quarta-feira, setembro 05, 2012

As "winelands" da África do Sul

 Há muito que o viajante se habituou a ver vinhos sul-africanos nas prateleiras dos supermercados. E, além disso, quando em viagem, a prová-los, porque são dos mais expandidos por todo o mundo – e, quanto ao preço, dos mais abordáveis, também.
Calhou entretanto passar pela Província do Cabo, na África do Sul e visitar Stellenbosch, o coração da produção vinícola daquele país austral. Foi aí que provou os vinhos feitos de pinotage, uma especificidade sul-africana. Esta casta, que não se produz em mais local nenhum do mundo, foi “inventada” na década de 1920, pelo professor de agronomia Abraham Perold, professor na Universidade Africânder de Stellenbosch, por via do cruzamento de pinot noir e de cinsault (que nesta e noutras latitudes é também chamada hermitage). O vinho que produz é quente e envolvente, mas de efeito curto, porque em geral se esvai rapidamente. Apesar disso, em geral os vinhos de pinotage são picantes e adstringentes, a dar algum corpo a um travo apimentado, a fazer lembrar terra vermelha.
De certa forma, o pinotage tornou-se um símbolo da viticultura sul-africana – todos os anos se realiza um concurso nacional para apurar o melhor de entre eles. Mas os vinhos sul-africanos não se limitam ao pinotage: produzem-se também brancos, em geral ligeiros e vinhos de sobremesa – uma espécie de clones de vinho do Porto. Mas, em tinto, produz-se sobretudo vinho de shiraz e cabernet sauvignon. Quanto a este último, vem sobretudo de Stellenbosch, onde se planta há 350 anos.
Na região há muitas adegas (calcula-se haver cerca de 300 produtores), a maior parte das quais preparadas para receber visitas, recebendo sempre com simpatia quem passa. Prova-se vinho e pode comprar-se também. Em geral, quando são visitados por estrangeiros, oferecem-se para mandar entregar o vinho em casa, pelo correio. Estas visitas são, para quem vai da Europa, uma experiência engraçada, porque as estações do ano estão viradas do avesso: a vindima faz-se em Fevereiro ou Março e o vinho está pronto para provas no nosso Outono. 

sábado, setembro 01, 2012

Kruja, Albânia

 Fez o viajante uma breve romagem a Kruja, a cerca de 30 quilómetros a norte de Tirana, capital da Albânia, com o intuito de descobrir a verdadeira essência deste país, noutros tempos chamado das águias. Pelo caminho, dizia-lhe o motorista que o conduzia, que o clube de futebol local, o Kruja FC (ou equivalente, em albanês…), era muito forte na sua “casa”, um estádio minúsculo, encaixado na encosta, que de estádio só tem o nome – é certo que é um campo relvado e cercado até, com algumas bancadas em cimento. E o Kruja joga na primeira liga albanesa.
 De Kruja, sabia o viajante que é uma pequena cidade encavalitada nas montanhas e que foi escolhida por Skanderbeg (George Kastrioti, que viveu entre 1405 e 1468), o herói nacional albanês, para aqui se instalar e construir o seu castelo. Foi em Kruja que se declarou a independência da Albânia (na época dominada pelos turcos), pela mão de Skanderbeg e foi este príncipe guerreiro que comandou os independentistas na defesa contra três invasões do exército turco. Os otomanos pretendiam reconquistar a Albânia e cercaram, por três vezes a cidade, sem sucesso. Um quarto cerco, após a morte do príncipe albanês, acabou por ditar a derrota dos nacionalistas e a submissão da Albânia, de novo, ao império turco. Mas a semente da independência estava lançada e veio a germinar séculos depois.
A terra é dos últimos locais da Albânia onde ainda se encontram vestígios do que pode ter sido o antigo bazar turco (no tempo do domínio dos otomanos todas as cidades teriam um, mas a política do regime comunista, ferozmente contrária ao cultivo da história, levou à destruição de todos os vestígios do passado).
A viagem, partindo de carro de Tirana, demora quase uma hora. As estradas são más, por vezes esburacadas e estreitas. A partir de certa altura, o percurso é muito sinuoso. Kruja fica a meio da encosta da montanha, próximo do Parque Nacional Monte Dajti, num cenário que fez o viajante recordar os livros do Tintim nos Balcãs: morros escarpados, de pedras calcárias, muito brancas, bordadas de verde da vegetação rasteira. Por aqui não abundam as árvores. O que já não evoca o bucolismo dos livros de Hergé é o ambiente suburbano da cidade moderna. Como toda a Albânia, Kruja está atascada de prédios quase arruinados, construídos no tempo do regime comunista. São edifícios todos iguais e parecem estar todos deploravelmente degradados, com varandas a cair e fachadas com os tijolos à mostra. 
 Ultrapassada esta primeira impressão, encontrou o viajante um pequeno núcleo histórico, muito pouco frequentado, no antigo bazar turco que, em rampa, dá acesso à zona da fortaleza de Skanderbeg. Neste bazar vendem-se quinquilharias, latoarias, artesanato em madeira de oliveira e memorabilia do antigo regime albanês. Na verdade, nada que mereça comprar-se.
Também o castelo causa alguma desilusão. Está num morro rodeado de muralhas, razoavelmente reconstruídas. Dentro delas, uma torre solitária evoca a memória do lutador pela independência e identidade albanesa. Um pouco abaixo, na encosta, um museu etnográfico, instalado numa antiga casa de família rica, com aspecto de não ter sofrido grandes alterações nos últimos 50 anos.
No meio, um monólito meio modernaço, meio tradicional, aqui esparramado em meados do século XX, para homenagear Skanderbeg – no seu interior fica o seu museu. O projecto, revivalista, é da autoria da filha do ditador comunista Enver Hodxa.

Além da evocação histórica, a visita valeu também pela paisagem: de um lado, as escarpadas montanhas cársicas, mais ou menos virgens e preservadas; lá no fundo, como que visto de uma varanda elevada, o mar Adriático. Mais a sul, na neblina, o grande núcleo urbano de Tirana. 

quinta-feira, julho 05, 2012

Berat, Albânia

 Chegou o viajante a Berat com a expectativa com que chega sempre a um local declarado património da humanidade pela UNESCO (na Albânia apenas há dois sítios assim declarados; o outro é a cidade de Gjirokastra, no sul). É verdade que a visita a Berat foi interessante, mas também o é que não foi das mais empolgantes.
A Albânia não é um país turístico, mas Berat é sempre sublinhada quanto se pretende visitar o país. E, diga-se, merece-o, porque tanto quanto logrou perceber o viajante, é uma das cidades mais interessantes deste país balcânico. Para isso terá contribuído a circunstância de, a título excepcional, ter sido declarada há décadas, durante o regime comunista, como “cidade museu”. Por isso, salvou-se da destruição total a que foi submetido a herança histórica do país, durante o regime de Enver Hodxa, em nome da construção de uma nova e moderna Albânia.
 Berat é “vendida” aos escassos turistas que vão à Albânia como a cidade das mil janelas. De facto, é cortada ao meio por um rio (o Osum) e, do lado de lá, no bairro cristão de Gorica, aninhado na encosta, fica um fantástico bairro de casas com vários séculos, construída no período otomano, que parecem estar construídas umas em cima das outras, encaixadas como numa construção Lego. As duas características que marcam todas estas casas são a cor branca e o grande número de janelas, todas de grandes dimensões, que rasgam as fachadas. O efeito visual, visto este bairro do outro lado do rio, é muito bonito. Menos bonito é o rio, sempre de águas sujas e, como muitos dos rios do pais, cheio de sacos e de embalagens de plástico, a boiar ou encalhados nas margens. Mas não é só no bairro de Gorica que existem casas do período otomano: há-as também do lado muçulmano do rio, nas encostas da fortaleza e também dentro desta.
 A antiga fortaleza, do século XIV, domina a cidade. Está construída num morro elevado, sobranceiro ao rio. Só ela, faz valer a pena visitar Berat. É uma enorme cidadela, sobranceira à cidade moderna, onde ainda vive gente, em casas antigas e tradicionais, presentemente a serem recuperadas com ajuda financeira da União Europeia. Ao longe, vêm-se as altíssimas cadeias montanhosas que marcam a orografia do interior albanês. Reteve o viajante o ambiente bucólico, da velha fortificação e a harmonia clara, de branco baço, dos muros de calcário, ainda em processo de restauro. Sentiu-se transportado para um tempo em que estes monumentos antigos eram meras ruínas abandonadas, sem utilidade a não ser a de inspirarem histórias romanescas. Esta fortaleza fez-lhe lembrar o estado e a forma como se encontravam os castelos portugueses há trinta ou quarenta anos.
  No século III AC, o território daquilo que agora é a Albânia era ocupado e dominado pelos Ilírios, o povo indo-europeu que foi antepassado de Albaneses e Kosovares. Terão sido os primeiros a estabelecer-se aqui. Mais tarde, Berat fez parte do império romano do oriente e por isso esteve sob o domínio de Bizâncio a partir do século V da nossa era – nessa época, a cidade era de tal maneira importante que estava completamente rodeada de muralhas. Depois, Berat passou pelo domínio búlgaro e mais tarde sérvio, a partir do século XIV. Mas foi por pouco tempo, porque em meados do século XV veio a ser ocupada pelos turcos, que aqui ficaram até ao início do século XIX.
Esta passagem constante e sucessiva de diversos povos explica a variedade de construções da fortaleza de Berat, onde ainda existem ruínas de uma mesquita, uma igreja ortodoxa do século XIV e várias outras construções. Aliás, o mesmo acontece no resto da cidade.
 Na Albânia não são frequentes os circuitos turísticos organizados. Em geral, quem vem por cá, em viagem, está por sua conta. De Tirana, a capital do país, a Berat não chegam a ser 150 quilómetros. Mas levou o viajante, de carro, quase três horas. Fê-lo por estradas esburacadas, estreitas e mal (ou nada…) sinalizadas, mas com trânsito muito intenso. Há transportes públicos alternativos, que poderão fazer o mesmo percurso em cinco ou seis horas – circulam por aqui autocarros antigos, comprados na Europa ocidental em segunda mão.

sexta-feira, maio 25, 2012

Igreja Monumento de S. Francisco, Porto

  O viajante tem corrido montes e vales de países distantes, ou avenidas e vielas de cidades enormes, para encontrar e visitar aquilo a que os guias de viagem chamam “uma jóia da arquitectura…”, ou “um excelente exemplar de…”. E nem sempre lhe ocorre que há muitas destas “jóias” ou “exemplares” aqui ao pé da porta, ou numa cidade próxima, mesmo à mão para uma visita de fim de semana.
Não conseguiu evitar esta conclusão quando calhou passar, muitos anos depois da última vez, na Igreja da Ordem Terceira de São Francisco, no Porto. É um monumento exuberantíssimo, que impressiona pela riqueza da talha dourada, ao melhor nível mundial. Tão deslumbrante como esta, apenas conhece o viajante a Capela Dourada, no Recife, Brasil.
Todavia, esta igreja de raiz românica, como qualquer jóia, tem que ser descoberta. Parece um enorme cristal de ametista, cinzento feiote por fora, mas muito brilhante por dentro.
Na verdade, o exterior muito discreto desta igreja, deve a sua modéstia à raiz românica, depois corrigida com o advento do gótico – o templo teve origem no século XIII e ficou pronta no século XV. Mais tarde, no decurso dos séculos XVII e XVIII, o interior foi remodelado, para acertar passo com a riqueza e exuberância que atravessava o Porto nessa época. Foi então todo o seu interior revestido com madeira trabalhada, dourada. Esta talha dourada veio a ser continuadamente enriquecida, ao longo do tempo, dando origem a um dos mais vistosos exemplares de talha dourada em Portugal.
Impressionou o viajante a imensa luz que entra pelas frestas e que reverbera no dourado das paredes e dos altares. Mas impressionou-o também a riqueza dos trabalhos escultóricos. Toda a igreja está cheia de esculturas em madeira, nem sempre dourada: há vários trabalhos riquíssimos de madeira policromada.
Talvez por isso, este discreto templo tenha sido classificado como monumento nacional em 1910, vindo depois a ser integrado no património mundial classificado pela Unesco, em 1996. O monumento está aberto todos os dias a partir das 9 horas (no verão fecha às 20 horas e no inverno às 17:30). Fica muito perto da Ribeira, no Porto, na Rua do Infante D. Henrique, logo a seguir ao Mercado Ferreira Borges e ao Palácio da Bolsa. Há estacionamento próximo e fácil.

segunda-feira, maio 21, 2012

Stellenbosch, out of Africa

 Não queria o viajante dizê-lo – sente-se quase ofendido ao dizê-lo -, mas chocava-o o antigo regime sul-africano de apartheid. Fazia-lhe lembrar um ambiente feudal medieval, inumano e bruto. Foi felizmente banido na África do Sul, talvez com algum excesso de compensação posterior aos antigos descriminados.
Porém, não consegue o viajante deixar de anotar que, fruto do apartheid ou não, a África do Sul é um país diferente, no contexto africano. É um país organizado, educado e civilizado. É sintomático que, ao menos na Cidade do Cabo, os motoristas param os seus carros nas passadeiras, espontaneamente, para deixar passar os peões (o que além do mais, revela que há passadeiras…).

 Entretanto, os tempos estão a mudar. Sintomaticamente, perguntaram um dia ao presidente da República de Singapura (que governa aquela cidade estado asiática, de forma tranquila, desde os anos 60 e logrou transformar aquele esquecido porto de pescadores numa praça financeira) o que achava da África do Sul da era pós Mandela e ele terá respondido que era um país do primeiro mundo, que tem vindo a ser ocupado por uma working class do terceiro mundo. É uma boa alegoria, agora que as favelas que circundam as grandes cidades se expandem, com a chegada de milhares de trabalhadores pobres de muitos outros países africanos.
 A cerca de uma hora de carro da Cidade do Cabo, Stellenbosch, é um dos últimos refúgios da tal África do Sul de primeiro mundo, alheia aos modernos problemas nacionais, com a corrupção à cabeça – simbolicamente, diziam os jornais no início de 2012 que os administradores da simbólica Roben Island, a antiga ilha prisão onde viveu durante décadas Nelson Mandela (e um dos grandes atractivos turísticos da Cidade do Cabo) estão sob investigação policial, por desvio de fundos e corrupção. Como símbolo, não podia ser mais elucidativo.
 Conserva o seu ambiente de sempre: é uma pequena cidade de província, de ruas traçadas geometricamente, de casas baixas, metade das quais com mais de duzentos anos, construídas no chamado “estilo cabo holandês”: de matriz vitoriana mas com a adaptação necessária aos materiais locais. Pela cidade há lojas e boutiques, bares, restaurantes e esplanadas, onde é possível provar vinho a copo. É aliás aqui o epicentro da produção vinícola da África do Sul. Mas a cidade tem interesse em si própria, para além do vinho. Sentiu-se o viajante numa terra acolhedora, com perfil de aldeia inglesa, mas edificações em estilo mais holandês, com clima quente e descontracção africana. Bem se percebe por aqui a história, mas a dinâmica da terra é bem actual.
 Sentiu também aqui um ambiente tranquilo e ordeiro, de trabalho, indiferente a etnias. A cidade, a terceira mais antiga da África do Sul (a seguir à Cidade do Cabo e a Simonstown) foi assim baptizada em memória de Simon Van der Stel, o governador holandês da colónia, que a fundou no século XVII, filho de pai holandês e de mãe malaia. E se é verdade que Stellenbosch simboliza o esforço autonomista dos bóeres, que lutaram contra o imperialismo britânico, também é verdade que a homenagem a este venerado herói nacional veio a ser premonitória daquilo em que viria a converte-se este país arco-íris. Por sinal, percebeu com muito agrado o viajante que não há complexos na África do Sul a este propósito: a um branco chama-se “white”, a quem é de raça negra, “black”, a quem seja mestiço, “coloured” e a quem tem origem na índia, “indian”. Simples, sem complexos nem parvoíces bacocas.

segunda-feira, maio 07, 2012

Prizren, Kosovo

O Kosovo, cenário de uma das mais recentes e bárbaras guerras em território europeu, não é um destino turístico. Provavelmente, não o será nunca: não tem praias nem modernas estâncias de montanha, não tem cidades vibrantes nem grandes marcos de interesse histórico, cultural ou artístico. Além disso, o recente país (que se declarou independente da Sérvia, oficialmente, apenas em 2008), apesar de ter uma paisagem natural bonita, dominada por montanhas que têm neve até muito tarde na primavera, está completamente desfigurado por uma ocupação humana desregrada e errática. E também, ainda, pelas cicatrizes da guerra de 1999 (de extrema violência dos sérvios sobre os kosovares albaneses) e pelos conflitos étnicos de 2004 (de vandalização de tudo, pessoas e propriedades, sérvias, pelos kosovares albaneses).
Teve por isso o viajante uma grande e agradável surpresa, ao passar por Prizren, talvez a segunda cidade do país (a maior a seguir a Pristina) a 50 quilómetros a sul da capital e a apenas uma dezena da fronteira da Albânia. Dizem os guias turísticos que, em séculos que já lá vão, Prizren foi a capital da antiga Sérvia, mas os kosovares albaneses não gostam da ideia. Além disso, era também a cidade natal de Josip Broz Tito, o antigo presidente da Jugoslávia socialista, que sonhou alargar o domínio da grande Sérvia a todos os Balcãs. Estes, aliás, são dois dos espinhos que muito magoam a Sérvia e a impedem de reconhecer o estatuto do Kosovo como Estado independente.
Talvez por isso, foi particularmente intensa a opressão que o exército e a polícia sérvia fizeram nesta região aos kosovares albaneses, em anos idos. Contava ao viajante um amigo que viveu aqui desde sempre que, em 1999, os sérvios ocuparam militarmente a cidade com tal brutalidade que os kosovares albaneses, em êxodo, preferiram abandonar a região e fugir para a Albânia – foi a época em que a NATO bombardeou o Kosovo (e também Prizren), até que a Sérvia abandonou o território. No regresso, os habitantes da zona encontraram verdadeiramente terra queimada.
Arrumadas na memória e na história e superadas todas estas questões, conseguiu o viajante ver em Prizren uma cidade agitada, com muita gente a animar as ruas – sobretudo gente mais nova. É também uma cidade de fusão de culturas: a estrutura da cidade é turca, com casas baixas e lojas, como num bazar mas, quase ao lado umas das outras, há igrejas ortodoxas, igrejas católicas e mesquitas. É talvez, dominante, a indelével marca turca: há um grande número de mesquitas, com os característicos minaretes em forma de lápis, seguindo o modelo turco. Conserva-se em lugar muito central o edifícios dos banhos turcos, os banhos Gazi Mehmen Pasha.
Gostou o viajante da atmosfera da terra: ao longo do rio que a atravessa há ruas movimentadas, que desembocam na mesquita Sinan Pasha, por sua vez fronteira de uma igreja ortodoxa. É a praça Shadrvan, com um ambiente de alguma evocação histórica – a ela confluem muitas ruas estreitas e pedonais, de piso empedrado. Há muitas casas antigas, com madeiramentos ricos, em estilo turco. Misturadas com elas, lojas modernaças, com néon e cores vivas, a procurar insistentemente alinhar pelo chamado estilo ocidental.
Claramente, Prizren foi o sítio mais interessante que o viajante encontrou no Kosovo. Fica a uma hora de carro de Pristina, por estradas que estão em melhoramento. Está mesmo em construção uma auto-estrada.

sábado, abril 28, 2012

Apollonia, Albânia

Da Albânia trouxe o viajante a impressão de ser o canto mais escondido e esquecido do Mediterrâneo. O país ainda não recuperou dos quarenta e cinco anos de isolamento forçado, imposto pelo regime comunista radical, que fechou as fronteiras e proibia os contactos com o exterior. Apesar disso, desde os anos noventa que a Albânia desperta dessa letargia, abrindo as portas ao mundo e recuperando a sua história. Ela mesma, a história, foi também banida pelo regime comunista de Enver Hodxa, em nome da construção de um país novo, livre de classes e dos espartilhos do passado feudal e religioso. Em nome disso foram arrasadas igrejas, mesquitas e outros edifícios de interesse histórico.
Não obstante, desde há muito que, em vários pontos do território albanês, são conhecidos vestígios da antiguidade e, em particular, da antiguidade clássica – o mar Adriático, que banha as costas do sul da Albânia, foi intensamente colonizado por gregos e romanos, que aqui construíram portos comerciais e cidades.
Foi o caso de Apollonia, a primeira cidade do mundo antigo a ser baptizado com o nome de Apolo: esta colónia grega, fundada por emigrantes de Corinto, durante o século VII AC naquela que então era a Ilíria, chegou a ter 60 mil habitantes. Nesse tempo era inteiramente cercada por muralhas, que teriam quatro quilómetros de perímetro. No início do primeiro milénio foi um grande centro da cultura romana – tornou-se conhecida pela sua escola de filosofia. Aliás, por ela passou, no ano 45 AC, como estudante, Octávio, o imperador que mais tarde ficou conhecido como César Augusto.
Porém, a cidade veio a sofrer vários terramotos, que a destruíram. Além disso, o assoreamento do rio Vjosa, que antes disso lhe dava acesso ao mar, isolou-a e a cidade acabou por declinar. Perdeu-se no tempo até vir a ser descoberta, no início do século XX pelo arqueólogo francês Leon Rey, que realizou aqui escavações durante várias décadas (foi impedido de continuar pelo regime comunista).
Na actualidade, Apollonia é a maior estação arqueológica da Albânia. Dizem os guias que é um dos locais mais interessantes para visitar, neste país que não é conhecido pelo seu interesse turístico. De facto, achou o viajante muito interessante a visita a esta estância arqueológica. Fez-lhe recordar imagens de locais históricos em filmes italianos dos anos 50: nas ruínas, muitas pedras, concerteza interessantes, mas nada organizadas nem identificadas; famílias faziam piqueniques nas ruínas, como fariam num qualquer parque; um ou dois vendedores vendiam produtos locais (mel, artesanato de madeira de oliveira), expostos em caixas de fruta, à entrada, um funcionário de barba por fazer, bastante mal vestido, sem uniforme nem qualquer elemento identificador, vendia bilhetes, que trazia no bolso das calças, ao mesmo tempo que segurava um cigarro no canto da boca – a princípio, até julgou o viajante tratar-se de uma qualquer vigaricezita
Ultrapassada esta primeira impressão, desfrutou o viajante da passagem por aqui. Impressionou-o o Odeon, um pequeno teatro, originariamente grego, mas romanizado, com capacidade para 300 pessoas, que está bem recuperado. Mas também o impressionou a fachada principal (a única sobrevivente) do Bouleuterion – a sede do Boulea, o antigo Conselho Municipal de Apollonia. Julga-se que ambos os monumentos terão sido construídos no século II. Ambos foram restaurados na última década. No recinto, fica ainda o Museu de Apollonia, instalado num mosteiro ortodoxo, bizantino, do século XI, que foi recuperado para o efeito.
O Parque Arqueológico de Apollonia fica a cerca de 12 km de Fieri, 120 km a sul de Tirana, no centro da Albânia. Cobre uma área de 750 hectares e foi criado em 2005. Está aberto todos os dias, da 9 às 17 horas (nos meses de verão abre às 8 e encerra às 20 horas. (www.apollonia.al). O bilhete para todo o recinto, incluído o museu, custa 300 lek albaneses – pouco mais de 2 euros. O acesso não é fácil: não há transportes públicos e as estradas, desde Fieri, são estreitas e esburacadas, por entre aldeias pobres e degradadas. Tal como em toda a Albânia, as placas sinalizadoras escasseiam e torna-se necessário perguntar o caminho. Em albanês, claro…

quarta-feira, abril 11, 2012

Serra de Aire, Portugal


A fotografia foi tirada na zona da Serra de Aire. E não é original nem única: já calhou o viajante ser surpreendido por elegantes moradias rurais em cuja frontaria pontificam dragões, irmanados com águias e leões. O que não tinha visto nunca – e aqui só com atenção depois reparou -, foi esta trindade de mascotes estar abençoada pela companhia, embora mais discreta, dos pastorinhos de Fátima.

sábado, março 31, 2012

Praga e Bruxelas

 
Na bíblica Babel, cada um dos povos, falando a sua língua, entendia perfeitamente os outros. Interroga-se muito o viajante sobre as razões pelas quais, depois disso, as palavras entraram em deriva e se afastaram tanto umas das outras.
Sobretudo em países de língua de famílias muito diferentes da latina, tem o viajante sido surpreendido por palavras muito parecidas a congéneres portuguesas, mas que significam algo absolutamente diferente daquilo que representam em português.
Ocorriam-lhe estas ociosas lucubrações ao viajante, quando arrumava a fotografia acima, tirada em Praga, e a de baixo, em Bruxelas. Em ambos os casos ficou sem saber o que estará por detrás daquela grafia que tão familiarmente clara se lhe apresentou.

terça-feira, março 20, 2012

Radisson Blu Royal Hotel, Copenhaga, Dinamarca

Não tem o viajante deixado por aqui muitas referências a hotéis. A verdade é que não tem frequentado hotéis que mereçam menção especial. Ocorre, porém, destacar o Radisson Blu Royal Hotel, que já foi o Hotel SAS Royal, em Copenhaga. Não é que se destaque pelo serviço, que é bom, nem pelo conforto, que é de óptimo nível: em geral, tem a qualidade e ao mesmo tempo a simplicidade típicas dos hotéis nórdicos.
 Este hotel mereceu particular atenção do viajante porque se assumiu, desde que foi projectado, por Arne Jacobsen, como um emblema da tradição dinamarquesa de design. Foi desenhado em 1956 e inaugurado em 1960 e logo se tornou numa das obras emblemáticas de Jacobsen. É até considerado o primeiro hotel-design do mundo.
De facto, tudo no edifício e no seu recheio foi meticulosamente desenhado de propósito para o hotel: além da fachada rectilínea, foram desenhadas por Jacobsen, desde as maçanetas das portas aos cinzeiros e desde as cadeiras até aos sabonetes de cortesia, que se disponibilizam na casa de banho.

 Quanto às cadeiras, vieram a tornar-se num dos mais famosos ícones de Jacobsen e do design nórdico. As cadeiras Ovo e Cisne, ambas concebidas especialmente para o hotel, vieram mesmo a tornar-se verdadeiros ícones do design mundial. Assim aconteceu em particular com a cadeira Ovo, em forma oval, concebida para assegurar um ambiente privado num contexto normalmente agitado – esta peça foi especialmente idealizada para o lobby do hotel.
Arne Jacobsen (nasceu em 1902 e morreu em 1971) é considerado o pai do design nórdico. Foi arquitecto, decorador de interiores e desenhador de móveis. Cultivou um estilo muito simples e linear, que pretendeu sempre combinar a função do móvel com sua forma.
Quanto ao edifício do Radisson Blu Royal Hotel, fica no centro de Copenhaga, na Hammerichsgade, nº1, mesmo em frente dos Jardins Tivoli e muito próximo da zona comercial da rua Stroget. Além disso, fica ao lado da estação central de comboios. Um quarto duplo pode custar 200 euros por noite, mas se for reservado com muita antecedência, na Internet, o preço pode ser muitíssimo mais convidativo.

domingo, março 18, 2012

Bruges, Bélgica

  A Bruges, (ou Brugge, em flamengo, língua local), deve ir-se no inverno. Claro que o verão é sempre mais bonito, sobretudo em latitudes mais a norte: o tempo é melhor, os dias são maiores e a paisagem é mais verde e menos fria. Mas Bruges é impossível no verão: está inundada de turistas e transformada numa espécie de enorme parque temático. E é pena porque - sem qualquer reserva o assume o viajante -, Bruges é das mais bonitas cidades que visitou na Europa. Aliás, é classificada como património da humanidade, pela Unesco, desde 2000. Embora haja sempre, durante todo o ano, muitos turistas pelas ruas, Bruges é também consensualmente qualificada pelos guias como um dos melhores destinos da Europa.
  A melhor forma de chegar a Bruges vindo-se de Bruxelas, poiso normal na Bélgica, é o comboio. De Bruxelas, a viagem demora uma hora de comboio, a partir da estação central (Bruxelles Centrale). Há comboios de meia em meia hora e a viagem custa 11,80 €. É que, além do mais, é difícil estacionar nesta cidade antiga. E depois, Bruges é daquelas cidades onde tem que andar-se a pé.
A denominação “Bruges” terá tido origem em “bryggia”, que em flamengo antigo designaria embarcadouro. Esta será uma história do século IX, numa cidade que alcançou o seu apogeu nos séculos XIV e XV, quando fazia parte do Ducado da Borgonha e se evidenciou como um centro de letras e artes. São dessa época dois dos grandes vultos da cidade: Jan van Eyck (1390-1441) e Hans Memling (1433-1494). Na verdade, Bruges, uma poderosa cidade mercantil (no século XIV era mesmo o centro mercantil mais importante da Europa) foi uma das cidades que mais marcou o carácter da Flandres, tal como ela se inscreveu na história.
O conjunto arquitectónico que ainda hoje subsiste da cidade antiga é muito harmonioso. É formado por uma enorme rede de ruas medievais, por vezes atravessadas por canais. A cidade é injustamente chamada de Veneza do Norte: merece muito mais que a comparação e esta menoriza-a, porque com Veneza apenas tem em comum ter canais – quanto ao resto, tem identidade muito própria.
São visitas obrigatórias a praça do Markt, ou Grote Markt (centro nevrálgico da cidade, herdeiro do esplendor da cidade, do tempo em que o seu porto de mar era dos mais importantes do Mar do Norte – agora, há por aqui barracas onde se comem óptimas batatas fritas), os canais, o Museu Memling e a praça do Burg, coração histórico da cidade, recheado de ícones da arquitectura flamenga (destaque para a catedral do Santo Sangue, do século XII e para a catedral, do século XV). 
O edifício mais alto de Bruges é o Belfry, campanário e símbolo burguês da cidade, que pretendeu, como noutras cidades flamengas, contrariar o protagonismo das catedrais – foi construído no século XIII e tem 88 metros de altura e carrilhão de sinos no topo.
Tinha o viajante muita curiosidade pelo Begijnhof, ou beatério, uma tradição dos Países Baixos, com origem no século XIII e que viu já replicado noutras cidades da Flandres (Amesterdão, por exemplo) – este Begijnhof de Bruges foi fundado em 1245. Como os outros, era uma comunidade religiosa de mulheres que, apesar disso, não pertenciam especificamente a nenhuma ordem religiosa. Viviam em pequenas casas, umas junto das outras, num espaço fechado ao exterior. Nele encontrou o viajante uma espaço muito pacato.
 
  Dizem os guias turísticos que há em Bruges cerca de 80 cervejarias em muitas das quais se vende cerveja local, por vezes mesmo fabricada na casa. Reteve o viajante o Grand Café Belfort, onde se bebe a cerveja da casa (Brugs Belfort), de travo  intenso e rico, tradicional, ao estilo abadia. Mas mais reteve ainda as chocolatarias, que pululam pela cidade. Vendem chocolate artesanal, quer em formatos tradicionais, quem modelado nas mais diversas e criativas formas.

quarta-feira, fevereiro 29, 2012

Madrid


A língua é sempre uma das dificuldades da viagem. Ou um dos aliciantes; depende do local e das circunstâncias. Há povos e países que procuram entender os viajantes e fazer-se entender e outros a quem falta a boa vontade ou o jeito. Em Espanha, por exemplo, mais vale tentar falar a língua local.
Mas mesmo assim, desta vez, a da fotografia, no Metro de Madrid, teve o viajante alguma dificuldade em encontrar o sentido certo e evitar que se perdesse algo na tradução. Mas se não está em erro, nesta “papelera” era proibido deitar papéis.

domingo, fevereiro 05, 2012

Parque Biológico de Gaia, Portugal

  Tem o viajante pouca apetência por jardins zoológicos, daqueles onde os animais estão enjaulados em gaiolas todas muito iguais, com a preocupação única de que os visitantes possam vê-los e assim juntá-los à sua colecção de cromos. Os zoológicos parecem ao viajante uma espécie de McDonald’s da natureza. Talvez por isso, teve uma agradável surpresa no Parque Biológico de Gaia, um espaço natural descontraído e criteriosamente desordenado, como a natureza.
  Não o fazia tão antigo o viajante, mas a sua origem remonta a 1981, quando a Câmara Municipal de Gaia comprou um primeiro pequeno terreno onde se instalaram os primeiros “equipamentos de educação ambiental”, que vieram a ter já o nome de parque biológico. Os primeiros visitantes surgiram em 1983. Actualmente, o parque estende-se por 35 hectares e emprega 120 pessoas. A ideia que lhe subjaz é muito mais ambiciosa que a de um mero zoológico: pretende, dentro de uma área de natureza, expor animais, dentro do seu ambiente próprio e com respeito pelas suas necessidades comportamentais. Por isso, pretende interpretar, mais que exibir, no contexto natural em que as espécies se inserem. Além da fauna, é também importante a vertente da flora, quer a selvagem, quer aquela que é explorada pela agricultura.
  O parque está organizado para que se faça um percurso pedestre de cerca de 3 km, ao longo dos quais se vão vendo espécies – animais e flora. E pelo meio, muita informação, em painéis espalhados pelo percurso. Além de ecossistemas selvagens, foram também mantidos ambientes humanizados, rurais – casas agrícolas e moinhos. O percurso está muito bem sinalizado e pedagogicamente orientado. Pode ainda visitar-se um Biorama, que é uma zona coberta, de exposição de interior, em que foram recriados habitats de outras zonas do globo, com plantas e animais vivos. No total, entre animais e plantas, anuncia o parque ter cerca de 700 espécies a viver aqui.
  Quanto às espécies de fauna, muito agradou ao viajante ver os animais no seu ambiente – em geral, é bicharada de por aqui, ou habituada ao nosso clima. Em particular, quanto às aves, achou o viajante simpática a ideia de, quanto a muitas delas, se proporcionarem condições para que nidifiquem e para que depois vão à sua vida voltando, se quiserem, na altura certa no próximo ano. Nestas condições, o parque acolhe cerca de 40 espécies – que acabam efectivamente por voltar. É, por outro lado, interessante perceber que nenhum dos animais que aqui vivem foi comprado (muitos, são animais apreendidos a caçadores ilegais ou a traficantes) e a que filosofia do parque passa por devolvê-los, sendo possível, à natureza.
  O parque está aberto todos os dias do ano, a partir das 10 horas. Fecha às 18 horas no inverno e às 19 no verão (20 horas, ao fim de semana). Dispõe de um bar, onde se podem fazer refeições ligeiras. Fica em Avintes, muito perto de Gaia e do Porto, a cerca de 1 km da Auto-estrada do Norte - saída Castelo de Paiva/Avintes.