quarta-feira, abril 20, 2011

Museu Egípcio, Cairo, Egipto

 Quando, secretamente emocionado, o viajante viu ao vivo a máscara funerária de Tutankhamon, ocorreu-lhe que muito maior terá sido a emoção do arqueólogo americano Howard Carter quando a descobriu, no Vale dos Reis, em 1922. Sobretudo, porque esta máscara foi encontrada no seu lugar, intacta, na câmara funerária do próprio faraó, conjuntamente com um incomensurável tesouro e muitos outros objectos utilitários e de adorno. No Museu Egípcio do Cairo guardam-se 1700 peças provenientes do túmulo de Tutankhamon. Quanto à máscara, feita de 11 quilos de ouro e decorada com outros materiais preciosos é uma peça impressionante. É aquela a que é dado mais destaque em todo o Museu Egípcio. Anotou nela o viajante um olhar vago, quase distante e vazio. A cara retratada, supõe-se, é a do próprio faraó. Aliás, assim acontecia com todos os faraós: as máscaras retratavam o mais fielmente as suas caras, para que na outra vida as suas almas reconhecessem com facilidade os seus corpos.
 O Museu Egípcio fica em pleno centro do Cairo, muito próximo do Nilo, na Praça Midan Tahrir, onde no recente inverno milhares de pessoas se manifestaram até derrubar do poder o presidente da república de havia 30 anos. As autoridades planeiam transferi-lo muito em breve para um novo edifício, próximo de Guiza (a que os portugueses chamam Gizé). Porém, sobre esta “brevidade”, qualquer habitante do Cairo esclarecerá que há mais de 10 anos que está para breve a transferência. Por isso, para já, este museu centenário, que abriu as portas em 1902 (e não parece ter tido, deste então, remodelações significativas), apresenta-se muito antiquado, com um estilo muito desajustado ao que se espera hoje em dia de um museu de prestígio internacional. Pareceu ao viajante um daqueles clássicos museus dos livros do Tintim, com muitas peças expostas em pedestais e outras tantas em armários de madeira, com portas envidraçadas. Muito poucas das peças expostas têm legendas ou estão identificadas. Os expositores estão em salas muito altas e desconfortáveis, pouco iluminadas, atulhadas de armários e caixas onde se acotovelam peças e mais peças. Dizem os guias que a colecção do museu inclui mais de 100.000 peças de arte egípcia, embora apenas estejam expostas 12 mil delas. Esta aparente desorganização contribui, seguramente, para o desaparecimento de algumas das peças ali guardadas, durante a revolução do início de 2011.
 Não obstante, o visitante gostou da visita do museu. Aqui encontrou o enorme colosso de Akenaton, o faraó que teve como esposa principal a rainha Nefertiti e o colosso de Amenhotep III (a que os portugueses chamam Amenófis). Também estão no museu as ricas estátuas de Rahotep e Nohet, príncipes do Egipto (Rahotep era irmão do faraó) e a fantástica estátua de Ka-Aper, conhecido pelos guias turísticos como “o presidente da Câmara”. Esta estátua, do Império Antigo, em madeira, é notável pela expressão da sua face e pela profundidade do seu olhar: os seus olhos têm um contorno de cobre; a zona branca do olho é feita de quartzo e as córneas de cristal de pedra, transparente e perfurado, tendo sido recheado, no seu interior, com massa preta para imitar a “menina do olho”.
Por outro lado, a sala das múmias, é toda uma experiência, que provoca sentimentos muito difíceis de descrever. Estão expostas várias múmias, de outros tantos faraós, em estado de conservação fantástico, para a idade. Na prática, são todos eles cadáveres com mais de 3000 anos. É notável a complexa técnica de embalsamamento, desenvolvida pelos antigos egípcios, que permitiu que estes faraós “sobrevivessem”, embora mortos, durante três milénios. Talvez a mais impressionante delas seja a múmia de Ramsés II, que foi descoberta no fim do século XIX.
O Museu Egípcio está aberto das 9 às 18 horas, mas os guardas gostam de antecipar o cumprimento do horário do encerramento, expulsado os visitantes, bastante antes da hora do fecho. O bilhete custa 60 libras egípcias, mas a visita da sala das múmias reais exige um bilhete adicional de mais 100 libras – cerca de 12 euros.

terça-feira, abril 19, 2011

Raval, Barcelona


Pode ser verdade que o português seja uma língua traiçoeira. Mas o catalão não o é menos.

domingo, abril 10, 2011

Florença, Itália

 De Florença tinha o viajante a ideia de ser a cidade onde floriu em todo o seu esplendor o génio artístico italiano, entre os séculos XIII e XVI, dando origem ao período histórico que ficou conhecido como Renascimento. Desde essa altura que passou a ser uma das capitais do mundo da arte, sendo ainda hoje a cidade que mais guarda a herança renascentista.
No Renascimento, a cultura e as artes libertaram-se do peso das trevas medievais e abriram-se ao mundo, cultivando a abertura de espírito, que permitiu a criatividade e deu origem a grandes avanços técnicos e científicos. É dessa altura a pretensão do saber universal: cada homem de cultura deveria também ser de ciência e de técnica e de artes e de literatura.

 Em legado deste período, a grande casa dos Médici, os mecenas mais proeminentes da história de Florença (Lourenço de Médici terá sido o modelo do “Príncipe” de Maquiavel), acabou por ser herdada pelos duques de Lorena, que a passaram a Napoleão no início do século XVIII. Talvez por isso, quando Itália se unificou como reino, Florença foi sua capital, entre 1865 e 1870.
Foi nesta cidade que surgiu o génio de Dante Alighieri, mas também foi aqui que viveram Giotto, Botticelli, Fra Angélico, Petrarca ou Maquiavel. Por aqui se revelaram também Miguel Ângelo e Leonardo da Vinci.



 Na visita à cidade, o “Duomo”, esmagou o viajante, pela sua imponência. Pela elegância. Pela originalidade. Esta Catedral ou “Duomo Santa Maria del Fiore” é a 4ª maior igreja da cristandade, depois de São Pedro, em Roma, São Paulo, de Londres e da Catedral de Milão. Foi construída entre 1334 e 1360, planeada por Giotto (Giotto di Bondone) Está marcada pela geometria da sua decoração.
Subiu o viajante à sua cúpula, depois de esperar numa enorme fila que demorou 40 minutos. Mas valeu a pena. Os seus 463 degraus íngremes, por escadas e túneis, dão acesso a um varandim a meio da abóbada. Nesta abóbada foi pintada uma fantástica representação do juízo final. Diz-se que esta abóbada, da autoria de Brunelleschi, é a maior cúpula do mundo. O viajante achou-a avassaladora.

 Mas ainda mais avassaladora achou a recompensa no topo da subida: uma paisagem de cortar a pouca respiração que ainda lhe sobrou depois da subida. Do topo da cúpula vê-se toda Florença: as igrejas, os palácios e a harmonia da cidade, das ruas e da malha urbana.
Em frente, a torre sineira da catedral, ou “Campanile” tem 85 metros de altura (a altura de em edifício de quase 30 andares…). É igualmente construída em mármore branco, com listas verdes escuras.
Porém, Florença é muito rica em memórias arquitectónicas e inevitavelmente a memória do viajante recupera outras imagens; a Piazza della Signoria, com o Palazzo Vecchio e a estátua de David, de Miguel Ângelo é um dos mais impressivos. Esta gigantesca estátua do modelo renascentista é uma cópia da original, que está na Galeria da Academia. Ao lado, a Galeria dos Uffizi, na altura em remodelação, um dos mais famosos museus do mundo, é tido como o maior museu de Itália. Foi fundada no século XVI, por Francisco de Medici, que aliás era o dono das suas primeiras colecções. Guarda a maior colecção do mundo de arte renascentista.
 Por sua vez, a ponte Vecchio, a emblemática ponte sobre o rio Arno, com origem no século XIV, é um dos mais conhecidos ícones de Florença. Ainda agora cheia de lojas – actualmente, são sobretudo joalharias, mas na idade média havia aqui lojas de pescadores, carniceiros e artesãos de couro.
Outros há, como a igreja de Santa Maria Novella, ou a de Santa Croce, onde estão as sepulturas de Miguel Ângelo, Galileo Galilei e Maquiavel. Mas o viajante preferiu – e considerou mesmo essencial -, a vista ao miradouro da Piazzale Michelangiolo, a caminho de S.Miniato al Monte, de onde se tem uma vista fantástica sobre a cidade. Pode subir-se a pé, embora a encosta seja inclinada. Desde o rio Arno, a subida poderá demorar talvez 15 minutos, por escadarias fáceis, mas íngremes. Mas a vista, sobretudo ao pôr-do-sol, é lindíssima e vale bem a pena.



 Florença deixou na memória do viajante uma enorme quantidade de palácios e palacetes, de origem medieval ou renascença, a bordejar ruas estreitas. E também as impressionantes avalanches de turistas, sobretudo asiáticos. Mas à margem desta sensação de parque temático, recorda o viajante que, ao lado da Ponte Vecchio, comeu o melhor gelado de toda a sua vida, de banana e frutos do bosque (duas bolas por 9 €…).
Florença é uma cidade de acesso difícil: o seu aeroporto tem muito poucos voos. É por isso mais confortável utilizar Bolonha, que tem voos diários de Lisboa, com a TAP e depois fazer a ligação de comboio (de cerca de uma hora).

sexta-feira, abril 08, 2011

Parque Nacional de Ordesa e Monte Perdido, Pirenéus, Espanha

Ordesa e Monte Perdido, em Aragão, são duas referências míticas para os montanhistas dos Pirenéus. Talvez pela paisagem majestosa e inóspita. Ou então por ser uma das zonas de montanha melhor preservadas da superpovoada Europa. Por ali, as montanhas são recortadas e altivas, com pendentes escarpadas e íngremes; abundam densos e frondosos bosques de coníferas, faias e bétulas.

Entrou o viajante na montanha por Torla, povoado de postal ilustrado, a mais de mil metros de altitude, de casario de xisto cinzento, a contrastar com os picos verdes e brancos dos Pirenéus, ao fundo. A entrada para o Parque Nacional pode igualmente fazer-se por Añisclo, Escuaín ou Pineta. Mas Torla é a entrada mais popular e mais concorrida, por ser a que tem mais infra-estruturas de apoio; desde logo, a estrada de acesso, a partir de Jaca, a um pouco mais de 50 km, é óptima.
Torla tem uma arquitectura típica de montanha – casas de pedra, com pequenas aberturas, cobertas de telhados de xisto. No meio, sobressai a igreja do século XVI, com a sua elegante torre. A terriola está cheia de lojas, bares, restaurantes e hotéis baratos. Nas suas ruas circulam turistas, que se preparam para subir a montanha, ou acabaram de vir de lá. Aliás, a economia local vive disso.

Este ambiente faz de Torla uma boa base para preparar a expedição à montanha e, em particular, ao vale de Ordesa, vale glaciário com paredes rochosas de 400 metros de altura, que constitui o coração do Parque Nacional de Ordesa e Monte Perdido. É também de Torla que partem os autocarros oficiais autorizados a passar a Puente de los Navarros e a atingir o parque de estacionamento de La Pradera, junto do Rio Arazas (a 3 km de Torla), de acesso condicionado no verão – é mesmo proibido o trânsito a veículos privados.
Daqui, só se pode prosseguir a pé. Fez o viajante seu o objectivo da generalidade dos turistas que por aqui vêm: o Circo de Soaso, no topo do vale, para onde se despenha a famosa queda de água da Cola de Caballo, ou Cauda do Cavalo. Mas optou por percorrer a Senda de los Cazadores, uma forte pendente de 2 quilómetros de subida íngreme, de partir as pernas mais duras. Este sendeiro, que levou duas horas bem contadas a vencer, conduz ao topo de uma das paredes laterais deste vale glaciário. Daqui em diante, o percurso até ao coração do vale é muito mais fácil e passa por miradouros de cortar a respiração – só eles valeram o esforço da subida e até mesmo a expedição.
O Circo de Soaso, no topo do vale, a 1700 metros de altitude, é um enorme anfiteatro despido, de paredes muito verticais, de onde cai a cascata da Cola del Caballo. A sua água vem das vertentes do Monte Perdido e alimenta, mais abaixo, no curso do Rio Arazas, as Gradas de Soaso, uma sucessão de plataformas na rocha do leito do rio, em degraus, pelas quais corre o Arazas formando cascatas.
Levou o viajante cerca de seis horas a atingir o Circo de Soaso e a regressar à base, em La Pradera. Mas o regresso foi muito mais rápido, pelo caminho dos turistas, ao longo do rio: é um caminho do tipo florestal, largo, com muitos caminhantes. Desta caminhada acessível, guardou na memória paisagens deslumbrantes, de montanha selvagem e majestosa.
O Parque Nacional de Ordesa e Monte Perdido foi criado em 1912 e ampliado em 1982 e atrai anualmente milhares de turistas. Fica na Comunidade de Aragão, em Espanha. Por estrada, dista de Lisboa cerca de 1200 quilómetros.

terça-feira, abril 05, 2011

Ilha Maurício, para além das praias

Quem procura a Ilha Maurício como destino de férias pensa sobretudo em sol e praias de água verde-esmeralda e de areia branca. Assim fazem as centenas de turistas que diariamente aqui são despejados pelos aviões provenientes da Europa (Paris, sobretudo e, um pouco menos, Londres).
No entanto, para além da praia, a Maurício suscita também interesse aos viajantes pelas curiosidades naturais, próprias de uma ilha vulcânica, espalhadas sobretudo pela sua zona sul.

 Com efeito, por ser uma ilha vulcânica, é possível ver na Ilha Maurício crateras de vulcões extintos muito bem preservadas, onde agora surgiram lagos. Uma delas é próxima de Curepipe, no planalto central da ilha e é conhecida como Trou-aux-cerfs. É uma cratera de cerca de um quilómetro de diâmetro e cerca de cem metros de profundidade. O seu cone eleva-se acima do planalto e a visita vale tanto pelas vistas panorâmicas sobre a ilha como pelo fenómeno em si mesmo.
 Mais impressionante, pode ser a visita ao lago de Grand Bassin. É também um cone de vulcão extinto, bastante maior e menos regular. Tem porém o atractivo adicional de ser considerado um lago santo para os hindus da ilha, que aqui vêm em procissão, a partir de toda a ilha, no início do mês de Fevereiro.
Este lago fica na zona sul da ilha e para se visitar tem que ir-se de carro. Não distante dele, fica o Black River Gorges National Park, a única área protegida na ilha, que tem como objectivo preservar os ecossistemas das gargantas da Riviére Noire, ou Black River. Nesta zona ainda há vegetação nativa da Maurício – de uma riqueza enorme, já que se estima em um terço a percentagem das espécies que são endémicas da ilha e não existem em nenhuma outra paragem.

 Achou o viajante fantástica esta floresta tropical de altitude, com espécies muito específicas. Recorda, entre outras, a “árvore do papel”, assim chamada porque o seu tronco é composto por macias e finas camadas vegetais, que podem ir-se descascando em “folhas”, como se fossem de papel. Ou a “palmeira dos viajantes”, em forma de leque, assim chamada porque as suas grossas palmas estão cheias de água, que pode beber-se – basta fazer-lhe um furo em qualquer lado para dela jorrar um esguicho de água que pode beber-se. Ou ainda uma espantosa planta arbustiva cujo nome não conseguiu o viajante apurar (o motorista de táxi não sabia…) que reage ao toque nas suas folhas, encolhendo-se!
 Nesta zona, do rio Negro, os turistas costumam ser levados às cascatas e a uma curiosidade natural conhecida como a terra colorida. Esta última é um fenómeno geológico curioso: o basalto da lava vulcânica, submetido a arrefecimento súbito pela acção da água fria, deu origem a segmentos de terra de diferentes cores, que variam do ocre até ao vermelho escuro. Este fenómeno fica em terrenos privados, no meio de plantações de cana-de-açúcar e a entrada é paga. Tem porém acesso muito fácil e o caminho está bem sinalizado.
Próximo, fica a cascata de Chamarel, com mais de 80 metros de queda, num entorno fantástico. Melhor ainda que o da a cascata da Riviére Noire.
Qualquer destes três destinos é muito concorrido por turistas, que aqui são despejados por autocarros. No entanto, em alternativa à praia, são pontos de passagem obrigatórios na ilha.