sexta-feira, outubro 28, 2011

Praça de Tianamen, Pequim

  O nome Tianamen ou, em português, “paz celestial”, faz despertar no viajante a memória de um fleumático manifestante que, sozinho, com um saco de compras na mão, enfrentou um carro de combate e desta forma o exército e o poder político chinês. A história bem conhecida dos protestos a favor da democracia, esmagados pela força militar em Junho de 1989, não conseguiu esbater-se da mente do viajante, quando passou por aquela que é a maior praça do mundo, no coração de Pequim. Mas além desta revolta, a praça foi palco de outros “incidentes” de idêntica natureza, na delicada terminologia chinesa.
  É certo que o local, de passagem obrigatória para quem visita a cidade, está cheiro de pacíficos turistas equipados com máquinas fotográficas e também de vendedores ambulantes. Mas nota-se bem a densidade de agentes policiais fardados. E nestes, apesar de não reagirem quando se lhes tiram fotografias, evidencia-se alguma tensão. Há óbvio receio de novas manifestações: aliás, na entrada da praça o viajante foi revistado e a viu a mochila ter que passar por um túnel de raio-x, como se estivesse num aeroporto. A entrada na zona central da praça é particularmente vigiada e fecha a partir do entardecer, por razões de segurança. Por todo o lado, as câmaras de vigilância e o dispositivo policial não deixam dúvidas sobre o estrito controlo a que o local está sujeito.
  À margem destas tensões, Tianamen é o coração de Pequim. De aqui se medem todas as distâncias a outras cidades – é aqui o quilómetro 0. É gigantesca: tem mais de 800 metros de comprimento e 400 metros de largura e na sua vastíssima calçada cabem milhares de pessoas. Diz-se que no tempo da Revolução Cultural chegaram a realizar-se aqui desfiles com mais de um milhão de pessoas.
No seu topo, a norte, fica a entrada para a cidade proibida (a entrada da Porta do Céu, que dá o nome à praça), onde foi pendurado o mais fotografado retrato de Mao Tsé-Tung. Do outro lado, a sul, fica o mausoléu de Mao, onde está o seu corpo embalsamado. Nas faces laterais ficam dois edifícios mastodônticos, de construção revolucionária, onde não se esconde a clara inspiração soviética: o Museu Nacional de História e da Revolução e do outro a Assembleia Nacional.
  Embora a praça seja muito antiga, o formato que actualmente tem foi concepção do Grande Timoneiro, que queria que este fosse o espelho onde se revia a grandeza e a glória da China e do Partido Comunista. E de certa foram, conseguiu-o: Tianamen é um local de peregrinação de todos os chineses, mais que vigiado e completamente controlado por câmaras de televisão e agentes policiais.

sábado, outubro 22, 2011

Salvador da Bahia, Brasil

  Não costuma o viajante optar por clichés, mas desta vez sentiu algum apelo quando teve oportunidade de visitar Salvador. Bem sabia que esta cidade, de talvez três milhões de almas é, actualmente, um dos principais destinos turísticos do Brasil. As vagas de turistas vêm, antes de mais, à procura das excelentes praias (vem logo à memória Itapuã, que inspirou Vinicius e foi cantada por Toquinho e Djavan). Mas também dos monumentos históricos interessantíssimos e das manifestações culturais variadas. E depois, claro, para compor o cliché, das figuras típicas das enormes e pesadas bahianas, cuja imagem decorava os pacotes de uma marca qualquer de café, daquelas que já não há.
Para lá dos clichés, encontrou o viajante em Salvador a cidade de um povo alegre, que organiza um carnaval rival do carioca. E criativo, também. Por aqui, na enormíssima tradição musical da Bahia, passam as raízes da música popular brasileira, entre muitas outras sub-culturas do Brasil moderno. Aqui nasceram Caetano Veloso, Maria Bethania e Gilberto Gil. Mas esta é também a pátria das religiões mistas, como por exemplo o condomblé, de contornos iconográficos cristãos mas de raiz africana, que fez dos orixás a sua divindade.
  Percebe-se bem, na rua, este caldo de cultura, produto da miscigenação de raças, entre os portugueses colonizadores, os escravos africanos, chegados a partir de meados do século XVI e os nativos brasileiros. Quando Pedro Alvares Cabral, em 1500, descobriu o Brasil, aportou na costa da Bahia (em Porto Seguro, a sul de Salvador). Mas a baía de Todos os Santos, onde fica Salvador, foi descoberta por Américo Vespúcio, em 1501. A cidade viria a ser fundada em 1549, na altura com o nome de São Salvador da Baía. Foi capital do Brasil até 1763, altura em que a capital foi transferida para o Rio de Janeiro. Jorge Amado dizia que aqui está a origem do Brasil, porque tudo começou na Bahia: ”foi aqui que as raças se encontraram e se misturaram. Depois, esta mesma receita estendeu-se a todo o país”. E acrescenta que “foi aqui que começou a alegria brasileira, porque África salvou os brasileiros da tristeza do fado”. Do fado português, anota o viajante.
  O fado português é, porém, para orgulho do viajante, a grande marca do bairro mais emblemático de Salvador. O Pelourinho, zona alta, na colina sobranceira à baía (que deu o nome à Bahia), de construção antiga e edifícios bem recuperados, é o centro da cidade – foi aqui que teve origem, como mercado de escravos. É património mundial, decretado pela UNESCO em 1984. Hoje em dia, os edifícios, iguais aos que poderia haver em Portugal, são ocupados por hotéis, lojas de artesanato ou de artigos de design e ainda por associações culturais. É por aqui que ensaiam as bandas tradicionais bahianas (entre elas, o Olodum). Também foi aqui que nasceu a capoeira, no século XVI, desenvolvida por escravos negros.
Esta zona urbana de casas baixas, com fachadas de cores pastel, em ruas de empedrado grosso, que do lado de cá do mar se chama calçada portuguesa, inclui muitas casas senhoriais dos séculos XVII e XVIII, tempo de domínio português. É igualmente desse tempo a Basílica da Sé, construída à portuguesa, em mármore branco e a magnífica igreja barroca do convento de São Francisco, com rico interior, profusamente decorado com azulejos e talha dourada. Diz-se que foram usados mais de mil quilos de ouro para a revestir. Esta igreja é considerada o expoente máximo do barroco brasileiro.
Com o devido respeito por Amado, poderá ter-se finado por aqui o fado, mas se finou o orgulho do viajante, ao ver o destaque que merecem estas imensas obras lusitanas, tão longe de casa.

terça-feira, outubro 18, 2011

Museu Thyssen-Bornemisza, Madrid

  Madrid é uma cidade de referência para quem gosta de visitar museus: alguns dos melhores museus de arte do mundo ficam aqui e nem é necessário referi-los para que de imediato assaltem a mente do leitor. É o que se passa com o Museu Thyssen, que deixou no viajante uma excelente impressão. Tem muito que ver e é entretido, mas sem ser excessivo. É um programa para um par de horas agradáveis. Fica, como é bem sabido, no centro de Madrid, a dois passos do celebérrimo Museu do Prado.
  O Museu Thyssen-Bornemisza reúne uma impressionante colecção de arte, que abarca sobretudo pintura ocidental, desde a Idade Média aos pintores vanguardistas do início do século XX. A visita está organizada num percurso historicamente orientado, que vai percorrendo toda a colecção. Este acervo foi originariamente reunido pela família Thyssen-Bornemisza e acabou por ser comprada pelo Estado Espanhol em 1993. Além da colecção principal, está também disponível para os visitantes a chamada Colecção Cármen Thyssen-Bornemisza – é a colecção privada da baronesa que dá o nome ao museu. Foi instalada nas chamadas novas alas, por serem mais recentes e estarem num novo bloco, extensão do antigo e originário edifício. Esta colecção foi iniciada em meados da década de 1980, pela própria baronesa Thyssen-Bornemisza, que assim pretendia corresponder ao entusiasmo coleccionista do seu marido, o Barão Hans Heirich Thyssen-Bornemisza. No seu conjunto esta parte da pintura exposta é uma continuação natural da outra, que já está aqui instalada desde 1982.
  Na visita, podem ver-se exemplares de escultura e pintura da idade média final, mas também pintura alemã, italiana, flamenga e holandesa do século XVII. Seguem-se exemplares de várias proveniências de pintura dos séculos XVIII e XIX, com destaque para a pintura norte americana do século XIX e dentro desta, do impressionismo americano. Aliás, há vastos e múltiplos representantes do impressonismo e do post impressionismo, bem como do expressionismo alemão, tal como do fauvismo. A visita termina com diversas tendências do século XX.
O Museu Thyssen-Bornemisza está instalado no Palácio de Villahermosa, no Paseo del Prado. É um edifício com origem no século XIX, que veio a ser recuperado pelo arquitecto espanhol, de Navarra, Rafael Moneo, vindo a ser reinaugurado, como museu, em 1992. Está aberto de terça a domingo, das 10 às19 horas. A entrada custa 8 euros (na modalidade reduzida, 5 euros). Tem loja muito interessante e cafetaria, sempre cheia. É claro que o Museu do Prado é muito mais rico que o Thyssen e é também claro que o Reina Sofia é bastante maior. Mas se tivesse o viajante que eleger apenas um dos três para visitar, não hesitava em escolher o Thyssen, pela riqueza, diversidade e conveniência da dimensão, perfeitamente à escala humana e agradavelmente visitável, de seguida, de ponta a ponta, ao contrário dos outros dois. Pena é que seja proibido tirar fotografias.

domingo, outubro 16, 2011

Nando’s Chicken

 
Já tem calhado o viajante cruzar-se com restaurantes de comida rápida da cadeia “Nando’s” em várias paragens. E já se tem intrigado sobre se existe alguma competição quanto à originalidade fácil dos respectivos anúncios.
Na sucursal de Covent Garden, em Londres, uma placa do tipo daquelas que nas estradas anunciando obras, dizia “men eating chicken”. No mesmo local, outro anúncio, evocando o frango picante, dizia “Peri-Peri: so good that named it twice”. Ainda assim, o prémio do viajante vai para a sucursal de Nicósia, em Chipre que, ao lado do nome do restaurante, adiantava: “oral satisfaction”.

quarta-feira, outubro 12, 2011

Pousada da Ria, Beira Litoral, Portugal

  Não é o viajante um cliente habitual das Pousadas de Portugal, embora goste de muitas delas. A razão é simples: são normalmente sítios muito confortáveis e distintos, mas é uma extravagância que custa muito dinheiro. Vem esta confissão despropositada a propósito de uma breve estadia na Pousada da Ria, uma das mais antigas Pousadas – e também, historicamente, talvez, das mais emblemáticas.
Visitar a Pousada da Ria é um pouco como regressar ao antigo regime, anterior a 1974: a arquitectura é antiga e fora de moda; os móveis e a decoração do edifício são desactualizados e, em boa parte, já tiveram melhores dias; o próprio jardim, que não está maltratado, parece um antigo recinto de seminário, com relva e meia dúzia de arbustos decorativos, dispostos sem alegria nem criatividade. Não destoa a piscina, que apesar de tudo é muito agradável, mesmo ao lado das águas calmíssimas da ria. Durante a passagem por aqui, esteve sempre o viajante à espera de ver algum surgir um daqueles personagens que os brasileiros chamam de “filme de época”, com chapéu e fato escuro, de camisa branca e gravatinha fina, com sapatos de verniz e bigodinho, a sair de um Carocha cinzento.
  Porém, ultrapassado o choque inicial, da viagem ao passado, na Pousada da Ria descobriu o viajante um local mais do que tranquilo (é caso para dizer verdadeiramente com o tempo parado – embora não seja despropositado, pelo que ficou dito, dizer também que está parado no tempo). E também um hotel confortável e muito caseiro, onde o pessoal (que não é nem é necessário que seja muito), é delicado, simpático e eficaz. É certo que, por exemplo, sentiu o viajante falta de um bar na piscina. Mas isso supriu-se porque espontaneamente o rapaz do salão de bar se ofereceu para levar lá uma caipirinha.
A verdade é que à Pousada não lhe faltam os confortos modernos. E, quem sabe, talvez venha um dia mesmo a ter os mais modernos, por exemplo Internet wi-fi. Mas estes últimos também não fazem falta, se o objectivo for repousar. E foi repouso que o viajante trouxe na memória. E trouxe ainda mais marcadas fantásticas imagens da sua varanda sobre a ria, quer ao nascer, quer ao pôr-do-sol. Ao dealbar da manhã, a ria ganha cores de fogo e energia forte, com o sol nascente, por detrás das serranias do Caramulo; ao fim do dia, o sol não se vê, porque se deita nas costas, para o lado do mar, por detrás do cordão dunar da Reserva Natural das Dunas de São Jacinto, mas sente-se no ar e na pintura rosa arroxeada que fica nas nuvens.
  A Pousada da Ria fica próximo de Aveiro, no concelho da Murtosa, na estrada que liga esta vila a São Jacinto, um pouco depois da praia da Torreira, no lugar conhecido com Bico do Muranzel. Demora-se um pouco a chegar, porque tem que contornar-se todo o norte da ria de Aveiro. O edifício está construído mesmo em cima da ria - as varandas dos quartos dão para a ria. Nas suas costas, fica a Reserva Natural das Dunas de São Jacinto, uma grande extensão costeira de dunas, com areais, bosques e lagoas, separando a ria do Atlântico.

quarta-feira, outubro 05, 2011

Nossa Senhora de Fátima, Ilha Maurício

  As imagens que acompanham estas notas do caderno de viagem, foram tiradas na Ilha Maurício, próximo do mar, na zona de Petite Riviére Noire.
Depois de uma curva da estrada, por entre mangueiras carregadas de mangas, deparou-se o viajante com uma tosca casa, com uma cruz alta ao lado. Na cruz, uma placa denotando francês (a língua mais falada na ilha, a seguir ao crioulo) dizia “N.D. de FATIMA”.
  Não sem surpresa parou o viajante e pode concluir que esta pequena e tosca igreja da beira da estrada, construída em madeira e coberta com folhas de cana secas era efectivamente dedicada à Virgem de Fátima. Mais que um edifício, a igreja é um telheiro, aberto de um dos lados. Os bancos onde os fiéis se sentam já ficam fora desta espécie de cabana. Na extremidade da espécie de adro da igreja, num nicho, há uma imagem de Nossa Senhora de Fátima.
  Segui o viajante a sua jornada sem que tenha conseguido, nas redondezas, encontrar quem explicasse a razão de ser desta igreja. Na ilha Maurício, no Oceano Índico, um terço da população é católica. Partilha a ilha com hindus, tamiles e muçulmanos. Os católicos encontram-se predominantemente entre os crioulos.