área de oitenta hectares, completamente arborizados e é visitável durante todo o ano, das 10 às 18 horas (no verão, das 9h30 às 20). O acesso faz-se a partir da vila de Sintra (duas dezenas de quilómetros a oeste de Lisboa), pela estrada nacional 247-3, numa subida íngreme, de dois ou três quilómetros. Pode subir-se de automóvel (o estacionamento é difícil no verão), de autocarro ou a pé (neste caso, exige-se preparação e boa resistência).